Dando sequência ao tratado, foi verificada a percepção dos moradores locais em relação ao nível da água do córrego Entre Folhas durante o período de maior stress hídrico na região e, associando ainda, a presença ou não das florestas de eucalipto. Tal proposta tem por finalidade verificar se os moradores percebem de fato alterações no meio em que vivem em função de fatores naturais (estiagem) ou uma possível alteração em virtude da alguma mudança abrupta da paisagem (retirada e/ou plantio da floresta de eucalipto). Os resultados estão representados na tabela 3.3.
35,7%
64,3%
SIM NÃO
100
Tabela 3.3 - Percepção dos moradores locais em relação à variação do nível da água durante o inverno comparado com o uso do solo.
QUESTÕES NÃO SABE AUMENTA DIMINUI MESMO NÍVEL OUTRO
No período de inverno (quando chove menos na nossa região) o que acontece com o nível da água quando TEM floresta de
eucalipto no entorno do
povoado?
64,3% 3,6% 21,4% 7,1% 3,6%
No período de inverno (quando chove menos na nossa região) o que acontece com o nível da água quando NÃO TEM floresta de eucalipto no entorno do povoado?
14,3% 0% 39,3% 14,3% 32,1%
Mais uma vez, foi grande a quantidade de pesquisados (64,3%) que informaram desconhecer o nível dos recursos hídricos superficiais do córrego Entre Folhas quando há floresta de eucalipto no entorno do povoado. Já, quando se considera a supressão do eucalipto, apenas 14,3% dos pesquisados informaram desconhecer as condições do nível da água. Nesse tópico, percebe-se certa incoerência, pois, se o ciclo vegetativo do eucalipto dura em média 7 anos, os moradores têm, no mínimo, 06 oportunidades de acompanhar o desenvolvimento da floresta durante o período de inverno.
Apenas 3,6% dos entrevistados associou que, durante o inverno na região, há um aumento do lençol freático, quando é encontrada a floresta de eucalipto. Nenhum entrevistado associa o aumento do freático no inverno com a presença da floresta de eucalipto.
A presença do eucaliptal no entorno do povoado durante o período de estiagem contribui diretamente para a diminuição do nível da água para 21,4% dos proprietários participantes da pesquisa. Para os moradores que percebem uma diminuição da vazão quando não há eucalipto, o percentual atinge a marca de 39,3%. Outros 7,1% afirmaram que não há variação do nível do lençol freático ao longo do ano quando existe a floresta de eucalipto no entorno do povoado. No entanto, quando não há floresta plantada esse valor dobra, chegando a 14,3% dos entrevistados pela pesquisa.
Por fim, alguns entrevistados afirmaram acontecer outra situação diferente das citadas no formulário de coleta de dados. Para apenas 3,6%, em épocas de pleno desenvolvimento da floresta de eucalipto no período do inverno, o nível do lençol freático rebaixa significativamente, ou seja, seca por completo. Outros 32,1% dos
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entrevistados afirmaram que, quando acontece o corte raso da floresta plantada de eucalipto durante o inverno, tem-se como consequência o rebaixamento total do lençol freático do córrego Entre Folhas.
CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES
Os resultados da pesquisa demonstraram que a população absoluta do povoado do Brejão é relativamente pequena, com cerca de 162 moradores distribuídos entre as 90 glebas que compõem a área de parceria agrícola. A população é predominantemente adulta e idosa e com um baixo nível de escolaridade. Os dados obtidos indicaram uma migração das pessoas mais jovens para a sede do município ou para outras cidades da região em busca de emprego, melhores condições de vida e de retorno financeiro.
As características da comunidade (tempo de residência, classe de renda familiar e forma de aquisição da propriedade) permitiram inferir que parte dos moradores do povoado, não mais possuem fortes laços topofílicos com o lugar como outrora, época da extinta Companhia Agrícola Florestal Santa Bárbara. Com isso, parte dos moradores do lugar não possui laços ancestrais e culturais associados ao povoado, o que se reflete na troca mais de 40% de donos das glebas nos últimos 9 anos.
Um dos fatores de fragilidade socioambiental identificados pela pesquisa está associado à água destinada ao consumo humano. Como inexiste um sistema de distribuição pública de água no povoado, a maioria das propriedades rurais da área de estudo depende da perfuração de poços rasos (com o armazenamento em cisternas) para ter acesso ao recurso. Devido às condições hidrogeológicas locais e a existência de fossas absorventes na grande maioria das propriedades pesquisadas a possibilidade de contaminação da água destinada ao consumo humano é um fator preocupante.
Em relação aos dados atuais comparados com a percepção ambiental dos moradores em 2008, foi verificado que a comunidade local apenas avalia fenômenos extremamente nítidos e que são facilmente de serem percebidos, tais como: o risco da queda de árvores sobre as residências devido à proximidade com o eucaliptal; à geração de ruídos e de poeira; e à movimentação de máquinas pesadas. Desse modo, os dados da pesquisa indicaram que a população residente no povoado do Brejão não percebe como mudanças significativas os impactos socioambientais que estão associados ao manejo da floresta de eucalipto no entorno da comunidade. Assim, sob a óptica da Geografia da
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Percepção, pode ser concluído que a comunidade local passa, atualmente, por um estágio de “topocídio”, porém não totalmente declarado.
Pelo que se pode notar, pelo menos em se tratando do povoado do Brejão, as estratégias elaboradas pela CENIBRA, juntamente com a associação de moradores do povoado (ACOPHA), não estão surtindo os efeitos esperados pelo plano de manejo florestal da empresa. Sendo assim, verifica-se que novas metodologias devem ser desenvolvidas a fim de garantir a continuidade dos processos produtivos para a empresa e o bem-estar da comunidade local. Em outras palavras, a empresa deve buscar pertencer à comunidade, configurando, assim, uma alternativa frente ao processo de topocídio que está se delineando no povoado do Brejão.