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Especial é o ser cuja essência coincide com o seu dar-se a ver, com sua espécie71.

70 Trecho da entrevista feita pela pesquisadora com Laura Lima, gentilmente cedida no dia 16 de fev de 2012 as

16hs45min.

59 Laura Lima: Rede de 2010 – Homem = Carne/Mulher = Carne + Pêlos de 1997-2010.

Não é sempre que encontramos em uma exposição duas obras acopladas uma na outra. Rede de 2010 é uma obra que está imbricada a outra obra de Laura Lima, intitulada Homem=Carne/Mulher=Carne – Pêlos. A obra, assim como O Mágico Nu e Escolha, também faz parte da exposição GRANDE de Laura Lima que ocorreu na Casa França Brasil em 2010. Num e-mail trocado com o museólogo da casa projetada por Grandjean de Montigny, Thiago Freitas, ele relata a recepção do público frente à exposição e as obras que estão sendo tratadas no presente capítulo:

A recepção do público variava de acordo com a "aproximação" que cada um tinha com exposições de arte contemporânea. Alguns consideravam que a Casa estava em obras, por causa da desordem provocada pelo mágico e aí ficavam com receio de entrar. Outros achavam um horror o casal nu. No entanto, percebemos que muitas pessoas que trabalhavam ao redor, principalmente homens, iam para ver a menina

60 nua na rede na hora do almoço. Na sala escura, alguns entravam, outros não entravam72.

A obra Pêlos+Rede é composta por uma rede de mais de 30 metros, que atravessa todo o vão central do espaço expositivo. Um homem e uma mulher, ambos despidos, encontram-se deitados na rede de maneira contemplativa, a mulher tem os pêlos pubianos exageradamente compridos e o homem, as sobrancelhas. Aqui, o ornamento utilizado pela artista para alongar os pêlos dos corpos, como se pode argumentar, não vem como intenção de deslocamento, como na obra Nômades, por exemplo - que será tratada no próximo capítulo, em que pessoas vestem paisagens - Pêlos pubianos e sobrancelhas são aspectos humanos, o que é pertinente salientar em Pêlos + Rede, ou a via que corresponde o estranhamento da obra - tanto no homem quanto na mulher - é o exagero.

O que seríamos se não existisse a arte? Pois é ela que nos torna humanos, que toca o sensível. Nessa medida podemos pensar as obra de Laura Lima como presença e ausência. Seus trabalhos estão integrados em uma relação com o mundo, porque o olhar da artista é um olhar poético, da memória que carrega o visível e o invisível, de sua experiência com os indivíduos e o mundo. Quando a artista percebe isso e faz dessa percepção a obra, tudo pode estar interligado, porque não há mais separação entre o que vê e sente. A possibilidade artística é o momento em que o ser humano se vê livre, é o caminho da Profanação.

Quando Laura Lima pensa o corpo como um dispositivo, está a profanar os dispositivos do corpo que já existem, o corpo vem como sensação que interroga o corpo disciplinado.O Mágico Nu nos reporta aos escritos de Agamben em seu livro Profanações, em que ele diz que a felicidade significa, precisamente: para nós, mas que ela só nos cabe no ponto em que não nos estava destinada, não era para nós, ou seja, por magia73. A Profanação para o autor é o contradispositivo, ou seja, seria o ingovernável como um ponto de fuga, uma inversão de tudo aquilo que é considerado sagrado, de uma política nova, pautada na liberdade humana, de poder estar em contato com esse estranho que é você mesmo, apenas ser, deixar-se ser, livremente e sem amarras, sem aprisionamento de qualquer tipo.

No mesmo livro do filósofo italiano, cujo título leva o mesmo assunto que estamos

72 Trecho do email trocado com Thiago Freitas, museólogo da Casa França Brasil. 73 AGAMBEN, 2007, p.24.

61 tratando no presente texto, Profanações, há um capitulo que trata do Ser Especial, nessa linda passagem, Agamben explica a partir da não substância da imagem que aparece no espelho, a imagem como realidade continua, ou seja, uma imagem que muda e se renova a cada instante de acordo com a presença de quem a observa. Agamben irá dizer que o Ser Especial é como a imagem que se projeta no espelho, ela não possui substancia, uma espécie que produz tensão e é nada mais que o amor com que cada ser deseja e persevera no próprio ser, porque na imagem o ser e o desejar, a existência e o esforço, combinam-se reciprocamente, pois amar o outro, nas palavras do filósofo, significa desejar sua espécie, e perseverar em seu ser o mesmo desejo que tem por sua espécie. O ser especial é, nesse sentido, o ser comum ou genérico, e isso é algo como a imagem ou o rosto da humanidade.74

Em Pêlos+Rede, a imagem nos revela a espécie, a visibilidade que somos, pois a imagem de dois corpos nus traz à tona a revelação do ser na sua forma pura, crua, revela a nossa espécie a nossa espécie, a imagem expõe nosso gênero. Na obra deixamos de ser pessoa para nos tornar espécie, já que a pessoa é a captura da sua espécie e a vinculação a uma substancia com o objetivo de fazer-se possível a sua identificação. O dispositivo da carteira de identidade, por exemplo, captura a espécie que somos nas palavras de Agamben. Em vista disso, é válido pensar que quando a artista pensa o corpos como um dispositivo da arte, ao mesmo tempo profana os dispositivos do corpo que já existem, uma vez que o corpo aqui é entendido com uma imagem sensível, como sensação, que interroga o corpo disciplinado.

Eu sou um corpo que trabalha com o corpo do outro; a instituição também é um corpo; a sociedade idem. Nota-se que as arquiteturas vão se tornando tão ou mais complexas que um corpo simples, elas formam uma massa política. Eu poderia acoplar aparatos a um corpo, dar-lhes funções, portanto, porque o cobriria com uma roupa pretensamente neutra? Opto por deixá-lo nu, orquestrando jogos de sentidos que eu deseje imbricar. É um jogo entre a crueza da matéria e sua potencia de complexidade75.

É conveniente ao presente estudo a exploração do significado dessa potencia que Laura Lima sugere em sua obra, e assim também convêm pensar através disso o sensível a partir da imagem. Agamben afirma que a transformação da espécie em identidade e

74 AGAMBEN, 2007, p.47.

75 Laura Lima em entrevista para o crítico Felipe Scovino, realizada em novembro de 2010. Disponível no site da

biblioteca virtual ISSUU, em: <http://issuu.com/biblioteca.daniname/docs/laura-lima-grande-folder> acesso em: 1 de mai de 2012.

62 classificação é o maior pecado de nossa cultura, já que o Ser Especial é aquilo ou aquele que não se assemelhando a nenhum, se assemelha a todos os outros. O Ser Especial neste caso é o ser da essência, o ser da diferença, já que o ser essencial é aquela espécie cuja crueza não definida se torna contínua e não substancial, a imagem do espelho. É na profanação que está à essência, a verdade, a tão aspirada busca do escritor e do artista e aqui podemos destacar Marcel Proust e Cézanne.

Roberto Machado76, estudioso de Deleuze, irá esclarecer que existe uma hierarquia dos signos para explicar a essência, a busca de Proust nesse caso, sendo que o mais comum está na experiência da memória. Depois, vêm os signos artísticos, que são capazes de decifrar a essência ou a diferença, o filósofo brasileiro irá explicar através do pensamento deleuziano que é na diferença, ou nos signos artísticos, que todas as essências são reveladas e os três signos - mundanos, amorosos e sensíveis - convergem para a verdadeira adaptação de signo e sentido, o signo artístico. É nos signos da Arte que está à singularidade, a profanação, a revelação da verdade, em que nada aliena, porque seus objetos estão no ponto de vista da essência. Mas para se chegar à essência, são indispensáveis os signos mundanos, visíveis, o estar no mundo e fazer parte desse mundo, como afirmara o filósofo da fenomenologia, sendo que a percepção do visível e do invisível para Merleau- Ponty é a via de acesso para a verdade, a carne ou Quiasma.

Cabe ressaltar que Pêlos + Rede, chama a atenção porque fazem parte, diríamos, de um mistério que entra num campo peculiar, pleno de sentidos alhures ao que convencionalmente nossos olhos estão habituados. A aberração do orgânico, do humano, presente em Pêlos + Rede, representada por uma linha sutil e indiscernível que o separa do animal pode ser vista aqui como uma derivação do conceito de vianda em Deleuze. Em ambos, a representação faz ver uma “espécie de unidade original dos sentidos e fazer aparecer visualmente uma Figura multissensível” 77.

Homem=carne/Mulher=carne - Pêlos +Rede, é tratada aqui como à representação de uma força ou potência invisível, já que a imagem torna-se carne no corpo de quem as vê (como elucidado no capitulo anterior, através dos estudos de Didi-Huberman) bem como as pinturas de Francis Bacon, base para o conceito deleuziano. A carne, que é vianda “é o “fato” é o próprio estado em que o pintor se identifica com os objetos de seu horror ou de sua

76 MACHADO, 2009.

63 compaixão “78. Portanto, a figura de Bacon, sob a ótica do filósofo francês, além de ser deformada é aquela que escapa. A vianda não é a carne morta, mas o confronto entre carne e ossos e nesse duelo há um corpo que sofre, um corpo que é vianda. Sendo assim, num importante aspecto, cabe salientar que Deleuze privilegia no estudo da figura, o corpo e Bacon pinta o material corpóreo da figura ou como a figura experiência uma sensação, pois “em vez de correspondências formais, a pintura de Bacon constitui uma zona de inderscinibilidade, de indecidibilidade entre o homem e o animal” 79·. Nesse caso, pensamos sensação na obra de Laura Lima como uma maneira de ultrapassar a figura, conseqüentemente, com base no estudo deleuziano a respeito da sensação, afirma-se que Rede +Pêlos sugere a representação de uma sensação e o homem contemporâneo, casa vez mais longe de seu ser, do Ser Especial .

Laura Lima: Rede de 2010 – Homem = Carne/Mulher = Carne – Pelos de

1997-2010.

A representação da figura humana adquire força maior após a primeira guerra mundial. O interesse dos artistas em representar o corpo humano torna-se necessidade de reflexão

78 Ibid. p.31.

64 através da arte, uma vez que é a partir desse momento surge com maior intensidade à crise das certezas do homem. As questões geradas no modernismo vêm para a arte dos dias atuais como desdobramento. Agamben irá dizer que o Ser Especial comunica a própria comunicabilidade, no entanto esta comunicabilidade se afasta e se constitui numa esfera autônoma e separada, pois o ser especial transformou-se em espetáculo, uma vez que se trata da separação do ser da sua espécie, do ser genérico, e que não há nesse ser a possibilidade do amor, já que ele não se vê em essência.

Pêlos + Rede não vem pronta para ser lida e apreciada como o ideal sereno e belo da arte clássica, por exemplo, a autora da obra mostra um corpo que a todo tempo a sociedade tenta mascarar, através dos dispositivos que condicionam o ser, as relações de poder que aprisionam nossas sensações, o nosso lado bicho. Estar diante de Pêlos +Rede é sentir-se fora de si em si, pois a figura que se vê é tão misteriosa que leva-nos para fora do mundo, leva-nos para esse Ser Especial, ou seja, é um fora de si que entrega o ser profundamente a ele mesmo e vai até o interior das suas paixões mais profundas.