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Todos estes acontecimentos têm transformado a vida das pessoas de uma forma e com uma velocidade nunca vistas antes. O mundo do trabalho está sentindo estas mudanças e se transformando de maneira muito específica. Muitas pessoas (em 1993 já eram 6,6 milhões somente nos E U A) já não precisam mais sair de suas casas para trabalhar. E las não trabalham mais na linha de montagem do modelo fordista, nem fazem parte de uma equipe de trabalho do modelo flexível, elas trabalham frente a uma máquina pessoal, ‘personalizada’ conforme suas necessidades, diante de seu microcomputador

(Personal Com puter). E também já não produzem mais os produtos

industrializados que antes produziam nas linhas de montagem e nas equipes de trabalho.

Agora o produto é outro: a informação, que em muitos casos é usada para se produzir os produtos em outras épocas manufaturados. Isto quer dizer que muitas pessoas trabalham em suas próprias casas produzindo informação, grande parte na prestação de serviços, mas muitos também usando estas informações para a produção dos produtos industrializados ainda muito úteis à nossa sobrevivência.

Também já não fazem parte de uma parcela de trabalhadores ‘protegidos’ e defendidos pelos sindicatos. São parte de uma categoria nova do trabalho, uma categoria ainda desorganizada e sem qualquer espécie de proteção, isto é, o trabalho informal. Não há como os sindicatos incorporarem os trabalhadores informais sem que se mudem ‘as regras’. Como mencionamos anteriormente, e como ficou claro nas razões apresentadas por Giddens, exigem-se novas regulamentações para novas condições de reprodução da sociedade, e os novos postos de trabalho aí se incluem.

As novas formas de trabalho e trabalhadores carecem de suportes institucionais, que até hoje não são indicados, suportes estes que venham substituir as formas estatais providenciárias do período industrial (dos sistemas de saúde, educação, etc.).

“Aspirações crescentes à autonomia, ao controle de sua vida não podem mais transitar por instituições e organizações oriundas da revolução industrial e sempre marcadas, profundamente, por uma cultura delegacionista e estatista.” (LOJKINE, 1995)

Com isso e com o aumento cada vez maior desta categoria nestas condições, arrisca-se perder todos os direitos trabalhistas conquistados até hoje, direitos praticamente fora do alcance deste novo tipo de trabalhador.

É certo que o trabalhador já vinha perdendo ‘espaço’ desde a introdução das novas técnicas ou do novo modelo de regulação, mencionado anteriormente, o modelo flexível. Já havia um débito muito grande para com a saúde do trabalhador de ‘chão de fábrica’ moderno, a partir do momento em que, ao mesmo tempo em que sua qualificação aumentava em relação aos trabalhadores do regime fordista4, eles eram submetidos a uma intensidade

4 A partir desta maior qualificação do trabalhador, diante de um novo modelo de regulação

japonês, já se tornava possível dizer que a tese de Braverman da década de 70 a respeito da tendência à desqualificação contínua do trabalho e a sua degradação cada vez mais acentuada,

maior de trabalho do que na linha de produção do regime anterior. E sta situação certamente foi facilitada também, na sua origem, pela relativa fragilidade da estrutura sindical japonesa (de onde adveio o modelo de regulação flexível).

“A submissão dos operários japoneses a semelhante sistema tem uma explicação histórica, a qual remonta aos anos imediatamente posteriores à Segunda G uerra Mundial, quando os sindicatos ressurgiram com vigor. Apoiado pelo ocupante norte-americano, já empenhado na Guerra Fria, o patronato nipônico conseguiu infligir derrota esmagadora aos operários e impor o sistema de sindicatos por empresa, vigente até hoje.” (G OR END ER , 1996)

Ligado ao fenômeno que vem transformando o mundo nos últimos tempos juntamente com os problemas relativos ao trabalho informal e à uma maior qualificação do trabalhador, está o problema do desemprego estrutural, já anunciado inclusive como uma epidemia de final de século, conseqüência da globalização.

Podemos relacionar a revolução tecnológica e as novas formas de organização da produção japonesas como responsáveis pelo desemprego estrutural. Mas com um fator que deve ser relevado: o Japão apresenta-se como a segunda maior economia do mundo e demonstra as menores taxas de desemprego dos últimos vinte anos. Como poderia se explicar tal fato? Basta o entendimento da lógica da globalização ou, mais precisamente, uma das lógicas do capitalismo presente de maneira marcante nas cidades contemporâneas e nas relações de trabalho, onde a grosso modo, ganhos de um lado sempre decorrem de perdas do outro. Portanto, o sucesso japonês tornava-se de certa forma superada. Ver CASTR O, N. A.; GU IMAR ÃE S, A. S. A. (1991). Além de Braverman, depois de Burawoy: vertentes analíticas na sociologia do trabalho. Revista brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, Vértice/ANPOCS, v.6, n.17. p.44-52.

deve-se ao fracasso de seus concorrentes. É impossível dentro de uma economia globalizada, a ascensão de todos ao mesmo tempo.

“Considerando o êxito da economia japonesa e a dimensão por ela adquirida (segunda economia do mundo, bastante próxima da norte- americana), infere-se que o ascenso japonês não se daria sem o declínio relativo dos seus concorrentes e simultaneamente parceiros na economia globalizada. Inferência lógica e também, não menos, historicamente concreta. Por si mesma, a economia globalizada impede, a longo prazo, um ascenso de todos ao mesmo tempo. Sua lógica inexorável é a da desigualdade, dos perdedores como contrapartida incontrolável dos vencedores.” (GOR END ER , 1996) Podemos perceber que não são propriamente as novas tecnologias e o avanço das técnicas que estão eliminando os postos de trabalho e aumentando drasticamente os índices de desemprego, mas sim a forma de organização econômica e política da sociedade atual, o que proporciona uma má apropriação destas novas tecnologias.

A maneira como a sociedade se apropria dos avanços tecnológicos, condicionando-os sempre a políticas de mercado onde o lucro é a palavra de ordem, faz com que a adoção de novas tecnologias passe a ser considerada responsável pelas desgraças sociais próprias do modelo de acumulação capitalista.

Assim, são as condições atuais de estruturação da economia e da sociedade que contribuem para que a alta tecnologia seja utilizada como ‘uma conspiração capitalista para a exploração dos trabalhadores’, tornando-se responsável por uma aceleração dos processos de desenvolvimento desigual e desequilíbrio da estrutura espacial.

Algo deve ser observado na esfera da produção diante de todas estas transformações, mas que não pode ser encarado como uma solução de imediato a todos os seus problemas. É algo que deve ser incorporado quase que ‘naturalmente’ pelas futuras evoluções tecnológicas e dos meios de produção.

Nunca será possível eliminar totalmente o homem dos postos de trabalho, ou dissociar os estudos da sociedade dos estudos referentes ao trabalho, como propunha OFFE (1989). A vida em sociedade, implica a relação constante entre o homem e a categoria trabalho para uma existência plena.