3 MATERIAL AND METHODS
6.1 M ETHODOLOGICAL ISSUES
e em leite criôlo.
Pauí-Pódole teve dó de Macunaíma. Fez uma feitiçaria. Agarrou três pauzinhos jogou pro alto fez encruzilhada e virou Macunaíma com todo o estenderete dele, galo galinha gaiola revólver relógio, numa constelação nova.
- “Macunaíma” de Mário de Andrade (1977, p. 221)
Com o objetivo de investigar a circulação e a variação de um certo imaginário da nacionalidade no interior do que denominamos rede modernista nacional, trata-se aqui de estabelecer relações no interior de um corpus bastante heterogêneo de conjuntos textuais: Macunaíma, rapsódia de Mário de Andrade; Retrato do Brasil, ensaio de Paulo Prado; a Revista de Antropofagia, em especial a fase identificada com Oswald de Andrade e seus colaboradores mais próximos; e, por fim, leite criôlo.
À primeira vista, a análise comparativa pode parecer despropositada126: a recepção destes objetos culturais ao longo do tempo acabou por impor um abismo entre eles. A saga do “herói sem nenhum caráter” de Mário de Andrade – cuja primeira edição de tiragem reduzida e custeada pelo autor seria secundada somente nove anos depois – há muito se tornou um clássico da literatura nacional, obra-prima inconteste, emblema do modernismo e objeto de inúmeros estudos e releituras. Como vimos, sua presença na
126 O que não significa que seja inédita: apenas a relação de leite criôlo com os outros conjuntos textuais é
em grande parte nova. É necessário lembrar, no entanto, que Antônio Sérgio Bueno (1982, p. 119; 128; 165-177) já havia mencionado certo vínculo entre o criolismo e o “ensaio sobre a tristeza brasileira”, apontado a presença do lema do “herói sem nenhum caráter” no tablóide e discutido as possíveis relações da publicação com a Antropofagia. A relação entre Macunaíma e Antropofagia, como veremos, tem sido um tópico relativamente constante de discussão. O vínculo entre Retrato do Brasil e Macunaíma tem sido muitas vezes apontado, porém pouco explorado. Anderson Pires da Silva (2009, p.50-59), chega perto de uma análise cruzada dos três conjuntos textuais paulistas, mas em sentido bastante diferente do desenvolvido aqui.
cultura brasileira, para além do campo estritamente literário, se fez até sob a forma de enredo de escola-de-samba, defendido pela Portela em 1974. (SANTIAGO, 1988).
Já a trajetória da recepção do “ensaio sobre a tristeza brasileira”, de Paulo Prado, se dá em sentido inverso: de novembro de 1928 ao ano de 1931, o livro teve quadro edições, sendo duas delas em 1929, lançando a moda dos “ensaios sobre o Brasil”. Gerou também naquele momento um enorme debate através da imprensa e foi escolhido pelo Departamento Nacional de Ensino para ser traduzido em projeto da Liga das Nações. (CALIL, 1997). Hoje, no entanto, é considerado principalmente um exemplo do que se convencionou chamar de “pensamento social brasileiro” da Primeira República, não tendo atingido o status de clássico constantemente revisitado de herdeiros seus, como Casa grande & senzala, também “best-seller” na ocasião do seu lançamento, e Raízes do Brasil.
Os outros dois conjuntos textuais em questão trazem as marcas dos periódicos literários: o caráter efêmero e imediato, a autoria coletiva, a textualidade fracionada. Apesar disto, a Revista de Antropofagia – tanto na sua primeira fase de publicação avulsa e relativamente conciliadora, quanto na seguinte no Diário de São Paulo e marcada pelo radicalismo das propostas oswaldianas – acabou se tornando um foco de memória cultural do modernismo, ainda que secundário em relação à obra literária em livro de Oswald e ao seu Manifesto Antropófago. Neste processo foi fundamental a reedição em fac-símile de 1975, publicada pelo bibliófilo José Mindlin, em edição conjunta da sua empresa Metal Leve com a editora Abril, estabelecendo certa perenidade e acessibilidade para este corpus até então raro e desconhecido. O mesmo tratamento receberam, na sequência, outras publicações modernistas como Verde e A
primeiro capítulo, nas últimas décadas o periódico tende a ser considerado apenas uma estranha nota-de-rodapé da história do modernismo mineiro.
No momento de sua primeira circulação, porém, fazia todo sentido a apreensão simultânea destes objetos. Todos foram publicados em um período de apenas um ano e três meses127 e por pessoas e grupos solidamente integrados na rede modernista nacional. Usando a imagem recorrente em Macunaíma dos seres terrenos que acabam por se tornar estrelas, o que nos interessa aqui é buscar o intercâmbio que se dá antes da ascensão destes conjuntos textuais ao firmamento da memória cultural, integrados nas distintas constelações que tentamos esboçar até agora.
Não se trata de uma busca de fontes e origens, que teria por fim uma quimérica fixação de sentidos únicos e “verdadeiros”, ignorando a polissemia e a produtividade dos textos. O que pretendemos é, inversamente, mapear as re-apropriações e re- significações de determinados temas, símbolos, imagens e procedimentos textuais, identificando espaços de diálogo, aproximações e afastamentos.
Para tanto, não nos restringimos ao corpus estrito destes conjuntos textuais, utilizando também o conjunto de para-textos (cartas, prefácios, resenhas etc.), assim como interpretações posteriores. O que tentamos relacionar não são apenas obras específicas, nem mesmo autores, mas posições no interior do campo literário.Isto se torna necessário inclusive porque lidamos com conjuntos textuais de autoria múltipla e embaralhada pela multiplicação de pseudônimos: no primeiro caso se enquadram ambos os periódicos e, no segundo, especialmente a Revista de Antropofagia. No entanto, nestas publicações são identificáveis, em meio ao mosaico das contribuições, núcleos
127 O primeiro número da Revista de Antropofagia, que inclui o Manifesto Antropófago, sai em maio de
1928, logo secundado por Macunaíma, em julho do mesmo ano que ainda veria, em novembro, o lançamento do ensaio de Paulo Prado. O décimo e último número da primeira “dentição” da Revista de Antropofagia data de fevereiro de 1929, a segunda “dentição” estréia no Diário de São Paulo dia 17 de março do mesmo ano. Seriam 15 números da fase radical do periódico, o último datando de primeiro de agosto. Desta forma a publicação paulista saiu durante algum tempo paralelamente a leite criôlo, cuja primeira edição avulsa circulou dia 13 de maio, seguida de 18 edições do Estado de Minas entre 2 de junho e 29 de setembro de 1929.
bastante homogêneos nas suas tomadas de posição literárias, identificados geralmente com o grupo que dirige cada uma delas. Não pretendemos negligenciar as outras posições que aparecem nestas publicações. No caso do periódico paulista, inclusive, iremos trabalhar com as linhas não-ortodoxas do projeto antropófago. Mas, salvo sinalização em contrário, quando mencionamos, por exemplo, a Revista de
Antropofagia, nos referimos aos colaboradores mais próximos às propostas oswaldianas.
Estabelecida a visada diacrônica, não se elimina, porém, a heterogeneidade dos conjuntos textuais propostos. Como comparar a prosa de ficção de Mário de Andrade ao ensaismo histórico-político de Paulo Prado, tendo por pontos médios duas publicações nas quais aparecem lado-a-lado textos programáticos, prosa de ficção e poemas?
Antes de mais nada, cabe ressaltar que a literatura estrito senso e as formas de pensamento político e programático que aqui nos interessam não estavam naquele momento tão distantes entre si. É preciso lembrar que, no momento posterior à primeira investida cultural da geração modernista e anterior ao estabelecimento das universidades, reina entre os jovens intelectuais a desconfiança em relação à produção institucional do conhecimento e da ciência como um todo, expressões de um “anti- bacharelismo” e de um “anti-positivismo” de múltiplas faces que caracterizam a produção da geração modernista nos anos 1920-30. A ausência de especialização do conhecimento, produto de um meio no qual os cursos superiores de Direito e Medicina reinavam absolutos, resulta que os praticantes do gênero que hoje é chamado de “pensamento social” poderiam se conceber e ser recebidos pelos seus leitores como literatos e não como cientistas sociais. Exemplo desta situação é o fato de o estilo literário de Retrato do Brasil ser frequentemente evocado então pelos autores que discutem a validade do ensaio. A proximidade com a literatura estrito senso também se
reflete na multiplicação de procedimentos textuais caros à ficção e à poesia (metáforas, imagens, refrões etc.) no ensaio de Paulo Prado e mais ainda nos textos programáticos de leite criôlo e da Revista de Antropofagia, apesar do caráter explicitamente político de muitas das afirmações.
Por outro lado, um dos aspectos da obra literária apreciada pela crítica no período é a capacidade de um autor de “fixar um tipo”, como o Jeca Tatu de Monteiro Lobato, cuja criação foi louvada por Oswald de Andrade em texto de 1923 (apud DE LUCA, 1999, p. 215). Sobre os “Poemas da Colonização”, seção do livro Pau Brasil do mesmo Oswald, por exemplo, escreveria Drummond em 1925 que “fixam admiravelmente o negro, o soldado, o capoeira” (apud BATISTA, 1972, p. 239). Mistura de criação literária com observação pseudo-sociológica, o “fixar um tipo” exprime o lugar central da literatura na compreensão da realidade social pela intelectualidade da época.
Obviamente as proximidades observadas não justificam o apagamento das fronteiras entra os diferentes gêneros e formas textuais, que precisam ser observados nas suas especificidades. É possível localizar no ensaio de Paulo Prado e na face programática do periódico “criolista” os eixos do diagnóstico e da terapêutica identificada por Benedito Nunes (1970, p. 25) na Antropofagia, ainda que com conteúdos diferentes. Já em Macunaíma só se encontraria, segundo a metáfora também médica de Mário de Andrade em um dos prefácios não publicados da rapsódia, um “sintoma de cultura nacional” (apud BATISTA, 1972, p. 291). Sintoma este capaz de compor diagnósticos muito diferentes, como veremos adiante.
Exposto o argumento de fundo, segue agora a análise combinatória dos elementos propostos, começando pelos mais conhecidos e terminando pelas articulações destes com leite criôlo.
O provável evsngelho ds sntropofsgis
Os possíveis vínculos entre o ideário oswaldiano da Antropofagia e a rapsódia de Mário de Andrade têm sido explorados pela crítica em mais de uma ocasião, tanto no sentido da confirmação (cf. CAMPOS, 1973, p. 3-16; SANTIAGO, 1988, p. 7-8; SOUZA, 1999, p. 36) quanto da refutação (cf. PROENÇA, 1974, p. 35; SOUZA, 1979, p. 97). Tal relação é também um dos focos do trabalho de Anderson Pires da Silva (2009) sobre os cruzamentos e oposições entre as obras e as recepções de Mário e Oswald.
Ainda em 1928, Alceu Amoroso Lima, conhecido então pelo pseudônimo Tristão de Athayde, falou da tendência de enxergar Macunaíma sob a luz da Antropofagia oswaldiana nos seguintes termos
Quando se anunciou Macunaíma acabava o xará Oswald de publicar o seu Manifesto Antropófago em que pregava a regeneração da literatura brasileira por um evangelho neo- indianista. O que logo ocorreu é que o livro do Sr. Mário de Andrade seria a primeira realização da nova escola indianista. Pois bem, a primeira retificação que nos permitem os prefácios inéditos, que tenho em mãos, é mostrar que Macunaíma é muito anterior ao último manifesto do Sr. Oswald de Andrade (...). (apud SANTIAGO, 1988, p. 7)
Como já haviam atentado Haroldo de Campos (1973) e Silviano Santiago (1988), o argumento cronológico não implica em refutação da conexão com o pensamento e a obra oswaldianos. Estes já se encaminhavam na direção de certos traços do ideário antropofágico pelo menos desde o Manifesto Pau Brasil e das Memórias sentimentais
de João Miramar, ambos de 1924. O próprio Mário havia reconhecido a influência de Oswald no capítulo “Carta pras Icamiabas” da rapsódia, em uma carta para Manuel Bandeira de 1927 (apud CAMPOS, 1964, p. 13). Além disso, mesmo sabendo da gênese autônoma e anterior de Macunaíma, Oswald de Andrade declara, em texto publicado ainda na primeira “dentição” da Revista de Antropofagia, que o livro de
Mário era “puramente antropofágico”, exercendo assim a máxima da “posse contra a propriedade”. 128
Mesmo a hostilidade estabelecida entre o grupo oswaldiano e Mário de Andrade, na altura da publicação da segunda dentição da Revista de Antropofagia no primeiro semestre de 1929, não se estendeu a Macunaíma. Em vários momentos o “órgão da antropofagia brasileira de letras” ataca Mário salvaguardando sua rapsódia. Exemplifica tal postura o artigo intitulado “Ortodoxia”, assinado com o pseudônimo Freuderico, no qual, após um ataque ao autor da Paulicéia desvairada, se afirma que “salva-o Macunaima. Provavel evangelho de que ele se nega a consciência. Porque?”. 129 Pouco tempo depois, em outro artigo, os antropófagos reivindicam novamente a rapsódia para si. 130
A marca da saga do “herói sem nenhum caráter” se faz presente na segunda “dentição” da publicação paulista também de formas mais sutis. Tendo Oswald, no artigo já citado da primeira “dentição”, declarado que Macunaíma era “a nossa Odyssea”, 131 sendo secundado na mesma opinião em um artigo da segunda “dentição” assinado com o pseudônimo Tamandaré, 132 é publicado na revista um trecho de prosa ficcional intitulado “introito da odisséazinha” que emula várias das características estilísticas mais marcantes do livro de Mário. 133 No texto não assinado “A anta morreu, viva o tamanduá”, a vitória do totem da Antropofagia sobre o do verdeamarelismo é descrita através de uma das imagens recorrentes da rapsódia: a anta vai descansar no céu, “ao lado de Tupana, entre Papá e Piá”. E o que torna o Tamanduá valoroso é
128 “Schema ao Tristão de Athayde” Revista de Antropofagia, 1ª Dentição Nº 5, Setembro de 1928, P. 3. 129 “Ortodoxia” Revista de Antropofagia, 2ª Dentição Nº 3.
130 “Moquém II – Hors d´ouvre” Revista de Antropofagia, 2ª Dentição Nº 5.
131 “Schema ao Tristão de Athayde” Revista de Antropofagia, 1ª Dentição Nº 5, Setembro de 1928, P. 3. 132 “Moquém II – Hors d´ouvre” Revista de Antropofagia, 2ª Dentição Nº 5.
133 “Introito da odisséazinha” por Pater (possivelmente pseudônimo de Júlio Paternostro, que publicou
vários outros textos no periódico) Revista de Antropofagia, 2ª Dentição Nº 10. Vale lembrar que a “Entrada de Macunaíma” havia sido publicada no segundo número da 1ª dentição.
exatamente se alimentar de formigas, insetos onipresentes em Macunaíma e que constituem um dos “males do Brasil” presentes no dístico do “Herói”. 134
No único momento em que a obra é utilizada para atacar Mário, parece prevalecer, em relação às afinidades desta com os ideais antropófagos, a disposição de substituir a política literária pela intriga literária. 135 Trata-se de um anúncio fictício do lançamento de uma suposta segunda edição de Macunaíma, descrito como “lendas indígenas com capa de Mário de Andrade”. 136 A menção ao caráter bricoleur da rapsódia, verdadeira estética do plágio que seria defendida como tal pelo autor em texto de 1931137, é curiosa – trata-se justamente de uma das características mais oswaldianas da obra.
Em Pau Brasil, livro de poemas de Oswald de Andrade de 1925, a seção intitulada “História do Brasil” é inteiramente composta de trechos de cronistas e viajantes que escreveram sobre o país entre os séculos XVI e XIX, recortados e intitulados pelo autor, que assim justapõe apenas a sua “capa” ao material preexistente. Haroldo de Campos (2000, p. 24-27), sempre atento às analogias da escrita de Oswald com as artes plásticas, comparou o procedimento utilizado aos “ready made” de Marcel Duchamp. 138
Talvez uma das razões do fascínio de Oswald e de seus comparsas antropófagos pela rapsódia de Mário fosse exatamente que esta trabalhava com o princípio antropofágico da apropriação de uma forma em grande medida distinta da poesia Pau Brasil: como pregava seu Manifesto, lhes interessaria exatamente o que não era deles.
134 “A anta morreu, viva o tamanduá” Revista de Antropofagia, 2ª Dentição Nº 10.
135 “Não fazemos politica literaria. Intriga, sim!” em “Ortodoxia” Revista de Antropofagia, 2ª Dentição Nº
3.
136 Revista de Antropofagia, 2ª Dentição Nº 10.
137 “A Raimundo Moraes” de Mário de em BATISTA, 1972, p. 295-297. Texto originalmente no jornal
Diário Nacional em 20 de setembro de 1931. Eneida Maria de Souza (1999, p. 32-49) tratou em profundidade da questão da reapropriação dos materiais em Macunaíma a partir do artigo citado.
138 Não encontramos nenhuma menção ao artista francês entre os modernistas brasileiros de então. Não é
impossível que Oswald tivesse conhecimento de Duchamp, dado que chegou a confraternizar com os surrealistas em Paris. O vínculo propriamente histórico entre a obra dos dois não necessita, no entanto, desta conjectura: ambas se vinculam ao aparecimento da técnica da colagem no âmbito do cubismo de antes da primeira guerra (cf. PERLOFF, 1993, p. 95-107; COTTINGTON, 1999, p. 69-76). Haroldo de Campos (1964, p. 41-43) menciona e discute a influência do cubismo na escrita oswaldiana.
Na proposta oswaldiana eram o recorte e a recontextualização – a exposição da literalidade da apropriação, análoga à colagem cubista e ao “ready made” duchampiano – que caracterizavam o trabalho textual com o material alheio. Já na escrita de Mário o material apropriado é continuamente entrelaçado e desenvolvido. Este tipo de construção, como muito propriamente argumentou Gilda de Mello e Souza (1979, p. 15- 21), pode ser pensado em analogia a certos procedimentos musicais como a suite e a
variação, utilizados na tradição musical ocidental exatamente no sentido de introduzir elementos populares em um contexto erudito. 139
No âmbito temático, a relação entre primitivismo e tecnologia era um ponto presente tanto em Macunaíma quantos nos textos dos antropófagos. Umas das propostas do Manifesto Antropófago era a simbiose da tecnologia mais avançada com a mentalidade primitiva, não-catequizada e não-reprimida. A “fixação do progresso” prescindiria da integração à civilização ocidental, “só a maquinaria” – “o necessário de química, de mecânica, de economia e de balística”, como já dizia o Manifesto Pau-
Brasil – seria suficiente para integrar o “homem natural” no presente e no futuro da humanidade.
O episódio do encontro de Macunaíma com as manifestações da “deusa Máquina” (ANDRADE, 1977, p. 51-53), se dá em condições semelhantes: ele não se intimida pela presença da tecnologia, incorporada de imediato à sua forma de pensar. O poder da técnica que o impressiona não implica em uma submissão, mas na tentativa de sua apropriação.
A sexualidade livre e exacerbada do “herói sem nenhum caráter” também parece, a princípio, indicar uma convergência com o ideário da antropofagia. Um texto da segunda dentição da Revista de Antropofagia, assinado pelo pseudônimo Japy-Mirim,
139 Denomina-se suíte a forma musical composta por um conjunto de danças estilizadas, ou seja,
compostas para serem ouvidas e não dançadas. Em música variação designa a técnica de composição que consiste em transformar um trecho musical preexistente.
defende, “contra a moral convencional, moral nenhuma”. 140 O Manifesto Antropófago já declarava que a roupa atrapalharia a verdade e se colocava contra a “realidade social, vestida e opressora”, assim como oposto à “Moral da Cegonha” (apud TELLES, 2005, p. 353-360). No âmbito da ficção, cabe lembrar que em Serafim Ponte Grande – romance-invenção de Oswald que, escrito de “1929 para trás”, seria lançado apenas em 1933 (ANDRADE, 1996) – a narrativa também se constrói em torno dos encontros amorosos e sexuais da personagem-título e do seu duplo, Pinto Calçudo.
Neste ponto, no entanto, é preciso abordar a questão dos modos de possível articulação entre uma narrativa ficcional e um conjunto de valores. Como vimos acima, os antropófagos viram em Macunaíma um possível evangelho. Ou seja, uma história de caráter exemplar, modelo.
O mesmo texto, porém, acusa Mário de recusar a consciência de tal evangelho. Tal recusa poderia estar vinculada à caracterização diversa que o autor da rapsódia propunha para a sua obra. Tanto em um dos prefácios não-publicados à obra (apud BATISTA, 1972, p. 293) quanto em carta a Carlos Drummond de Andrade (ANDRADE, 2002, p. 339), Macunaíma é definido como uma sátira. Assim, a questão da imoralidade – termo que já define uma diferença em relação às propostas antropófagas de uma amoralidade ou, talvez, de uma nova moralidade – na rapsódia de Mário é delimitada da seguinte forma em um dos prefácios:
[Um] problema do livro que careço explicar é da imoralidade. Palavra que seria falso concluir pela imoralidade e pela porcariada mesmo que está aqui dentro, que me comprazo com isso. Quando muito admito que concluam que me comprazo... com o brasileiro. Uma coisa fácil de constatar é a constância da porcariada e da imoralidade nas lendas de primitivos em geral e nos livros religiosos. Não só aceitei como acentuei isso. Não vou me desculpar falando que as flores do mal dão horror do mal não. Até que despertam a curiosidade... Minha intenção aí foi verificar, debicá-la numa caçoada complacente que a satiriza sem tomar um pitium [cheiro] moralista. (...) E resta a circunstância da falta de