KAPITTEL 19 ET ÅPENT ELLER ÅPNERE UNIVERSITET?
19.1 Særtrekk ved høgre utdanning som masseutdanning
A noção de “povo” norteará a idéia da criação da “alma” de nações recém- constituídas ou por se constituir. Diversamente do que se pensava até pouco tempo, o processo do despertar da consciência nacional não seria antecedido pela existência de “nações”, mas o contrário: “o nacionalismo não acorda uma nação entorpecida por uma alienação secular, ele simplesmente inventa a nação que antes não existia” (Arantes, 2001, p. 228, grifo meu).
Simultaneamente à descida à terra, à exploração das contingências do humano, o Romantismo cultivou obsessivamente a busca pelo Absoluto e seu correspondente desejo de unidade, numa verdadeira “embriaguez”, num “afã de integridade e totalidade” (Nunes, 2002, p. 65). Alcançar, pela arte, uma espécie de “sentimento oceânico”,17 a dissolução do eu, só
possível na natureza ou nas águas profundas da religião. Daí a natureza, essa “coesão mágica”, uma “unidade sublime” com o ser humano, desempenhar uma função primordial no Romantismo (Mme. Stael apud Nunes, 2002, p. 67)
Testemunha da imensidade de Deus – e o Romantismo é essencialmente cristão – obra divina isenta da mácula humana, a Natureza constitui-se num espetáculo para o homem, com seus bosques, florestas, vento, rios, murmúrios, sombras e luzes. No entanto, ela se mostra também como uma luta contínua de forças opostas, já que ela é a expressão de tudo que é exterior ao sujeito, o não-eu de Fichte e outros filósofos. Na época clássica do século 18, segundo Foucault, há como que um prévio “circuito de comunicação” (Foucault apud Nunes, 2002, p. 57) entre o interior e o exterior, o homem e o mundo, a natureza das coisas e a natureza humana, fundamentado numa espécie de “achatamento do sujeito”, encaixado em uma Natureza cuja ordem e regularidade se prolongam na ordem e regularidade dos discursos
17 A expressão de Freud, em O mal-estar da cultura e da civilização, refere-se ao bem-estar proporcionado pela
científico, religioso, estético, jurídico e político. O resultado dessa cosmogonia é a abstração da singularidade do indivíduo, refletindo-se na disciplina canônica do gosto clássico, refratária à originalidade pessoal e ao chamado “entusiasmo”. No Romantismo, rompido o circuito da comunicação entre o interior e o exterior, seu funcionamento vai depender, de agora em diante, do sujeito que “transcende, assim avultado, a Natureza física” (Nunes, 2002, p. 57). O que não significa permanente harmonia, mas sim como uma “luta contínua de forças”, pois a Natureza é entendida também como resistência e obstáculo à realização do eu (Bornheim, 2002, p. 101).
A busca de unidade revela-se então como uma espécie de performance, já que se manifesta no artista a consciência de nunca poder alcançá-la, seu objeto de desejo estando sempre em outro lugar, atrás ou à frente, dentro ou fora, nunca aqui e agora, ao alcance da mão. O romântico sabe que atingir o Absoluto significaria cessar todo o devir, todo o movimento – razão de ser do próprio Romantismo. Afinal, se o Absoluto é a meta final, o sentido de toda a progressão, a origem à qual toda natureza busca integrar-se, alcançá-lo significaria o cessar de toda a atividade, “o repouso absoluto” (Bornheim, 2002, p. 101) – para além da busca da satisfação do desejo que imprime movimento, o que advém é a própria morte, afirmará Freud. A literatura apresenta-se então como um jogo exercido com a consciência de que é algo da ordem do artifício, da simulação, cujo prêmio inatingível é, no limite, a própria manifestação de desejo por um infinito inominável. Porém, se para Hugo (2004, p. 67) “a arte não pode apresentar a própria coisa”, tem o poder, no entanto, de criar uma simulação de realidade através da utilização de várias estratégias, entre elas o emprego da chamada “cor local”. Para Victor Hugo, essa idéia muito vulgarizada, no século 19, não seria, no entanto, como pretendem alguns, “uns toques berrantes aqui e ali”, nem residiria na superfície do drama, “mas no fundo, no coração da obra, de onde se espalha para fora dela própria” (Hugo, 2004, p. 70). Na busca da “cor local”, nada deveria ser abandonado, nem o
vulgar, nem o trivial – todos os esforços envidados contra a irrupção do comum. Em vez da beleza idealizada, o pitoresco (o pinturesco, que reproduz o modelo com a plasticidade da pintura), o característico, “tudo que pelo efeito de surpresa ou contraste faz ressaltar vivamente a realidade” (Prado, 2002, p. 172), o que, de certa forma, abre uma senda para o realismo. A utilização da “cor local” faz o Absoluto baixar das alturas ao mundo habitado pelos homens, expressão de sua contingência. Num tempo em que os nacionalismos promovem modificações de fronteiras e um novo equilíbrio – instável – entre as nações, a “cor local” desempenha uma função política: conferir singularidade através de diferenças garimpadas na “alma” do povo, na natureza circundante e em suas realizações culturais.
Forma por excelência de representação da burguesia que se consolidava no século 19, o romance vai representar a possibilidade de uma sutura fictícia da fissura entre o mundo interior e a realidade exterior, através da trajetória do herói dividido, dilacerado, em embate com as circunstâncias e sob o peso das transformações inexoráveis do tempo. A trajetória do herói, expressão de um individualismo nascente, torna-se o percurso rumo a novas totalidades – e a patriazinha, lugarejo de nascença, mencionado por Virgílio em alguns de seus poemas, passa a significar um local imaginário mais amplo, o da realização desse desejo de plenitude.
Existe uma aspiração da alma que se ocupa, porém, somente com o essencial, não importa de onde ele venha ou quais sejam seus objetivos; há uma aspiração da alma em que a ânsia pela pátria é tão virulenta que a alma, em ímpeto cego, tem de seguir a primeira trilha que parece conduzir ao lar; e tão poderoso é este fervor que ela é capaz de percorrer seu caminho até o fim: para essa alma sua individualidade é a pátria. (Lukács, 2000, p. 88-89)
Na concepção de muitos pensadores e artistas românticos, essa “alma” poderia ser encontrada principalmente na língua – daí as escavações poéticas, consideradas como fontes de águas cristalinas, onde irão beber poetas posteriores.
A língua é o repositório cultural de um povo, fruto de um acúmulo de tradições e criatividade durante séculos de história, e é através da língua que o conhecimento se
torna possível, assim como as diferenças lingüísticas refletem diferentes experiências dos povos. (Falbel, 2002, p. 43)
Em cada país, o Romantismo tomou feições próprias – voltou-se para um passado imemorial e elaborou o que pressupôs fundamental à criação de uma origem mítica da nação. O resultado dessa operação é a nação ocidental moderna, que se apresenta, nas palavras de Bhabha (1998), como uma forma “obscura e ubíqua de viver a localidade da cultura” – que acontece mais em torno da temporalidade do que sobre a historicidade: e se expressa numa forma de vida, entre outras coisas, mais complexa que “comunidade”, mais simbólica que “sociedade”, mais conotativa que “país”, menos patriótica que patrie, mais retórica que a razão de Estado, mais mitológica que a ideologia, mais coletiva que o sujeito, mais psíquica que civilidade. Nessa perspectiva, a localidade da cultura, vai ser principalmente, “mais híbrida na articulação de diferenças e identificações culturais do que pode ser representado em qualquer estruturação hierárquica ou binária do antagonismo social” (Bhabha, 1998, p. 199). Daí que no esforço de tradução de uma suposta alma nacional, o romantismo tenha valorizado histórias folclóricas, poesias populares, castelos medievais, lânguidas princesas e príncipes guerreiros, trevas povoadas de pesadelos. Em cada “localidade cultural” usou o que encontrou à mão e fez desse “arquivo” uma suposta entidade transcendental, autogerada e eterna.