O conceito de amostragem é transversal a todo o tipo de pesquisas e paradigmas, sendo um elemento essencial na investigação qualitativa (Onwuegbuzie e Leech, 2007). Por isso mesmo, uma das questões mais discutidas sobre a pesquisa qualitativa e, mais especificamente, das entrevistas é o tamanho da amostra, uma vez que, esta técnica apresenta uma amostra mais pequena mas muito mais profunda do que a pesquisa quantitativa
56 (Barnham, 2015). Normalmente, quando se aplica um design de pesquisa qualitativo é necessário definir o tamanho da amostra, os tipos de dados a ser recolhidos, os critérios de inclusão/exclusão e procedimentos para obter o consentimento informado e a análise de dados (Padgett, 2009).
Onwuegbuzie e Leech (2007) concordam que a seleção da amostra é um dos processos mais importantes de uma investigação e, por isso, é necessário selecionar uma amostra representativa e que vá de encontro às questões e objetivos de pesquisa. Vários autores concordam que a amostra é muito importante e discutida. van Rijnsoever (2017) indica que um dos pontos mais discutidos é o tamanho da amostra para ser considerada confiável e credível e que definir o tamanho desta é uma tarefa difícil de concretizar, uma vez que, é necessário atingir a saturação. Já Dworkin (2012) refere que normalmente, o tamanho da amostra é diferente entre os estudos quantitativos e qualitativos, sendo menor nestes últimos, uma vez que se pretende uma compreensão mais profunda sobre determinado fenómeno e que estão relacionados com interações dentro da sociedade.
A definição do tamanho da amostra não é consensual entre os autores e as opiniões são diversas. Onwuegbuzie e Leech (2007) defendem que normalmente, quando se trata de pesquisa qualitativa, o objetivo do investigador não é generalizar os resultados mas sim conseguir compreender um fenómeno. Desta forma, os autores acreditam que o tamanho da amostra não se revela tão crucial como outros afirmam e que o investigador vai selecionar uma amostra propositada que permite atingir essa perceção sobre o fenómeno em estudo, ou seja, uma amostra intencional. Isto acontece porque os investigadores costumam esforçar-se para retirar o maior significado possível dos dados que possuem (Onwuegbuzie e Leech, 2007). Contrariamente, Francis et al (2010) pensam que a questão do tamanho da amostra assume um nível elevado de importância em qualquer estudo, isto porque, se for usado um tamanho de amostra maior do que o necessário, desperdiçam-se fundos e tempo de pesquisa, sendo um problema ético.
57 Diferentes autores indicam tamanhos de amostra díspares que consideram adequados a estudos deste tipo. Crouch e McKenzie (2006) afirmam que no caso da pesquisa qualitativa e, principalmente, nas entrevistas, um número pequeno de participantes vai facilitar a ligação com o investigador e vai aumentar a validade do conteúdo aprofundado. Já Padgett (2009) também assume que os investigadores qualitativos podem recorrer a entrevistas, consideradas um pequeno componente e não suscetíveis de uma pesquisa em larga escala. Por sua vez, Onwuegbuzie e Leech (2007) também pensam que em estudos qualitativos, não é necessário apresentar amostras muito grandes devido à dificuldade que isso gera na extração de informações com qualidade. van Rijnsoever, (2017) assume que existem indicações de números que podem variar mas que geralmente, apresentam um tamanho inferior a 50. Marshall (1996) concorda com o facto de as amostras da pesquisa qualitativa terem tendência a ser pequenas, até porque qualquer investigador consegue perceber quais os elementos da amostra que possuem maior riqueza de informação. Não existindo consenso dentro deste tema, Dworkin (2012) refere que vários artigos e livros sugerem entre 5 a 50 participantes nos estudos qualitativos e Marshall, Cardon, Poddar e Fontenot (2013) não encontram evidências que os projetos de investigação com mais de 30 entrevistas tenham gerado um maior conjunto de informações e com mais qualidade.
Assim, Marshall, Cardon, Poddar e Fontenot (2013) não encontram um padrão para o número ideal de entrevistas numa investigação. Contrariamente, perceberam apenas que existem estudos com amostras muito pequenas e outros com amostras muito grandes. MORSE (2000) explica que existe uma relação inversa entre a quantidade de dados utilizáveis e o número de entrevistas necessárias. Isto significa que quanto maior são as informações obtidas por cada participante, menos participantes são precisos para a saturação. Anderson (2017, p.128) refere que o tamanho da amostra não pode ser definido no início da investigação mas quando se começam a formular as conclusões, é necessário explicar que a amostra presente é suficiente, considerando que “mais nem sempre é melhor”. Morse (2000) conclui que o facto de o estudo ser grande, não significa que seja necessariamente mais rico e pode até tornar-se muito superficial.
58 Devido à falta de padrão já referida relativamente ao tamanho das amostras, raramente os investigadores concordam quanto a este tema. Apesar disso, estão de acordo no que refere aos fatores que afetam o número de entrevistas necessárias para atingir o ponto de saturação (Marshall, Cardon, Poddar e Fontenot, 2013). Exemplo disso é a justificação que se apresenta para determinado tamanho de amostra. Marshall, Cardon, Poddar e Fontenot (2013) recomendam alguns passos para se justificar a amostra apresentada que passam por: fazer referências a investigadores qualitativos e agir de acordo com essas referências, principalmente as que pertencem a pesquisas semelhantes à nossa e, por último, justificar internamente, de acordo com o conjunto de dados recolhido e apresentado pelo próprio investigador. Para uma pesquisa deste âmbito, a melhor e mais rigorosa justificação que o investigador pode dar perante o tamanho da amostra está relacionada com a repetição de códigos que surgem das entrevistas (Marshall, Cardon, Poddar e Fontenot, 2013).
O tamanho da amostra varia muito de acordo com o tipo de estudo. Para MORSE (2000), se a questão de pesquisa for simples e clara, e se a informação pode ser obtida facilmente pelas entrevistas realizadas, então são necessários poucos participantes. Contrariamente, em casos em que o foco de pesquisa é de difícil compreensão, mais participantes são precisos para responder ao investigador (MORSE, 2000). Uma vez que a questão de pesquisa deste estudo remete para a perceção das vítimas de violência doméstica relativamente às ações de comunicação, a amostra não apresenta necessidade de ser muito extensa. Isto porque o objeto de pesquisa é simples e de clara compreensão, ou seja, as informações foram extraídas dos participantes com muita facilidade por vários motivos. Em primeiro, pela ótima receção e preparação dos participantes e da APAV. Em segundo, pela apresentação inicial do estudo, que incluía uma autorização do participante para ser gravado o áudio da entrevista e pela liberdade em recusar a resposta a qualquer questão. Por sua vez, em terceiro, o facto de não ser pedido nenhuma informação sobre o caso específico de violência de que foram vítimas, ajudou a que os participantes se sentissem dispostos a auxiliar nesta investigação. Por fim, pelo ambiente descontraído e de confiança que se criou quer entre o entrevistador e os participantes, quer entre o entrevistador e a APAV.
59 Como não existe nenhum estudo que indique qual o tamanho de amostra apropriado para uma investigação qualitativa (Marshall, Cardon, Poddar e Fontenot, 2013), os investigadores recorrem ao conceito de saturação.