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Høgre utdanning som tilpasning - serviceuniversitetet

KAPITTEL 19 ET ÅPENT ELLER ÅPNERE UNIVERSITET?

19.2 Høgre utdannings legitimering og profil - tilpasning, tradisjon

19.2.1 Høgre utdanning som tilpasning - serviceuniversitetet

Das idéias importadas pelo Brasil, o Romantismo, no século 19, talvez tenha sido a que mais se mostrou eficaz para se adequar à situação econômica, social e política pós- Independência. Os temas românticos e a maneira de tratá-los pareciam “servir como uma luva para fazer nascer um espírito nacional” e forjar “uma identidade que juntasse todos os brasileiros” (Quirino, 2005, p. 9). Um movimento nacional e universal que consistiu, talvez, “na felicidade com que as sugestões externas se prestaram à estilização das tendências locais, resultando em um momento harmonioso e íntegro, que ainda hoje parece a muitos o mais brasileiro, mais autêntico dentre os que tivemos” (Candido, 1997, p. 15). Com sua valorização do local, afirmação do próprio contra o imposto, desempenhou importante papel nos países novos e naqueles que tentavam adquirir independência e autonomia cultural.

Daí a soberania do tema local e sua decisiva importância em tais países, entre os quais nos enquadramos. Descrever costumes, paisagens, fatos, sentimentos carregados de sentido nacional, era libertar-se do jugo da literatura clássica, universal, comum a todos, preestabelecida, demasiado abstrata – afirmando em contraposição o concreto espontâneo, característico, particular. (Candido, 1997, p. 15, 16)

O Romantismo, em sua obsessão pela busca da singularidade nacional, incentivou – na verdade impôs, em determinados momentos – a louvação da natureza exuberante do país e das origens míticas do gentio indígena. Apropriou-se daquelas primeiras imagens elaboradas à época do Descobrimento, releu-as e transformou-as em um ideário do qual, de uma certa maneira, não nos afastamos até hoje.

A literatura romântica produziu um imaginário que poderia, em linhas gerais, ser classificado de edificante, no sentido etimológico do termo, de valor que eleva, rumo ao céu, que enobrece – afinal, não se pode esquecer a crença do Romantismo no processo de ascese que leva ao Absoluto e todo o empenho dirigido a este objetivo. Toda uma literatura de cunho

exemplar foi realizada com vistas a criar uma origem e uma imagem de nação que provocasse orgulho no povo de um país em busca de sua identidade. Afinal, entrelaçado ao destino da nação, em primeira e última instância, estava o destino de um povo que se perguntava o que era e o que desejaria ser. O passado mítico funcionaria, nesta lógica, como uma espécie de garantia de futuro, de possibilidades abertas, compensadoras de um presente acanhado e humilhante no chamado “concerto das nações”.

O “empenho” apontado por Candido (1997) por parte dos escritores e intelectuais brasileiros na construção da idéia de nação e na busca de suas origens parece percorrer a vida nacional desde sempre. De tal maneira é presente na vida literária do país que parece ter o poder de transformar todo o ato estético em político e termina por conferir-lhe, na visão de Campos (1989) o ar mesmo de uma obsessão.

Se há um problema instante e insistente na historiografia literária brasileira, este problema é a “questão de origem”. Nesse sentido é que se pode dizer [...] que estamos diante de um episódio da metafísica ocidental da presença, transferido para nossas latitudes tropicais. (Campos, 1989, p. 7)

Esse “empenho” parece percorrer de forma significativa a produção literária nacional – e gerar uma sobreposição entre literatura autônoma e identidade nacional. O reverso do empenho é a idéia de “traição” que também comparece de forma contundente na estética nacional. Quase como se não houvesse um terceiro modo de escrever a nação: ou se está engajado em sua construção, ou se está impossibilitando sua emergência através do gesto traidor. Apenas para citar um exemplo de denúncia de falta de nacionalismo, recorde-se o olhar crítico do século 19 lançado à produção dos poetas parnasianos. A imitação do cânone europeu, somada à parca presença da natureza nacional nos poemas soava, no mínimo, como sinal de pouco amor à pátria. Não bastava, àquela primeira crítica tão nacionalista, musas e sílfides cantarem à margem dos riachos de Ouro Preto e arredores, a demanda era por muito mais: temas e personagens autenticamente nacionais. Exigência descabida, já que, para os

poetas coloniais, ironizou Machado de Assis, a idéia de nação “jazia ainda no ventre do futuro” (Machado de Assis, 1985, p. 802).

O Romantismo aclimatou-se tão bem em terras brasileiras provavelmente devido ao fato de que o ambiente extremamente patriótico pós-Independência tornava-se propício ao desenvolvimento das idéias nacionalistas de cunho romântico. Mas, como afirma Candido (2004, p. 215), o nacionalismo é “uma palavra instável”, podendo em cada época, dependendo das lutas travadas, assumir um significado. O nacionalismo de então concretizava-se no desejo de uma autonomia, por sua vez traduzida em singularidade, em diferença asseguradora de uma identidade: não exatamente num harmonioso “concerto de nações”, mas num jogo violento entre nações, em que se encontram em disputa valores e valorações. Nenhuma singularidade é dada, assegurada, mas resulta de uma estratégia frente ao outro, num conflito relacional em que cada país entra com o seu capital, acumulado às expensas dos países colonizados, ouro e prata cunhando as moedas culturais.

Se o Romantismo, de modo geral, pressupunha a expressão da nação em seu culto ao particularismo, em detrimento do genérico, também apresentava obstáculos à consecução do projeto de identidade num país colonizado, com um passado nada grandioso, um presente humilhante e um futuro nada alvissareiro. Como então, neste cenário tão desfavorável, atingir esse ideal de singularidade?

A natureza irá desenvolver aí importante função: não havendo castelos, batalhas épicas, “divinas comédias”, ela passa a ser a fiadora do projeto: a compensação à falta de cultura vem pela grandeza do Rio Amazonas, pelas florestas exuberantes, pelos pássaros e flores mais belos. Habitando-a em comunhão mítica, o índio, à época já decaído, as armas depositadas, uma cultura em ruínas, um resto, mas um retalho ainda apto a desempenhar a função de unidade, de miscigenação ideal acima de todas as diferenças, solução para o incômodo da presença negra escrava, índice de crueldade e de atraso no cenário mundial. A

esta natureza magnífica e a este habitante edênico só poderia corresponder uma outra literatura, diversa, original.

Do sonho brasileiro de singularidade traça-se a estratégia, por vezes comovente, outras patética, de forjar um corpus literário através de coletâneas, levantamentos de obras que atestem a alegada originalidade. A afinidade da imaginação nacionalista com modalidades religiosas de pensamento é lembrada por Miranda (1994b), a partir do comentário de Benedict Anderson acerca do impressionante culto dos cenotáfios e túmulos de Soldados Desconhecidos, “deliberadamente vazios”. Nessa perspectiva, do culto ao vazio justamente porque é passível de ser preenchido por fantasmagorias nacionais, Miranda propõe a análise da questão da historiografia literária brasileira.

As histórias da literatura são como monumentos funerários erigidos pelo acúmulo e empilhamento de figuras cuja atuação histórico-artística, em ordem evolutiva, pretende retratar a face canônica de uma nação e dar a ela um espelho onde se mirar, embevecida ou orgulhosa de seu amor próprio e pátrio. Carregam em geral esse caráter fantasmagórico que nem a solidez da pedra da letra impressa para sempre no papel consegue desfazer. (Miranda, 1994b, p. 31).

Do corpo fragmentado do país, esboça-se assim, através de suas obras literárias, esses verdadeiros soldados, a emergência da unidade ficcional da nação que se realiza frente ao olhar do outro, do centro hegemônico. Unidade ficcional forjada literariamente, através do discurso edificante, pedagógico. Para além das consideradas “zonas indecifráveis da criação”, há os aspectos externos, que envolvem as relações do escritor com os grupos receptores. Entre essas duas pontas, escritores e leitores, nunca se dá a comunicação direta, o texto funcionando sempre como uma carta que pode – ou não – chegar ao seu destino – e também nunca se sabe, exatamente, que destino seria esse. De qualquer modo, num determinado tipo de escrita, pontes podem ser construídas entre textos e leitores, facilitadoras da compreensão, ou, de outro modo, a via de acesso oferece obstáculos e o transeunte que a escolher percorre-a como pode, às vezes rechaçando-a, outras vezes seduzido por esses mesmos obstáculos.