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O segundo elemento fundamental para nosso estudo é o conhecimento, que está relacionado com a capacidade que os seres humanos têm de articular o pensamento. Contudo, ainda não fomos capazes de explicar com exatidão porque e como o pensamento surgiu. Desde Platão, relaciona-se o conhecimento empírico com a fé para explicar o inexplicável. As pessoas são carregadas de questionamentos sobre si mesmas e o mundo em que vivem, porém encontram poucas respostas para esses questionamentos.

Em Morin (2008, p. 17), encontra-se a ideia de conhecimento relacionada com a de “ignorância, desconhecido e sombra”:

Nosso conhecimento, apesar de tão familiar e íntimo, torna-se estrangeiro e estranho quando desejamos conhecê-lo. Desde o início, estamos situados diante do paradoxo de um conhecimento que não somente se despedaça desde a primeira interrogação, mas que também descobre o desconhecido em si mesmo e ignora até mesmo o que significa conhecer.

O conhecimento dominado na atualidade vem sendo formado ao longo da história. São muitos os exemplos de registros realizados pelo homem primitivo. Em várias regiões do planeta é possível encontrar marcas nas cavernas sobre os hábitos, costumes, conhecimentos e

crenças dos povos antigos. O homem arcaico encontrava nas crenças, nos mitos, nos rituais religiosos a explicação para os seus questionamentos mais íntimos, o que não interferia no seu conhecimento prático e técnico do mundo. Na atualidade, busca-se nessas mesmas fontes explicações para suas inquietações. Segundo Morin (2008, p. 20):

Vivemos, sem dúvida, a época mais elevada do progresso do conhecimento, da fecundidade das descobertas, da elucidação de problemas, percebemos dificilmente que os nossos ganhos inusitados de conhecimento são pagos com ganhos inusitados de ignorância.

Para o autor, as universidades são responsáveis pela discussão e reflexão sobre o pensamento, toleram desvios e não conformismos e permitem tomar consciência das próprias carências universitárias e científicas, esquece-se que produzem a mutilação do saber, um novo obscurantismo36. O conhecimento legitimado fica restrito a pequenos grupos, formando a elite cultural em oposição ao conhecimento da maioria, o conhecimento popular. Desse modo, o conhecimento que se domina é a expressão do posicionar diante das coisas, é a representação das suas relações sociais e culturais em busca de respostas para explicar porque as coisas são como são e o quanto se é responsável por elas.

Em Morin (2008), é dito que o pensamento humano é binário. Diante de uma situação nova, observa-se o objeto por meio da percepção ou concepção e, em seguida, contrasta esse objeto com o seu conhecimento anterior. A partir da analogia, aceita-se ou exclui-se esse conhecimento. O autor cita como exemplo o morcego, questionando-se sobre se seria um pássaro ou um rato. Para o autor, o animal se parece com um rato, mas possui asas, então seria ele um pássaro?

Aplicando o conceito de conhecimento de Morin (2008) ao nosso objeto de pesquisa, o processo de comunicação do CNPq pelo portal é apenas uma ferramenta de informação? As instruções publicadas apenas orientam? A correspondência eletrônica é apenas um comunicado, um manual de instruções? Será que informa adequadamente? Acredita-se que, da forma como o portal é disponibilizado, está atendendo ao princípio da interação reativa em oposição a interação mútua descrita por Primo (2007), pretendendo apenas informar e orientar a finalizar alguma tarefa, não prevendo outras formas de relacionamento mais afetivas. Estabelecendo, pois, um distanciamento entre o emissor e o receptor.

Entender o conhecimento não é uma tarefa simples, principalmente se levarmos em consideração a sua fragmentação na atualidade. Morin (2008, p. 5-7) considera o problema do

36 Estado de espírito refratário à razão e ao progresso. Doutrina daqueles que não desejam que a instrução penetre na massa do povo; doutrina contrária ao progresso intelectual e material. Estado completo de ignorância. Disponível em: <http://www.dicio.com.br/obscurantismo/>. Acesso em: 25 nov. 2011.

conhecimento como um desafio, porque, segundo esse autor, “só podemos conhecer as partes se conhecermos o todo em que se situam, e só podemos conhecer o todo se conhecermos as partes que o compõem”. Sendo assim, não será capaz de compreender o homem em sua totalidade se o analisar por meio de disciplinas fechadas, compartimentadas, que não se comunicam. Para Morin (2008, p. 5-7):

[...] não devemos esquecer que somos não só uma pequena parte de um todo, o todo social, mas que esse todo está no interior de nós próprios, ou seja, temos as regras sociais, a linguagem social, a cultura e normas sociais em nosso interior.

[...] produzimos a sociedade que nos produz, damos vida às nossas ideias e, uma vez que lhes damos vida, são elas que indicam o nosso comportamento, que nos mandam matar ou morrer por elas; vale dizer que tais produtos são os nossos próprios produtores, e que as realidades imaginária e mitológica são um aspecto fundamental da realidade humana.

A partir da compreensão do conceito de sociedade em rede proposto por Castells (1999), entende-se que as pessoas fazem parte de uma grande rede de conhecimento, cada um contribui de alguma forma para que esse conhecimento aumente. Assim, segundo Lévy (2003), como as pessoas fazem uso do conhecimento, elas também contribuem para a sua expansão, atingindo outras pessoas em épocas diferentes. No nosso caso, importa saber como esse processo vem se dando no portal do CNPq, pelo menos entre os pesquisadores, uma vez que existe a barreira da migração digital.

Para Wurman (1991), as pessoas atualmente vivem na era da informação e o excesso de conhecimento disponível as leva ao desespero. Cada vez mais, com a disseminação dos meios de comunicação, tem-se à disposição uma quantidade maior de conhecimento e o sentimento de impotência na incapacidade de assimilá-lo gera na maioria das pessoas um sentimento de ansiedade. Segundo Wurman (1991, p. 38):

Ansiedade de informação é o resultado da distância cada vez maior entre o que

compreendemos e o que achamos que deveríamos compreender. É o buraco negro que existe entre dados e conhecimento, e ocorre quando a informação não nos diz o que queremos ou precisamos saber.

Entende-se que o excesso de informação nos tempos atuais seja o responsável pela fragmentação do conhecimento, como cita Morin (2008). Há algum tempo, a formação acadêmica era universal, exigia-se das pessoas o conhecimento de todas as áreas do saber. Acredita-se que a fragmentação dessas áreas proporcionou um grande avanço no desenvolvimento do conhecimento especializado, mas em contrapartida, criou ambientes isolados, grupos independentes, clubes privativos e excludentes. Reitera-se que o resgate das relações sociais para a democratização do conhecimento poderia ser feito por meio das

relações afetivas, seguindo os critérios apresentados por Pallof e Pratt (2002) apud Martins e Batista (2005): franqueza, honestidade, correspondência, respeito e autonomia. Segundo esses autores, a prática desses critérios contribuiria para uma aprendizagem mais colaborativa.