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In document Budsjettforslag 2019 - Forskningsrådet (sider 185-193)

De acordo com Miguel Sanches Neto, no capítulo “Da arte de apontar lápis”, no livro Herdando uma biblioteca, conta que não respeita os livros, durante sua leitura grifa e faz anotações a lápis, nunca usa caneta. “Assim como jamais aceitaria que tatuassem algo em meu corpo, por mais belas que fossem as imagens. Usando lápis posso me arrepender de um julgamento, corrigir uma opinião precipitada na segunda leitura e dar ao futuro dono de meus livros a oportunidade de se desfazer de minhas opiniões e seleções de melhores trechos. Não preciso mais preencher livros didáticos e os cadernos escolares, não escrevo meus textos à mão, o lápis deixou assim de ser serviçal, passando a condição de inseparável companheiro de leitura.”97

Minha entrevistada Ana Paula disse que grifa seus livros com lápis e faz fichamento dos livros mais importantes, e anota nos cantos das páginas observações, mas sempre a lápis.

Já o Dr. José Mindlin logicamente não grifa seus livros raros, mas disse que se arrepende de não ter o hábito de fazer fichas de suas leituras. “Muitas vezes tento me lembrar em que livro li tal coisa e não consigo, se tivesse fichas com anotações de trechos importantes, facilitaria a minha memória”.

O Osmar nunca escreve em seus livros, quando tem necessidade, faz um fichamento. Já a Márcia disse que escreve e grifa apenas alguns livros, normalmente os que gosta mais, me mostrou seu exemplar de A peste, todo grifado e anotado. Já comprou quatro exemplares de O Coração das trevas, pois de tanto reler e anotar neles impossibilitou novas leituras, as folhas começaram a cair e as páginas estavam muito “rabiscadas”. Assim também acontece com a Cláudia, que escreve em seus livros, grifa e muitas vezes faz a lápis um resumo do que achou do livro no próprio livro, na folha de rosto.

O Mário também tem o costume de grifar alguns de seus livros, principalmente os de trabalho, faz anotações nas beiradas, preferencialmente a lápis, mas também usa caneta, “às vezes não tem lápis por perto”. Esse hábito facilita a releitura de livros importantes.

Alexander, durante a leitura, grifa e escreve nos livros que são seus, em alguns ele até faz um índice na contra capa, indicando as páginas onde estão o que mais lhe interessou. O entrevistado me mostrou A Era dos Extremos, de Eric Hobsbawm, abriu o livro mostrando suas anotações e um índice de anotações que costuma fazer na contracapa do livro.

Os entrevistados Frederico e Paula grifam seus livros durante a leitura, preferencialmente a lápis, mas se a caneta estiver mais perto, grifam com ela mesmo. A entrevistada Paula costuma fazer perguntas ao escritos nos cantos das páginas, no decorrer da leitura, apenas para ter o prazer das respostas que poderão vir mais adiante. “Dessa forma converso com o escritor e a leitura é mais uma prosa, mas grifo livros de estudo também e qualquer parte que acho importante, e assim quem ficar com meus livros no futuro, saberá o que eu pensei a cada leitura”.

Grazielle não escreve no livro de forma alguma, se precisar, anota em fichas separadamente e depois guarda. Arrepende-se de ter escrito e grifado alguns livros quando era mais nova, hoje em dia, “quero que meus livros estejam impecáveis”. Assim também pensa o Roberto, que tem o maior cuidado ao ler, não grifa ou faz anotações em seus livros, se precisar marca com um post-it. “Acho que escrever no livro é uma agressão”.

Cristiano não tem o hábito de grifar seus livros durante a leitura, salvo os livros de poesia. A grande maioria de seus livros não está grifada. Assim também faz Renata, que não escreve em seus livros durante a leitura: “considero isso praticamente um crime contra os pobrezinhos”. Se precisar lembrar-se de uma observação importante ou de um trecho específico anota em uma folha separada. “Creio que terei opiniões ligeiramente diferentes cada vez que ler um livro e não quero deixar registrada uma visão específica”.

Gabriel disse que grifa e rabisca muito em seus livros durante a leitura. “Sei que esse hábito é condenado por muita gente que tem biblioteca grande, sei que para o Mindlin o livro é uma coisa sagrada, mas para mim o livro tem que ser riscado, tem que ter utilidade, tem que manusear. É claro que tenho alguns livros mais difíceis de serem encontrados, que não risco. Mas os livros com os quais eu estou trabalhando eu risco muito, às vezes até compro dois exemplares, um para riscar à vontade e outro para deixar guardado”.

Ângela grifa seus livros, seleciona trechos, escreve e rabisca. “Como se eles fossem parte de um testamento meu. Quem os ler, um dia, saberá o que era relevante para mim”.

A Amélia disse que quando faz anotação em livro faz a lápis, com caneta nunca, pois marca e sai na outra página. Às vezes assinala algum trecho que gostou. Tem o hábito de ler com um dicionário por perto e quando acha uma palavra que não sabe o significado procura no dicionário e anota ao lado, aprendeu esse hábito com seu pai e seus filhos dizem adorar pegar para ler um livro que foi lido por ela, pois já vem com um glossário junto.

Miriam grifa seus livros durante a leitura. “Houve tempo em que não tinha coragem de fazer isso, mas há uns trinta anos eu marco durante a leitura. Antes eu achava que isso estragava o livro, depois comecei a pensar: por que não? Quando eu era bem mais nova, com uns quinze anos, eu costumava conversar com os autores durante a leitura, escrevia nas margens do texto quando não concordava com o que li, que faltou isso ou aquilo e muitas vezes me retratava ao final da leitura, teve um tempo em que parei de escrever nos livros, depois, durante a fase da faculdade, principalmente com os livros de Direito, eu voltei a marcar o que me interessava na leitura e hoje eu marco com lápis ou caneta, o que estiver mais perto, as partes que me interessam”.

Rita nunca grifa os livros, aprendeu que tem que cuidar muito bem do livro e que o grifo estraga o livro. Geralmente faz marcações com pedaços de papel nas páginas mais interessantes e anota as referências do que chamou sua atenção, anda sempre com cadernos cheios de anotações de leituras e usa depois para escrever seus artigos, ou apenas deixa anotado para o dia que precisar.

Pedro disse que nunca grifa seus livros, acha que prejudicará a próxima leitura, não quer ver o que foi mais importante para ele na leitura anterior. Não precisa grifar ou fazer anotação, ele disse se lembrar de tudo que lê. “Quem vive como eu, respirando leitura, não esquece a leitura que foi feita. Lembro-me perfeitamente das minhas reações quando li

Dom Casmurro pela primeira vez, que é diferente da leitura de hoje. É um exercício de

sobrevivência fazer o Pedro de ontem conversar com o Pedro de hoje, depois de uma releitura. É uma maneira de manter meu espírito jovem. Jamais esquecerei do impacto que foi Marcel Proust no final da minha adolescência, e do impacto que tem hoje que tenho mais facilidade em lê-lo por causa do treino. Um Pedro não cancelou o outro, então não preciso marcar”. Acredita que se marcar uma frase sente que está encapsulando aquele

leitor, e não quer isso, gosta das conversas com os diferentes leitores que é, a cada vez que lê o mesmo livro. “Eu sou passivo, sou produto daquilo que leio, o que leio é que me faz. Tomar nota seria uma dominação, uma forma de declarar meu poder sobre o que foi lido”.

Portanto podemos concluir que as opiniões são divergentes quanto à relação com o objeto, uns consideram o livro um “objeto sagrado”, que deve ser respeitado e mantido quase que intacto, penso que para possível transmissão. Já outros, acreditam que o livro deve ser usado, manuseado, riscado e anotado, com uma leitura quase que interativa e nesses casos, também pensaram na transmissão e em deixar suas anotações, quase como um legado, assim como os livros.

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