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6. METHODOLOGICAL CONSIDERATIONS

6.4 S TRENGTHS AND LIMITATIONS

Nas economias mais desenvolvidas, a crise actual caracteriza-se por um estrangulamento provocado pela verificação em simultâneo de um desemprego que resulta da insuficiência da procura global (keynesiano) e de um desemprego que resulta de uma insuficiência de rentabilidade devido à subida dos custos de produção, nomeadamente, dos custos salariais (desemprego clássico) (Rodrigues, 1996). Por um lado, a procura deixou de ser tão dinâmica como em épocas anteriores (pelo menos para alguns sectores de actividade), por outro lado, o aumento do nível de vida e de bem- estar, um dos projectos das sociedades modernas, fez aumentar os custos do factor trabalho nas economias mais desenvolvidas12. Daqui rapidamente se depreende que intervir sobre um tipo de desemprego implicaria agravar o outro. Isto é, e por exemplo, fazer diminuir a estrutura salarial dos trabalhadores ou substitui-los por máquinas (e encontramo-nos já no tipo de desemprego a que Schumpeter designou de tecnológico) irá provocar um agravamento das condições da procura, num ciclo que se entende por vicioso.

Talvez seja este um dos maiores desafios a que as sociedades desenvolvidas estão expostas. Por um lado, deparam-se com a saturação da procura, pelo menos em alguns sectores designados por tradicionais, e, por outro lado, confrontam-se com a perda de competitividade, pelo menos nos moldes em que esta foi entendida durante largas décadas – isto é, conseguida através dos baixos custos dos factores. Toda esta situação é agravada e motivada, pelo menos em parte, pela concorrência dos novos países industrializados, que reforçam, cada vez mais, o seu papel na economia globalizada.

12 Ulrich Beck e Anthony Giddens (2000) desenvolveram o conceito de Modernização Reflexiva que

significa a possibilidade de (auto)destruição de toda a sociedade industrial pela própria conclusão do projecto de Modernização ocidental. Assim, para estes autores, muitos dos fenómenos que as sociedades actuais vivem são efeitos perversos que decorrem do desenvolvimento do próprio projecto da Modernidade.

Também Adolf Wagner, economista alemão do século XIX explicou, na chamada “Lei de Wagner”, que quanto mais rico se torna um país, mais as despesas sociais aumentam e mais difíceis serão de reduzir. Segundo o relatório do IMD (2004), este aspecto está a ferir a competitividade europeia.

Isto é, uma série de forças vêm actuando na economia internacional e anulando a maneira tradicional de pensar e de agir. Com a globalização e a abertura dos mercados, a mera existência de recursos deixou de ser uma mais valia para um país: estes podem agora ser facilmente adquiridos, seja directamente seja incorporados em produção, em países onde o preço do trabalho, das matérias-primas e dos recursos naturais são mais baixos.

Outro factor que fez alterar as regras da concorrência foi a mudança de perfil tecnológico. Com as novas tecnologias (em conjunto com a inovação) é possível automatizar os processos de produção e reduzir o custo da mão-de-obra, mesmo pagando salários altos, assim como é possível encontrar produtos sintéticos como substitutos para as matérias-primas (AAVV, 1995).

Assim, a integração na economia mundial de países como a China, a Índia, o Vietname, a Coreia, Taiwan e outros tradicionalmente afastados das esferas de influência internacional, veio alterar substancialmente a estrutura do comércio global e dos fluxos de Investimento Directo Estrangeiro. O mesmo se passou com os países da Europa Central e Oriental, durante largos anos e por força da ideologia política e das suas economias socialistas arredados e fechados ao comércio internacional. Todos estes países têm como principal vantagem comparativa o facto de possuírem custos de produção extremamente baixos quando comparados com os das economias mais desenvolvidas, pelo que a sua concorrência em alguns sectores de produção tradicionais, intensivos em mão-de-obra e recursos naturais, tem sido fortíssima, invadindo os mercados internacionais com produtos a preços de venda insuportáveis para os outros países. Mas eles começam igualmente a poder dispor de volumes razoáveis de mão-de- obra qualificada, com especial destaque para os países do alargamento da União Europeia, pelo que não se consegue prever, ainda e ao certo, qual poderá ser o seu desempenho nas indústrias consideradas de alta e média tecnologia e intensivas em conhecimento. Aliás, alguns destes países assumem-se já como importantes

exportadores mundiais de equipamentos eléctricos e electrónicos, assim como de maquinaria e transportes. Mas uma coisa é certa, a concorrência que movem veio por em causa o modelo de crescimento económico de alguns países desenvolvidos, assim como a base produtiva em que este assentava.

Na verdade, o modelo de especialização de um país é considerado eficiente quando este consegue vantagens comparativas em termos dos produtos/serviços para os quais a procura mundial tem crescido mais e com maior rapidez (Zaghini, 2003). Assim, um novo modelo de crescimento económico terá que passar pela dinamização prioritária das actividades exportadoras de bens e serviços para as quais se espera que haja um crescimento da procura.

A procura, por sua vez, prevê-se dinâmica em áreas funcionais como a Saúde, o Ambiente, a Informação e o Entretenimento, a Informática e as Comunicações, a Mobilidade Aérea e a Utilização do Espaço, a Instrumentação, a Automação, a Concepção e os Serviços Financeiros. O crescimento da procura será mais lento (ou mesmo saturado) em áreas funcionais como a Alimentação, o Habitat, a Moda, a Mobilidade Rodoviária, a Mecânica Industrial e a Electromecânica. Estes mercados em saturação passam a poder crescer apenas baseados na inovação e com ciclos de vida dos produtos cada vez mais curtos (PROINOV, 2002).

Ora, se juntarmos aos restantes constrangimentos da globalização o consequente aumento das condições concorrenciais e a saturação da procura nos mercados dos produtos cuja produção ocupava um lugar de charneira na estrutura industrial da maioria dos países desenvolvidos, vemos como estes são agora obrigados a proceder a uma reconversão das suas estruturas produtivas, alterando a base em que assentavam as suas vantagens competitivas anteriores ou transformando eventuais vantagens comparativas (estáticas) em vantagens competitivas efectivas.

Além do mais, num contexto de mundialização dos mercados, com a “queda” das barreiras alfandegárias e cambiais e o desenvolvimento das Tecnologias de Informação

e Comunicação, é possível que, numa situação extrema, cada parte do processo produtivo se localize em zonas distintas do Globo, aproveitando as vantagens competitivas de cada país. Como consequência, a competitividade tem hoje exigências muito diferentes.

Assim, o paradigma que governava a concorrência internacional e se baseava nas vantagens comparativas dos países tende a ser substituído. A prosperidade de um país deixou de assentar no facto de este conseguir custos de mão-de-obra mais baixos, matérias-primas ou outros inputs e passou a depender da conjugação de factores dinâmicos e imateriais que acrescentam valor aos factores de produção, nacionais ou importados, como, por exemplo, a capacidade de inovar e criar produtos de alto valor acrescentado, onde o conhecimento passou a ser o principal input. Ou seja, e em termos de teoria do comércio internacional, a Teoria das Vantagens Comparativas deu lugar à Teoria das Vantagens Competitivas.

Abrem-se, portanto, outras possibilidades de competitividade, na base de uma especialização flexível, voltada para a exploração das chamadas economias de gama e das estratégias de diferenciação dos produtos/serviços. Isto implica capacidade de inovar, ensaiando novos processos produtivos, detectando e explorando novos segmentos de mercado, diversificando pela qualidade e não apenas por acréscimos de produtividade; esta deve ser encarada como a conquista de uma margem de manobra que permita desenvolver a qualidade total e a própria competitividade. Nesta perspectiva, a produção deixa de ser vista como a actividade principal e central de uma empresa, sendo essencial pensá-la de forma integrada com as restantes funções existentes, a montante e a jusante, e que vão desde a concepção (design) e desenvolvimento de produtos/serviços até à sua comercialização, assim como para além das fronteiras da empresa, abrangendo toda a rede de empresas que lhe serve de suporte – clusterização da actividade produtiva (Rodrigues, 1998).

Como tal, neste novo paradigma, as empresas são as protagonistas das decisões de investimento e dos processo de inovação (financeira, tecnológica, produtiva, social …), que permitem, quando consideradas na sua totalidade, criar as vantagens competitivas de um país. Mas alguns dos factores de competitividade entroncam igualmente no contexto macroeconómico, decorrendo ou encontrando suporte nas acções desenvolvidas por governos, institutos e sistemas nacionais, ao criarem um ambiente competitivo favorável ao desempenho dos agentes económicos, como por exemplo, o sistema de educação e formação ou a política de inovação. De qualquer forma, mesmo estes casos não podem ser considerados em abstracto, ou seja, sem enquadrarem as necessidades e aspirações de empresas e indivíduos (Chagas Lopes e Pinto, 1999).

Assim, com o fim anunciado da estratégia de competitividade baseada no baixo custo dos factores produtivos e com a perda da capacidade de desvalorização cambial associada aos diversos processos de integração e acordos de comércio livre a nível mundial (vd., por exemplo, a União Europeia e GATT), os países desenvolvidos vêem- se empurrados para um novo modelo de crescimento económico que lhes permita, em última instância, assegurar o saudável funcionamento do seu sistema de emprego. Este novo modelo de crescimento económico assenta, sobretudo, em dois vectores cruciais: por um lado, num aumento da produtividade que lhes garanta uma suficiente margem de manobra para, por outro, poderem apostar no desenvolvimento de vantagens competitivas, em termos de comércio internacional. Tudo isto passará, em grande medida, por acções a implementar ao nível do sistema de educação/formação, da política de inovação, da política industrial, assim como, ao nível das empresas, por novas formas de organização do trabalho, de gestão dos recursos humanos e das competências, todos eles, claramente, com fortes relações de interdependência.