Laura Lima: Galinhas de Gala e Galinheiros de Gala, 2004/2006. Galinhas vivas com penas e plumas de carnaval. Madeira e tela de galinheiro.
O ornamento é um fetiche, uma forma de prazer dos sentidos, neste caso do olhar, percebemos através do estudo de Caillois que o impulso ornamental não imita a natureza, já que a ornamentação faz parte da natureza. Quando falamos a respeito da forma e da estética sempre estará em questão o ornamento, como já diria Nietzsche, o culto a vida é ornamento, por isso, o mesmo instinto que gerou este mundo intermediário e estético gerou a arte como ornamento e coroação da existência.118
Em Galinhas de gala e Galinheiros de gala, tal como Nômades, Costumes e Novos Costumes, Laura Lima irá pensar o tema da ornamentação, uma vez que tais obras pertencem
94 à instância intitulada Filosofia Ornamental. Com uma plumagem colorida aplicada as galinhas, a artista utiliza a mesma técnica usada em alongamentos de cabelos em humanos. Na Filosofia Ornamental, além dos animais, os Vegetais também são modificados, uma folha, por exemplo, pode ser cortada pela artista e sofrer uma modificação de seu formato original.
A obra suscitou grandes questionamentos e uma verdadeira polêmica quando foi apresentada em Fortaleza, para a exposição do Premio Marcantonio Vilaça em 2006. Exposta na porta de entrada do Museu de Arte Contemporânea do Centro Cultural Dragão do Mar, a obra era composta por treze galinhas coloridas, que ficavam expostas dentro de uma espécie de poleiro. A grande polêmica derivava não somente do ato de Laura Lima prender as galinhas, mas também de adorná-las. A exposição das galinhas gerou uma passeata envolvendo pessoas interessadas na proteção dos animais, eles protestavam a favor da liberdade dos bichos, pois achavam que a prática era considerada um abuso.
A ornamentação é uma questão importante para a história da arte, nesse caso as galinhas são bichos muito corriqueiros, que as pessoas não prestam atenção, e eu transformei, eu peguei penas e plumas de carnaval de outros animais, mas que são tingidos, usados no carnaval, e apliquei na extremidade da pena com a mesma técnica do mega hear que é usado em humanos119.
Galinhas de Gala e Galinheiros de Gala vêm mostrar que Laura Lima escolhe a matéria viva para moldar suas obras, a idéia da relação do corpo com a coisa viva é pertinente no trabalho da artista, então os animais e até mesmo as plantas, que a artista se vale com material para a construção de algumas de suas obras, vem como uma forma de citação da coisa viva:
A minha forma de fazer uma obra é com a presença do corpo como matéria, daí então eu vou começar a fazer uma série de relações, como o corpo é perecível, ele é indomável, ele é uma coisa viva, e por isso também eu acrescentaria os animais ao meu trabalho e muitas vezes até as plantas120.
119 Laura Lima em entrevista sobre a exposição, disponível no site de vídeo You Tube:
<http://www.youtube.com/watch?v=o2VWh7DzudE> acesso em 30 de jul de 2012.
120 Trecho da entrevista feita por Sabrina Maurilia dos Santos com Laura Lima, gentilmente cedida no dia 16 de
95 Caillois, em Mimetismo e Psicastenia Legendaria apresenta que pela observação do comportamento do animal, podemos refletir acerca do universo e das atitudes humanas. O autor escreveu a respeito de uma espécie de delírio que ocorre no olho do animal, um mecanismo de defesa, a telesplastia, uma verdadeira fotografia no plano do objeto e não da imagem, reprodução no espaço tridimensional com volume e profundidade: fotografia, escultura, ou melhor, teleplastia se se despoja a palavra de todo conteúdo metapsíquico121. Segundo o autor, a teleplastia é um excesso sem explicação, é uma expécie de delírio que ocorre no bicho. Em Galinhas de Gala e Galinheiros de Gala, a teleplastia acontece como um delirio do olho da artista, que se tranforma em bicho nesse caso, fazendo da imagem um luxo ornamental que não passa de dispendio e excesso. Tomando como base tal preceito, podemos entender que é questionado aqui todo o humanismo construído no Renascimento, que tinha um entendimento de homem constituído na razão. Tão admirável e belo este homem, glorificado, poderia até ser comparado a Deus.
Em Galinhas de Gala e Galinheiros de Gala o homem é comparado ao bicho, já que a obra apresenta o anti-humanismo. Perceber a obra com base nesse princípio, é ver que esta não aponta a questão do trato com as galinhas, o cerne da discussão reside em seu potencial reflexivo acerca da condição humana. As galinhas estão vestidas de Gala, conforme mencionado acima, as Galinhas de Gala exibem plumas que identificam seu luxo como o espírito do dispêndio, do excesso. Luis Camilo Osório descreve Galinhas de Gala e Galinheiros de Gala como um desejo quase barroco do enfeite e do enfeitiçamento122. Esse enfeitiçamento criado pela ornamentação é considerado um delírio da espécie, aqui, um desejo da artista pelo ornamento. Assim, podemos entender que a arte também é ornamento, já que se trata de um luxo da espécie humana.
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CAILLOIS, Roger. Mimetismo e Psicastenia Legendária. Revista Che Vuoi, POA, Cooperativa Cultural Jacques Lacan, 1986, p.58.
122122 PRÊMIO CNI SESI MARCANTONIO VILAÇA PARA AS ARTES PLÁSTICAS. Catálogo oficial
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CONCLUSÃO
A coisa da matéria viva, presente como um todo nos trabalhos de Laura Lima aqui apresentados, trazem a tona uma reflexão sobre a idéia de instante. Mas como escrever a respeito de um tema que já representa a impotência da palavra? Porque é no instante que as coisas realmente existem por inteiro. No instante as coisas simplesmente são, então escrever sobre o instante é fazer com que esse momento se dissipe.
Só agora consigo entender a frase de Laura Lima quando ela diz na entrevista que fiz em sua casa: Eu preciso que a obra volte como uma onda para cima de mim. A obra de Laura Lima nunca será uma representação. Jamais veremos uma obra da artista como uma documentação de vídeo ou fotografia. As pessoas querem prender o instante, para depois compartilhá-lo com alguém, eis o paradoxo, a experiência do instante jamais poderá ser compartilhada a posteriori, porque o instante em si já o é, impossível de ser compartilhado, pois é na sua integridade uma experiência do individuo que se encontra sendo, e nunca do que já foi.
É por isso que as ações de Laura Lima são repetidas e acontecem no momento em que o visitante está lá no espaço expositivo. Na verdade, quando o visitante se depara com uma obra de Laura Lima, mesmo que ele queira descrever para alguém o que sentiu, a explanação nunca será igual à experiência que teve no momento em que a ação ocorreu, porque naquele instante ele era algo diferente, antes de conseguir decodificar a sensação que a obra suscitava.
Existe aqui uma tensão entre a palavra e o instante, a poesia do trabalho de Laura Lima é muda, pois não há palavras para descrevê-la, uma vez que só é sentida, no momento da ação. A obra nunca será qualificada a nada, porque são como essas coisas que sentimos no instante e que não encontramos palavras para definir, já que habitam um tempo outro, o tempo da alma, da sensação.
Na busca por uma teoria a respeito de obras que silenciam, na lacuna que se faz entre o instante e a palavra, alguns autores aqui citados anunciaram uma possível conversa. Já que a obra desabriga o verbo, quando a sua procura se torna uma necessidade. Merleau Ponty nos revelou que a carne é algo que portamos no espaço, o eu está presente nessa mistura que se desenha ou que tacteia a cada olhar e a cada toque. A imagem da carne/corpo que vemos nas obras de Laura Lima é um lugar que está presente nesse instante do corpo e da vida, que no
97 momento, somente no momento, conseguimos captar e atar ao nosso corpo para que nos tornemos completos, mas Didi Huberman nos conforta quando revela que não estamos sozinhos, porque estamos sendo observados a cada olhar, ou a cada toque em cada coisa que nos olha quando nos distraímos.
Para cosermos uma trama entre o visível e o inefável, há que estabelecer entre esse espaço, que é irredutível um ao outro, uma forma de apreensão, como formulou Agamben ao explanar sobre os dispositivos. O corpo mundo em Laura Lima é um corpo que encontrou sua espécie, é um ser cuja excepcionalidade sente o amor, já que ele transborda num espaço contínuo, sem limitação ou separação de qualquer tipo. Esse corpo representa o tempo oportuno, o tempo da vida, que obedece a um ciclo de um momento certo para acontecer, o tempo exato, assim como um fruto maduro, que só pode ser saboreado na estação certa. Em virtude dessa possibilidade de escrever sobre a obra, já que obedecemos um conceito pré definido que a fundamenta em Agamben, podemos encontrar um ser genial, que tem o dom e o sortilégio da magia e que habita um tempo mítico. O ser genial tem o dom de fazer magia, porque ele acredita que em algum lugar dentro de si esse feitiço é possível.
Deleuze irá escrever sobre a diferença na repetição123 e citará o filósofo Nietzsche quando diz que a repetição é estabelecida no Eterno Retorno. Sob esse prisma, o retorno que não é do mesmo, e sim o mesmo que é produzido na diferença, dito de outro modo, a repetição no eterno retorno não é a reprodução ou representação do mesmo, mas do que difere em si. Assim, em Gaia Ciência, Nietzsche defende a premissa de que extremos se alternam nas vivências de uma eterna repetição, como se tudo que fosse embora retornasse. Desde aquilo que pode ser menor ou maior, porém, mesmo que sejam diferentes estes extremos não se contrapõem, ao contrário, pertencem à mesma coisa, só que em estados ou níveis diferentes.
E se um dia, ou uma noite, um demônio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solidão e te dissesse: “Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes e nada haverá de novo nela, cada dor e cada prazer e cada suspiro pensamento e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida terão de lhe suceder novamente, e tudo na mesma seqüência e ordem.124
123 DELEUZE, 2006, p.37.
98 Assim, entende-se que a noção de tempo não está presente no Eterno Retorno, a realidade para Nietzsche não tem uma intenção ou objetivo a cumprir, e por isso as alternâncias de prazer e desprazer se repetem durante a vida. – O Eterno Retorno não se reproduz sob uma conjetura temporal ou cíclica, mas nas nuances de vivências que se complementam, e por isso, dão sentido a vida. Os corpos como matéria viva que a artista apresenta em suas obras, são em si o tempo da vida e do instante, porque nele não existem regra e aprisionamento de qualquer tipo. É um tempo contínuo, tal como o tempo no contemporâneo, que a história ainda não tocou.
Se pensarmos desde Nietzsche, a vida que estamos vivendo no presente, como estamos vivendo e repetindo o que já vivemos, teremos de viver mais uma vez e por incontáveis vezes e nada haverá de novo nela, faz-nos pensar a respeito da ansiedade do nosso tempo, na busca em tentar decodificar um instante que é sombra, porque para encontrar a luz desse tempo, há que viver esse tempo, há que senti-lo, e para vivê-lo, já que vamos viver incontáveis vezes, temos de sentir o prazer, um prazer que só um fruto maduro é capaz de fazer-nos saborear.
Nesse momento, diríamos que o corpo excesso, é o corpo que morre (a morte que não é termino, é somente transformação) o corpo que se mimetiza, como nos mostrou Caillois, é o corpo que profana, que fecha um ciclo, mas um ciclo que não acaba, porque da lugar a outro corpo, que, se obedecermos a idéia nietzschiana, nascerá de novo, e viverá a mesma vida, tal como viveu no passado, e esta nova vida renasce quando Laura Lima ornamenta, e faz disso a própria arte, porque não existe arte que seja um instinto de morte, já que a arte é o que dá a vida.
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