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Søknad om konsesjon for Tellenes vindkraftverk

1. INNLEDNING

1.1 Søknad om konsesjon for Tellenes vindkraftverk

Entendemos que a crítica de Nietzsche ao Estado e à democracia se coloca como extensão do projeto genealógico já que esse busca a compreensão da decadência da vida na sua multiplicidade de manifestações, a partir da perspectiva do niilismo reativo, alicerçado numa base moral herdada da filosofia e da teologia que se estabeleceu no modelo civilizatório ocidental moderno. A perspectiva política de Nietzsche se apresenta como um modo de fazer um inventário temporal e portanto, histórico, da afirmação da Razão e de sua materialização, numa estrutura ordenadora da sociedade chamada Estado. Esta Razão moderna transformada em Estado, tráz consigo o ímpeto totalitário de abarcar a multiplicidade do real, conquistando por intermédio de imposições contratuais, das normas, das leis, da coerção, o mundo natural onde habitam as paixões, os desejos, os sentimentos, os instintos, a vontade de potência como força livre impulsionadora da vida.

Desta forma, Nietzsche se opõe à tese de Rousseau que entende o surgimento do Estado moderno como fruto do contrato social, onde os homens, numa perspectiva altruísta, abririam mão de seus direitos vitais, para receber em troca a possibilidade de viver ordenadamente em sociedade. Para Nietzsche não é a partir deste sentimentalismo que se estabelece o Estado, mas a partir da vontade de poder que permeia a própria condição humana, a partir da necessidade gregária manifestada pelo instinto de rebanho, presente nos fracos como uma das únicas possibilidades de sobrevivência. Portanto, o nascimento do Estado se circunscreve numa perspectiva genealógica de violentação da condição humana em sua individualidade e diversidade de possibilidades vitais, passando a fazer parte de uma coletividade conduzida por preceitos morais, que restringem as possibilidades e a criatividade humana. Portanto, uma estrutura racional por excelência, que despreza qualquer outra possibilidade de entendimento do mundo.

[...] a inserção de uma população sem normas e sem freios numa forma estável, assim como tivera início com um ato de violência, foi levada a termo somente com atos de – que o mais antigo “Estado”, em conseqüência, apareceu como uma terrível tirania, uma maquinaria esmagadora e implacável, e assim prosseguiu seu trabalho , até que tal matéria-prima humana e semi-animal ficou não só amassada e maleável, mas também dotada de uma

forma. Utilizei a palavra “Estado”: está claro a que me refiro – algum bando de bestas louras,

uma raça de conquistadores e senhores, que, organizada, guerreiramente e com força para organizar, sem hesitação lança suas garras terríveis sobre uma população talvez imensamente superior em número, mas ainda informe e nômade. Desse modo começa a existir o “Estado” na terra: penso haver acabado aquele sentimentalismo que o fazia começar com um “contrato”. (NIETZSCHE, 1998/B, p. 74).

Nietzsche nos coloca diante do Estado na sua origem histórica, resultado dos esforços metafísicos e cristãos que se configuram numa racionalidade totalitária aplicada ao enquadramento e à domesticação do animal de rebanho. O Estado como emanação da Razão, apresenta-se como totalidade portadora de sentido e finalidade, materializada na medida em

que o homem caminha rumo à civilização, tendo acesso a direitos e deveres gregariamente construídos e parcialmente garantidos e executados pelo Estado, limitando suas possibilidades de manifestações vitais, sua visão de mundo, ao mesmo tempo em que estas limitações são apresentadas como a sendo a única possibilidade de se viver a liberdade, a plenitude das forças vitais. É nesta perspectiva que Nietzsche desmascara as pretensões do Estado moderno, apontando suas estratégias de dissimulação e dominação do rebanho na proposição de que o “Estado é manifestação da vontade popular”.

Ainda há povos e rebanhos, nalgum sítio, mas não entre nós, meus irmãos: aqui há Estado. Estados? Que é isto? Pois seja! Abri bem os ouvidos, porque agora vou dizer-vos a minha palavra sobre a morte dos povos.

Chama-se Estado o mais frio de todos os monstros frios. E, com toda a frieza, também mente; e esta mentira sai rastejando de sua boca: “Eu, o Estado, sou o povo!” (NIETZSCHE, 1998/A, p. 65).

O Estado representa o auge da racionalidade ordenadora, da lógica totalitária aplicada à regulação das virtudes humanas, excluindo tudo o que lhe parece residual, diferencial, particular, singular, corpóreo, instintivo. É razão colocada a serviço do controle da vida e seus impulsos. Neste sentido, para levar adiante estes atos de violentação do homem, para reforçar nele o instinto gregário de animal de rebanho, o Estado utiliza-se da estratégia de promoção de uma cultura de massas, mantendo a baixos níveis a capacidade de entendimento e a visão das possibilidades que o homem pode ter como participante de uma ordem social regida pelos princípios estatais. “No leito enfermo da política geralmente um povo rejuvenesce redescobre seu espírito, que havia gradualmente perdido ao buscar e assegurar o poder. A cultura deve suas mais altas conquistas aos tempos politicamente debilitados”.(NIETZSCHE, 2000/E, p. 250).

Destruidores, são os que preparam armadilhas para muitos e as chamam Estado; e suspendem por cima deles uma espada e cem cobiças.

Onde existe um povo, este não compreende o Estado e o odeia como má sorte e uma ofensa aos costumes e justiça.

[...]. Mas o Estado mente em todas as línguas do bem e do mal; e, qualquer coisa que diga, mente – e, qualquer coisa que possua, roubou-a.

Nele, tudo é falso. Morde com dentes roubados, esse mordedor; falsas são, até suas entranhas.

Confusão de língua do bem e do mal: esta indicação eu vos dou como marca do Estado. Essa marca, na verdade, significativa vontade de morte! Na verdade, ele chama os pregadores da morte!

[...]. “Nada há na terra maior do que eu; eu sou o dedo ordenador de Deus” – assim urra o monstro. E não somente aquele de orelhas compridas e vista curta se põem de joelhos! (NIETZSCHE, 1998/A, p. 65).

O Estado como emanação de uma racionalidade totalitária herdeira dos valores metafísicos e cristãos apresenta-se necessariamente como o doador de sentido e finalidade ao rebanho no contexto da materialidade. Para obter êxito e durabilidade em suas ações, alimenta

sentimentos patrióticos, símbolos nacionais, histórias e tradições que lhe conferem uma perspectiva de eternidade. Diante de suas fragilidades, contingências, parcialidades, a condição humana constrói um sentido e uma perspectiva de vida no além-mundo pautada nas prerrogativas de uma racionalidade doadora de sentido e finalidade. Desta forma, é possível constatar que a sobrevivência do Estado, enquanto Razão ordenadora do mundo, da vida, do rebanho, assenta-se na crença de que as questões políticas, estatais, são regidas por uma ordem maior, transcendente. Assim, o Estado somente sobrevive na medida em que estiver envolto pelo manto da religião.

[... ] os interesses do governo tutelar e os interesses da religião caminham de mãos dadas, de modo que, quando está última começa a definhar, também o fundamento do Estado é abalado. A crença numa ordenação divina das coisas políticas, no mistério que seria a existência do Estado, é de procedência religiosa: se desaparecer a religião, o Estado inevitavelmente perderá seu antigo véu de Isis e não mais despertará reverência. (NIETZSCHE, 2000/E, p. 254).

Diante do exposto é possível entender o posicionamento de Nietzsche quando nos diz que o culto ao soberano exige camadas populares baixas. “[...]. Em todo lugar onde se busca elevar indivíduos a um plano sobre-humano surge também a tendência de imaginar camadas inteiras do povo como sendo mais baixas e grosseiras do que são na realidade.” (NIETZSCHE, 2000/E, p. 248). Ainda seguindo esta linha de pensamento, Nietzsche mostra como as coisas do Estado consomem os melhores cérebros e energias que a humanidade pode oferecer, mas que, conseqüentemente, pelas características até aqui apresentadas do Estado e seu fazer, levam ao empobrecimento, à debilitação e aos embrutecimentos destas inteligências, ao declínio da própria racionalidade, enquanto lucidez, diante dos desafios que requer constantemente a condição humana em sua vontade de potência geradora de vida, em sua multiplicidade de possibilidades, em seu devir.

[...] as questões e os cuidados relativos ao bem público, diariamente renovados, consomem um tributo diário do capital de coração e mente de todo cidadão: a soma de todos esses sacrifícios e perdas de energia e trabalho individual é tão monstruosa que o florescimento político de um povo quase necessariamente acarreta um empobrecimento e debilitação espiritual, uma menor capacidade para obras que exigem grande concentração e exclusividade. (NIETZSCHE, 2000/E, p. 262).

Seria um equívoco pressupor que Nietzsche estivesse aqui pregando o aniquilamento do Estado, o que necessariamente o colocaria na vala comum junto aos anarquistas, a quem faz duras críticas: “[...] o anarquista, enquanto embocadura das camadas decadentes [...]”(NIETZSCHE, 2000/C, p.87). Porém, sua perspectiva genealógica nos leva a compreensão de que o Estado é a forma presente no modelo civilizatório ocidental moderno de ordenamento da sociedade, e como tudo o que é humano é frágil, contingente, passageiro, outras formas de ordenamento do rebanho constituir-se-ão ao longo da aventura e da tragédia

humana neste planeta. A partir da perspectiva histórica, um olhar sobre outros povos e civilizações, evidenciam esta alternância do poder ordenador do rebanho social. Ora foram os clãs, depois a família, atualmente o Estado: a grande razão materializada.

Nossa ordem social lentamente se dissolverá, como sucedeu a todas as ordens anteriores, quando os sóis de novas opiniões brilharam sobre os homens como novo ardor. Pode-se desejar esta dissolução apenas na medida em que se tenha esperança; e ter esperança é possível apenas quando se atribui, a si mesmo e a seus iguais, mais força na mente e no coração do que nos representantes da ordem vigente.(NIETZSCHE, 2000/E, p. 240).

Quanto à democracia liberal, Nietzsche a concebe como manifestação da degradação da organização política. Pois “[...]se em toda política a questão é tornar suportável a vida para o maior número de pessoas, que esse maior número defina o que entende por uma vida suportável” (NIETZSCHE, 2000/E, p. 237). Isto exigiria um mínimo de condições culturais para que se viabilizassem políticas públicas necessárias à pretensa finalidade. Por outro lado, exigiria do governante abrir mão de sua vontade de poder sobre o rebanho, na medida em que seria apenas o porta-voz da vontade pública. Porém, esta possibilidade choca-se com a própria natureza do Estado enquanto Razão ordenadora, habitada por profundas vontades de poder e conseqüentes jogos de interesse, que quando muito podem disfarçar, sob o manto democrático, sua vontade autoritária no exercício do poder. E isto apresenta-se, na medida em que o Estado mantém o grande rebanho numa espécie de mediocridade nivelada, para que seus pressupostos metafísicos e teológicos possam ser aceitos pelo instinto de rebanho. “Nos grandes Estados a instrução pública será sempre, no melhor dos casos, medíocre [...]” (NIETZSCHE, 2000/E, p. 250). Para Nietzsche, a democracia liberal, sendo a própria degradação do Estado tráz consigo outras possibilidades, entre elas a de apressar o definhamento do próprio Estado, configurando-se o instinto de rebanho em outra força ordenadora que, possivelmente, estará investida da tarefa de ordernar a existência em parâmetros teleológicos seguros.

[...] a democracia moderna é a forma histórica do declínio do Estado – Mas a perspectiva que resulta desse forte declínio não é infeliz em todos os aspectos: entre as características dos seres humanos, a sagacidade e o interesse pessoal são as mais bem desenvolvidas; se o Estado não mais corresponder às exigências dessas forças, não ocorrerá de maneira alguma o caos: uma invenção ainda mais pertinente que aquilo que era o Estado, isto sim, triunfará sobre o Estado. [...]. Assim, uma geração posterior também verá o Estado se tornar insignificante em vários trechos da terra. (NIETZSCHE, 2000/E, p. 255).

A democracia liberal, apresenta-se sob os mais variados aspectos, sob os quais se possa analisar, como manifestação intensa do niilismo reativo frente à vida, na medida em que pode ser considerada a auto-mediocrização da humanidade. Partindo das prerrogativas sobre as quais desenvolve sua proposta, ou seja, direitos iguais aos desiguais, significa aniquilamento das diferenças, apequenamento do homem, uniformização da vontade do

rebanho e das multiplicidades de possibilidades presentes na condição humana. Portanto, para Nietzsche em sua perspicácia genealógica, a democracia liberal tem origens alicerçadas nos ideais ascéticos moralizantes, repressores e julgadores da vida, impressos no corpo e na alma do animal de rebanho. Sua aplicabilidade se faz, a partir desta perspectiva, como ato de violência consentida, crueldade sobre as massas, falácia que alimenta a auto-tortura, do instinto de rebanho.