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1   Introduction

1.8   S100A4: a metastasis-promoting protein

Chartier se revela muito preocupado com as conseqüências da tão falada crise da história; e não por acreditar de fato que haja uma crise, mas sim porque alguma das saídas encontradas para essa suposta crise o assusta. Sustenta essa preocupação – e eis aqui sua

segunda frente de combate – por no mínimo dois motivos principais: ou porque essa saída

epistemológica e de preocupação ético-política do trabalho histórico, ou porque ela busca um solo firme em que acreditar (a política, o sujeito) de forma pouco razoável. Eis aqui um possível paradoxo: como se precaver ao mesmo tempo de um relativismo excessivo e de uma volta a uma substância dura, a princípios políticos fortes que seriam como uma nova arquitetura da totalidade, sem com isso ficar imobilizado em um impasse? A resposta de Chartier é: se mantendo à beira da falésia; e isso, de uma maneira que pressupõe a preocupação e uma outra coisa que é articulada a esta.

Daí vem a importância da segunda parte, de como Chartier se oferece para nós. Ele não se apresenta tão-somente como um pensador preocupado, mas se apresenta igualmente como um pensador crítico. A crítica aqui é entendida como uma maneira de colocar questões e de levantar problemas ou de problematizar a nossa relação – e isso não só no âmbito epistemológico (esse de fato pode ser considerado o menos importante), todavia e principalmente, nos âmbitos político e ético – com o nosso presente. Logo – e aqui uma hipótese é lançada –, a maneira de se manter à beira da falésia é por meio de uma postura crítica e é só assim que se pode evitar cair nela. Contudo, o que se entende por uma postura crítica?

Antes mesmo de tentar desdobrar as questões que suscitam certa concepção de crítica, compete-me explicitar melhor o que significa o outro termo que é como a outra face dela: o que seria preocupar-se? O preocupar-se a que aludo não tem tanto uma densidade psicológica ou emotiva, já que a densidade aqui pensada é ético-política. Com isso quero dizer que a preocupação é apreendida nesse texto como um interesse pela sociedade em que vivemos, pelas relações que a permeiam, pelos sistemas pelos quais ela funciona e pelas redes de poderes que a envolvem, enfim, é um interesse pela nossa própria vida no sentido de que todos esses mecanismos a tramam e a constituem. Assim, o trabalho do pensador na forma de crítica é indicar e mostrar esse emaranhado histórico por vezes escondido e, dessa maneira, desmascarar certo jogo e permitir que se lute contra ele. A preocupação é entendida tanto como interesse – pelos problemas do presente – quanto como cuidado5 – para com nós mesmos e para com a sociedade em geral.

5 Ver que quem trabalhou de modo instigante a importância desse cuidado foi Hannah Arendt. A beleza da obra arendtiana tem que ver com esta preocupação exemplar com o mundo. Uma preocupação que não aceita deixar o mundo à deriva; nas mãos ou de cientistas ou de pensadores profissionais ou daqueles que não têm como preocupação o mundo. Estão implicados nessa preocupação os homens que não dissociam a atividade de pensar com o cuidado para com o mundo, quando, em situações-limite, segundo

Vê-se que não há como dissociar a preocupação, apreendida tal como apresentada acima, de uma crítica de nós mesmos e do nosso presente. Para Chartier, como historiador, interessar-se pelo que acontece consiste "na necessária articulação entre, de um lado, a descrição das percepções, das representações e das racionalidades dos atores e, de outro, a identificação das interdependências desconhecidas que, juntas, delimitam e informam suas estratégias", ou seja, significa mostrar que devemos superar "a oposição clássica entre as singularidades subjetivas e as determinações coletivas" (CHARTIER, À

beira da falésia, 2002: 10). Também, consiste em fundar a possibilidade de falar da

reconstrução válida e explicativa da realidade passada sem que se confunda história e ficção, ou seja, significa mostrar que deixar a história à deriva da ficção incontrolada é deveras perigoso; bem como consiste em um rigor consigo mesmo por meio das exigências que cabem ao historiador de hoje: "propor a inteligibilidade mais adequada possível de um objeto, de um corpus, de um problema" e "travar um diálogo com outros questionamentos" em que a disciplina histórica possa "inventar questões novas e forjar instrumentos de compreensão mais rigorosos" (Ibidem: 18).

Nesse sentido de criar um campo de questionamento compartilhado é que podemos entender a vinculação do trabalho de Chartier ao trabalho de Foucault. Nessa questão específica, da crítica e da preocupação, ocorre que os dois possuem uma abordagem muito explícita quanto à vinculação da análise da atualidade a uma postura em relação ao mundo. Na verdade apesar de parecerem tão-somente questões de âmbito disciplinar – do campo de formação de uma área –, essas três preocupações que elenquei acima de Chartier são antes de tudo inquietações ético-políticas. Logo, inquietar-se com uma concepção de normatização totalitária e sem linhas de fuga possíveis – um poder onipresente e onisciente – é cuidar para que fiquem resguardadas possibilidades para o sujeito escapar cotidianamente das amarras das relações de dominação. Como também inquietar-se com o uso descontrolado da categoria de ficção para falar sobre a história é resguardar as histórias efetivas das histórias virtuais. Dito de outra forma, é evitar que qualquer coisa possa ser dita para salvaguardar posições de certos grupos identitários,

Arendt, o ator e o espectador – que cada um leva potencialmente em si – dão-se as mãos para desobedecer e resistir em nome dos destinos do mundo e do próprio espectador que está nessa relação do pensar. Toda essa problemática está diluída no pensamento arendtiano, contudo posso indicar Lições sobre

a Filosofia Política de Kant como um lugar em que essas preocupações são desenvolvidas nesse horizonte de

limitando assim o campo do dizível por um desvelo para que certas lembranças fictícias não encontrem eco no campo da autoridade histórica. Assim como inquietar-se com a possível falta de rigor do historiador é, na verdade, insistir que este tem uma responsabilidade que ultrapassa o mundo acadêmico e que entre suas responsabilidades está a de problematizar o mundo em que vive por meio da afirmação crítica – respaldada na preocupação com o mundo e com a severidade para consigo – da própria contingência da história.

Assumir uma postura crítica é se resguardar contra a súbita vontade de se jogar da falésia ou contra a vontade de se manter em terra firme e segura. Entretanto, para isso é necessário resguardar os dois sentidos de crítica: tanto como diagnóstico quanto como relação entre limite e transgressão.6 O diagnóstico diz respeito a um olhar histórico sobre o nosso tempo, uma visada que tenta problematizar algo que parecia natural, e que, no entanto, está sendo testado em seus limites por acontecimentos do presente. Como a nossa relação com o texto, com a leitura, e sua contestação por novas formas de ler possibilitadas pelas mídias virtuais.7

Já a relação entre limite e transgressão diz respeito à forma como o diagnóstico – ao apresentar os limites que nos prendem ao passado – pode permitir que se efetue uma transgressão de uma experiência, que novas possibilidades surjam daí livres dos arcaísmos que as prendem.8 Como a possibilidade de outras

6 Ver que esses desenvolvimentos em relação à crítica e à preocupação, em relação ao limite e a transgressão, são inspirados no ótimo livro de Paulo Vaz: Um pensamento infame – história e liberdade em Michel

Foucault, que me foi indicado pelo Prof. Dr. José Otávio Nogueira Guimarães. Este professor orientou-me

em minha monografia e a ele devo academicamente muito, tendo, ademais, despertado minha fascinação por Foucault.

7 Me refiro à vários dos textos mais recentes de Chartier, como A aventura do livro: do leitor ao navegador, ou ainda, em Os desafios da escrita, em que ele se interessou sobre as novas possibilidades de leituras virtuais, de leituras digitais.

8 Ver que em um texto bastante anterior publicado em 1963 e em uma linguagem mais literária e tradicionalmente filosófica na França, Foucault formula essa problemática (desculpem-me as longas citações nesta nota, mas achei esta particularmente esclarecedora da questão do diagnóstico e da transgressão): ―a transgressão é um gesto relativo ao limite; e aí, na tênue espessura da linha, que se manifesta o fulgor de sua passagem, mas talvez também sua trajetória na totalidade‖, o que significa que ―o limite e a transgressão devem um ao outro a densidade do seu ser‖ e que ―o jogo dos limites e das transgressões pareci ser regido por uma obstinação simples: a transgressão transpõe e não cessa de recomeçar a transpor uma linha que, atrás dela, imediatamente se fecha de novo em um movimento de tênue memória, recuando novamente para o horizonte do intransponível‖. Problema que se desdobra em algumas questões: ―mas terá o limite uma existência verdadeira fora do gesto que gloriosamente o atravessa e o nega? O que seria ele depois e o que poderia ter sido antes? E a transgressão não se esgota no momento em que transpõe o limite, não permanecendo em nenhum lugar a não ser nesse ponto do tempo? Ora, esse ponto, esse estranho cruzamento de seres que fora dele não existem, mas que transformam nele totalmente o que eles são, não será ele também tudo o que, de todos os lados, o ultrapassa?‖ (FOUCAULT, ―Prefácio a transgressão‖, 2001/1963: 32). Nessa relação, segundo o pensador,

maneiras de ler e novas maneiras de se relacionar com os textos – uma textualidade eletrônica – que não passem obrigatoriamente pelo tipo de leitura que se faz usualmente.

Onde esses desenvolvimentos me levam? Eu diria que quando apresentei no capítulo anterior algumas pinceladas sobre o emaranhado: lutas de representações (desenvolvimentos sobre as relações de poder), corpos beligerantes (experiências corporais de resistência), espaços de práticas culturais e um tipo de história que nelas intervém e a qual eu designei de genealogia rizomática, uma das coisas que pretendi foi montar um quadro referencial no qual poderiam mover as apropriações de Foucault pelos historiadores especificados. Por certo se pode perguntar então: o que tem que ver aquilo com essas outras pinceladas, dessa feita, sobre o pensamento crítico e preocupado em Chartier, posto em relação com os problemas da liberdade (determinações coletivas e linhas de fugas individuais), do estatuto da história e do relativismo? Responderei da seguinte maneira: tudo.

Quando Chartier se preocupa, imbuído do pensamento de Certeau, de dizer que no espaço da cotidianidade existem transgressões a todo o momento à normatividade imposta pelos espaços culturais, não seria sobre o corpo lutando no espaço das representações aquilo de que ele fala? Quando se preocupa em dizer que a história tem

―a transgressão leva o limite até o limite do seu ser: ela o conduz a atentar para sua desaparição iminente, a se reencontrar naquilo que ela exclui (mais exatamente talvez a se reconhecer aí pela primeira vez), a sentir sua verdadeira positividade no movimento de sua perda‖, no entanto, a transgressão não está em uma relação binária com o limite, ela é mais ―como o relâmpago na noite que, desde tempos imemoriais, oferece um ser denso e negro ao que ela nega, o ilumina de dentro e de alto a baixo, deve-lhe entretanto sua viva claridade, sua singularidade dilacerante e ereta, perde-se no espaço que ela assinala com sua soberania e por fim se cala, tendo dado um nome ao obscuro‖. A transgressão então como o que ―afirma o ser limitado, afirma o ilimitado no qual ela se lança, abrindo-o pela primeira vez a existência‖; como a afirmação da divisão, desde que se alivie essa palavra de ―tudo o que pode lembrar o gesto de corte, ou o estabelecimento de uma separação ou a medida de um afastamento, e lhe deixar apenas o que nela pode designar o ser da diferença‖ (Ibidem: 33). As passagens que eu destaquei soam reveladoras para quem se apropria de Foucault com um olhar nas relações entre continuidades e descontinuidades, entre práticas de dominação e de resistência. Obviamente, eu não poderia dizer que existe uma linha contínua entre esses desenvolvimentos e aqueles que eu destaco, principalmente, na década de 70, mas bem que poderíamos ficar atentos a eles para pensarmos Foucault. Afinal, é interessante ver o que segundo esse mesmo artigo ressôo em textos mais tardios e aqui eu destaco o que poderia ser um dos aspectos importantes do entendimento de resistência como intervenção (como ato de resistir): ―a contestação não é o esforço do pensamento para negar existências ou valores, é o gesto que reconduz cada um deles aos seus limites, e por aí ao Limite no qual se cumpre a decisão ontológica: contestar é ir até o núcleo vazio no qual o ser atinge seu limite e no qual o limite define o ser‖ (Ibidem: 34). A transgressão está ligada, desde já, a uma singularidade pura. Está singularidade que Foucault encontrará, quando sua análise histórico-filosófica estiver atuando ainda mais refinada na década de 70, sempre como o corte, a ruptura, a descrição pura; e da qual ele recusa, sempre, analisar por meio de universais que encarnariam ou se individualizariam em dado momento.

que manter o espaço de dissociação com a literatura, não estaria aí designado, sem por isso ser nomeado, o problema da possibilidade de outra história que, sem ser relativista, não poderia ainda ser realista no sentido banal do termo, e que, por isso, poderíamos chamar de construtivista? Uma construção que não é necessariamente ficcional no sentido, aqui também, banal do termo, pois é atrelada ao real de pelo menos duas maneiras: uma como peça e mecanismo de seu funcionamento e outra como intervenção mesma nessa realidade. Eu considero ainda outro aspecto para estabelecer as relações acima: uma história que é uma genealogia rizomática é uma história preocupada e crítica, tal como pretendo mostrar. Assim entendendo esse tipo de história, gostaria de apontar que essas duas noções – preocupação e crítica – são essenciais ao trabalho de Foucault e, igualmente, ao

pensamento extraído das relações Chartier/Foucault.

Como disse na introdução, eu trabalho com retalhos (a própria genealogia pode ser entendida como uma costura); assim sendo, gostaria de evidenciar algumas passagens em que poderíamos encontrar desenvolvimentos sobre o cuidado e a preocupação em Foucault. Isso nos permitiria entender melhor essas noções e concomitantemente perceber como elas foram apropriadas no trabalho de Chartier. É que só por meio dessa cata

dos indícios podem-se estabelecer pistas para a investigação das duas conexões que pretendo apontar: aquela que conecta as preocupações epistemológicas e metodológicas às apropriações dos autores, na construção de uma representação da história e aquela que conecta essas mesmas preocupações àquelas de ordem ético-política, no trabalho do pesquisador.

A idéia de crítica, pelo menos desde a década de sessenta, já era muito importante para Foucault, que, à época, entendia a filosofia que fazia como diagnóstico do pensamento. Isso o aproxima de alguns daqueles que no mesmo período também empreendiam análises sob a égide da crítica, os chamados de estruturalistas. Foucault, sem dúvida, se aproximou dessa corrente singularmente francesa do pensamento e, de fato, entendia o estruturalismo como um método crítico de análise que permitia uma leitura, uma constituição de relações, um estabelecimento de uma rede geral de elementos, que se preocuparia com o rigor e com o diagnóstico do atual. De certa forma então ele se inscreve nesse projeto.9 No entanto, perguntar ainda se Foucault foi ou não estruturalista

9 Referência aos vários textos que datam de 1966 e 1967, em que Foucault inscreve seu projeto em uma problemática comum ao estruturalismo.

e qual, caso houve, foi o seu momento de ruptura com esse movimento não me parece muito proveitoso para os meus propósitos. Cabe ressaltar, entretanto, que em Foucault – diferentemente do que é considerada uma linha de procedimento padrão na análise estrutural, ou seja, seguir os processos contínuos – um problema aparece com uma

descontinuidade. A descontinuidade em Foucault está intimamente ligada a uma

problematização do que é. É a partir do diagnóstico de uma ruptura – que não passa de um fato de constatação histórica – que um problema aparece.10

Nesse sentido está mais próximo de Nietzsche do que do estruturalismo, pois Foucault parte de um problema que diz respeito aos indivíduos na atualidade, um problema que aparece ao se constatar uma descontinuidade e que, por isso, está ligado a uma apreciação de nossa atualidade por meio da história. Uma história a golpes de machado, uma história inquieta, sem que por isso deixe de estar ligada a um rigor de método. Aquele que é considerado seu grande livro de método e do qual ele recusa esse epíteto em escritos da década de 70 – Arqueologia do saber – é ao mesmo tempo um tratado ético-político.

Exponho-me a desfazer e recompor esse lugar que me indica as balizas primeiras do meu discurso; tento dissociar dele as coordenadas visíveis e sacudir sua imobilidade de superfície; arrisco a suscitar a cada instante, sob cada uma das minhas proposições, a questão de saber onde ela pode nascer: pois tudo isso que digo poderia ter como efeito deslocar o lugar de onde eu o digo. Embora aí esteja a questão: de onde você pretende falar, você que quer descrever - de tão alto e de tão longe - os discursos dos outros? Responderei somente: eu acreditava que falava do mesmo lugar que esses discursos e que, definindo seu espaço, eu situaria minha intenção; mas devo agora reconhecê-lo: de onde mostrei que eles falavam sem dizê-lo, eu mesmo só posso falar a partir dessa diferença, dessa ínfima descontinuidade deixada, já detrás dele, por meu discurso (FOUCAULT, Arqueologia do saber, 2005/1969: 96-97).

10 Ver que o projeto arqueológico em Foucault tem na descontinuidade um dos elementos fundamentais para a análise histórica. Noção que tem uma tríplice função: 1) constituir uma operação deliberada do historiador, que deve distinguir os níveis possíveis de análise e fixar as periodizações que lhe convêm; 2) ser um conceito que a investigação especifica como instrumento e objeto de pesquisa; 3) funcionar como pressuposto da pesquisa, pois como se pergunta Foucault a propósito do historiador: ―donde poderia falar, de fato, senão a partir da ruptura que lhe oferece como objeto a história – e a sua própria história?‖ (FOUCAULT, ―Sobre a Arqueologia das Ciências. Resposta ao Círculo de Epistemologia‖, 2005/1968: 85).

Com isso quero dizer que não se pode, sem alijá-lo, desvencilhar todos os rigores epistemológicos desse livro dos desdobramentos ético-políticos que inquietavam o pensador. Inquietações que ele pôde desenvolver – para além do fato de que sua produção do início dos anos 60 se inscreve em reflexões sobre aquilo que a sociedade marginaliza, tais como os loucos e os doentes – por meio do seu trabalho em outros países: uma democracia de bem-estar social exemplar na Suécia, bem como uma repressão social na Polônia. Livro publicado em 1969 que, mesmo não podendo ser entendido como uma linha direta dos desdobramentos de maio de 68 e dos acontecimentos no leste europeu, pois afinal ele tinha sido escrito antes, não deixa de ser uma tentativa de refletir sobre o estatuto ético-político do saber ao colocar em perspectiva a sua história. Aliás, sempre se constata que após maio de 68 o trabalho de Foucault modificou-se, politizou- se. Leitura possível, mas desde que se faça uma ressalva que Didier Eribon – um leitor atento de Foucault – viu bem: Foucault recusa que suas pesquisas seriam inspiradas pela política, pelo contrário, elas seriam perguntas à política, interrogações das suas categorias estabelecidas e visando ampliar a própria definição de política. Inquirido, numa entrevista em 68, sobre as relações entre seu pensamento e a prática política, responde: ―Uma política progressista é uma política que reconhece as condições históricas e as regras