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Gandhi também foi nacionalita. Também ele se apropriou das questões das mulheres para veicular as suas ideias. Mas como o fez ele? O que é facto é que o sentimento de pertença a uma nação foi alargado com as actuações de Gandhi174. Esse alargamento verificou-se sobretudo entre as mulheres. Nandy (1983) diz que Gandhi representa a resposta mais criativa aos impactos do colonialismo, surgida dos próprios sujeitos:

“(...) It was colonized India, still preserving something of its androgynous cosmology and style, which ultimately produced a transcultural protest against the hyper-masculinity world of colonialism in the form of Gandhi (…)” (Nandy 1983: 48) À semelhança dos reformadores do hinduismo no seio do nacionalismo indiano, Gandhi também utiliza os instrumentos veiculados pelo próprio colonialismo. Chakrabarty (1992) refere que Gandhi se apercebe de que o projecto nacionalista era como uma espécie de domínio britânico sem os britânicos (1992: 8). Ele desarma os britânicos psicologicamente, na medida em que utiliza a transmissão da ideia de uma Índia ancestral que, afinal, não seria muito diferente do ideário judaico-cristão. A parcialidade de Gandhi com alguns textos bíblicos representa uma afirmação de que alguns dos elementos do cristianismo eram perfeitamente congruentes com elementos da

174 Enaltecidas no filme Gandhi de Richard Attenborough, apresentado em 1982 em Nova Dehli e em 1983 em Paris, alcançando uma grande projecção internacional.

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visão do mundo hindu e budista (Nandy 1983: 49). A ideologia judaico-cristã fora exportada para as colónias, neste caso pelo colonialismo britânico, sobretudo na valorização do homem adulto em detrimento da mulher, da criança e do idoso (1983: 16-7). Continuando a recorrer a Nandy, a ordem das identidades sexuais na cultura colonial colocava o homem numa situação superior à da mulher, por sua vez superior à feminilidade no homem. Gandhi encontra uma solução diferente, ignorando a desvalorização tradicional indiana em relação à androgenia. Para ele, em primeiro lugar vinha a ideia de santidade na Índia, associada à ideia de androgenia, tanto do homem como da mulher. Só depois vinham as ideias dos géneros feminino e masculino separados. Mas Gandhi idealizou uma segunda ordem de ideias: a de que a mulher é superior ao homem (nos atributos de auto-sacrifício e devoção) e que a cobardia vinha no fim da escala(1983: 52-4). É que, para Gandhi, o activismo e a coragem, no âmbito das lutas nacionalistas, não implicavam necessariamente a agressividade e eram compatíveis com a maternidade.

Assayag também reflecte sobre o papel de Gandhi na oposição ao Raj, e diz que o nacionalismo gandhiano175 utiliza a não-violência “(...) comme une arme pour l’emancipation aussi bien de la personne que du peuple indien. (...)” (Assayag 2001: 231). A não-violência surge como uma forma alternativa de acção política, pela resolução pacífica dos problemas práticos (2001: 233).

Para Roy, a não-violência de Gandhi como acção principal na luta nacionalista era uma proposta a que se dava corpo através da politização do

quotidiano (Roy 1998: 148). A feminilidade de Gandhi encorpora

profundamente o alinhamento de uma feminilidade indiana essencial (1998: 150), muitas vezes representada como mãe Índia, como vimos anteriormente, através do auto-sacrifício, da não-violência, do heroísmo quotidiano. A politização do quotidiano através de Gandhi contribuía assim para a narrativa nacionalista, dizendo que as actividades domésticas são úteis na resistência

175 Por oposição ao nacionalismo presidido por Savarkar entre 1937 e 1944, que faz uma campanha pela unidade dos hindus contra os muçulmanos. Forma ainda uma sociedade secreta de nacionalistas celibatários, treinados para fazer atentados contra o inimigo (Assayag 2001: 233-4).

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ao domínio colonial britânico. Para Gandhi, as actividades domésticas das mulheres podiam ser consideradas revolucionárias, porque mantinham uma ordem que não poderia ser ameaçada pelo Raj. Vestir-se e alimentar-se – dois bens essenciais – fazem-se em casa, no domínio do privado, e é isso que Gandhi quer salvaguardar. Além disso, relativamente à economia indiana, o colonialismo britânico promovia a produção em massa; Gandhi, de acordo com Assayag, faz a defesa dos recursos a um modelo ético – humanidade e mesmo renúncia (Assayag 2001: 158). A importância da roupa manufacturada na Inglaterra e a destruição consequente do artesão indinao tornou-se o principal tema da campanha do nacionalismo (2001: 161). É uma campanha que se torna muito mais eficaz, pois em termos económicos a roupa produzida em Inglaterra representava uma ameaça para às tecnologias tradicionais. A própria feminilidade de Gandhi, a fiar, foi muito eficaz na mobilização das mulheres e dos homens nos trabalhos dos satyagraha (Katrak 1992: 397). A imagem em que Gandhi é visto a fiar - uma tarefa atribuída tradicionalmente às mulheres – é, aliás, uma das suas imagens mais difundidas internacionalmente.

O nacionalismo de Gandhi alarga a possibilidade de luta - contra o domínio colonial britânico – às mulheres, aumentando exponencialmente o sentimento anti-colonialista. Gandhi é reconhecido por ter desempenhado um papel central na feminilização da actividade nacionalista (Perez e Fruzzetti 2002: 42). Para Assayag, as actividades nacionalistas, numa esfera doravante comum a homens e a mulheres, autoriza a recomposição das relações de género:

“(...) la participation des femmees aux campagnes de lutte, attestent que nombre dépouses prennent desormais en charge la transformation de l’espace domestique pour en faire le creuset d’une experimentation national(ist)e. (...)” (Assayag 2001: 163)

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A inclusão das mulheres nas lutas nacionalistas tem, contudo, contornos diferentes para Katrak (1992176). Gandhi juntou homem e mulher em actos de resistência passiva, o que feminizou a luta até então masculina, contra o colonizador. Quem, mais do que as mulheres, poderia oferece melhores actos de resistência passiva? Segundo o autor, o envolvimento de homens e mulheres no satyagraha não confundia, porém, os diferentes papéis do homem e da mulher (1992: 395). A estratégia de Gandhi não constituiu um desafio às tradições patriarcais que oprimiam a mulher em casa. O legado gandhiano, de acordo com Katrak, é muito contraditório no que diz respeito às mulheres – ele insistia na divisão sexual do trabalho e, ao mesmo tempo, criava condições para a libertação da mulher. Gandhi trouxe a luta política pelo direito à liberdade para a vida pessoal da mulher, prolongando o papel da mulher do serviço em casa para o serviço à nação. Mas, tal como noutros movimentos de libertação, o papel das mulheres permaneceu como suporte mais do que central. Gandhi agradecia, por exemplo, às muitas heroínas, cujo trabalho mudo a nação não conhecia (1992: 396-403).

Gandhi é o mais astuto dos nacionalistas, porque, por um lado, junta influências ideológicas do colonialismo e do ideário ocidental e, por outro, não só argumenta com a mulher como transmissora da tradição e associando atributos (supostamente próprios) do género feminino à revitalização da nação, como igualmente inclui as mulheres na luta nacionalista como até aí não tinha sido feito. A eficácia do nacionalismo indiano baseia-se, portanto, em vários meios ideológicos e estratégias que se conjugavam, envolvendo, de uma forma ou de outra, toda a população. O que confundiu os britânicos foi o facto de vários aspectos – ideológicos e administrativos – da sua própria dominação, terem sido aproveitados pelos nacionalistas. O nacionalismo indiano não se baseou exclusivamente na luta contra o poder colonial. Aliás, esse aspecto só se tornou mais importante a partir do fim da II Guerra Mundial, o que acelerou o processo. O nacionalismo indiano conseguiu abranger grandes sectores da sociedade de formas diversas, mas incluindo

176 In Parker et al. (1992), compilação que, como vimos antes, fornece um olhar feminista sobre o nacionalismo.

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sempre o factor género, quer através da simbologia, quer das próprias questões de agenda política relacionadas com as mulheres, quer ainda através da sobrevalorização do quotidiano feminino e dos supostos atributos das mulheres.

De acordo com Chatterjee (1989), o nacionalismo indiano não foi simplesmente uma luta política pelo poder. Relacionou a questão da independência política da nação com todos os aspectos da vida material e espiritual (1989: 238). Ou seja, a vida espiritual da Índia, não colonizada pelos britânicos, dependia da obtenção da independência, envolvendo assim todos os membros da sociedade.

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