Os sujeitos em situação de subalternidade têm uma palavra a dizer sobre como se processou o domínio colonial e quais as suas fragilidades. Apesar dos testemunhos de resistência dos colonizados, que começaram a chegar sobretudo através dos Subaltern Studies, tem-se teorizado pouco sobre os tipos de resistência (Prakash, 1995: 5). No entanto, não há resistência evidente, no caso específico, ao poder colonial116. O que existe, a meu ver, é um recurso estratégico em relação aos reflexos/resultados de uma situação social e política que passou de colonial a pós-colonial. É um recurso que é
115 O Collector é uma cargo importado ideologicamente do regime colonial britânico. Vide Cohn (1996).
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activado através da memória, que sobrevaloriza a dominação colonial. Não propriamente pelas políticas adoptadas então, mas como forma estratégica de atingir objectivos no presente, como é o caso da continuada necessidade de emigrar. Interessa, neste ponto, verificar como é que o facto de Diu ter sido “português” é aproveitado para esse fim.
As referências dos interlocutores à administração portuguesa são muito positivas. Se num primeiro momento se impôs, por isso, uma mudança de rumo no enfoque da investigação117, num segundo momento surgiu a tentação de pensar que a população de Diu reivindicava, assim, uma identidade própria, distinta da das populações do estado vizinho, buscando instrumentos baseados no passado histórico de Diu. Apesar de ambas serem reflexões ajustadas, e sabendo que o tempo dos portugueses não foi assim tão bom, porque não falam os interlocutores dessa face da moeda? Falei a este respeito com um jovem proveniente de Baroda, no Gujarate, e a trabalhar em Diu há pouco tempo.
“Referi que se calhar as pessoas não falam das coisas que não corriam assim tão bem no tempo dos portugueses por ser portuguesa e ele [Prakash] disse que isso é capaz de acontecer, de facto, mas principalmente porque essas pessoas mais velhas ainda têm passaporte português – ou a possibilidade de o terem – e não querem que saiba o que realmente pensam, pois poderia dar o nome deles lá em Portugal [às autoridades]. (...)”(Diário de Campo, 18.11.2002)
Em virtude desta reflexão e tendo em conta toda a conjuntura histórica e económica da população em causa, isto é, lembrando os processos de emigração anteriores e posteriores à anexação, no desenvolvimento da psquisa revelou-se mais pertinente colocar os discursos positivos em relação à administração portuguesa como parte das estratégias desenvolvidas pelas pessoas que vivem actualmente em Diu, para conseguirem emigrar para a Europa. Como foi aflorado anteriormente, o facto de Diu ter sido um espaço colonial português no passado, continua a ser aproveitado para conseguir emigrar. A tradição migratória tende a quebrar-se com as rígidas políticas
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europeias; no entanto, no caso de Diu, algumas pessoas reunem documentos demonstrativos da sua antiga nacionalidade portuguesa, ou da dos pais.
“(...) O filho de Jeentibhai quer ir a Portugal e ele também quer ir conhecer o país. Tem passaporte português (por ter nascido antes de 1961).”(Diário de Campo, 5.11.2002) “(...) Sumanbhai mostrou-nos a história da sua vida em documentos – tem uma colecção incrível com três gerações, sobretudo com documentos seus – tudo reunido no sentido de viajar para Portugal, um sonho que o venceu; já não quer, talvez sirvam para o filho.”(Diário de Campo, 19.11.2002)
As pessoas que pretendem emigrar, fazem várias viagens a Goa e a Nova Delhi para tentarem obter o visto para Portugal. Esperam ainda que os visitantes europeus os ajudem a obter vistos. Quase todos os dias da estada de terreno em Diu surgiram pedidos de auxílio no processo de obtenção do visto. O casamento é uma estratégia antiga que continua a ser a mais viável – o processo é finalizado, por lei, três anos depois do casamento, sendo mais fácil quando nasce um filho entretanto – muito embora para os homens que casam com mulheres hindus portuguesas seja mais difícil do que na situação oposta. No acompanhamento de uma família a Diu na primeira estada de terreno, a filha mais nova (portuguesa) casou com um rapaz de Diu (indiano). Apesar dos esforços desenvolvidos pelo casa desde então118 (Janeiro de 2001), até agora (Agosto de 2003) o marido ainda espera o seu visto para Portugal.
De acordo com o que temos vindo a analisar nesta secção, se por um lado os interlocutores no terreno pareçam ter-se adaptado bem à sua situação de subalternidade, por outro lado, e através das estratégias mais – e menos – recentes para emigrar, há também contornos de uma certa resistência neste processo. Numa das recentes reflexões sobre o colonialismo, Scott (1997) diz que há que mostrar que o poder europeu nem sempre foi global ou total e que os colonizados sempre resistiram e sempre foram autores da sua própria história (1997: 567). Esta foi uma ideia que se manteve presente ao longo da
118 Contámos cinco viagens a Goa com o objectivo de conseguir um visto, obtenção sucessiva de documentos comprovativos do casamento religioso e civil, da gravidez da cônjuge, do nascimento de uma filha (e, posteriormente, a formalização da sua nacionalidade portuguesa através do bilhete de identidade), da existência de um contrato de trabalho, além de
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investigação, como um paradigma. A resposta à pergunta “que resistência é esta?” foi-se desenvolvendo através da procura dos fenómenos de resistência quotidiana (Scott, J. 1985) e da aceitação do desafio de Scott (1997) que é investigar se os sujeitos se adaptaram ou resistiram. No caso concreto, começa a ser evidente que se adaptaram e resistiram.
Adaptaram-se na medida em que aceitaram alguns dos valores do colonialismo, transportando-os para o presente (quando dizem que a sua educação é melhor do que a dos seus vizinhos do Gujarate, por exemplo), mas resistiram também ao nível dos movimentos de libertação através dos
satyagrahis e dos freedom fighters (Shirodkar 1986; 1990), e, de forma menos
visível, através da emigração ao longo do período final do governo colonial. Além disso, de certa forma, no presente, há um outro lado da moeda do discurso hegemónico do período colonial como tendo sido positivo. Esse outro lado da moeda revela-se no aproveitamento de uma situação histórica do passado – o facto de terem estado sob administração colonial – para atingirem objectivos actualmente. É verdade que durante a administração portuguesa, a nacionalidade portuguesa dos diuenses era já utilizada como forma de aceder a outros países, no sentido de melhorar as suas condições de vida. Mas 40 anos depois da anexação de Diu à União Indiana, com a particularidade de Diu se constituir, com Damão, numa Union Territory, é precisamente o passado colonial que é repescado como mais valia nas tentativas de emigrar para a Europa.
Contudo, a forma como se consegue ou se tenta emigrar actualmente – como modo de resistência a posteriori (digamos assim, para facilitar119) ao regime colonial – ficaria mal compreendida se não fosse dada atenção ao fenómeno de ocidentalização (Robotham, 1997: 394). A emigração para Moçambique deixou de ser a mais procurada dos diuenses hindus; as preferências geográficas apontam para o ocidente – a Europa e os Estados
119 Isto porque não se trata propriamente de resistência, nem mesmo no sentido que Scott 1985 lhe atribui, pois do que se trata é de um recurso estratégico ao passado, como referimos, e não da activação de meios de oposição no presente.
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Unidos, assim como outros países e cidades muito industrializados, como Singapura, Jacarta, Kuala Lumpur, a Austrália, os Emiratos Árabes Unidos. No caso de Diu, parte da ocidentalização é feita com referência (ou recurso) ao passado, pois grande parte da população orgulha-se do seu estatuto especial, muito embora sejam igualmente importantes os relatos e novas atitudes dos familiares que já emigraram. Recurso estratégico ao passado colonial, emigração e ocidentalização tornam-se compatíveis neste caso, através da sobrevalorização do tempo da administração portuguesa.
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