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A capacidade de criar e entender um texto distingue o homem dos outros animais. É por meio da linguagem, representada pela fala ou escrita, que o homem desenvolve a habilidade de organizar o pensamento lógico e expor o seu próprio pensamento. Segundo Heidegger (2003, p. 191), “a capacidade de falar distingue e marca o homem como homem”. Mas, o que significa esse falar? O autor apresenta três características para entender o que é linguagem:

1. Fala é expressão. Forma de expor algo interno.

2. Fala é uma atividade humana. O homem sempre fala alguma língua.

3. A expressão do homem é uma representação e apresentação do real e do irreal.

Uma das explicações apresentadas para a capacidade de linguagem humana tem sido a de origem divina. Heidegger (2003, p. 11) cita o prólogo do Evangelho de São João, “no princípio era a Palavra e a Palavra estava em Deus”, para libertar a questão da origem lógico- racional como também recusar os limites impostos por uma descrição puramente lógica da linguagem.

O questionamento para o que é e como surgiu a linguagem tem sido feito há tempos e ainda assim, nos tempos atuais, com todos os avanços tecnológicos e discussões filosóficas, não foi possível chegar a uma resposta objetiva. Segundo Heidegger (2003, p. 11):

Ninguém ousaria considerar errônea ou mesmo inútil a caracterização da linguagem como expressão sonora de movimentos interiores da alma, como atividade humana, como uma representação figurada e conceitual. A maneira mencionada de se abordar a linguagem é correta e exata, pois corresponde ao que uma investigação dos fenômenos linguísticos pode sempre constatar sobre a linguagem. No âmbito dessa exatidão, movimenta-se também todo questionamento, que acompanha a descrição e explicação dos fenômenos linguísticos.

A explicação para o que é, como e por que ocorre a linguagem, como vimos, não está definida. Heidegger (2003) afirma que o poema é a forma genuína da linguagem se expressar e que se utiliza da palavra para essa expressão. A partir dele, o poeta lança no cosmos novas

palavras que farão parte da linguagem humana. As pessoas, a partir do momento em que tomam conhecimento da linguagem, se apropriam dela e assim serão capazes de expressar os seus sentimentos mais íntimos. Porém, cabe à linguagem estabelecer um limite para essa liberdade de expressão. Acredita-se que nem sempre será possível às pessoas externarem os seus sentimentos sem que a linguagem permita.

A experiência humana com a linguagem, de acordo com Heidegger (2003), extrapola o nível do conhecimento científico e filosófico. Um texto não existirá sem as palavras e as palavras não farão sentido sem que haja uma linguagem acessível ao conhecimento do leitor. Não basta encaminhar uma correspondência eletrônica aprovando uma solicitação, é preciso que a linguagem dessa correspondência seja clara, objetiva, concreta, mais próxima do seu receptor. Alguns funcionários do CNPq, por exemplo, relataram que é comum os proponentes não conseguirem ter acesso ao parecer final com as justificativas detalhadas de suas solicitações indeferidas. Geralmente, o conteúdo do comunicado é padronizado e o link para o parecer detalhado não funciona. Quando o proponente solicita, encaminha-se nova mensagem. Entende-se que esse tipo de situação gera insatisfação no receptor, que passa a ver sua solicitação tratada com descaso, afetando o nível de afetividade entre ambos.

Concluindo, essa reflexão sobre o que é conhecimento, texto e linguagem, contribui

de forma positiva para uma maior compreensão do nosso objeto de pesquisa. Percebe-se que o entendimento desses elementos faz-se necessário tendo em vista que os conteúdos eletrônicos são compostos de texto, apresentam uma linguagem com características específicas e requerem conhecimento da língua formal (padrão) para a sua assimilação. Porém, percebe-se que outro elemento entra em discussão quando se verifica a ocorrência de falhas em questões que inicialmente pareciam tão simples, sendo a afetividade o elemento fundamental para se entender de que forma a comunicação se estabelece.

O formato do texto nas mensagens eletrônicas padronizadas é composto de linguagem técnica, o que exige do leitor conhecimento do seu significado representativo, não há espaço para conotação.

Verificou-se nos autores citados que o conhecimento/compreensão de um texto não é tão simples. Durante o processo de aprendizagem, as pessoas são treinadas a fragmentar o conhecimento e só conseguem entender a mensagem, a linguagem de um texto, quando analisam o seu conteúdo como um todo. Nas comunicações mediadas por computador, entende-se que os laços de afetividade presentes na escrita devem ser levados em consideração para melhor compreensão do conteúdo das mensagens. Galvão (1979) e Bally (1941) apud Martins e Batista (2005) já abordavam o que chamam de “a luta entre o escritor e

a palavra”, ou ainda “a luta pela expressão e comunicação”, para explicar o esforço realizado pelo emissor para se fazer compreender pelo receptor sem que seu texto seja uma fonte de mal-entendidos ou desafetos. Isso também foi observado em Heidegger (2003), quando ele fala da angústia vivida pelo poeta em busca da palavra certa para expressar o seu sentimento. A linguagem estabelece os limites para a palavra, que pode ou não ser empregada.

Finalmente, em tempos em que se discute com tanta ênfase a origem do conhecimento/pensamento, seja ela fruto do mito ou da ciência, acredita-se que as pessoas desejam ser tratadas de forma especial, como seres únicos que são. A partir da industrialização da produção, as pessoas, como as coisas, passaram a ser vistas como um produto que obedece a uma linha de montagem. O trabalho e as relações sociais tornaram-se produtos de produção em escala.

As mudanças ocorridas no processo de produção no ambiente tecnológico (trabalho) sofreram interferência também das NT (meio) e implicaram em novas dinâmicas dos processos comunicacionais entre sujeitos, isto é, como novas dinâmicas de mediação entre o público e o privado, o individual e o coletivo.

No capítulo a seguir, analisa-se o Mapa das Mediações proposto por Martín-Barbero (2009), para entendermos as relações que ocorrem entre comunicação, cultura e política nas interações mediadas por computador.