Com os professores paraenses os Momentos de Escuta e Diálogos (MED) “formais” ocorreram na escola em que trabalham, no dia de planejamento de cada um, os “informais” durante a travessia de barco, no percurso de ida ou de volta à escola e, na hora do almoço. Nesses momentos, os professores não me viam como a professora pesquisadora/formadora, me viam como mais uma professora no mesmo barco que eles, sentindo o mesmo calor, falando do cansaço, da fome, da sede, da poeira, de política, de filhos, de casa, da vida. Foram ocasiões riquíssimas, nas quais obtive muitas informações que me ajudam entender quem são esses sujeitos de quem eu falo. Essas conversas, não as tenho gravadas em áudio, guardo-as apenas em minhas memórias.
Em Belém, fiz o esforço para compartilhar a rotina de deslocamento dos professores até a ilha de Cotijuba onde as escolas em que trabalham estão localizadas. Esta é uma das 42 ilhas que compõem a parte insular do município de Belém. Está localizada aproximadamente a 22 km do centro da capital do Pará, na confluência das Baías do Marajó e do Guajará. Limita-se ao Norte com a própria Baia do Marajó e o Rio Pará, ao Sul com a Ilha do
Arapiranga, ao Nordeste com a Ilha de Mosqueiro e, ao Sudeste com as Ilhas de Jutuba, Paquetá e o Canal de Cotijuba.
Figura 5 – Terminal hidroviário de Cotijuba (trapiche).
Fonte: Arquivo pessoal/2014.
Os habitantes dessa ilha vivem de pequenos comércios, da extração e comercialização do açaí e da pesca. De modo geral, mantém uma forte ligação com o rio, principalmente, como via de transporte e fonte de renda. Essa ligação é regida pelo fluxo das marés, pois no Pará, os rios sofrem influência da dinâmica das marés dos oceanos. Isso influencia a cultura ribeirinha desse estado e se expressa no vocabulário, no modo de vida das pessoas desse lugar. Para Silva (2013, p. 16) viver em Cotijuba significa:
Viver em meio às contradições, às angústias, aos sonhos, encantos e muitos desencantos. Se por um lado, a Ilha é um espaço de turismo incentivado pela ação administrativa, tendo em vista a quantidade de praias de água litorânea em seu entorno, por outro, ainda remanesce áreas do campo, relações sociais e culturais mediadas pelo rio, feições ribeirinhas, vida interiorana, portanto, não é totalmente espaço turístico nem totalmente rural.
Ao chegar a Cotijuba15, o turista tem logo a sua frente ruínas de um antigo presídio/educandário e as charretes que aguardam passageiros em frente ao trapiche, para conduzi-los as praias, lugar de maior procura por aqueles que visitam a ilha em busca de lazer.
Figura 6 – Mapa de Localização da ilha de Cotijuba.
Fonte: Arquivo pessoal. Mapa organizado por Luís Augusto Pereira Lima (PNCSA-PPGCSPA-UEMA).
Nesse contexto estão inseridas as duas escolas nas quais os colaboradores da pesquisa trabalham. Vale esclarecer que as instituições escolares localizadas em ilhas ou comunidades ribeirinhas são denominadas, pela Secretaria Municipal de Belém, de Unidades Pedagógicas (UP) e não possuem independência administrativa. As UP são vinculadas a uma escola localizada na região continental que, por sua vez, é denominada escola sede.
Para chegar à UP Faveira e à UP Seringal é necessário atravessar a Baía do Guajará. A viagem de Belém até Cotijuba, para mim, assim como para alguns daqueles professores, é
15 Cotijuba em tupi significa trilha dourada. Em 1990, essa ilha foi, por meio de uma Lei Municipal,
transformada em Área de Preservação Ambiental – APA – fato que obriga a manutenção de sua vasta cobertura vegetal e a proibição da circulação de veículos motorizados, exceto os de segurança e saúde. (www.cotijuba.com).
uma viagem longa, pois para sair da cidade de Belém e chegar até o trapiche de Icoaraci16 de onde parte o barco que transporta os professores para Cotijuba é necessário um deslocamento, em carro, de aproximadamente 1 hora, dependendo do trânsito da cidade de Belém. Durante o desenvolvimento da pesquisa, eu chegava ao trapiche de Icoaraci por volta das 7 horas onde pegava o barco que faz o transporte dos professores. Desse ponto ainda eram necessários mais uns 45 minutos de viagem até chegar a Cotijuba.
Do porto de Cotijuba até a UP Seringal gastam-se mais uns 30 minutos em motocicleta. Nessa viagem, assim como em outros deslocamentos realizados pelos professores para chegarem até seu local de trabalho, a distância não pode ser medida em metros ou quilômetros, pois a depender das dificuldades, dos acontecimentos, a viagem se torna mais ou menos longa.
O barco que realiza o transporte dos professores é de tamanho médio, possui boas acomodações e coletes salva-vidas em número suficiente para todos os passageiros, é um barco seguro para o transporte que realiza.
Figura 7 – Vista interna do barco que faz o transporte dos professores de Icoaraci à Cotijuba.
Fonte: Arquivo pessoal/2014.
16 O distrito de Icoaraci pode ser considerado uma cidade de médio porte para os padrões da Amazônia. Faz
parte da região metropolitana de Belém. É de seu trapiche (porto), que partem os barcos em direção à ilha de Cotijuba.
No entanto, devido à influência das marés sobre o rio, a viagem nem sempre é uma travessia tranquila. Dependendo do horário a “baía joga muito” como dizem os professores, literalmente joga. As águas jogam o barco de um lado para o outro dando a impressão que o mesmo vai virar a qualquer momento. Confesso que por vezes tive medo. Numa dessas ocasiões, um dos colaboradores da pesquisa, a professora Eliza, se voltou para mim e disse: professora não tenha medo. O barco balança, mas nunca virou. No começo eu também tinha medo. Já passei pela fase de gritar, de chorar, de me desesperar... Agora simplesmente relaxo e aprecio o privilégio de contemplar esse rio, essas matas, o Pôr do Sol.
A fala da professora me fez lembrar que:
Na sociedade amazônica é pelos sentidos atentos à natureza magnífica e exuberante que o homem se afirma no mundo objetivo e é por meio deles que aprofunda o conhecimento de si mesmo. Essa forma de vivência, por sua vez, desenvolve e ativa a sensibilidade estética. Os objetos são percebidos na plenitude de sua forma concreto-sensível, numa forma de união do indivíduo com a realidade total da vida, numa experiência individual que se socializa pela mitologia, pela criação artística, pelas liturgias e pela visualidade. (LOUREIRO, 2012, p. 21).
Há na Amazônia uma esplendorosa e exuberante natureza impossível de ser percebida em sua totalidade. Eu sou amazônida, mas venho de uma Amazônia sem marés. Uma Amazônia com grandes rios, mas que só se tornam turbulentos pela força dos ventos em determinados horários ou por ocasião de grandes tempestades. Essa turbulência para mim indica sinal de perigo. Venho de uma Amazônia com outro modo de vida, marcada pela vivência na fronteira de saberes, de costumes e tradições que sustentam minhas memórias e me fazem perceber o balançar do barco por outra ótica.
No estado do Amazonas, os MED “formais” ocorreram em lugares diferentes de acordo com a disponibilidade de cada professor. Um MED foi realizado na cidade de Parintins e os outros três nas escolas onde os professores trabalham. No Amazonas, a pesquisa transita pela realidade escolar vivida em duas comunidades vizinhas, ambas localizadas em região de várzea, à margem esquerda do rio Amazonas, sentido Leste da cidade de Parintins.
O ponto de encontro para a realização das rodas de diálogos é a escola municipal Tiradentes, localizada na comunidade Menino Deus pertencente à localidade Itaboraí do Meio, distante aproximadamente 27 km da cidade de Parintins e 6 km da comunidade Imaculada Conceição pertencente à localidade Itaboraí de Cima, onde trabalha um dos professores colaboradores da pesquisa.
Figura 8 – Mapa de localização do locus da pesquisa no Amazonas.
Fonte: Mapa cedido à pesquisadora pelo professor José Camilo Ramos de Souza.
Ser região de várzea significa viver uma dinâmica intensa regida pela sazonalidade das águas do rio Amazonas. A vida na região de várzea possui características completamente diferentes de acordo a dois períodos do ano: o período da cheia e da vazante dos rios, também denominados pelos ribeirinhos de tempo de fome e de fartura de alimentos, respectivamente. Durante o período da cheia o ribeirinho de várzea não pode plantar porque não há terra. Tudo está submerso. Os animais (galinhas, porcos e patos) usados como alimentos ou destinados à procriação têm que dividir pequenos espaços construídos de madeira (marombas)17. No período da cheia a vida se torna mais difícil. Os perigos aumentam e as oportunidades de produzir alimentos ficam escassas. É uma vida de muita privação. Nesse período, o rio invade a casa do ribeirinho e ele depende de suas canoas até para ir a casa de um vizinho. E assim é a vida nas comunidades Menino Deus e Imaculada Conceição.
17 Maromba é uma espécie de curral suspenso que os ribeirinhos constroem para abrigar seus animais durante a
cheia do rio.
Imaculada Conceição do Itaborai de Cima
Figura 9 – Comunidade Menino Deus no período de águas baixas.
Fonte: Arquivo pessoal/2014.
Figura 10 – Comunidade Menino Deus no período de enchente dos rios.
Figura 11– Comunidade Imaculada Conceição no período de enchente dos rios.
Fonte: Arquivo pessoal/2014.
Nesse ambiente rico em tradição iniciei as observações previstas no planejamento da pesquisa, dialoguei com as professoras da comunidade Menino Deus e pude realizar a primeira prática formativa. Para chegar até a comunidade eu tinha que sair do porto de Parintins, por volta das 6 horas, pois a viagem requer a travessia do rio Amazonas e para isso é preciso observar a hora e o tempo, ou seja, sair antes que comece a ventar e o banzeiro do rio se torne muito forte dificultando a travessia e tornando-a perigosa.