A música é o intermezzo entre o silêncio do homem primitivo e a escrita representante da sociabilidade avançada. A forma escrita da linguagem é o ponto de mutação mais radical da língua e traz em seu bojo a marca da racionalidade com todas as suas demandas técnicas. Evidentemente esse estado avançado de comunicação entre os homens não representou o fim das outras formas de linguagem, como a poesia, as artes plásticas e a música, mas certamente transformou a forma de ser de cada uma dessas linguagens específicas. Rousseau identifica, no interior da composição musical primitiva, por exemplo, uma transformação da composição: da melodia à harmonia; e, em seu caráter estético, a mudança da originalidade popular (natural) das festas para o ar rebuscado (artificial) dos espetáculos teatrais.
A música primitivamente reunia os indivíduos para partilharem suas paixões; “[...] ao imitar as inflexões da voz [a música], exprimia os lamentos, os gritos de dor e de alegria, as ameaças, os gemidos; todos os sinais vocais das paixões eram de sua alçada” (ROUSSEAU, 2008b, p. 154-155). As festividades dos antigos tinham como fio condutor o páthos. A música, verdadeira linguagem universal e que tocava o coração de imediato, traduzia a natural ligação entre a linguagem das palavras e a linguagem dos sons. Sua irmandade com a poesia154, sua
simplicidade e mesmo a pobreza de sua harmonia eram curiosamente sua riqueza em meio à expressão rítmica, que dava à arte poética sua maior ênfase (ROUSSEAU, 2008b).
154 Nesse ponto, Rousseau concorda com Condillac (2010, p. 177), que indica que “[...] A música e a poesia são
Por um longo tempo, avalia Rousseau (2008b), a música foi a manifestação cultural que mais animou a vida dos homens. A canção primitiva, por exemplo, era quase toda ela apenas melodia. As músicas entoadas eram expressões das paixões humanas e, ao mesmo tempo, simples imitações da natureza. Através da música, o homem reconfortava sua vida; e a arte, por sua vez, reabilitava-se por intermédio de seu canto. Esse gozo experimentado pelo homem por meio da música era o elo que o ligava à natureza e o unia aos seus semelhantes.
Uma língua que somente possui escrita, observa Rousseau (2008b, p. 146), possui metade da riqueza que a música é capaz de trazer: “[...] ela exprime ideias, é verdade, porém, para exprimir sentimentos, imagens, precisa ainda ter ritmos e sons, isto é, uma melodia; eis o que possuía a língua grega e o que falta à nossa”. A música, consoante Rousseau (2008b), não nos afeta apenas como sensações, mas como sinais ou imagens; não são os seus efeitos mecânicos que nos atingem, mas os seus efeitos morais, que têm, por evidentes princípios, causas morais. “[...] o poder que a música tem sobre nossas almas absolutamente não é obra dos sons [...], são as paixões que exprimem que vêm sensibilizar as nossas; são os objetos que representam que vêm nos afetar” (ROUSSEAU, 2008b, p. 149).
A música é representante das paixões e possui um forte acento sentimental. As mais vivas impressões dos homens, nota Rousseau (2008b), agem, muitas vezes, mediante as impressões morais que os sons excitam neles. A opinião de Condillac (2010, p. 163), oposta a essa de Rousseau, defende que “[...] os sentimentos que nós provamos nascem unicamente da ação dos sons sobre a orelha”. Condillac (2010) valoriza, ao contrário de Rousseau, a harmonia frente à melodia; o que ele enxerga como um progresso da língua, la qualité des sons, Rousseau vê como uma das causas de sua decadência155. Sobre isso, posiciona-se Rousseau (2008b, p.
157): “[...] Os sons, na melodia, não agem em nós apenas como sons, mas como sinais de nossas afeições, de nossos sentimentos; é assim que excitam em nós os movimentos que exprimem, cuja imagem reconhecemos”. Dessa forma, insiste Rousseau (2008b, p. 159): “[...] não é tanto o ouvido que leva prazer ao coração, mas sim o coração que o leva ao ouvido”.
155 Condillac (2010, p. 173), contra a melodia e a favor da harmonia, aponta que: “A prosódia mais perfeita é
aquela que, por sua harmonia, é mais própria a todas as espécies de caracteres. Três coisas concorrem à harmonia, a qualidade dos sons, os intervalos por onde elas se sucedem e o movimento”. Em clara discordância com Condillac, Rousseau (2008b, p. 174) sinaliza que: “Esquecida a melodia e estando a atenção do músico voltada inteiramente para a harmonia, tudo se dirigiu pouco a pouco para este novo objeto; os gêneros, os modos, as escalas, tudo recebeu uma nova fisionomia: foram as sucessões harmônicas que regulamentaram a marcha das partes. Tendo essa marcha usurpado o nome de melodia, não foi possível ignorar, de fato, nessa nova melodia, os traços de sua mãe; e tendo-se nosso sistema musical tornado assim, aos poucos, puramente harmônico, não é de espantar que o acento oral tenha sido prejudicado e que a música tenha perdido para nós quase toda a sua energia”.
As regras provenientes da linguagem escrita arrefeceram o acento das paixões sobre as línguas; “À medida que a língua se aperfeiçoava, a melodia, ao se impor novas regras, ia perdendo insensivelmente sua antiga energia, e o cálculo do intervalo substituía a sutileza das inflexões” (ROUSSEAU, 2008b, p. 171). O progresso do raciocínio, nota Rousseau (2008b), em aperfeiçoando a gramática, retirou da língua aquilo que ela tinha de mais vivo e apaixonado e o que a tornara tão cantante a princípio. Os filósofos e os seus sofismas operaram na cultura grega, como exemplo disso, uma verdadeira revolução dos costumes. Rousseau (2008b, p. 172) diz que, “[...] logo que a Grécia se viu cheia de sofistas e de filósofos, não se viram mais nela nem poetas nem músicos célebres. Ao cultivar a arte de convencer, perdeu-se a de emocionar”.
Com o estabelecimento da escrita e, por consequência, da métrica em música, as paixões que antes orientavam as canções populares limitaram-se aos seus efeitos estritamente físicos. A harmonia, como perfectibilité negativa da música, fez afastar de suas causas as paixões, como nota Rousseau (2008b, p. 174): “[...] enfim, limitada ao efeito puramente físico do concurso das vibrações, a música viu-se privada dos efeitos morais que produzira quando era duplamente a voz da natureza”. Essa perda do páthos das paixões criou a linguagem artificial do teatro e opôs na arte a verdade do couer à raison dos espetáculos. O espírito do sistema se apoderou da música “[...] e, sem saber cantar [as paixões] para as orelhas, decidiu- -se cantar para os olhos”, argumenta Rousseau (2008b, p. 161).