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3.5 Sæbyvannet
romancista da literatura grega moderna, só vieram à luz “na quadra final de sua vida, durante a Segunda Guerra Mundial e nos anos subsequentes” (PAES, 1997, p. 11) 18. Dentre esses devem ser destacados: Vida e proezas de Aléxis Zorbás, O Cristo Recrucificado e A última tentação de Cristo. Estes três por também terem sido adaptados para o cinema lhe dariam, pois, um público ainda mais vasto que o das livrarias19.
O livro Vida e proezas de Aléxis Zorbás, publicado em 194620, foi escrito entre agosto de 1941 e maio de 1943, período no qual Kazantzákis estava recolhido em sua casa na ilha de Egina, por causa da ocupação alemã na Grécia. A história narrada é verdadeira em sua essência, embora alguns pormenores sejam fantasiosos e a época da ação não tenha sido claramente apontada. Kazantzákis conheceu o macedônico Zorbás em 1917, por ocasião da exploração de uma mina na Messênia que é basicamente a trama desenvolvida no livro. O dionisíaco Zorbás, com sua sabedoria vital, foi para o escritor um verdadeiro mito vivo: “ensinou-me a amar a vida e não temer a morte”
18 Sobre os romances de Kazantzákis, José S. Lasso De La Vega diz que eles acabam aparecendo como
“fenômenos marginais na rota sinuosa do seu labor literário. [...] Até então não havia tido a vontade de romancear desde que em 1906 compusera o relato extenso O lírio e a serpente. Trinta anos depois retorna ao gênero compondo em francês O jardim dos rochedos, que na verdade não é propriamente um romance. Seus últimos romances são de uma rara distinção, a obra de um romancista de grande classe. Reiteram em forma mais popular e atemperam-se aos gostos do público as experiências agudas de um pensador e poeta maduro” (VEGA, 1968, p. 11).
19 A respeito das adaptações para o cinema destes três romances de Kazantzákis, o estudioso de literatura
grega moderna Peter Bien, no artigo Nikos Kazantzakis’s novels on film, considera que foram oportunidades perdidas, uma vez que os filmes não teriam conseguido reproduzir o principal de cada um dos romances. Assim, de acordo com Bien, na adaptação de O Cristo Recrucificado o final teria sido distorcido; em Zorba, o grego, o final do livro teria sido omitido; e em A última tentação de Cristo, Scorsese não teria dado conta da exuberante linguagem do livro.
20 Vida e proezas de Aléxis Zorbás deu origem ao filme Zorba, o Grego, rodado na ilha de Creta no verão
de 1963 e lançado em 1964. Com direção de Mihális Kakoyánnis, atuação de Anthony Quinn e música original de Míkis Theodorákis, o filme fez um enorme sucesso e trouxe em sua esteira novas traduções da obra literária, que adotaram o título da adaptação cinematográfica.
(KAZANTZÁKIS, 2011, p. 7). Para Kazantzákis, Zorbás representa a libertação das normas, do conformismo, dos medos, da vida burguesa, da submissão às regras e a possibilidade de se abrir ao abismo.
Paralelamente à narrativa, Kazantzákis vai, então, expondo suas angústias existenciais e sua filosofia. São apontadas, entre outras, as noções de “grito”, o “olhar sobre o abismo” e “transfiguração da matéria em espírito”. Enquanto o “grito” é a voz que explicita o modo de ser do indivíduo no mundo, o “olhar sobre o abismo”, sem medo nem esperança, que abraça ao mesmo tempo vida e morte, é sinônimo da almejada liberdade. E, coroando seu pensamento, “transfigurar matéria em espírito”, convertendo corpo e alma num conjunto harmonioso, significa atingir a unidade que integra, finalmente, o ser humano ao cosmos. Com efeito, toda essa filosofia é encarnada no personagem Zorbás, em seu proceder vitalista, sua atitude sempre exultante, sua disposição em gozar cada momento e em qualquer circunstância. Mostra, mediante o modo de ser do personagem, a possibilidade de se chegar a Deus não através do sofrimento e da renúncia sustentados pelo cristianismo, mas – numa espécie de dionisismo – o encanto de tocar o divino mediante o gozo e o êxtase nas pequenas coisas e tão somente no milagre de existir. Zorbás, além do mais, não aspira à beatitude divina, mas que se conforma com a solidão de seu heroísmo terreno. Trata-se, pois, de um romance permeado pela dimensão da liberdade, da coragem, do enfrentamento da vida e da luta.
O romance O Cristo Recrucificado, escrito em 1948, quando foi publicado na Grécia em 1954 já havia sido traduzido para quatro idiomas21. Em 1950, Kazantzákis escreve agradecendo ao amigo Börje Knös por tê-lo traduzido para o sueco: “Bravo por concluir (a tradução) de O Cristo Recrucificado! Alegro-me que tenha gostado até o fim. É um autêntico romance... Zorbás era, sobretudo, um diálogo entre um escritor e um verdadeiro homem do povo” (KAZANTZAKI, 1974, p. 391).
O crítico de literatura comparada Theodor Ziolkowski estuda amplamente este livro e o considera como uma das mais destacadas obras de transfiguração ficcional a partir de personagens e acontecimentos tomados dos Evangelhos (cf. ZIOLKOWSKI,
21 Deste romance o cineasta francês Jules Dassin fez uma versão para o cinema com o título Celui qui doit
mourir (Aquele que deve morrer), cuja pré-estreia se deu no festival de Cannes em 1957, contando com a
presença de Kazantzákis. Em 28 de abril de 1957, em carta a Börje Knös, ele escreve: “Acabo de regressar de Cannes, onde se apresentou o filme para alguns espectadores. Não pude conter o choro; é muito emocionante” (KAZANTZAKI, 1974, p. 442). O escritor colaborou com Dassin no projeto e na realização do filme, do mesmo modo como assessorou o compositor tcheco Bohuslav Martinú para estabelecer o libreto da ópera A Paixão grega, também baseada no livro, que só estreou em 1962.
1982, pp. 154-166). O cenário geográfico e histórico da narrativa de Kazantzákis, cuja ação se desenrola no ano de 1922 numa aldeia do interior da Anatólia, recordam nitidamente o dos Evangelhos: um povo submetido; um governador estrangeiro; a desordem provocada pela atitude e mensagem de Cristo, revivido aqui por um pastor chamado Manólios (que em grego é diminutivo de Emanuel); o pedido de parte deste povo subjugado que, colérico, solicita à autoridade estrangeira que condene à morte Manólios/Jesus; o sacrifício deste pelos outros, sacrifício assumido com total consciência de tomar sobre si as faltas dos outros.
No final do livro, as palavras do representante do povo oprimido, o padre Photis, diante do cadáver de Manólios em plena noite de Natal, parecem resumir o pensamento de Kazantzákis em relação à missão de Jesus: “Foi em vão, meu pobre Manólios, que deu a sua vida – murmurou ele. – Você chamou a si todos os crimes de que nos acusavam”; então o padre Photis ouve o alegre badalar dos sinos à meia noite, que anunciavam o nascimento de Cristo, que viera para nos redimir, e arremata: “Isso também foi em vão, Senhor. Já se passaram quase dois mil anos e, até hoje, não cessamos de crucificar-te. Quando virás ao mundo, Senhor, para não mais seres crucificado, para viveres conosco eternamente” (KAZANTZAKIS, 1971, p. 516). Como sempre, o que aparece é a temática da luta, do sacrifício e da coragem, da liberdade cujo significado, em última instância, é ser livre da esperança de qualquer recompensa futura.
Em A última tentação, escrita entre 1950-1951, Kazantzákis concentrou, uma vez mais, as inquietudes espirituais que lhe atormentaram durante toda a vida. E agora ele o faz tomando a própria figura de Cristo por personagem; e, como é natural, faz com seu estilo, em sua prosa ardente, povoada de hipérboles, cheia de paradoxos, iluminada por expressões proféticas. Viu o sacrifício de Jesus como um dos caminhos de libertação para o ser humano, talvez o mais sublime. E também o mais apaixonante, diante da eterna luta entre as duas naturezas de Cristo, a Divina e a Humana, cujo maior objetivo é se unir a Deus: “É este o Dever Supremo do homem que luta” (KAZANTZAKIS, 1988, p. 6).
Quando escreveu A última tentação de Cristo, Kazantzákis revelou que seus olhos se enchiam de lágrimas e que jamais havia se comovido tão profundamente. Em 13 de novembro de 1951 ele envia uma cópia datilografada do livro para Knös com o seguinte comentário:
...Sinto uma grande emoção enviando esta obra para você; se tiver paciência para ler lentamente, estou certo de que se sentirá invadido pela mesma emoção que experimentei ao escrevê-la...
Eu quis renovar e completar o mito sagrado, a base da grande civilização cristã do Ocidente. Não se trata, de forma alguma, de uma simples biografia de Cristo, mas de um doloroso e sagrado esforço criador para reencarnar a essência de Cristo, eliminando escorias, mentiras e mesquinharias com que todas as igrejas e usuários de batina da cristandade o carregaram, lhe desfigurando.
Meus escritos ficaram muitas vezes molhados porque eu não podia conter minhas lágrimas. Algumas parábolas que Jesus, possivelmente, não deixaria tão incompletas da forma como as encontramos nos Evangelhos, eu as completei e lhes dei a finalidade nobre e compassivamente digna de seu coração; coloco em sua boca palavras que talvez não pronunciou, mas que Ele teria dito se seus discípulos tivessem sua força psíquica e sua pureza. E em toda parte se encontra poesia, amor aos animais, a terra, aos homens, confiança na alma, segurança de que vencerá a luz.
... Durante um ano emprestei da biblioteca de Cannes todos os livros que foram escritos sobre Cristo e sobre a Judéia, as crônicas dessa época, o Talmude, etc. assim, todos os detalhes são historicamente justificados, entretanto, deve ser reconhecido ao poeta o direito de não seguir servilmente a história “poíesis
filosofóteron ístorias” (a poesia é mais filosófica que a história) ...
(KAZANTZAKI, 1974, pp. 406-407).
Uma ideia importante que Kazantzákis apresenta em seu romance é a de que Jesus não sabe claramente quem é ele e nem qual é a sua missão. Diversos sinais e visões parecem indicar que seu caminho não será o de um simples carpinteiro, e esta etapa de sua vida não é nada fácil. Há também nisso uma luta, um combate importante de Jesus. Durante o tempo que dura o processo de esclarecimento de seu destino, Jesus vive os problemas do povo judeu, que carrega o pesado jugo romano. Seus amigos e conhecidos, que depois serão chamados seus discípulos, tem como ele inquietudes não muito definidas, mas relacionadas com a espera e possível vinda do Messias e com a fermentação de rebeldia contra o domínio estrangeiro. Um deles, Judas, pertencente a um grupo de patriotas, espera do Messias – que parece ser Jesus – que encabece a luta pela liberdade nacional. A mensagem de amor de Jesus lhe parecerá uma traição.
A última tentação chega quando Jesus, já pregado na cruz, passando por horríveis sofrimentos e se sentindo abandonado pelo Pai, acaba por desmaiar, algo que durará apenas um segundo. Mas é neste instante que Jesus passa a ter a visão de toda uma vida paralela, quieta, tranquila, cheia de paz e de legítimas alegrias. Viverá longos e aprazíveis anos, com muitos filhos e netos. Começa então a ser atormentado por seus antigos discípulos, que lhe mostrarão sua traição, sua deserção, sua covardia, por ter deixado o sacrifício para se entregar à vida tranquila do homem comum. E, então, passado o segundo:
Sua cabeça sobressaltou-se. De repente lembrou-se de onde estava, de quem era e porque sentia dor. Dominou-o uma alegria selvagem, indômita. Não, não era um covarde, um desertor, um traidor. Não! Ele estava cravado à cruz. Mantivera com honra a posição até o fim; cumprira sua palavra. No momento em que bradara ELI ELI e desmaiara, a Tentação dele se apoderara e o seduzira. As alegrias, os casamentos, os filhos eram invenção. Os velhinhos decrépitos que o chamavam de covarde, desertor, traidor, eram de mentira. Tudo, todos eram ilusões enviadas pelo Demônio. Seus discípulos estavam vivos e com saúde. Partiam em viagens por terra e mar a fim de proclamar a Boa Nova. Tudo acabara como devia, louvado seja Deus!
Jesus deu, então, um grito triunfal: ESTÁ CONSUMADO!
E foi como se tivesse dito: tudo está começando (KAZANTZAKIS, 1988, p. 509).
Tanto por falta de capacidade de compreensão quanto por falta de sensibilidade de seu verdadeiro fundo, A última tentação de Cristo provocou juízos polêmicos e condenações. Nesse sentido, a Igreja Católica Romana, exatamente por incompreensão da obra, condenou o romance e o colocou no Índice dos Livros Proibidos22. Numa carta de primeiro de maio de 1954, Kazantzákis escreve a Börje Knös:
O editor alemão me avisou ontem: Letzte Versuchung auf päpstlichem Index (A
última tentação no Index papal). A estreiteza de espirito e de coração humanos
sempre me assombra: eis um livro de grande exaltação religiosa, com um amor ardente por Cristo, e o representante de Cristo, o Papa, não compreende nada e o condena! Está na ordem das coisas que eu seja condenado pela mesquinhez deste mundo de escravos... (KAZANTZAKI, 1974, p. 422).
Todavia, a Igreja Católica que proibia a leitura do livro a seus fiéis, não podia excomungar Kazantzákis, uma vez que ele pertencia a Igreja Ortodoxa, embora parte desta também condenava a obra. Muito tempo depois da morte do escritor, a adaptação para o cinema de A última tentação de Cristo, em 1988, com direção de Martin Scorsese, reascendeu as polêmicas. Esta produção foi indicada para o Oscar de Melhor Diretor, e contou com as atuações de Willem Dafoe como Cristo, Harvey Keitel como Judas, Barbara Hershey como Maria Madalena e David Bowie como Pilatos. O filme – que ficou caracterizado como um dos feitos brilhantes da história do cinema – despertou
22 O Index Librorum Prohibitorum (Índice dos Livros Proibidos) foi uma lista de publicações literárias
que eram proibidas pela Igreja Católica. A primeira versão do Index foi promulgada pelo Papa Paulo IV em 1559, e uma versão revista deste foi autorizada pelo Concílio de Trento. A última edição do Index foi publicada em 1948, mas só foi efetivamente abolido pela Igreja Católica em 1966, pelo Papa Paulo VI. Nessa lista estavam livros que iam contra os dogmas da Igreja e que continham conteúdo tido como impróprio.
grande alvoroço entre os vários grupos cristãos, mesmo antes de seu lançamento oficial, que exigiam sua censura e condenação23.
O último livro escrito por Kazantzákis foi Testamento para El Greco24, publicado somente após sua morte, em 1961, por Eléni Kazantzákis. Em carta de 10 de julho de 1955, novamente para Börje Knös, o escritor, que se encontrava junto à esposa em uma cidadezinha do Distrito de Lugano, na Suíça, já esboçava a intenção desta obra:
Penso em começar aqui uma nova obra que se intitulará Carta a Greco, uma espécie de biografia na qual me confessarei a meu avô, El Greco. Ontem um velho amigo, Helmut von den Steinen, veio nos visitar e disse que Petrarca escreveu cartas a Cícero, a quem tanto venerava. Alegrei-me em saber: minha ideia não é, pois, única, é uma necessidade muito antiga de querer conversar com um morto em quem se confia para lhe fazer confissões (KAZANTZAKI, 1974, p. 429).
Segundo Eléni, Kazantzákis começou a escrevê-la no outono de 1956, sem ter, contudo, tido tempo para fazer um segundo esboço como era de seu costume. Conseguiu reescrever apenas o primeiro capítulo e uma das partes finais, “Quando o germe da ‘Odisseia’ em mim se frutificou”, que conseguiu enviar antes de sua morte para que fosse publicado no periódico Nea Estia. E teve tempo apenas para reler o manuscrito e fazer uma ou outra correção e acréscimos.
Testamento para El Greco é, então, uma espécie de relatório, ou informe, em que o soldado presta contas diante do general. Para ser seu general, ou melhor, para ser seu “avô”, Kazantzákis escolheu o pintor El Greco (1541-1614), pois este era cretense como ele e, por isso, o compreenderia melhor que qualquer outro combatente do passado e do presente. Na introdução feita por Eléni se lê a seguinte passagem:
Testamento para El Greco é uma mistura de fato e ficção – uma boa parte de verdade, um mínimo de fantasia. Algumas datas foram modificadas. Quando menciona outras pessoas, é sempre com verdade, sem modificações. Exatamente o que viu e ouviu. Quando fala de suas aventuras pessoais, existem algumas pequenas modificações. Mas, uma coisa é certa: se tivesse sido capaz de reescrever este livro, o teria mudado. Exatamente como, não o podemos saber. Certamente o teria enriquecido, já que a cada dia recordava-se de novos acontecimentos que esquecera. E, também, o teria amoldado – acredito eu – à realidade. Sua vida real foi cheia de significado, de vivências dolorosas. De alegria e de dor – e para usar uma única palavra, de “dignidade”. Por que
23 Um amplo estudo sobre este filme foi realizado por Eduardo Tomás Pánik na tese de doutorado para o
curso de Ciências da Religião da UMESP. O título da tese é Cinema e religião: um estudo sobre o
humano e o divino no filme A última tentação de Cristo; defendida em 1998.
24 Como já anunciamos, assim se traduziu o título na edição brasileira: Testamento para El Greco. Trad.
Clarice Lispector. Em Portugal se traduziu como: Carta a Greco. Trad. Armando Pereira da Silva e Armando da Silva Carvalho; tal como para a edição em castelhano: Carta al Greco. Trad. Delfín Leocadio Garasa. No original, em grego, o título é Anaforá ston Gréko, que se traduziria melhor por “Relatório (um “Informe”) a Greco”.
haveria de ter mudado sua vida? Não por falta de momentos difíceis, de fraquezas, de fugas e de sofrimentos. Ao contrário. Eram exatamente estes momentos que sempre serviram a Kazantzakis como novos degraus que lhe permitiam ascender mais alto. De ascender e alcançar o topo que se tinha prometido a si mesmo escalar antes de abandonar os instrumentos de trabalho porque a noite principiara sua descida (KAZANTZAKIS, 1975, p. 9, grifo do autor).
E na introdução feita por Kazantzákis anuncia-se, portanto, a missão do texto, cuja importância radica exatamente em refletir a “ascensão” do próprio autor, isto é, o processo de sua libertação espiritual. “Durante toda minha vida, uma palavra sempre foi meu tormento e flagelo. A palavra ascender” (KAZANTZAKIS, 1975, p. 15). A forma com a qual ele pretende apresentar esta ascensão é “misturando a verdade à fantasia”. Trata-se, pois, num certo sentido, de um testemunho experiencial onde o itinerário revela as diversas linhas que configuram uma determinada concepção artística, além dos processos espirituais e intelectuais implicados nela. Nesta obra, portanto, Kazantzákis procura expressar as raízes do seu próprio gênio, a explicação e a gênese de toda sua obra literária e filosófica; sua luta e busca interminável por uma forma que unisse seu amor pela vida e pela arte e sua incessante indagação sobre a verdade do espírito.
Em suma, neste apaixonante relatório final de sua vida e obra é possível conferir, uma vez mais, toda aquela problemática que se apresenta de forma reiterada em sua escrita. Uma escrita que, conforme acompanhamos, se desdobra nos mais variados gêneros literários, mas que contém sempre a mesma preocupação temática, revelando a profundidade de uma existência que não teme em ficar diante do abismo, livre da esperança e do temor, numa luta necessária e sem trégua, na aceitação plena, sem reservas ou ressentimentos, da própria vida.
1.3 Considerações gerais sobre o pensamento filosófico e religioso de