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6. ANALYSE AV BOKPRISENE I DE SKANDINAVISKE LANDENE

6.2 S VERIGE

A religião, a arte e a ciência foram as atividades humanas que mais interessaram a Freud e sobre elas encontramos comentários diversos, em contextos também variados. Avaliar as particularidades da religião, como forma de sublimação das pulsões, pode nos ajudar na tarefa de investigar e apontar as diferentes funções e efeitos das atividades sublimatórias sobre o sujeito. A religião é sustentada por um elevado ideal paterno, na veneração do substituto do pai como meio de restaurar o amor por si mesmo e a perfeição de valor, requisitos originários da constituição dos ideais, como abrigo ao desamparo (BIRMAN, 1997). A partir disso, podemos pensar se a religião merece ser chamada sublimação.

Recordamos que a religião foi um dos primeiros exemplos utilizados por Freud em defesa da premissa de que a sublimação das forças sexuais permite uma passagem das formas mais abjetas de obtenção de prazer para as formas culturais mais nobres encontradas na civilização. O desvio da força pulsional de seus objetos primeiros para outros substitutos, intimamente ligados, foi confirmada por Freud, recorrendo-se ao rastreamento do deslocamento do valor atribuído aos genitais na Antiguidade. Nesse tempo, eram atribuídos poderes divinos aos genitais, que foram substituídos pelas figuras dos deuses e, sucessivamente, pelo Deus dos atuais sistemas religiosos. Desse modo, Freud ratifica a plasticidade da pulsão, ou seja, sua capacidade ilimitada de buscar substitutos para sua satisfação.

Em O mal-estar na civilização, Freud, ao relacionar os recursos que nos permitem lidar com as agruras da vida – o sofrimento, as decepções e tarefas impossíveis que ela nos impõe –, considera a religião como recurso distinto do processo sublimatório. Quanto à religião, ela não estaria entre as sublimações na medida em que propõe um “remodelamento delirante da realidade” (FREUD, 1930/1996, p.89).

Segundo Freud, a religião consiste em uma recusa da realidade, cria-se um núcleo delirante para substituir algum aspecto insuportável; as religiões são, desse modo, consideradas “delírio de massa”, fazendo contraponto ao que ele reconhece como os delírios individuais, a partir da observação de que todos nós temos algo em comum com os paranóicos (FREUD, 1930/1996, p.89).

Seguindo essa lógica, a atividade de escrita de Daniel P. Schreber,17 que culminou na publicação de um livro, Memórias de um doente dos nervos, não é outra coisa senão a construção de um delírio individual. A partir desse critério, o processo que levou Schreber a escrever e a publicar seu livro não deveria ser considerado sublimação. Contudo, será que não estaríamos, sim, diante de uma atividade sublimatória sustentada no delírio e que cumpriu uma função precisa na economia psíquica desse ilustre paranóico?

Recorrendo ao exemplo evocado, verificamos que a atividade de elaboração e construção do livro se valeu da atividade delirante como um conjunto de idéias imaginárias que, em muitos outros sujeitos, ao se passar por realidade, não vai além de mobilizar sentimentos e ações descabidas ou descontextualizadas. Schreber deu a essas idéias a forma de um livro, inscreveu-o na cultura aproveitando-se de suas habilidades, o que, por outro caminho, poderia ficar restrito ao campo do pensamento. Schreber pretendia ser reconhecido por duas de suas aptidões: “um inquebrantável amor à verdade” e “um dom de observação

17 Daniel Paul Schreber (1842-1911), juiz-presidente da Corte de Apelação na cidade de Dresden, aos 51 anos

fora do comum” (SCHREBER, 1903/1985, p.234). Essas aptidões são facilmente reconhecíveis num cientista e, não equivocadamente, o juiz estava certo de que sua obra seria acolhida por seu inestimável valor científico, além de vir a se constituir como prova de sua integridade intelectual. Desse modo, uma vez que ganhou a forma de um livro, a atividade de Schreber apresenta aspectos em comum não só com a atividade literária, como também compartilha dos mais exigentes atributos de uma legítima tarefa científica, o que nos confere elementos para considerá-la uma atividade sublimatória apesar do delírio.

O livro escrito pelo juiz-presidente Schreber no auge de uma crise psicótica, em que o delírio megalomaníaco evidencia o excesso de libido no eu, foi concomitante ao esforço sublimatório. Ele não se recolheu ao mundo interno e o livro testemunha seu esforço para se manter conectado com o mundo. Sua obra, entretanto, prova que a pulsão carrega consigo representações inconscientes, que podem percorrer vários caminhos.

Lamentamos não encontrar em Freud nenhuma formulação sobre a sublimação relacionada à produção do livro do juiz-presidente Schreber. Resta-nos percorrer, sozinhos, esse árido caminho, aproveitando-nos das formulações freudianas e chegando, por nossa conta e risco, às conclusões.

Voltando ao tema da religião, será que poderíamos distinguir o que se refere à sua construção, elaboração e transmissão, daquilo que é apenas uma comunhão de idéias? Um sistema religioso, para alcançar o ponto no qual é oferecido e apresentado aos fiéis, exigiu habilidades sublimatórias; sua construção exigiu, daqueles que o elaboraram, alto grau de atividade mental, criativa e intelectual. Provavelmente, demandou também atividade escrita e verbal na transmissão e consolidação do sistema. Apesar disso, uma vez constituído como um sistema rígido, dogmático e conservador, que se impõe aos homens como valores e

que foi transformado por Freud em um documento científico, de leitura indispensável para o estudo da psicose na perspectiva psicanalítica.

interdições, delimitando e estabelecendo os princípios aos quais as ações dos crentes devem se adequar, a religião se confunde com a idealização. Portanto, nesse momento, a religião implica uma adaptação e não uma ação. A religião e as ideologias, ao serem compartilhadas e assimiladas pelos crentes, desempenham o papel dos ideais, que influenciam a sublimação, operando como as idealizações: ora favorecendo e orientando as ações sublimatórias, ora inibindo-as.

Desse modo, seria correto negar à religião o estatuto de sublimação, ou essa recusa refere-se apenas ao que da religião foi assimilado pelo sujeito na forma de seus ideais e valores? Se, de um lado, as crenças e ideologias cerceiam a criatividade, limitando e direcionando as ações do homem, de outro, a religião, assim como os ideais, podem ser um poderoso instrumento a favor da civilização:

Tampouco devemos permitir sermos desorientados por juízos de valor referentes a qualquer religião, qualquer sistema filosófico ou qualquer ideal. Quer pensemos encontrar neles as mais altas realizações do espírito humano, quer os deploremos como aberrações, não podemos deixar de reconhecer que onde eles se acham presentes, e, em especial, onde eles são dominantes, está implícito um alto nível de civilização (FREUD, 1930/1996, p. 101).

Deixaremos, por ora, essa questão, que talvez represente a maior dificuldade na definição do campo da sublimação, especialmente se considerarmos o referencial freudiano da oposição entre sublimação e idealização, cujos processos parecem estar especialmente misturados nessa modalidade social.