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Rousseau, ainda na primeira parte do Discurso sobre a desigualdade, afirma que os homens, logo que começaram a se aproximar uns dos outros, tiveram que inventar formas de linguagem. Para ele, o grande passo do homem entre o seu isolamento individual e as relações com os seus semelhantes é representado pelo uso da linguagem. A linguagem, nesse sentido, revela em seu início uma origem comum que é proveniente da sensibilidade humana; à medida que ela avança, a individualidade emerge através do reconhecimento do outro; individualidade, no entanto, ainda não completamente consciente de si nos commecements de l’humanité; é o

que nos diz Rousseau (2008b, p. 97-98) no capítulo I do Ensaio sobre a origem das línguas:

No momento em que um homem foi reconhecido por um outro como um ser sensível, pensante e semelhante a ele, o desejo ou a necessidade de comunicar-lhe os próprios sentimentos e os próprios pensamentos fez com que procurasse os meios de fazê-lo. Esses meios somente puderam ser extraídos dos sentidos, os únicos instrumentos através dos quais um homem pode agir sobre outro. Eis, portanto, a instituição dos sinais sensíveis para expressar o pensamento. Os inventores da linguagem não fizeram tal raciocínio, mas o instinto sugeriu-lhes a consequência.

A linguagem, como o momento na história que une o homem aos outros indivíduos, faz com que Rousseau, ainda no Segundo discurso, revele a influência decisiva do

Essai de Condillac sobre o seu pensamento. A origem da linguagem, para Rousseau, revela

também o início da sociabilidade entre os homens. Como veremos, a linguagem, no pensamento rousseauniano, respeita os vários estágios históricos desenvolvidos no Segundo

discurso. Quando os homens ainda eram nômades, por exemplo, sua primeira forma de

147 Starobinski (2011, p. 410-411) esclarece que, para Rousseau, “[...] o homem não é originalmente dotado de

palavra. A linguagem não é uma faculdade que o homem soube exercer de imediato: é uma aquisição, mas uma aquisição tornada possível por disposições presentes desde a origem e por muito tempo inexploradas. Entre todas as criaturas, o homem é o único que tem por natureza o poder de sair do seu estado primitivo [...]; a linguagem é um efeito tardio de uma faculdade primitiva: é o resultado de um desenvolvimento protelado. Natural em sua origem, ela constitui uma antinatureza em seus resultados. O perigoso privilégio do homem é ter em sua própria natureza a fonte dos poderes pelos quais se oporá à sua natureza e à Natureza”.

linguagem foi o grito. A primeira língua do homem, salienta Rousseau (1999b), a mais universal e enérgica, é o grito da natureza. No capítulo IV do Ensaio sobre a origem das

línguas, Rousseau (2008b, p. 107) reforça sua tese de que, nos commecements des langages,

os sons eram inarticulados148: “[...] Em todas as línguas, as exclamações mais vivas são

inarticuladas; os gritos, os gemidos, são simples vogais; os mudos, isto é, os surdos [ou seja, os selvagens], só lançam sons inarticulados”.

Através do esforço de comunicar os seus sentimentos e suas necessidades aos outros indivíduos, o homem, ainda que instintivamente, percebeu, nota Rousseau, que os meios gerais que através dos quais poderia afetar os sentidos alheios se limitavam ao movimento e à voz. Nessa nova etapa de sua sociabilidade, sublinha Starobinski (2011, p. 413), dar-se-á progressivamente o desaparecimento da voz da natureza: “[...] na história, a importância adquirida progressivamente pela linguagem discursiva aumenta em razão inversa à da intensidade da voz da natureza: esta se apaga em nós na medida em que a linguagem articulada se aperfeiçoa”. A linguagem da voz humana é mais fácil do que a linguagem dos gestos, por depender menos de convenções e por ser facilmente apreendida (ROUSSEAU, 2008b). Nesse sentido, é presumível, salienta o genebrino, que as necessidades tenham ditado os primeiros gestos e que as paixões tenham arrancado as primeiras vozes humanas (ROUSSEAU, 2008b).

Condillac afirma no Essai que as necessidades é que criam a linguagem humana149. Rousseau não concorda com seu contemporâneo, para ele “as necessidades

afastam e só as paixões aproximam”. O Ensaio sobre a origem das línguas é um escrito dedicado à gênese e ao desenvolvimento das paixões150. Nessa obra, Rousseau (2008b, p. 145)

postula que, “Com as primeiras vogais, formaram-se as primeiras articulações ou os primeiros sons, segundo o tipo de paixão que ditava uns e outros”. Para ele, na gênese da linguagem, “[...] as paixões falaram antes da razão” (ROUSSEAU, 2008b, p. 146).

Rousseau (2008b) reforça sua tese de que a primeira linguagem foi a figurada e que, por muito tempo, o homem só falou através de tropos. A linguagem figurada, diz ele, foi

148 Sobre isso, Claparède (1935) observa que, no estado de natureza, as vozes são inarticuladas, de tal sorte que

aos gestos se soma o canto: “C’était là le véritable langage primitif”.

149 Condillac (2010, p. 194) sinaliza que “São as necessidades que fornecem aos homens as primeiras ocasiões

de observar o que se passa com eles mesmos e de exprimi-las por suas ações e, em seguida, pelos nomes. Essas observações só podiam ligar-se relativamente às suas necessidades, e nós não distinguimos muitas coisas que eles se comprometessem a fazer”.

150 Rousseau não possui um livro sobre o tema das paixões como Descartes. Contudo, no Ensaio sobre a origem

das línguas, como não deixaremos de notar, a paixão é a mola mestre do desenvolvimento da linguagem. Mesmo quando a linguagem apaixonada perde a força do páthos, são as paixões reativas que criam novas formas de linguagem, como a métrica na música (a harmonia), a prosa em substituição à poesia e a escrita como expressão enfraquecida da oralidade. As paixões, para Rousseau, portanto, são ativas quando se expandem através dos sentimentos e negativas quando se corrigem pela razão.

a primeira a nascer e o sentido próprio das coisas foi o último a ser encontrado151: “[...] As

coisas somente foram chamadas por seu verdadeiro nome quando foram vistas sob sua verdadeira forma. A princípio, falou-se somente em poesia; só se começou a raciocinar muito tempo depois” (ROUSSEAU, 2008b, p. 105). Em franca discordância com a ideia de Condillac de que a linguagem tenha sido, desde sua origem, um empreendimento racional, Rousseau aconselha o leitor do seu Ensaio a abstrair a palavra e substituí-la pela ideia que a paixão nos apresenta. Na linguagem por tropos, “[...] transpõem-se as palavras apenas porque se transpõem também as ideias: caso contrário, a linguagem figurada nada significaria” (ROUSSEAU, 2008b, p. 105). Assim, “[...] a palavra figurada nasce antes da palavra própria, quando a paixão nos fascina os olhos e quando a primeira ideia que ela nos oferece não é verdadeira152” (ROUSSEAU, 2008b, p. 106).

2.3.2.3 A passagem da língua apaixonada (metafórica) para a linguagem refletida

Por muito tempo, antes do estabelecimento definitivo da linguagem refletida, a linguagem apaixonada se manteve ativa. Rousseau (2008b, p. 137) descreve o início da sociabilidade humana, a jeunesse du monde, como o desenvolvimento das relações afetivas entre os indivíduos:

[...] Nessa época feliz em que nada marcava as horas, nada obrigava a contá-las: o tempo não possuía outra medida além do divertimento e do tédio. Sob velhos carvalhos, vencedores dos anos, uma ardente juventude esquecia gradativamente sua ferocidade: pouco a pouco, todos se familiarizaram mutuamente; esforçando para fazer-se compreender, aprenderam a manifestar-se. Lá se realizaram as primeiras festas: os pés pulavam de alegria, o gesto pressuroso não bastava mais, a voz acompanhava-o com acentos apaixonados; o prazer e o desejo, confundidos, faziam-se sentir ao mesmo tempo: lá foi, enfim, o verdadeiro berço dos povos e do puro cristal das fontes saíram as primeiras chamas do amor.

A jeunesse du monde foi a época mais feliz da história humana. Nessa época, conforme Rousseau (2008b, p. 138), “[...] havia famílias, mas não havia nações; havia línguas

151 Numa posição antagônica à de Rousseau (2008b), Condillac (2010) narra a história em que duas crianças

descobrem a linguagem, ou seja, o significado próprio das coisas, primeiramente através da observação mútua dos seus gritos e, em seguida, através da observação mútua dos seus gestos. A linguagem de ação, descrita por Condillac (2010), é aquela dos sons articulados considerados em sua origem. Morel (1909) considera que Rousseau dá pouca importância à linguagem de ação; para o genebrino, consoante Morel (1909), ela é rara e pouco eficaz. Claparède (1935) indica que Rousseau se opõe à linguagem de ação de Condillac (2010) por três motivos: 1) Por ela ser proveniente do esforço da criança, pressupondo que nela, desde já, há uma capacidade de abstração racional semelhante à do adulto civilizado; 2) Por Condillac conceber uma sociedade instituída, quando os gritos não representavam mais do que a imitação da natureza; e 3) Por haver um significado racional imanente ao grito, quando, na verdade, a linguagem humana limitava-se a expressar apenas suas paixões mais imediatas.

152 Claparède (1935) observa que o significado das palavras, nos primeiros tempos da sociabilidade humana,

domésticas, mas absolutamente não havia línguas de todo um povo; havia casamentos, mas não havia amor. Cada família bastava-se a si mesma e perpetuava-se unicamente através de seu próprio sangue”. A inclinação natural bastava para unir os membros da família; gradualmente o instinto substituía a paixão; o hábito substituía a preferência. “[...] Não havia nesse ponto nada de suficientemente interessante para desatar a língua, nada que pudesse arrancar com bastante frequência os acentos das paixões ardentes para transformá-las em instituições [...]” (ROUSSEAU, 2008b, p. 138).

Rousseau diz que foi necessário o ardor das paixões agradáveis para que as primeiras línguas brotassem. Essas línguas são filhas do prazer, e não das necessidades, afirma ele (ROUSSEAU, 2008b). Apesar de a língua familiar ser bastante fecunda, observa Rousseau (2008b), ela é insuficiente para estabelecer uma convenção mais geral e mais durável entre os homens. As paixões que tornam o homem inquieto, previdente e ativo nascem somente da sociedade (ROUSSEAU, 2008b). Em La condiction de la liberté, Bachofen (2002, p. 72) nota que “O projeto de enraizar a teoria do homem em uma ‘genealogia’ das paixões sociais atravessa a obra de Rousseau [...]; a teoria rousseauísta do homem [...] é de escrever uma ‘história natural do homem’ sempre que se tem por objeto uma genealogia do homem civilizado”. Numa outra passagem de sua obra, Bachofen (2002, p. 73- 74) assevera que “[...] A gênese das paixões é para Rousseau a gênese da sociabilidade como modalidade inseparavelmente racional e afetiva da existência [...], é reciprocamente pelo progresso das paixões que essas relações [sociais] se multiplicam e se reforçam”.

Esse progresso das paixões, salienta Bachofen (2002), nasce no interior da dinâmica social conjuntamente com o desenvolvimento da razão. A prosperidade da família é, portanto, também o seu ocaso, pois, junto com a sociabilidade, aparece a vaidade e a eterna disputa entre os homens. As contradições entre os indivíduos finalmente se aprofundam e o homem se torna mau, diz Rousseau (2008b). Ao mesmo tempo que ocorrem disputas violentas, nascem a propriedade, a divisão do trabalho e, com elas, as desigualdades entre os homens. Os mais ricos, interessados nas posses dos seus privilégios, criaram o pacto social, estabelecendo os primeiros modelos de sociedade civil, tal como nós a conhecemos. Conforme Prado Júnior (2008, p. 335), a originalidade do pensamento de Rousseau consiste em sua percepção do nexo interno entre a linguagem e a violência:

[...] Não é jamais a violência que instaura a diferença; a violência só pode desenrolar-se de forma pura, como resultado, ao termo do processo ou no fim da História. Lembremos o astucioso discurso do rico, que, ameaçado pela generalização do estado de guerra, acena com a possibilidade da sociedade civil.

Concomitantemente a essa história de conflitos e reconciliações, Rousseau (1999b) reforça o papel da linguagem no desenvolvimento do espírito humano. Ele perfila que, “[...] se os homens tiveram necessidade da palavra para aprender a pensar, tiveram muito mais necessidade de saber pensar para encontrar a arte da palavra [...]” (ROUSSEAU, 1999b, p. 70). Sobre isso, Claparède (1935) salienta sobre a dificuldade do homem em instituir a linguagem em um comum acordo sem possuir desde já a palavra. Para desenvolver novas palavras, é necessário desde já o estabelecimento de outras palavras (CLAPARÈDE, 1935). Nesse sentido, na teoria da linguagem de Rousseau (1999b, p. 72):

[...] as ideias gerais só podem introduzir-se no espírito com o auxílio das palavras e o entendimento só aprende por via de proposições [...]; toda ideia geral é puramente intelectual e, por pouco que a imaginação nela se imiscua, a ideia logo se torna particular [...]; assim que a imaginação para o espírito só se movimenta à custa do discurso.

Todo adjetivo, por exemplo, é uma palavra abstrata, e as abstrações são operações penosas e pouco naturais (ROUSSEAU, 1999b). Consoante Rousseau (1999b), os fatores geográficos, da localização dos indivíduos nos mais variados lugares da Terra, influenciaram sobremaneira o desenvolvimento da linguagem. Para ele, no início da linguagem, cada objeto recebeu um nome particular, de acordo com o grau de isolamento dos indivíduos153: “[...]

quanto mais se limitavam os conhecimentos, mais extenso se tornava o dicionário” (ROUSSEAU, 1999b, p. 72). Rousseau (1999b, p. 126) aponta também o aperfeiçoamento do intelecto humano na formação da linguagem: “A reflexão nasce da comparação das ideias, e é a pluralidade das ideias que as leva a ser comparadas”.

É esse aperfeiçoamento da razão e consequentemente da linguagem que cria, em definitivo, a linguagem de convenção. Essa linguagem, acena Rousseau (2008b), é o que separa definitivamente o homem dos outros animais, exatamente porque só o homem é capaz de aperfeiçoamento. A linguagem convencional, argumenta Claparède (1935), é caracterizada pelo fato de que os signos trocados entre os indivíduos não são mais os signos naturais em sua forma primitiva, mas uma abreviação, uma redução desses signos primitivos. Numa perspectiva semelhante, Matos (1978) sugere que a linguagem convencional não é mais animal, visto que exprime as paixões sociais, e, do mesmo modo, não é mais metafórica, porque só conhece a experiência imediata, ou seja, o particular.

153 Condillac (2010) assinala que é impossível aos homens nomearem cada objeto particular, por isso a criação

de termos gerais. Rousseau (1999b), ao contrário, salienta Morel (1909), perfila que cada objeto recebe um nome particular ligado a uma imagem igualmente particular. Essa é a teoria nominalista, predileta da psicologia inglesa, conforme nota Arbouse-Bastide (1999).

A passagem da linguagem metafórica para a convencional é resultado da sociabilidade tardia, quando os homens já estavam acomodados com o pacto social oferecido pelos ricos. A escrita é a marca de uma comunidade que desapareceu em meio à mecânica social. Ela serve à contabilidade do erário, às ordens do rei, à confecção das leis, entre outras funções do governo. Sobre isso, Rousseau (2008b, p. 111) declara que, “[...] À medida que crescem as necessidades, que os negócios se complicam, que as luzes se estendem, a linguagem muda de caráter, torna-se mais apropriada e menos apaixonada, substitui as ideias aos sentimentos, não fala mais ao coração, mas à razão”. Dessa forma, a linguagem escrita é aquela que perdeu o

páthos da paixão, por isso “[...] não é possível que uma língua que se escreve conserve por muito

tempo a vivacidade daquela que somente é falada [...]. Ao dizer tudo como se o estivéssemos escrevendo, não se faz mais do que ler falando” (ROUSSEAU, 2008b, p. 118).