4.2 Lovfestet objektivt ansvar
4.2.3 Særlig om HR-2018-403-A
O ponto inicial a destacar de maior relevância envolve justamente um dos elementos centrais na distinção entre estudos de cunho heterodoxo e os de viés mais ortodoxo. Ainda que de maneira bastante rudimentar, uma das formas primárias de discernir essas duas ‘vertentes’ dentro da teoria econômica é pela aceitação ou rejeição da hipótese de neutralidade da moeda e, portanto, da Teoria Quantitativa da Moeda. De maneira simplificada, pode-se dizer que a moeda é considerada neutra se uma elevação no estoque monetário gera um aumento proporcional nos preços e não afeta a economia real. Economistas ligados à uma visão mais tradicional, como os expostos na seção anterior,
geralmente aceitam esta premissa; enquanto os pertencentes à linha heterodoxa, a critica veementemente por não levar em conta a questão da especulação.
John Maynard Keynes, juntamente com Karl Heinrich Marx, constituem as duas maiores referências dentro dessa crítica. No caso de Keynes, autor que simboliza o alicerce base do presente trabalho, a capacidade da moeda em afetar a economia real já é ressaltada e discutida desde ‘A Tract on Monetary Reform’ – obra publicada em 1923. Mesmo que de forma simples, quando comparada a seus trabalhos posteriores, Keynes (1923) afirma que a alteração no valor da moeda, isto é, no nível de preços, gera consequências importantes para a sociedade, por incidir de maneira desigual os membros e/ou grupos que a compõem. No caso específico desta obra, ele analisa esses impactos através do estudo dos efeitos causados tanto por um processo inflacionário como por um deflacionário. Embora admita que os dois casos sejam danosos, salienta que a economia é atingida de forma diferente por cada um deles. Enquanto a inflação afeta diretamente a distribuição da riqueza, de maneira a beneficiar os empresários e prejudicar os investidores; a deflação influencia a produção de riqueza pelo
caminho inverso13, dado que o processo de produção tende a ser inibido quando há
expectativa de redução no nível geral de preços.
Em ‘A Treatise on Money’ – trabalho de Keynes publicado em 1930 – a moeda, bem como suas influências sobre o sistema econômico, é estudada de forma ainda mais primorosa. Como o próprio autor destaca, o objetivo é o de construir tanto uma ‘Teoria Pura da Moeda’ (propósito do volume I do livro) quanto o emprego desta Teoria (intuito do volume II). Para tanto, Keynes faz uma investigação criteriosa, analisando detalhadamente as diferentes
classificações da moeda14 e suas diversas formas15 para, posteriormente, no livro II, ter as
ferramentas necessárias ao estudo de questões como investimento, poupança e ciclos de crédito. No caso deste último, Keynes discute suas causas monetárias, argumentando que depressões estão associadas à insuficiência dos investimentos perante as poupanças desejadas pela sociedade. Também alega que, uma vez iniciada, a contração econômica não pode ser evitada com as normas tradicionais de política monetária à disposição dos bancos centrais; fortes intervenções no mercado aberto, por exemplo, podem ser benéficas.
Apesar destas questões já serem discutidas em ‘A Treatise on Money’, é em sua principal obra , ‘The General Theory of Employment, Interest and Money’, de 1936, que seus argumentos encontram-se mais amadurecidos e melhor estruturados. Além de delinear sua
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Beneficia os investidores e prejudica a classe dos empresários.
14 Moeda de conta, bancária e representativa.
15
própria teoria em relação às questões de emprego, juro e moeda, Keynes a faz contrastando com os argumentos da teoria clássica na qual ele mesmo foi formado. Agora a meta de Keynes em relação à moeda já não é mais discutir suas diversas classificações e formas, mas sim destacar a importância que ela exerce dentro de qualquer economia, a começar por se configurar como um dos elementos explicativos da taxa monetária de juros, variável-chave
dentro de qualquer nação16.
Ao discutir a teoria geral da taxa de juros, Keynes afirma que a mesma não pode ser vista como um rendimento da poupança ou da espera para tal, como muitos defendem. Quando alguém acumula reservas na forma de dinheiro líquido não obtém juros, embora economize tanto quanto antes. Assim, a melhor forma de definir a taxa de juros é caracterizá- la como sendo a recompensa pela renúncia à liquidez por certo período de tempo. Ademais, é justamente a interação que existe entre: i- o desejo de manter moeda na forma líquida c ii- a quantidade de moeda disponível, os responsáveis por determinar o montante alcançado pela taxa de juros. Nas palavras do próprio autor:
“... the mere definition of the rate of interest tells us in so many words that the rate of interest
is the reward of parting with liquidity for a specified period. For the rate of interest is, in itself, nothing more than the inverse proportion between a sum of money and what can be obtained for parting with control over the money in exchange for a debt for a stated period of time. … The rate of interest is the “price” which equilibrates the desire to hold wealth in the form of cash with the available quantity of cash” (KEYNES, 1936, p. 108).
Ao introduzir a moeda como uma das variáveis explicativas da taxa de juros, Keynes a inclui em um nexo causal. Quanto maior a preferência pela liquidez e/ou a menor a quantidade de moeda disponível, mais elevada tende ser a taxa de juros, e vice-versa. Todavia, deve-se ressaltar que a relação não é tão simples quanto parece. Por exemplo, embora seja de esperar que, ceteris paribus, um aumento na quantidade de moeda reduza a taxa de juros, isto não acontecerá se a preferência do público pela liquidez aumentar mais que a quantidade de moeda.
Para além da questão monetária, outro ponto explicitado por Keynes de fundamental
importância na análise da vulnerabilidade externa é o elemento incerteza. Ao tratar da
discussão acerca do estado de expectativas a longo prazo17, salienta que prognósticos futuros
se baseiam em estimativas subjetivas. Não quer isso dizer que tudo dependa de uma
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16 Embora um dos elementos centrais do argumento de Keynes para a relevância da moeda seja o fato de ela
influenciar os juros, é errado supor que as variações esperadas da primeira atuam diretamente sobre os segundos. O impacto acontece por intermédio da eficiência marginal de determinado bem de capital. Os preços dos bens existentes sempre se ajustarão às mudanças nas expectativas concernentes ao valor esperado da moeda (Keynes, 1936, p. 92).
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psicologia irracional, mas apenas que decisões com relação ao futuro não podem depender estritamente de expectativas matemáticas (KEYNES, 1936, p. 105). Assim sendo, a concepção de incerteza nos termos aqui considerados representa algo diverso do conceito
usual de risco, calcado meramente em cálculos de probabilidades. Ela é resultado da
necessidade de ter lidar com futuro, o qual é, por sua própria natureza, conjuntural.
Um terceiro elemento de relevância primordial para o entendimento do conceito de
vulnerabilidade externa é o componente instabilidade econômica. Embora Keynes já ressalte
sua presença, é Hyman Minsky, um dos principais expoentes dentro da literatura pós- Keynesiada, quem vai debruçar profundamente sobre esta questão. Minsky explicita que instabilidade é algo natural e inerente à economia capitalista moderna; longe de ser um fenômeno com causas externas ou resultado da incompetência dos policymakers é, ao contrário, um fenômeno endógeno, fruto do funcionamento de operações internas à economia. Neste sentido, períodos de estabilidade são apenas transitórios; de tempos em tempos momentos de turbulência se farão presentes.
A principal obra de Hyman Minsky, Stabilizing an Unstable Economy, de 1986, tem como intuito central tanto entender os elementos que exacerbam a instabilidade quanto propor medidas que minimizam a sua perpetuação. No que tange ao primeiro aspecto, mostra que são os investimentos financeiros os responsáveis mais importantes pela presença e/ou elevação da instabilidade econômica. Dessa maneira, à medida que aumenta a participação dos mesmos, o potencial de instabilidade é acrescido.
Minsky (1986) também aponta que foi a partir dos anos posteriores à II Guerra Mundial, sobretudo depois da década de 1960, que as inovações financeiras se fizeram presentes de forma mais profunda. Desde então, novos instrumentos financeiros têm sido desenvolvidos na tentativa de dar maior flexibilidade de alocação a ativos e/ou passivos nos balancetes das unidades econômicas. Mas se por um lado contribuem para aumentar a liquidez da economia, por outro, tornam o sistema mais vulnerável à perturbações. Na amplitude macro, o grau de fragilidade da estrutura econômica tem se tornado cada vez maior. A propagação de um sistema com nível de fragilidade crescente está associada ao fato de as inovações financeiras, bem como a flexibilização dos balancetes por elas provocadas, terem favorecido o desenvolvimento das categorias de financiamento especulativas e Ponzi. Isto é, tornou-se mais fácil elaborar fluxos de caixa superiores às receitas esperadas dos rendimentos, de modo a ser necessário rolar (caso das finanças especulativas) ou mesmo aumentar (situação das finanças Ponzi) a dívida para atender as necessidades do Balanço de Pagamentos (MINSKY, 1986, p. 226). Isso não quer dizer que desaparece a categoria de
financiamento hedge, presente quando a expectativa de recebimentos é maior que os compromissos de pagamentos. O que se quer chamar atenção é para o fato de que a estrutura da economia capitalista contemporânea eleva a capacidade de desenvolvimento das finanças especulativas e Ponzi, diminuindo, assim, as margens de segurança da economia e, consequentemente, aumentando o potencial de fragilidade do sistema.
Os elementos causadores das crises são gerados dentro dos próprios períodos de crescimento, quando o maior apetite ao risco e a elevação do endividamento, característicos desses momentos, aumentam a participação das categorias de financiamento mais
arriscadas18. Ou seja, as incoerências são geradas endogenamente, pela própria complexidade
e sofisticação das finanças modernas, permissoras da transformação de períodos de relativa tranquilidade em momentos com predomínio de movimentos especulativos. Pode-se dizer,
deste modo, que são as próprias fases de crescimento as responsáveis por edificar as forças
desequilibradoras responsáveis pela emergência de estruturas financeiras instáveis e frágeis (MINSKY, 1986).
Todavia, apesar de as forças propulsoras da instabilidade estarem contidas dentro da própria estabilidade, elas não precisam, e nem devem, ser plenamente realizadas. É exatamente por isso que, como dito acima, o segundo objetivo da principal obra de Minsky centra-se em torno da indicação de medidas capazes de minimizar a desordem. No caso específico de sua principal obra, Stabilizing an Unstable Economy, ele chama atenção particularmente para a importância de dois aspectos: Big Goverment e emprestador de última instância. A relevância do primeiro ocorre por ter as intervenções governamentais a capacidade de estabilizar o produto, emprego e lucro através de déficits. Já o segundo tem sua pertinência devido ao fato de a atuação como emprestador de última instância dos bancos centrais permitirem a estabilização do mercado financeiro e do valor dos ativos. Neste sentido, é fundamental a comparência destas duas políticas econômicas capazes de cercear os danos trazidos nos momentos de turbulência.