5. PREANALYSE
5.1 B EGRUNNELSE FOR BRUK AV INDEKSER
No contexto desta pesquisa, pulsão, termo distinto de instinto,12 é um conceito de fundamental importância, com o qual se nomeia a força que induz e alimenta os processos psíquicos. Ressaltamos que o próprio Freud manifestou, inúmeras vezes, a insatisfação quanto ao estágio de conhecimento das pulsões, acreditando que “de todas as partes lentamente desenvolvidas da teoria analítica, a teoria dos instintos foi a que mais penosa e cautelosamente progrediu”. Interessar-nos-emos por algumas elaborações a respeito da pulsão contidas em “Os instintos e suas vicissitudes” (1915a), um dos ensaios metapsicológicos em que Freud
12 Não custa lembrar que o termo alemão trieb foi traduzido pelo termo instinct na tradução para o inglês das
obras de Freud. A edição standard brasileira das obras psicológicas completas de S. Freud, por se basear na tradução inglesa, comete o mesmo equívoco. É consenso que a melhor tradução desse termo para o português seria “pulsão”, termo que utilizaremos, sempre que possível, nesta dissertação.
tenta abordar, de forma abrangente, as dificuldades relativas ao tema. A pulsão, “como conceito situado na fronteira entre o mental e o somático” (FREUD, 1915a/1996, p.127), é reconhecida como uma força que não imprime um impacto momentâneo; ao contrário, trata-se de um impacto constante, do qual não se pode fugir devido à incidência interna. Várias são as conseqüências, para o indivíduo, advindas do fato de ser submetido a uma exigência constante de trabalho feita à mente em conseqüência de sua ligação com o corpo. O aparelho psíquico é forçado a efetuar procedimentos complexos e articulados para evitar o acúmulo da energia que é, segundo o princípio do prazer, uma experiência desprazerosa que pode levar às neuroses. Desse modo, a pulsão, pela sua própria estrutura, impele a sublimação; a própria constituição da pulsão explica a afirmação freudiana de que a sublimação é um processo espontâneo: “As pulsões, e não os estímulos externos, constituem as verdadeiras forças motrizes por detrás dos progressos que conduziram o sistema nervoso, com sua capacidade ilimitada, a seu alto nível de desenvolvimento atual.” (FREUD, 1915a/1996, p.126).
Freud discute, nesse artigo, os quatro termos relativos à pulsão: a fonte, a finalidade, o objeto e a pressão. A pressão (drang) é entendida como o fator motor, o aspecto quantitativo da pulsão que equivale à intensidade de trabalho exigida. A finalidade (ziel) é sempre a satisfação da pulsão, a redução da tensão provocada pelo acúmulo de energia, redução que pode ser obtida por diferentes caminhos. Nesse contexto, pode-se falar em pulsão inibida em sua finalidade, supondo-se que os processos relacionados à pulsão inibida possibilitem uma satisfação parcial.
O terceiro termo, o objeto (objekt), é um termo distinto da meta ou finalidade, embora seja a coisa através da qual e em relação à qual a pulsão pode alcançar sua finalidade. Esse é o elemento mais variável da pulsão, não estando ligado originariamente a ela, só se fixando a ela circunstancialmente. Uma ligação íntima entre a pulsão e um objeto é o que caracteriza a “fixação”, condição desfavorável à sublimação, pois esta pressupõe “a
capacidade de trocar seu objetivo sexual original por outro, não mais sexual, mas psiquicamente relacionado com o primeiro” (FREUD, 1908c/1996, p.174). Essa possibilidade de troca ilimitada dos objetos convenientes à satisfação pulsional evidencia uma importante configuração da pulsão que trabalha a favor da sublimação: a plasticidade. A substituição de um objeto por outro é, portanto, possibilitada pela característica plástica da pulsão que, encontrando barrada a via de acesso ao objeto, é capaz de substituí-lo.
Para alcançar sua meta, a pulsão terá que cumprir certos desvios, buscando objetos substitutos e desimpedidos, evidenciando uma plasticidade de caráter imprevisível. Laplanche complementa, a respeito desse terceiro elemento, que se trata do termo em seu sentido mais geral: pode ser uma pessoa, ou um objeto parcial que, por sua vez, pode ser exterior ou ser uma parte do próprio corpo. Pode, ainda, ser um objeto fantasístico ou algum objeto encontrado na realidade. Quanto a ser o objeto o que há de mais variável, como afirma Freud, Laplanche (1989) ressalta o paradoxo da afirmação. A clínica nos ensina que o tipo de objeto que cada um busca, longe de ser variável, remete sempre ao mesmo. Laplanche nos lembra que, quando observamos as escolhas amorosas dos sujeitos, o que nos espanta é a incidência dos mesmos traços. Ele conclui que a idéia de uma contingência indicaria “que o objeto não é organicamente, biologicamente, determinado pela pulsão, mas isso não implica que ele não seja fixado pela história e não se torne, pelo contrário, extremamente especificado” (LAPLANCHE, 1989, p.16). Para Laplanche o objeto é alguma coisa que se designa pelo substantivo, enquanto a meta é uma ação que se expressa por um verbo.
O último termo, fonte (Quelle), refere-se ao somático, e compreende os processos que ocorrem no corpo ou nos órgãos e que buscam representação na mente (FREUD, 1915a/1996, p.127-128).
Nesse momento, as pulsões são divididas em dois grandes grupos, as pulsões do ego ou de autopreservação e as pulsões sexuais, que se apresentam nas afecções neuróticas em
constante conflito. As pulsões sexuais podem passar pelas seguintes vicissitudes: reversão ao seu oposto, retorno ao próprio eu do indivíduo, recalque e sublimação (FREUD, 1915a/1996, p.132). Nesse artigo, Freud comenta apenas os dois primeiros destinos.
Embora os conceitos que são relacionados à sublimação tenham evoluído no curso dos escritos de Freud, ela própria continua a ser discutida, durante algum tempo, quase que nos mesmos termos iniciais. Em O mal-estar na civilização (1930) Freud retoma as primeiras discussões a respeito do papel desempenhado pela civilização no destino da sublimação. Contudo, ali, ele afirma que o cerceamento da liberdade sexual pela civilização talvez não seja o único responsável pelo deslocamento da pulsão em novas direções, mas algo na própria estrutura pulsional parece ser responsável pelas contribuições culturais: “Às vezes, somos levados a pensar que não se trata apenas da pressão da civilização, mas de algo da natureza da própria função que nos nega satisfação completa e nos incita aos outros caminhos.” (FREUD, 1930/1996, p.111). Reafirma, portanto, o caráter de força constante, que exige satisfação e pressiona a ação do sujeito.