3 MATERIAL AND METHODS
3.4 S TATISTICAL METHODS
Está assim aberta a todas as oposições a REVISTA DE ANTROPOFAGIA. E conta com sua colaboração frequente. Uma única restrição: cousa curta.
- Carta circular da Revista de Antropofagia, anunciando o seu aparecimento, assinada por Raul Bopp e Antônio de Alcântara Machado, para Achilles Vivacqua (Sem data, anterior a 10 de maio de 1928). Série correspondência. Caixa 1 (Classificação provisória). Fundo Achilles Vivacqua. Acervo de Escritores Mineiros, UFMG. A REVISTA DE ANTROPOFAGIA já tem para publicar em seus próximos números nada mais nada menos do que 37 poesias: não possue um único trechinho de prosa. Ela dirige aos novos do Brasil este radiograma desesperado:
S.O.S. SOCORRO. ESTAMOS NAUFRAGANDO NO AMAZONAS DA POESIA. MANDEM PROSA SALVADORA
- “S.O.S.” de Antônio de Alcântara Machado e Raul Bopp Revista de Antropofagia, Nº 2. Junho de 1928.
Estamos numa phase em que todo o espirito da nova e velha intellectualidade, abandonando a prosa, volta-se para a poesia. Atingimos o ultimo momento da insinseridade. O traço principal da psychologia do nosso povo, formado da influencia de tres elementos ethnicos, não cria, como característica da nossa psyché, uma individualidade literária marcada somente pela poesia. - “Poetas” de Achilles Vivacqua, Semana Illustrada, Nº 85. 30/3/1929.
Depois de analisada a trajetória do grupo de leite criôlo e da própria publicação no interior da rede modernista, pretendemos no presente capítulo analisar os textos ali publicados com o intuito de compreender a lógica do seu projeto literário e intelectual. Os diversos temas presentes no tablóide e nos suplementos serão enfocados a partir do recorte dos gêneros literários ali presentes. Tal opção metodológica se dá com o objetivo de aproximar a análise da lógica de produção literária: é preciso lembrar – contra a tentação de buscar na publicação a espécie de discurso claro, coerente e homogêneo que se poderia esperar de um texto teórico – que os diretores e colaboradores de leite criôlo se pensam como literatos e concebem as pequenas
contribuições ad hoc que compõe o mosaico que é o “órgão oficial do criolismo” como textos literários. O risco que se pretende evitar é o de conceber leite criôlo como uma entidade dotada de uma retórica e de uma ideologia unitárias, limitação esta que acreditamos se fez presente na análise de Antônio Sérgio Bueno.
As epígrafes citadas acima remetem a concepções relativas a gêneros literários expressas no âmbito da rede modernista contemporânea a leite criôlo, exemplificando como tais concepções se fazem presentes naquele momento. A primeira delas se refere à limitação básica dos textos que aparecem em publicações como leite criôlo e a Revista
de Antropofagia, o tamanho. Invoca também o procedimento pelo qual se recrutam colaboradores para publicações que, ao que parece, não pagavam pelos textos publicados, ou seja, a ativação dos contatos no âmbito da rede modernista nacional. As epígrafes seguintes se referem à posição da poesia como gênero literário predominante no âmbito do modernismo de então e expressam também uma reação a este quadro. Mas, enquanto a citação da primeira dentição da Revista de Antropofagia apenas pretende restaurar o equilíbrio numérico entre poesia e prosa no interior daquela publicação – dirigida naquele momento por um prosador convicto, Antônio de Alcântara Machado –, a citação do futuro diretor de leite criôlo, invocando a hegemonia do gênero poético como sintoma da insinceridade da intelectualidade de então para com a “psychologia do nosso povo, formado da influencia de tres elementos ethnicos”, levanta em torno de uma questão literária indagações sobre a cultura e a nacionalidade que transcendem a literatura estrito senso. Parece assim sugerir o formato da segunda dentição da Revista de Antropofagia, na qual os poemas cedem lugar a textos programáticos e citações formando uma espécie de manifesto contínuo. No entanto, o gênero poético permanece hegemônico no corpus publicado de leite criôlo, mesmo que tensionado pela existência de um eixo temático para a publicação.
No intuito de mimetizar a tensão presente na publicação entre o conteúdo programático, mais próximo à lógica do manifesto, e o aspecto relativamente mais fragmentário e tematicamente disperso da produção literária que se dá no interior de gêneros mais estabelecidos, à análise do corpus pelo recorte dos gêneros se seguirá, nos próximos capítulos, uma exploração mais metódica da dimensão programática de leite
criôlo.
No Amszonss ds poesis
Como já afirmamos, no conjunto do corpus de leite criôlo se mantém a hegemonia dos versos característica das publicações modernistas dos anos 1920, sendo que o volume das águas do “Amazonas da poesia” – para usarmos a metáfora de Antônio de Alcântara Machado no trecho da Revista de Antropofagia que nos serve de epígrafe – só não supera os outros gêneros textuais presentes na publicação em quatro edições: o tablóide de 13 de maio, a primeira edição a sair no jornal Estado de Minas em 2 de junho, a nona edição de 28 de julho e a décima primeira edição de 11 de agosto (numerada erroneamente X devido à repetição do clichê da edição IX no cabeçalho do suplemento publicado em 4 de agosto). Nos dois primeiros casos, o tablóide e a edição de estréia no Estado de Minas, os artigos programáticos – no caso expondo a visão de mundo “criolista” – característicos das edições de lançamento de periódicos tomam a frente. A edição de 11 de agosto é incidentalmente a edição na qual é publicado o manifesto de apoio ao lançamento da Aliança Liberal, já explorada no capítulo anterior. Nota-se, portanto, que em apenas uma das edições cotidianas de leite criôlo outro gênero textual supera a presença hegemônica do verso no suplemento.
Dentre os poemas publicados é possível perceber a associação constante entre temas afeitos ao nacionalismo primitivista e as técnicas literárias características do modernismo de então (verso livre, vocabulário coloquial, ausência de pontuação,
justaposições de toda espécie etc.), apesar da considerável variedade temática presente no corpus poético analisado. A modernidade técnica e/ou social enquanto temática, tão característica do modernismo paulista do começo dos anos 1920, se faz presente em apenas um poema – “Metropole”, de A. Albuquerque, de Ubá (possivelmente pertencente ao grupo da revista Montanha daquela cidade mineira) – e mesmo neste poema a afirmação nacionalista se faz presente no verso final, “Estamos no Brasil!”.92 A variedade de temáticas, a grande maioria integradas nos eixos do nacionalismo e do primitivismo, não se reflete na diversidade dos poemas individuais: diversos autores repetem temas e/ou procedimentos literários de outros poemas publicados no próprio
leite criôlo, gerando séries relativamente coesas dentre o mosaico das contribuições. É interessante ressaltar que tal redundância – que facilita, aliás, em muito a presente análise – serviu na época de argumento para críticas, como aquelas de João Alphonsus que analisamos no capítulo anterior.
Algumas destas séries de poemas se vinculam à temática geral de leite criôlo. O poema “Samba”, de Achilles Vivacqua, que já havia saído no primeiro número da revista Verde e no Diário de Minas,93 tem por ecos “Poesia criôla”, de Fonte Boa, do grupo modernista de Cataguases, e “Dança de Salomé mulambo”, de José Guimarães Alves. Todos eles encenam danças dos “corpos pretos” de “criôlas”, “morenas” e “negras”, através de procedimentos formais que incluem a presença de vocábulos vinculados à herança cultural africana no Brasil (“cabinda”, “iaiá”, “berimbau” etc.). Também fazem sua aparição diversos tipos de trabalho textual de matriz sonora e/ou visual como as aliterações e assonâncias reforçadas pelo recorte irregular dos versos em “Samba”, as rimas acompanhadas de uma ortografia que remete à oralidade (“aruê, aruá/ pra seu dia festejá”) evocando as cantigas folclóricas em “Poesia criôla”, as
92 LEITE CRIÔLO Nº IX (10º), 4 de agosto de 1929. 93 DIÁRIO DE MINAS, 1/2/1929.
repetições e refrões em “Dança de Salomé mulambo”. Estes são alguns dos poemas publicados em leite criôlo que mais chamam a atenção para si no aspecto formal, trazendo como substrato temático o tipo da mulata sensual, cuja proximidade com o tema da luxúria como perdição está explícita na menção a Salomé – encarnação bíblica da sensualidade maliciosa e dominadora de ampla circulação na literatura ocidental a partir do séc. XIX (cf. DOTTIN, 1997, p. 805-811) – no título do poema de José Guimarães Alves.94 Voltaremos à associação entre a herança africana no Brasil e a sexualidade nos próximos capítulos.
A temática “negra” também aparece nas páginas da publicação mineira em poemas de cunho mais narrativo, muitas vezes ambientados em um cenário rural escravista ou pós-escravista. De uma certa vertente sado-erótica participam “mãe preta” de Fidelis Florêncio (Wellington Brandão), analisado no quinto capítulo, e também o poema “milú" de Jacob Pim-pim, pseudônimo do “antropófago” Raul Bopp, que narra o estupro da “escrava mais nova” pelo feitor, tendo por cenário o “fundo da lavoura grande” de uma fazenda dos tempos da escravidão. Já em “bichinha de casa...”, de Jorge Fernandes, colaborador de Natal, aparecem ecos da trama do poema “Nega Fulô” de Jorge de Lima, já comentado no capítulo anterior: o escritor do Rio Grande do Norte descreve em seu poema uma “negrinha asseiada [sic]”, concluindo que a fala dela “até se parece / com a fala da dona / da casa...”, insinuando a substituição, talvez apenas sexual, da Sinhá pela “bichinha de casa”, substituição que aparece explicitamente nos famosos versos do modernista alagoano. A erotização de “morenas dengosas” através do recurso à insinuação também se faz presente em “cromo”, de Achilles Vivacqua.
94 “Samba”, de Achilles Vivacqua em LEITE CRIÔLO Nº III, 16 de junho de 1929; “Poesia criôla”, de
Fonte Boa em LEITE CRIÔLO Nº V, 30 de junho de 1929; “Dança de Salomé mulambo”, de José Guimarães Alves em LEITE CRIÔLO Nº VII, 4 de agosto de 1929. “Samba” e “Dança de Salomé mulambo” já foram analisados e parcialmente transcritos por Antônio Sergio Bueno, cf. BUENO, 1982, p. 144.
Neste poema soldados “cobiçando os frutos cheirosos / fazem sentinela” devido à presença das tais “morenas” em uma venda localizada em frente ao quartel. 95
Além do viés erotizado, comum aos poemas mencionados até aqui, a temática negra também faz sua aparição sobre outras formas em leite criôlo. No poema “13 de maio”, de Francisco L. Martins Filho, se alude à abolição da escravidão, entendida como dádiva da Princesa Isabel. Sobre outro ponto de vista e em claro diálogo com a discussão sobre o “criolismo”, da qual nos ocuparemos a seguir, é construído o poema “a correição”, de Ary Gonçalves, colaborador de Ubá e possivelmente integrante do grupo da revista modernista Montanha, publicada naquela cidade mineira. Ali o autor funde a imagem de uma correição de formigas carregando um grilo morto com um cortejo de “negro congado” carregando a imagem de Cristo, fechando o poema da seguinte maneira: “Deve ser procissão, / ou polícia procurando criminosos, / a ‘correição”. 96
Mas a temática “negra” é apenas um rio dentre os afluentes do “Amazonas da poesia” e, apesar da sua importância para a publicação, é numericamente pouco relevante dentro dela – oito poemas de um total de sessenta e nove. É necessário compreender estes poemas dentro da lógica mais ampla das temáticas do nacionalismo primitivista. O foco no catolicismo popular e tradicional, presente no citado “a correição”, também se faz presente, de forma muito mais positiva, intimista e caseira, nos poemas “Mez de Maria”, de Fidelis Florêncio (Wellington Brandão) – “Nossa Senhora / ficou mais bonita / na voz de Ninita” –; “Balada da ternura”, de Oswaldo Abrita, ligado à revista Verde – “As estrelas se abaixaram, meu Deus, / pra espiar a minha dor”, e “armarinho”, de Guilhermino Cesar – “Tristeza moleirona dos sentidos /
95 “milú”, de Jacob Pim-Pim em LEITE CRIÔLO Nº VI, 7 de julho de 1929; “bichinha de casa...” em
LEITE CRIÔLO Nº XIII (14°), 1° de setembro de 1929; “cromo”, de Achilles Vivacqua em LEITE CRIÔLO Nº VI, 7 de julho de 1929.
deixou lugar pra Deus Nosso Senhor”. Estes poemas, os últimos dois remetendo mesmo à forma da prece religiosa, exemplificam, aliás, a ausência do ardente anticlericalismo da segunda dentição da Revista de Antropofagia nas páginas de leite criôlo. 97
Também as referências à música folclórica e popular não se esgotam nos poemas de tema “negro”. Em “A canção do meu sapo”, de Francisco L. Martins Filho, e “Pedra Menina”, de Fonte Boa,98 versos livres modernos servem de moldura para cantigas transcritas em ortografia que visa recuperar características da fala popular, numa repetição clara do procedimento já utilizado, entre outros, por João Dornas Filho em poema seu publicado na revista Verde, como vimos no capítulo anterior.
Ainda nas vastas águas do primitivismo nacionalista, em leite criôlo foram publicados desde representações poéticas da bandeira brasileira – “bandeira nacional”, de Achilles Vivacqua, e “bandeira”, de Eneida, escritora paraense – até poemas de temática regional nordestina – “Os ‘Baianos", de Fidelis Florêncio, e “Batalha”, de Franklin Nascimento, colaborador de Fortaleza –, antecipando alguns motivos da voga do romance nordestino da década seguinte, como a seca e a saga dos retirantes. 99 Vários poemas trabalham com a descrição de paisagens interioranas – enfatizando ora os aspectos naturais, ora os aspectos agro-pastoris de tais cenários –, levando às vezes o poema em direção à fabula (“Nocturno”, de Rogerio Picanço) ou do registro numérico pseudo-geográfico (“ca paraó”, de Valle Ferreira).100 Uma curiosa variação desta
97 “Mez de Maria” de Fidelis Florêncio em LEITE CRIÔLO Nº VII, 14 de julho de 1929; “Balada da
ternura” de Oswaldo Abrita em LEITE CRIÔLO Nº XII (13º), 25 de agosto de 1929; “armarinho” de Guilhermino Cesar em LEITE CRIÔLO Nº V, 30 de junho de 1929.
98 “A canção do meu sapo” de Francisco L. Martins Filho em LEITE CRIÔLO Nº I, 2 de junho de 1929;
“Pedra Menina” de Fonte Bôa em LEITE CRIÔLO Nº III, 16 de junho de 1929.
99 “bandeira nacional” de Achilles Vivacqua em LEITE CRIÔLO Nº VII, 14 de julho de 1929;
“bandeira” de Eneida em LEITE CRIÔLO Nº XII (13º), 7 de julho de 1929; “Os ‘Baianos" de Fidelis Florêncio em LEITE CRIÔLO Nº I, 2 de junho de 1929; “Batalha” de Franklin Nascimento em LEITE CRIÔLO Nº VII, 7 de julho de 1929.
100 “ca paraó” de Valle Ferreira em LEITE CRIÔLO Nº V, 30 de junho de 1929; “bucolica" de Odorico
Costa, de Uberaba, em LEITE CRIÔLO Nº VIII, 21 de julho de 1929; “Minas” de Rosário Fusco, ligado à revista Verde, em LEITE CRIÔLO Nº IX, 28 de julho de 1929; “Bois de Carro” e “A Catita” de Fidelis Florencio em LEITE CRIÔLO Nº X(11º), 11 de agosto de 1929; “Paraná” de Francisco L. Martins Filho em LEITE CRIÔLO Nº XIII(14°), 1° de setembro de 1929.
categoria poderia ser denominada – tomando de empréstimo o título da série de poemas de Achilles Vivacqua que começou a ser publicada na revista Verde e teve sua continuação em leite criôlo – de poemas de Belo Horizonte. Neles a paisagem urbana da capital mineira de então é descrita não no diapasão da metrópole moderna do progresso e da técnica – o imaginário urbano que entusiasmara o modernismo paulista nos seus primeiros momentos – mas na feição interiorana do seu ambiente, descrito em termos de clima, de natureza e de hábitos tradicionais. Nos poemas da série citada de Vivacqua, “paisagem n. 4” e “paisagem n. 5”, a “paisagem não tem graça” apesar do “morro coberto de arvores bonitas”, no primeiro, e, no segundo, “no largo da egreja / o filho do JUIZ-DE-PAZ / apascenta sete cabras magras...”. A mesma leitura da cidade, à qual ainda era referida constantemente em termos de “cidade-jardim”, se faz presente nos poemas “vistas de Bello Horizonte: Estrada de Ferro” de Valle Ferreira, que se refere à “Estação sem prática da vida”, e “o sol na prosa” de Fonte Bôa, que tem por temática o clima da capital. 101
A vertente mais humorística e satírica do modernismo se faz presente em poemas como “Neurastenia Clerical”, “Reclame para o Grande Hotel”, “Versos do Coletor Estadoal de Briquites” e “Orador de Mitingue”, assinados por Fidelis Florêncio – sátiras religiosa, de costumes e políticas, respectivamente – e “o papagaio do palácio”, de Jacob Pim-pim, também de vertente política. 102 Alguns poemas trabalham a própria temática sentimental com pitadas de coloquialidade e certa malícia. Em “Artistas Bonitas de Cinema”, de Carlos Drummond de Andrade, e “lundu de Coolen Moore”, de Luis da Câmara Cascudo, a interlocutora do eu-lírico é comparada a atrizes do cinema
101 “paisagem n. 4” e “paisagem n. 5” de Achilles Vivacqua em LEITE CRIÔLO Nº VIII, 21 de julho de
1929; “vistas de Bello Horizonte: Estrada de Ferro” de Valle Ferreira em LEITE CRIÔLO Nº VIII, 21 de julho de 1929; “o sol na prosa” de Fonte Bôa em LEITE CRIÔLO Nº VI, 7 de julho de 1929.
102 “Neurastenia Clerical”, “Reclame para o Grande Hotel”, “Versos do Coletor Estadoal de Briquites” de
Fidelis Florêncio em LEITE CRIÔLO Nº II, 9 de junho de 1929; “o papagaio do palácio” de Jacob Pim- pim em LEITE CRIÔLO Nº IX, 21 de julho de 1929.
internacional e, no fim, exaltada por ser “brasileirinha até debaixo d’água”, no primeiro, e no segundo porque seus olhos não são “olhos de americana”. No poema de Câmara Cascudo aparece um refrão – a interpelação “Meu bem” – também utilizado nos poemas “Offerecimento”, de Francisco L. Martins, no qual a interlocução amorosa se dá com uma tuberculosa, e “pra você...”, de João Dornas Filho, no qual é ressaltado o “sabor brasileiro” do “cangote cheiroso, moreno, gostoso” da interlocutora. O refrão “Meu bem” tem por equivalente “Mulher” no poema “Desejo Lyrico”, de João Alphonsus, com resultados bastante parecidos. Neste poema o eu-lírico antecipa a resposta da sua interlocutora nos seguintes termos: “Tu então dirás: tá bão”, em mais um exemplo da preocupação de integrar o tema sentimental e amoroso com as formas coloquiais e as alusões nativistas do modernismo. 103
Também aparecem no suplemento poemas nos quais a temática amorosa- sentimental, das mais tradicionais para a feitura de versos, é tratada de maneira mais convencional, em alguns deles são inclusive rimados de maneira não muito distante da ortodoxa. 104 É através de poemas deste tipo – secundário no corpus da publicação mineira – que se dá a colaboração de duas das quatro mulheres cuja produção aparece em leite criôlo: Carmem Corrêa de Mello e Mieta Santiago. A última delas, que chegou a publicar dois poemas no suplemento, era também uma conhecida sufragete mineira, sendo a primeira aluna da Faculdade de Direito e a primeira eleitora registrada do estado de Minas Gerais, e publicava com certa regularidade, na imprensa de Belo Horizonte, poemas de um modernismo mais discreto do que o que prevalecia na rede nacional modernista de então. Tais presenças femininas provam, ao contrário, a esmagadora
103 “Artistas Bonitas de Cinema”, de Carlos Drummond de Andrade em LEITE CRIÔLO Nº II, 9 de
junho de 1929; “lundu de Coolen Moore”, de Luis da Câmara Cascudo em LEITE CRIÔLO Nº XI (12º), 28 de julho de 1929; “Offerecimento”, de Francisco L. Martins em LEITE CRIÔLO Nº III, 16 de junho de 1929; “pra você...”, de João Dornas Filho em LEITE CRIÔLO Nº IX(10º), 4 de junho de 1929; “Desejo Lyrico”, de João Alphonsus em LEITE CRIÔLO (Tablóide), 13 de julho de 1929.
104 “Canção do Só”, de José Guimarães Alves em LEITE CRIÔLO Nº I, 2 de junho de 1929; “Sonata de
noite e de dia”, de José Guimarães Alves em LEITE CRIÔLO Nº XIII (15º), 8 de setembro de 1929; “inquietação”, de Rogerio Picanço em LEITE CRIÔLO Nº XIV(16º), 15 de setembro de 1929.
presença de escritores homens, não apenas em leite criôlo, mas no modernismo brasileiro como um todo naquele momento. 105
Para encerrar este mapeamento dos afluentes principais do “Amazonas da poesia” de leite criôlo, cabe lembrar que a articulação da diversidade dos poemas aqui analisados – a qual se deve somar a diversidade daqueles vários que não integram as séries que discutimos – não se dá fundamentalmente em torno do programa “criolista” e sim das tendências e ressonâncias da rede modernista nacional no âmbito da produção de versos. No entanto, o relativo isolamento da produção em versos das temáticas centrais da publicação – símbolo do ecletismo modernista que leite criôlo herda da revista Verde e da primeira dentição da Revista de Antropofagia – não se repete nos outros gêneros literários. Nesses, o ideário “criolista” se faz presente de maneira mais intensa e, em alguns momentos, tenciona os limites entre a prosa de ficção e o artigo opinativo.
A pross sslvsdors
Ilhada entre o mosaico dos poemas e o conteúdo programático dos artigos, a prosa de ficção ocupa um lugar incerto na publicação mineira. No contexto de leite