3. OVERORDNEDE PRINSIPPER OG FØRINGER
3.2 H VOR STRENGT SKAL DET STRAFFES ?
Zaratustra oferece também a nós melhores pistas para interpretar as noções de corpo oferecidas pela filosofia nietzschiana através das metáforas que apresenta. No livro, o filósofo expande o tema quando, logo no Prólogo, põe o recém-saído da montanha diante de um equilibrista (Seiltänzer) que se apresentava para um grande número de pessoas, que inclusive recusou-se a ouvir por muito tempo sobre o Übermensch que o profeta vinha anunciar. O homem caminhava sobre uma corda, enquanto segurava uma vara. Atravessava o abismo. Por um acidente causado pelo palhaço que o seguia e dele zombava, caiu semimorto ao lado de Zaratustra. Em seus últimos minutos de vida, queixando-se da sorte que achava que teria, a condenação eterna ao inferno pelo demônio, ouve Zaratustra o acalmar afirmando: “(...) nada do que falas existe: não existe demônio nem inferno. Tua alma morrerá antes ainda do teu corpo: nada temas, portanto”. O homem continua, mesmo desconfiado, dizendo que se isso for verdade, ele não perde nada ao perder a vida. E diz: “Não sou mais que um animal a quem ensinaram a dançar, com golpes de bastão e pequenos nacos de comida”. Zaratustra prossegue discordando da maneira limitada com que ele vê a si mesmo e completa: “fizeste do perigo teu ofício, não há o que desprezar nisso.”421 Então,
o homem morre e o profeta o carrega consigo até poder sepultá-lo.
Desta passagem impactante, que praticamente abre o livro de Nietzsche, destacaremos basicamente dois pontos que serão abordados a seguir: a relevância que o corpo ganha na obra nietzschiana, a ponto de não estar, como vimos, dissociado da alma nem subjugado a ela, e portanto ganhar o título de “grande razão”; e a questão da dança como
419 Cf. NIETZSCHE, Z, Do espírito de gravidade, §2, 2014, p. 183. 420 NIETZSCHE, Z, Do ler e do escrever, 2014, p. 41.
uma das maneiras mais criadoras de se atravessar o abismo da existência. Com o equilibrista morre também a velha noção de homem e portanto a inventiva noção de Deus. É assim em toda a primeira parte de Zaratustra que Nietzsche ressignifica as relações estabelecidas pelo homem, seu corpo e seus afetos: a castidade, a amizade, o matrimônio, o amor ao próximo, a morte. Nessas seções há uma quebra dos dualismos, da metafísica e da noção de virtude e por consequência da noção de esforço-recompensa, conforme comentamos no tópico anterior. Nas linhas seguintes da primeira parte de Zaratustra, quando se inclui, por exemplo, o amor a si como tarefa primeira, antes do amor ao próximo; quando se diz que a morte é também movimento da vida e não seu oposto; e quando se aconselha a absolvição dos sentidos e dos prazeres corporais em detrimento do julgamento moral, o que Nietzsche está fazendo é trazer toda a questão afetiva humana para o plano material. Não há demônios, nem inferno, como disse Zaratustra ao equilibrista, e também não há deuses e nem paraísos. A realidade se estende e se entende somente como um jogo de forças entre corpos e, por isso, estamos liberados de cumprir certas negociações em troca de pagamentos metafísicos.
É então o corpo, no homem, a realidade mais próxima das outras realidades, que são também todas corpóreas. O homem que atravessava a corda usava o corpo como instrumento não somente de sua ação como também de seu entendimento e de sua afirmação no mundo. Pelo seu corpo, que era uma multiplicidade de corpos em luta, podia realizar sua tarefa e sentir-se mais homem, mais vivo e mais artista de si. Nesse corpo que atravessa, apesar de achar que segue uma meta pré-determinada, eclodem muitas possibilidades e, dentro destas, outras tantas maneiras de elas se realizarem. Há um espaço para a variação, o que dependeria de forças externas ao corpo – do vento e do palhaço em relação ao equilibrista, por exemplo – e para a improvisação, inerentes a ele – como no caso da adaptabilidade a possíveis movimentações da corda. Tanto é assim que o corpo visa o fim da jornada do outro lado da travessia, mas acaba por terminar no chão. É o risco que se assume ao entregar-se à incerteza do corpo que parece atômico, mas que no fundo é mais fluido que se imagina. No fim, “a concepção de corpo como ‘grande razão’ recusa as noções de unidade e identidade atribuídas à noção de indivíduo”422. A ideia de indivíduo não se entende mais como uma unidade
concisa do que é o homem em particular, mas agora como a junção de forças biológicas e físicas, portanto, corporais que, por serem múltiplas e de intenso e inquieto movimento, oferecem muitas possibilidades de ser.
Há no corpo tantas vontades de potência e tantas lutas internas por realização e imposição de poder que é impossível a Nietzsche conceber que haja também um domínio efetivo e impositivo de apenas uma dessas partes. Inclusive ele descarta a possibilidade da existência de um sujeito racional autônomo que comandaria o corpo e ao mesmo tempo tivesse consciência plena de si. Se assim fosse, o equilibrista poderia ser dominado pela frieza da análise e não se deixar abalar pelo palhaço que o seguia. Em Zaratustra há um ultrapassamento do dualismo psicofísico da filosofia clássica. Entender o corpo como esse campo de batalha é deixar abertas as possibilidades de se existir e liberar-nos da busca por juntar as nossas peças em uma falsa unidade, para no fim das contas encontrarmos uma espécie de consciência de quem somos.
A grande razão motiva ao amor ao corpo, à terra e à existência. É ela que direciona para o mundo das coisas, para as vontades daqui e para os sentidos do agora. É um novo Eu, não mais metafísico, mas um Eu querente e honestíssimo, que “(...) fala do corpo e quer ainda o corpo, mesmo quando poetiza, sonha e esvoeja com asas partidas”423. Ele ganha
novo vocabulário quando experimenta as possibilidades e testa os limites do próprio corpo para gerar mais “Eus”424 e quanto mais aprende outras palavras e mais homenagens faz, mais
cresce seu amor em relação à terra, mais cria sentido na terra. Mais esse corpo vai se desprendendo das doenças celestiais e mais vai tornando-se sadio na terra.
A rigidez da exigência estrutural do “Eu” não dá conta da inconstância que é esta corda estendida sobre o abismo existencial e muitas vezes se quebra diante do trágico. Só um corpo suficientemente elástico seria capaz de ser ao mesmo tempo resistente para permanecer de pé e fluido para se adaptar às mudanças provocadas pela corda sobre a qual atravessa. Por esse motivo, o equilibrista diz que o “ensinaram a dançar”. De fato, a palavra equilibrista no alemão (Seiltänzer) é a junção de duas outras: Seil (corda) e Tänzer (dançarino). Equilibrar-se sobre o abismo existencial é dançar sobre a corda bamba que nos leva ao Übermensch. Então, aí também é preciosa a imagem que contempla Zaratustra. Igual à vida, dança é movimento”.425
423 NIEZSTCHE, Z, Primeira parte, Dos transmundanos, 2014, p. 33.
424 O filósofo, apesar de usar em alguns momentos a palavra “Eu” (Ich), quer distanciar a noção clássica que
entende o termo como uma espécie de unidade psicofísica do que que o indivíduo é, ou seja, como algo acabado que precisa somente ser descoberto. Aqui, ele até se serve da expressão “Si-mesmo” (Selbst) que distancia-se da origem metafísica do outro termo, trazendo mais uma noção de criação de si e de instabilidade e metamorfose do homem. O Eu, que é visto como uma falsa interpretação e digno de riso, não é dado, mas feito. “Teu Si-mesmo ri de teu Eu e de seus saltos orgulhosos”. (Conf. NIEZSTCHE, Z, Primeira parte, Dos desprezadores do corpo, p. 35.)
A dança torna o corpo ativo em relação às forças cósmicas que movimentam a vida quando o incita a se adaptar aos fatos de forma criativa, se encaixar naqueles espaços que as forças vão deixando enquanto se movimentam. Por outro lado, o corpo não é totalmente ativo, pois baila ao som do que já está posto. A dança põe o corpo no entremeio entre a total passividade da resiliência e a total atividade cega da arrogância.
Para Nietzsche a dança tem o caráter fundamental de estar “entre”. Dançar pressupõe mais leveza que o necessário para andar e ao mesmo tempo mais peso que o mero flutuar. A dança exige força e flexibilidade dos músculos; ela se instaura no intervalo da autodisciplina e do desapossamento de si no transe426.
O corpo-dançante é amante da vida na medida em que acompanha sua movimentação, procurando as brechas em que possa também estar em criação. Cria com o que é dado, portanto, mas abraça a oportunidade de transmutar os acontecimentos e os corpos enquanto nega-se a cair na inércia. É um jogo em que não está posto o ganhador nem o perdedor, mas que traz a certeza do aumento da potência dos envolvidos. Este é o jogo da vida que insiste em não parar e por isso Zaratustra diz: “(...) perdido seja o dia em que não dançamos uma vez sequer!”427
Pelo movimento, a existência proporciona ao homem a suspeita sobre tudo o que é rígido e inerte, ela faz desaparecer todo o transcendente. A dança proporciona a libertação humana através do corpo, é o movimento dos espíritos livres, que também devem ser dançarinos. Zaratustra, o profeta livre, também dança. “Agora sou leve, agora vôo; agora me vejo do alto, acima de mim, agora um Deus dança em mim”428. Por trás de cada criador está
Dioniso dançando e fazendo dançar. As bacantes dançavam enquanto cultuavam o deus e só assim podiam sobreviver ao culto. Diante de homens que dançam até mesmo os espectadores são convidados, sem nenhuma espécie de discurso ou persuasão, a movimentar-se. É impossível permanecer parado diante de um corpo que baila.
Nietzsche lança mão dessa expressão artística como mais uma das metamorfoses de seu estilo, por isso dança nesse caso não se limita somente ao movimento ritmado e guiado por sons, mas emerge muito mais como todo movimento que acompanha assonante e dissonantemente a música do fluxo da vida que nos toca. Dança-se, por isso, também, quando se escreve, quando se pensa, quando se alimenta. Na recreação, no sono, na respiração, em todo movimento fisiológico: “Apenas na dança sei falar o símile das coisas
426 FEITOSA, 2001, p. 36.
427 NIETZSCHE, Z, Terceira parte, Das velhas e novas tábuas, §23, 2014, p.202. 428 NIETZSCHE, Z, Ler e escrever, 2011, p. 47
mais altas”.429O filósofo no Zaratustra, por exemplo, dança com a semântica das palavras,
dando-lhes novos lugares, novos sentidos e aplicações. Metamorfoseando-as, fazendo-as bailar.
Pela cadência, ela põe em cena variados pontos de vista, diversos ângulos de visão, diferentes perspectivas. Faz surgir aspectos inesperados da existência; traz à luz dimensões insuspeitadas do mundo. Com a dança, evoca-se o fluxo vital; com ela, alude-se à permanente mudança de tudo o que existe.430
Mascarado, Dioniso dança, e da mesma forma, mascarado, Nietzsche escreve. Para ele é a ficção a força produtora da vida, o movente de todo homem que pretende superar a si mesmo e se criar de novo, sendo aquilo que se é. Cada personagem que assume reforça ainda mais os traços trágicos e cômicos de sua obra de arte e em cada máscara vem embutida uma necessidade de adaptação do todo à expressão que ela traz. A dança exige a transfiguração de nossos corpos (com tudo que eles são) e também de nossos discursos e opiniões. Quem dança sente o ritmo do mundo, a cadência incodificável da existência. Ele apreende com os ouvidos dos pés431 e se torna artista de seus próprios movimentos.
O brilho que há de surgir desse tipo de artista tornar-se-á cada vez mais potente e único na medida em que ele o gerar a partir de si mesmo, de suas próprias interpretações do todo. As múltiplas forças que transpassam nosso corpo geram a dança. Por isso “(...) é necessário ter um caos em si para poder dar à luz uma estrela bailarina”432.
Dançar tornou-se a maneira de o corpo falar e se erguer contra a lógica metafísica vigente. A dança sobrepõe-se aos dualismos ao nos ensejar a incorporação de uma nova noção de arte. “Em sua campanha contra a metafísica e contra a religião cristã, Nietzsche tem na dança, bem mais que na poesia, sua principal aliada433”. Ela compõe seu arsenal de
guerra e é uma das armas mais potentes. A dança vence o espírito de gravidade da ciência quando deixa de entender o corpo como objeto, como instrumento ou como uma máquina orgânica a serviço da razão. Dançando o corpo vence a visão mecanicista de mundo e sugere uma interpretação holística da realidade. A dança vence a moral quando propõe o ultrapassamento dos códigos corpóreos cotidianos e do próprio afeto humano. Dançando, os corpos se tocam, se beijam e se experimentam sem o mínimo de influência valorativa. Até mesmo as noções de belo e feio são questionadas por um corpo bailarino. A dança vence o
429 NIETZSCHE, Z, Segunda Parte, O canto dos sepulcros, p. 107. 430 MARTON, 2001, p. 48.
431NIETZSCHE, Z, Terceira parte, O outro canto de dança, §1, p. 215. 432 NIETZSCHE, AZ, Prólogo, § 5, 2011, p. 18.
cristianismo quando estabelece um jogo entre alma (pequena razão) e corpo (grande razão) como uma única realidade em movimento e sem finalidade cultual ou idolátrica. Ela faz o corpo deixar de ser um amontoado de doenças para vibrar pulsões até então desconhecidas. Dançando se desfaz a relação mandatória da religião sobre o corpo e dançando alguém torna- se criador de suas ações. A dança vence o Estado pois é também um movimento político se se impõe e exige, influencia e delimita territórios. Dançando se escapa da universalidade das leis e se cria outras provisórias.