4. STRAFFBARHETSVILKÅRENE
4.5 S KYLD
Historicamente o riso nem sempre se enquadrou como uma atividade valorizada pela sociedade. Sabemos, por exemplo, que ele já foi visto como algo a ser evitado ou até mesmo como algo condenável, pertencente à esfera do pecado. Firmou-se inclusive uma relação direta entre o riso e o diabo, como figura escarnecedora dos puros, dos santos e dos sérios. Riam os desviados, os embriagados, aqueles que não usavam plenamente da iluminação divina e se prendiam aos prazeres da carne. Rir era definitivamente um prazer promíscuo ao qual não se devia ceder. Não raro cobria-se a boca quando um sorriso aflorava para que não se sofresse represálias. A figura de Jesus, por exemplo, não era representada com o semblante ridente, nem alegre. Ele era o servo sofredor e essa imagem contemplativa, sem emoções, tornou-se um modelo a ser seguido. A resignação cristã perante as cruzes da vida passava definitivamente pelo castigo do corpo. E a prática do sorriso entrava na lista de prazeres aos quais não se devia ceder479.
Zaratustra, o anti-cristão, pretende, entre outras coisas, realocar o riso entre as coisas mais dadivosas que o corpo pode fazer. Alegrar-se não é condenável, pois ainda há muito o que celebrar na vida. Não é condenável também porque o riso é uma das habilidades humanas e como tal pode ser explorado em suas múltiplas possibilidades. Não há pecado em estar alegre. A energia que se gasta, por exemplo, em preocupar-se com o bem alheio ou com o festejo de outrem poderia muito bem ser redirecionada para se ocupar-se de si, para celebrar a própria existência. É nossa falha, porém, discriminar a alegria.“Desde que existem homens, o homem se alegrou muito pouco: apenas isso, meus irmãos, é nosso pecado original! Se aprendemos a nos alegrar melhor, melhor desaprendemos de causar dor nos outros e planejar dores.”480
Zaratustra pretende dar novamente aos sérios a “permissão” de rir, abrir a eles as portas da leveza de viver. Porém, para isso, é preciso que eles estejam dispostos a isso,
478NIETZSCHE, Z, Terceira parte, Antes do nascer do sol, 2014, p.156. 479Cf. MINOIS, 2003, pp. 111-141
recebam do profeta o riso como dádiva, como um coroamento da celebração da vida, que não exige mais peso, resistência, frieza. Assim diz:
Então aprendei a rir indo além de vós mesmos! Erguei vossos corações, ó bons dançarinos! Mais alto! E não esqueçais o bom riso tampouco!
Esta coroa do homem que ri, esta coroa de rosas: a vós irmãos, arremesso esta coroa! Declarei santo o riso; ó homens superiores, aprendei a – rir!481
Zaratustra devolve a sacralidade ao riso quando o oferece gratuitamente aos homens. O Deus judaico-cristão está morto e não faz mais sentido ceder àquelas velhas orientações inspiradas por devoção a ele. Na verdade, a base religiosa ocidental toda cedeu e poucos perceberam que ainda se penduram em fragmentos da moralidade de seus escombros. A própria postura destes que se apóiam sobre pedaços instáveis de doutrina é digna de riso, pois se comportam rigidamente sobre uma instável estrutura.
Assim encontrou Zaratustra os homens da grande cidade na terceira parte do livro. Ali tudo não era mais verde e colorido, pois muitos voltaram a tornar-se devotos, mesmo não tendo motivos para isso. Aqueles que Zaratustra deixara com pés valentes, cheios de valentia matinal haviam cedido ao cansaço existencial e tornaram-se novamente crentes niilistas, arrastando-se novamente para a cruz. Zaratustra adverte a alguns deles dizendo que realmente é bem mais cômodo tornar-se novamente fiel e dizer: “Existe um Deus”, pois obedecer é mais fácil que criar, enfrentar a luz é mais dolorido que enfiar-se nas trevas e abrir mão de provas, em nome da fé. Tornam-se asnos embriagados dignos de riso enquanto necessitam dessas muletas para viver, enquanto acreditam num discurso de um deus que precisou matar outros para se impor, que pregava paz, enquanto guerreava, de uma velha divindade que não admitia não ser a única. “(...) um velho deus barbudo e raivoso, bastante ciumento, excedeu-se a esse ponto. E todos os deuses caíram então na risada”482. Um deus
inseguro como esse é mais um personagem da tragicomédia que se tornou a existência. Um deus que, se existisse ou fosse como diz ser, não precisaria cumprir os percursos que cumpriu para arrebatar somente a limitada quantidade de homens para a sua grei. Os outros deuses riem porque nunca precisaram de exclusividade para “existirem”, nunca exigiram essa dominação e controle sobre tudo.
Na mesma medida que esse deus é ciumento, é também vingativo483, porque precisa
manter as coisas sob seu controle. Perde o sentido inclusive de ser esse tipo de divindade eterna, perfeita, onisciente e onipotente, quando aparece com tais características humanas,
481NIETZSCHE, Z, Segunda parte, Dos compassivos, 2014, p.84. 482NIETZSCHE, Z, Terceira parte, Dos apóstatas, §2, 2014, p.84. 483BÍBLIA, Antigo Testamento, Naum 1, 2; Êxodo 20, 5.
como a insegurança de não ser suficientemente amado e respeitado. É engraçado como um convidado que chega no meio de uma festa e quer a atenção toda para si. Esse deus criou inclusive um opositor para que seus fiéis tivessem temor a ele. A noção de correção da vida passou também pela tentativa de orientar os fiéis a se afastarem do oposto da divindade, personificada na figura do demônio. Por isso, o riso viria para matar não somente deus, mas também tudo aquilo que veio agregado à ideia dele. Quando ele morre, caem com ele o bem e o mal. “Em verdade, ó bons e justos! Há muito do que rir em vós, especialmente vosso temor daquele que até agora se chamou ‘Demônio’!”484
O estado de total vazio em que o homem considera estar, que acaba também valorando todas as coisas e que gera uma determinada sacralidade é impeditivo do riso dionisíaco. O niilismo485 sufoca o homem para que ele não respire o frescor da vida, faz com
que surja a necessidade do eterno, do superior e do extra-terreno para trazer valor à vida. A criação de uma divindade para um povo que sente a necessidade de ser guiado expõe quão niilistas eles se tornaram, o quanto o existir se tornou cansativo e o quanto a morte se converte numa atraente possibilidade de libertação.
Mesmo superada ou negada a ideia de Deus, não se extinguiram os rastros morais que ela deixou fortemente arraigados no meio da cultura. Por outro lado, muitos daqueles que dela se desprenderam são também niilistas, uma vez que a demanda por Deus não se relaciona somente com a necessidade de um aparato metafísico para justificar racionalmente a existência, mas mais amplamente ao sentimento de vazio ou à nulidade de sentido da vida presente. É a
(...) “falta de sentido” que desponta quando desaparece o poder vinculante das respostas tradicionais ao porquê da vida e do ser. É o que ocorre ao longo do processo histórico no decorrer do qual os supremos valores tradicionais que ofereciam resposta àquele “para quê?” – Deus, a Verdade, o Bem – perdem seu
484NIETZSCHE, Z, Segunda parte, Da prudência humana, 2014, p. 137.
485Niilismo é um termo caro à filosofia de Nietzsche e está intrinsecamente ligado à temática estética e
fisiológica porque aparece como opositor a elas, enquanto força negativa da vida. No niilismo “a vida assume um valor de nada, na medida em que é negada, depreciada. A depreciação supõe sempre uma ficção: é por ficção que se falseia e se deprecia, é por ficção que se opõe alguma coisa à vida” (DELEUZE, 1976, p. 123). Dessa forma, o niilismo também se metamorfoseia de acordo com a necessidade de fuga ou interpretação da vida. Deleuze (1976, p. 123-130), em sua obra Nietzsche e a filosofia, para facilitar a compreensão do leitor, classifica três tipos: niilismo negativo (o do cristianismo), niilismo reativo (o dos racionalistas modernos) e o niilismo passivo (o dos de consciência budistas). Sabemos que essa sistematização é criticada por muitos comentadores, como por exemplo Jean Lefranc (2008, p. 196), por parecer querer transformar o termo nietzschiano numa espécie de dialética pseudo-hegeliana, o que pode ser de tal modo exagerada que traia o próprio pensamento de nosso autor, mas a explicação ainda vale quando se quer ter uma maior clareza de quem Nietzsche fala quando se refere aos niilistas.
valor e perecem, gerando a condição de “ausência de sentido” em que se encontra a humanidade contemporânea.486
Zaratustra, para ilustrar essa manifestação do niilismo, durante uma viagem de navio, narra aos marinheiros que navegavam com ele uma visão extraordinária que tivera. Um jovem pastor se contorcia, sufocando, estremecendo, com o rosto deformado, sem possibilidade de respirar, por causa de uma serpente negra que lhe entrava pela garganta. O homem, pálido de horror, jazia prostrado de nojo e desespero. Ao deparar-se com aquilo, Zaratustra tentou ajudar o jovem puxando o animal para fora, mas sem alcançar sucesso. A situação se intensificava em tensão, até que o profeta teve uma ideia: mandou, aos gritos, o pastor morder a cabeça da serpente a fim de, ao mesmo tempo, matá-la e de ele se livrar do entrave que lhe impedia a respiração. Sob o grito de Zaratustra, que, segundo ele, saía como resultado de um misto de ódio, nojo, pena, horror e tudo de bom e de ruim, o pastor toma tal atitude, morde o animal e lança para longe sua cabeça. Assim que sentiu-se liberto de tal situação extrema, ergue-se de um salto: “Não mais um pastor, não mais um homem – um transformado, um iluminado que ria! Jamais na terra, um homem, riu como ele ria!”487
A serpente negra que se instalara na garganta daquele homem o impedia de respirar, de sentir a vida entrando por suas narinas e saindo pela boca. Gerava em seu paladar o gosto amargo de permanecer vivo, mesmo que impedido de viver. Travava-lhe as capacidades de reação, limitava seus movimentos. Simbolizava o niilismo que faz esgotar a vontade de potência, que desgasta o homem diante da vida. Entalado, preso por esse entrave, perde cada vez mais a capacidade de afirmar-se. “Ah, onde há ainda um mar onde possamos nos afogar?”488, pergunta, sem esperança, ao que percebe que o mar recuou, que todas as fontes
secaram. Ele fica cansado demais para morrer, então prossegue vivendo acordado, em sepulcros.489 Morto-vivo, não encontra a vida nem mesmo dentro de si, nem pouco se
movem.
A serpente negra e pesada simboliza, especificamente o niilismo passivo causado pela impossibilidade de suportar que não haverá um aperfeiçoamento do homem num sentido do progresso da humanidade (...). Efetivamente, Nietzsche sentiu, como ninguém, que o maior perigo que traz a morte de Deus é o aumento do niilismo no sentido da própria transformação do niilismo reativo em um novo e ainda mais devastador tipo de niilismo: o niilismo passivo, representado no
Zaratustra pelo adivinho (...).490
486VOLPI, 1999, pp. 55-56
487NIETZSCHE, Z, Terceira parte, Da visão e enigma, §2, 2014, p. 152. 488NIETZSCHE, Z, Segunda parte, O andarilho, 2014, p. 127.
489 Cf. NIETZSCHE, Z, Segunda parte, O andarilho, 2014, p. 128. 490 MACHADO, 2011, p. 130.
Essa alegoria, segundo Roberto Machado, pode, ao mesmo tempo, significar esse tipo de pessoas niilistas representado pelo personagem em apuros e, também, indicar o estado em que o próprio Zaratustra, em certa parte de sua caminhada, estaria.491
Tomado pelo fastio e pela náusea esse niilista sente nojo pelo homem, pela vida, pela existência. É uma indisposição fisiológica em que ele deixa de ser o agente avaliador da vida e passa a ser avaliado por ela. Zaratustra no momento em que vê o homem agonizando, interpreta a situação como uma oportunidade de exercitar a vontade de potência e não de extingui-la. Ali, diante da mesma serpente há uma diferença de perspectiva, de um lado o pastor que havia se entregado às circunstâncias e de outro Zaratustra, que percebia na cena uma brecha para exercitar a criatividade. Ainda era a mesma serpente, a mesma situação e realidade, porém a perspectiva mudou tudo, o que nos leva a crer que a vida não é nada em si mesma, mas pode ser muitas coisas a partir das interpretações que a partir dela criamos. Um mesmo fato pode levar a uma vontade afirmativa ou negativa, à alegria ou à tristeza, a valorizar a vida ou a não ver valor nela. Podemos nos tornar cansados em reação à existência ou criadores dela, tudo depende da perspectiva. É de um jogo lépido com a vida que surge a ideia de Zaratustra para que o homem mordesse a cabeça da serpente. Após a vitória sobre aquela angústia, o pastor percebeu que ainda havia uma possibilidade de sair da situação na qual não havia pensado. O niilismo limitou sua visão e fê-lo esquecer de tantas outras capacidades que ainda não haviam sido testadas. Livre do animal, o homem se percebeu como portador da alegria trágica, de um riso liberador de potência, de uma recuperação da vontade de vida, que brotou de sua decisão de seguir a orientação de Zaratustra.
A situação se mostrou tão ridícula que não havia outra reação que não fosse o riso, uma gargalhada dionisíaca de quem brinca com a vida, de quem celebra a vivência do limite, de quem aprova o embate e vivencia a vitória da força. É a maior manifestação da aprovação jubilatória da existência, que, cruel, não cessa de lançar-nos em guerras diárias. “Se o mundo e tudo que nele habita não têm um valor em si, resta ao homem aprender a gargalhar, ou seja, a partilhar a sua existência através de uma gaia ciência.”492