2. TEORI
2.3 S AMARBEID
modifica a imagem da mãe, e em 1760, surgem as primeiras publicações que recomendavam a amamentação, de modo prescritivo, para garantir os cuidados adequados às necessidades da criança, sugerindo que as mulheres assumissem plenamente a condição de mães. Opera-se uma novidade em relação ao amor materno, entendido agora como algo instintivo e natural que mantém a vida, pois o imperativo passa a ser a sobrevivência da criança, uma vez que a recorrente mortalidade infantil torna-se uma
questão para o Estado, que se mostra preocupado com a formação de seres humanos e não apenas com súditos, como era no Antigo Regime. Para diminuir a mortalidade, as mães deveriam ser convencidas a retomarem os cuidados dos filhos. Nesta via, moralistas, médicos e administradores veiculavam um discurso que prometia felicidade, igualdade e respeito às mulheres que se tornassem boas mães.
Havia aqui uma tentativa de convencimento, não só das mulheres mas de toda a população, de que as mães deveriam voltar-se para seus filhos, um chamado à obrigação e ao sacrifício, supostamente em nome do amor e da felicidade. Por trás disso, havia o valor mercantil que a criança passou a representar. Um apelo, portanto, de ordem econômica sustentando um discurso moralista de igualdade que buscava seduzir a população, especialmente as mulheres.
Badinter² fala da articulação de três discursos cujo objetivo era destacar a importância da sobrevivência infantil e convencer a mulher a ser mãe. Um econômico, outro filosófico e por fim, um específico da maternagem.
De acordo com o princípio econômico, entende-se que a crise monárquica e a queda do autoritarismo abrem espaço para outros tipos de organizações econômicas, que colocam o homem como “princípio de toda riqueza” ², de acordo com a lógica inerente ao capitalismo, quanto maior a quantidade de homens trabalhando, maior a produção de riquezas. Era ainda necessário garantir a proteção militar para o país, por isso também, a perda de um ser humano passa a representar um dano ao Estado, uma vez que as crianças eram consideradas “força de produção em potencial” ².
Entretanto, o imperativo econômico não era suficiente para provocar todas as mudanças almejadas. Mais direcionado aos homens, este discurso não tocava as mulheres. Para se alcançar o efeito esperado, esse discurso deveria ser associado a outro que enfim tocasse homens e mulheres e este é o papel do discurso filosófico, que teve como principais vertentes as noções de igualdade e de felicidade.
A igualdade, herdeira do Iluminismo, limita o poder parental à fragilidade e incapacidade de discernimento da criança, o que permite uma valorização e maior autonomia da mãe. A felicidade, por sua vez, deveria ser buscada neste mundo e, em primeiro lugar, na família, o que provoca uma mudança nas atitudes familiares, direcionadas agora a encontrar no amor a base das relações. Os casamentos passam a acontecer não apenas de acordo com benefícios materiais, mas também através da escolha livre dos parceiros e os filhos passam a ser vistos como fruto do amor dos pais. Neste contexto, os pais amam os filhos e as mães dedicam cuidados a eles, que passam de fardo a bens preciosos e insubstituíveis.
Mas ainda era preciso um terceiro discurso especialmente dirigido às mulheres, para convencê-las a retomar de fato os cuidados maternais. Elas são, então, alçadas à responsáveis pela nação e pela sobrevivência dos filhos, que depende delas. Argumentos para isso não faltavam: desde o retorno à “boa natureza”, destacando a importância do leite materno e o comportamento das mulheres “selvagens” e “animais-fêmeas” que amamentavam os filhos por um período determinado (aludindo ao instinto materno), até as promessas de beleza, prazer, carinho dos filhos e glória. Uma outra estratégia foi o uso de ameaças às mães que se recusavam a aderir a este discurso, alegando-se que a natureza poderia se vingar e punir a mãe com doenças e outros males.
Importante ressaltar que todo esse processo foi um movimento lento e que teve diferentes repercussões para cada mulher. Segundo Badinter², as mulheres resistiram ao discurso do amor materno e foi necessário quase um século para apagar a indiferença da mãe. No final do século XVIII e durante o século XIX, grande parte das mulheres, com destaque para as burguesas, aceitou o papel de mãe. O início da mudança foi a aceitação da mãe em aleitar o filho e, aos poucos, foram se fixando as ideias de que os cuidados maternos eram insubstituíveis para a sobrevivência do bebê. Pode-se dizer então que a mãe foi aos poucos concordando em restringir sua liberdade, em prol do conforto do filho e, para isso, foi preciso um certo apagamento da mulher em favor da boa mãe, de modo que essa libertação da mãe
representa em alguma medida a alienação da mulher em sua condição de mãe.
A morte da criança passou a ser vivida como um drama e não mais com a indiferença que marcava os tempos antigos. A saúde do filho foi objeto principal da preocupação dos pais. A mãe, ansiosa, pedia conselhos e ajuda ao médico na tarefa de cuidar da saúde do filho.
A mãe assumiu-se onipresente na vida dos filhos e um novo retrato apareceu nesta relação:
Amamentam, vigiam, dão banho, levam a passear e cuidam. A criança já não é relegada à distância, ou a um outro andar. Ela brinca ao pé da mãe, faz as refeições ao seu lado e conquista seu lugar no salão dos pais, como testemunham numerosas gravuras. Estabelecem-se laços que tornam mais difíceis, senão impossíveis, as separações de antigamente. Os pais, a mãe, em particular, não têm mais o desejo de exilar os filhos nos conventos ou colégios². (p. 211)