Apesar de caracterizado como transitório e incerto, na verdade uma certeza apresenta-se em relação ao atual momento histórico. A globalização certamente caracteriza-se como um ‘ajuste-fino’ do modo de produção capitalista. Sem nenhuma dúvida, a lógica do capital é que resulta nesta realidade. Dessa forma, considera-se que a globalização faz parte do curso do capitalismo. Na verdade, esta dinâmica toda (representada por símbolos de diversos níveis, onde o capital financeiro parece ser o mais forte) nada mais é que parte da evolução deste sistema cada vez mais ‘perverso’ e excludente (diminuindo cada vez mais as chances dos menos favorecidos em favor do capital). O capitalismo apresenta-se hoje sob o ‘requinte’ da mundialização da economia e mascarado na expressão globalização.
“O último terço do século XX assinala transformações de grande importância no sistema capitalista mundial. Estas transformações não debilitaram a essência do modo de produção capitalista. Na verdade, reforçam-na, uma vez que se acentuou sua característica mundial. Nisto consiste, precisamente, o processo de globalização. Na verdade, nome novo para o antigo processo de internacionalização ou de criação do mercado mundial nascido com o próprio capitalismo.” (GOR ENDER , 1996)
Diante disso, não se pode aceitar, quando muitos autores ainda insistem em classificar a sociedade contemporânea como uma sociedade pós-industrial. Na verdade, a sociedade contemporânea é mais industrial do que nunca, ou como classifica GR AH AM (1996), vivemos uma era ‘super-industrial’, na medida em que as inovações tecnológicas e o avanço no setor de serviços faz com que haja um profundo avanço ou modificação nas relações industriais e comerciais. A revolução tecnológica e a destacada importância do setor de serviços nos últimos tempos tornaram-se possíveis graças, também, a um avanço das atividades industriais, para atender a demandas dos ciclos do capital de maneira cada vez mais rápida e eficiente.
Assim, o que se tem não é uma economia pós-industrial, mas um novo tipo de economia industrial. Para CASTE LLS (1986), trata-se de uma economia informacional, galgada pela evolução tecnológica em função dos avanços dos meios de produção. Na sua opinião, releva-se o papel da alta tecnologia no processo de realinhamento fundamental das relações no mundo, que não vive um momento de crise, mas sim um processo de crescimento interativo entre elementos que não se relacionam. E esta falta de relacionamento seria prejudicial. Este crescimento desorganizado caracterizaria os momentos de crise.
A chamada terceira revolução tecnológica, ou, como prefere denominar o sociólogo francês Jean Lojkine (1995), a revolução informacional, proporcionou mudanças em inúmeros aspectos da vida em sociedade. Esta revolução informacional foi, sem dúvida, a base material do processo de globalização. Logo, as últimas transformações mundiais do sistema capitalista decorrem principalmente da recente revolução tecnológica, observada mais intensamente na informática e nas telecomunicações.
A indústria, desde seus primórdios, vem se aperfeiçoando a fim de ter maiores índices de produtividade e menores índices de desperdício, até chegar a altos graus de complexidade tecnológica das máquinas automáticas de hoje, e um profundo desenvolvimento dos meios de comunicação.
“... todos estes problemas [produtividade, etc.] implicaram uma revolução na organização das fábricas e dos meios de transporte e de comunicação, sem mencionar o esforço de pesquisa científica ligada à indústria.” (LOJKINE, 1995)
U m elemento-chave para o entendimento da grande diferença entre a revolução industrial e a revolução informacional nos meios de produção, é a perspectiva de produção diretamente a partir da concepção gerada no cérebro com a intermediação da máquina automática, sem que se faça (exageradamente falando) a ligação cérebro-mãos (no sentido de manipulação do produto). Na verdade, uma evolução na forma de organização do trabalho e na maneira de sua regulação.
Portanto, embora muita confusão se faça quando se tenta explicar ou justificar a revolução informacional através da passagem dos modelos ‘tayloristas-fordistas’ para o modelo japonês (Toyotismo), o entendimento do processo de revolução tecnológica e das conseqüentes transformações do sistema capitalista se dá com a real compreensão das relações, envolvidas nesta passagem, das mudanças ocorridas no âmbito da produção e dos seus modelos de regulação.
Devemos entender estes acontecimentos históricos com o cuidado de observar que ambos os modelos de produção são, de fato, um a evolução capitalista do outro e não, o que muitos autores fazem questão de afirmar (principalmente os que defendem a consolidação de uma sociedade pós-
industrial), uma superação ou um repensar da divisão do trabalho, um questionamento da divisão social entre os que pensam e os que executam. Na medida em que “observado com mais cuidado o sistema, nota-se que se trata sobretudo mais de procedimentos de ampliação do trabalho do que de um verdadeiro enriquecimento que afete a divisão vertical do trabalho e as divisões situadas antes da fabricação (...)” (LOJKINE, 1995. p.34).
O fordismo muito se assemelha aos preceitos introduzidos por F. Taylor (“organização científica do trabalho”, o Taylorismo), onde na verdade, os objetivos são os mesmos:
• eliminação dos tempos mortos;
• grande volume da produção;
• custos baixos.
Desta relação advém a expressão ‘R egime taylorista-fordista’.
Estes objetivos comuns induziram a uma ética ou padrão de conduta do trabalhador. Normas altamente rígidas conduziram a uma maior produtividade, num menor espaço de tempo, a baixos custos. Proporcionou- se um ‘trabalhador-tipo’, e conseqüentemente uma produção padronizada. Após 30 anos chamados ‘gloriosos’, o fordismo já iniciava seu processo de esgotamento, que teve seu ‘desembarace’ com um fator decisivo: a introdução dos microprocessadores na produção, o que evidenciou de vez o fato da incongruência entre as inovações tecnológicas e o regime fordista. Era necessário uma nova concepção da organização dos meios de produção face ao crescente desenvolvimento tecnológico.
Foi de um modelo japonês que se buscou a ‘inspiração’ para a resolução dos problemas da produção, o chamado modelo flexível ou Toyotismo, que apresentava características, à primeira vista, completamente opostas ao modelo de regulação anterior, isto é:
• economia de escopo;
• equipes de trabalho;
• Just in Time (JIT).
Porém, face a uma análise mais profunda, observa-se que ambos os modelos de regulação, apesar de parecerem completamente distintos e antagônicos são na verdade parte de uma evolução gradativa dos meios de produção. Enfim, o que na verdade ocorre é que o modelo chamado Toyotismo é uma inversão do Taylorismo-Fordismo, passando a ser simétrico à medida que opera sobre os mesmos mitos, como demonstra a tabela 03.
TABE LA 03 – O mito e os modelos de produção
Taylorismo-Fordismo (TF) Mito (M) Niponismo (N)
TF1: parcelarização das tarefas M1: divisão do trabalho horizontal N1: polivalência TF2: divisão concepção/execução M2: divisão do trabalho vertical N2: polifuncionalidade TF3: razão volume crescente/produto para um mesmo efetivo M3: economia de trabalho vivo N3: razão diminuição de efetivos/para uma mesma quantidade
TF4: controle pelo alto e pelo tempo imposto (a cadeia “fordista”)
M4: controle social: o mito comum do Panóptico (Benthan, Foucault)
N4: “direção sob os olhos” (O hno) e autocontrole do anterior pelo posterior TF5: regulação pela oferta
de massa (do produto e dos salários) M5: tipo de regulação econômica: relação oferta/demanda N5: regulação pela demanda diversificada TF6: direção autoritária (estatismo e burocracia). Convenções coletivas, Estado-providência Resum o de TF = “rigidez” M6: tipo de regulação sócio-política N6: “negociações contratuais descentralizadas” entre “autores autônomos”. Democracia salarial Resum o de N = “flexibilidade”
M (M1 a M6): diferentes dimensões do Mito mobilizador com seus elementos comuns às duas formas invertidas (TF e N)
Fonte: LOJKINE, 1995.
A história dos meios de produção, não passa de uma evolução gradativa do trabalho artesanal para o fordismo e deste ao toyotismo, mas sempre com os mesmos propósitos: eliminação dos tempos mortos correspondentes ao modelo anterior, e a redução dos custos. Mas o mais importante é o direcionamento destas políticas de regulação dos meios de produção, isto é, estão sempre apontadas à lógica maior do sistema capitalista, a acumulação.