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Sårbare unge vaksne på NAV-tiltak – på veg mot betre liv?

Insistiu-se nos capítulos precedentes em que variados temas (como multiplicidade, interconexão, interrelação de assuntos diferentes, pluralidade ante as muitas possibilidades da ação criativa, além das temporalidades da feitura de projetos) são percebidos como singularidades presentes nos procedimentos de diferentes designers.

Tais abordagens reportam ao contexto amplo dos processos de criação e novamente diante das pesquisas de Salles (2006), que há muito já vem desenvolvendo teorias investigativas acerca dos fenômenos criativos e das estruturas que os geraram.

Compreende-se, então, que não lhe era novidade investigar a “plasticidade do pensamento em criação”. A investigação de Salles encontrou modos de leitura nos “documentos dos processos”, que são uma forma da materialização das lembranças, do percurso das ideias, das coletas, das percepções e das experiências guardadas em forma de registro.

Por isso, tem-se encaminhado esta discussão com a consciência de que os processos de criação, além de estarem envoltos em uma teia complexa de relações e de possibilidades inovadoras (próprias da atividade humana), foram descritos por Salles como possuidores de uma natureza geral, abrangente.

Dito de outro modo, Salles (2006, p. 17-18) registrou alguns procedimentos cognitivos intrínsecos a todo processo ou as “características marcantes do processo de criação”, como, por exemplo: “[...] simultaneidade de ações, ausência de hierarquia, não linearidade e intenso estabelecimento de nexos”.

A dinamicidade do pensamento, ou memória não linear, o movimento prospectivo e retroativo (variação contínua e mudanças de ideias) e o sistema aberto, que aceita os desvios de normas, foram abordados pela autora, dentre tantos outros conceitos.

Fica claro que Salles (2006, p. 26), ao estudar processos de criação, não tem a pretensão da descoberta pela origem do pensamento criativo, ou mesmo pelo resultado da obra, que somente suporta um “ponto final” em virtude de ter de ser apresentado ao público.

Por isso, diz: “[...] foge-se, assim, da busca pela origem da obra e relativiza-se a noção de conclusão”.

Na tentativa de continuar o diálogo com as pesquisas de Salles, a ênfase aqui tem sido a renúncia de alguns conceitos clássicos, como os de acabado e definitivo, os quais foram superados e substituídos pelos conceitos de indefinido, aberto, disperso, instável, múltiplo, ocasional etc., sob a ótica do caos e da complexidade que rege o mundo físico, a história, a atividade humana e a própria vida.

Para tentar explicar questões tão complexas, manteve-se uma aproximação com algumas afirmações de Prigogine, as quais se ajustam aos aspectos da complexidade que envolve os processos de criação.

No exemplo que segue, fica mais clara a visão sistêmica que Prigogine tinha da vida e da subjetividade48 humana, que experimenta flutuações comportamentais e emocionais de toda ordem, que ora colidem, ora se ajustam mutuamente, até chegarem a um resultado decisivo:

O exemplo que sempre dou é a bola em oposição ao cristal. Um cristal é uma estrutura de equilíbrio: se não querem que ele caia e se quebre, é preciso deixar o cristal tranquilo; uma bola, não se pode deixá-la tranquila, ela vive apenas da troca com o mundo exterior, ela só existe porque está dentro do todo. Entretanto, ela é diferente do todo. A individualidade emerge do todo e, no entanto, ela é diferente do todo. Já temos aqui uma resposta para uma das interrogações: o que é o subjetivo? O subjetivo emerge do todo, ao mesmo tempo fazendo parte do todo. Então, evidentemente, essas estruturas fora de equilíbrio são muito numerosas. Toda a nossa biosfera é uma estrutura desse tipo. E todas essas estruturas possuem aspectos de instabilidade. Existem pontos de ruptura, existem pontos de bifurcação onde uma solução dá origem a várias soluções possíveis. (PRIGOGINE, 2003, p. 54).

Esse desenho (ou essas estruturas que evidenciam a instabilidade da subjetividade humana) tem sido alvo de investigações por parte de Salles (2006, p. 62), preocupação que se percebe quando registra, por exemplo, a necessidade e as dificuldades que os artistas muitas vezes encontram diante de decisões e escolhas.

Existe a possibilidade de um embate interno, permeado de dúvidas, e uma mobilidade no pensamento, que, no ir e vir de uma ideia, avança e recua. Portanto, a autora discute o conceito de “inacabamento”, ou seja, o objeto pode tornar-se mutável, impreciso e vago, pois no seu dizer:

[...] não há precisão absoluta ideal ou perfeita [...] algo que está para ser descoberto [...] modificam rumos, surgem imprevistos, alternativas [...] retomadas, adequações, novas tomadas, novas rejeições [...] critérios que refletem modos do desenvolvimento do pensamento [...] Diante dessas ações múltiplas e diversas fica bastante claro que lidamos com um tempo da criação artística em uma perspectiva não linear [...] Mais uma vez quando se pensa em determinação, encontra-se a dispersão. Quando nos aproximamos de alguns pontos de referência, deparamo-nos com novas interações das redes, ou seja, suas ramificações, divisões e subdivisões. (SALLES, 2006, p. 20-51).

48

O termo subjetividade deve ser entendido no seu duplo sentido – como “[...] caráter de todos os fenômenos psíquicos, portanto, fenômenos da consciência” e também como “[...] uma representação da relação entre as coisas e nós, ou seja, uma relação com quem as pensa [...]” (ABBAGNANO, 2007, p. 1089).

Dentre tantas outras especificidades subjacentes ao ato de criar, percebem-se os caminhos bifurcados do pensamento, que padece, conscientemente, do efeito de cada experimento e que precisa ser conduzido num tempo que se esgota e, constantemente, faz lembrar ao designer para onde está caminhando seu trabalho.

A “obra não é fruto de uma grande ideia localizada em movimentos iniciais do processo, mas está espalhada pelo percurso” (SALLES 2006, p. 36). Essa ideia de processo coincide com o que foi descrito por Braudel (1987, p. 53): “[...] um fato não ocorre no tempo, ele é resultado de algo ao longo do tempo”.

Não se trata, por conseguinte, de reduzir processos à mera retrospecção, mas de levar em conta o caráter permanente da criação, que, no tempo, designa a semiose, a operação produtora e geradora de signos.

Esse reconhecimento supõe que a subjetividade será investigada como experiência pessoal, ainda que ela se revele repleta de lacunas e com tendência ou probabilidade de que o acaso, o risco e o imprevisto surjam no itinerário criador.

Esse funcionamento insinua uma experiência subjetiva que suporta entropia, oscilações, estados de equilíbrio e de não equilíbrio (estrutura complexa). E, sendo sistema aberto (que troca energia com o meio), funciona sem negar sua ação, que transita em rotas imprevisíveis, ora em desordem e confusão, ora gerando sistemas organizados e sofisticados, em termos de funcionalidade e adaptabilidade (VIEIRA, 2003, p. 292).

Os conceitos mostram que o "caos" assume um papel construtivo a ponto de evidenciar que a subjetividade, mesmo em estado paradoxal, (estabilidade/instabilidade, atenção/dispersão etc.), pode ser movida por um propósito, dando à obra seu particular sentido.

O paradoxo inverte a direção única das coisas e liberta a subjetividade, sabotando a sucessão sensata e linear que rege o “bom senso”. Aponta caminhos ao pensamento, e este se serve de diversas direções, indo a múltiplos sentidos contraditórios.

Os predicados das ações subjetivas revelam que cada individualidade atua em uma engenhosidade plural, por vezes incoerente, mas, noutras, com possibilidades de ganhos. “[...] Prática indissociável de momentos singulares e de ‘ocasiões’, portanto irreversível (não se pode remontar ao tempo primordial, não se pode voltar atrás e aproveitar uma ocasião perdida)” (CERTEAU, 1994, p. 99).

A despeito das reflexões sobre a experiência subjetiva da criação, não se pode deixar de retomar a força vigorosa que possui uma das concepções gregas de tempo: o Kairós – compreendido como tempo ou ocasião oportuna.

Diferente do Ckronos, que assegura um tempo determinado, o Kairós é energia acumulada, é o aproveitamento do instante e relaciona-se com a prática no tempo, com as experiências vividas no momento oportuno:

[...] A ocasião é “aproveitada”, não criada. É fornecida pela conjuntura, isto é, por circunstâncias exteriores onde (SIC) um bom golpe de vista consegue reconhecer o conjunto novo e favorável que irão construir mediante um pormenor a mais. Um toque suplementar e ficará “bom” [...]. (CERTEAU, 1994, p. 162).

É o “Tempo do Agora” de que fala Benjamin (1985, p. 229) e que se interconecta com o tempo dos Annales, lugar em que a “[...] história é objeto de uma construção cujo lugar não é o tempo homogêneo e vazio, mas um tempo saturado de agoras”.

A prática criativa, fundada na relação com o Kairós, mobiliza o pensamento por causa de sua operosidade, que ganha novos arranjos cognitivos à medida que aproveita o momento oportuno, o “agora”, a ideia que surge, e traduz-se em uma ação precisa.

Uns diriam que, nesse momento, a criatividade dá-se de forma intuitiva; outros diriam que por insight. E haveria ainda os que atribuem à descoberta do novo pela espera da serendipidade (descobertas criativas aparentemente por acaso), mas o que importa é esse caráter da criação humana, que, no Kairós, promove o raciocínio abdutivo, tal como caracterizado por Peirce, gerando ações criativas diversas e introdindo a comunhão entre a certeza/incerteza, o provisório/definitivo.

Isso assegura a permanência do contraditório e do paradoxo nos procedimentos intelectuais e operacionais. Significa reconhecer que a subjetividade, como experiência, pode aproveitar a possibilidade do momento em direção à exteriorização dessa subjetividade, que será visibilizada (pela liberdade e por escolhas do sujeito) na realização de projetos.

Esta tese atesta que, no decurso de todo processo de criação, convivem, juntamente com o empenho do sujeito, temporalidades diferenciadas: a experiência temporal do Ckronos linear,

[...] o tempo externo, coerente com aquele adotado pela ciência clássica em sua visão macroscópica de mundo e o tempo interno, aquele que governa a evolução de um sistema, em seus ritmos diversificados, mas coordenados e organizados. (VIEIRA, 2008a, p. 82).

É na experiência temporal difusa do “tempo interno” que se sente a vida vivida na realidade que avança e recua, encurta e alonga uma experiência singular. Essa temporalidade dá margem para o aproveitamento da experiência, que é automotivada pelo “momento oportuno” (Kairós), tempo muitas vezes não mensurável, pois, ao longo do processo o sujeito pode experimentar muitos Kairós, os quais o conduzirão à descoberta, à solução e ao desenvolvimento de uma ideia criativa.

Quando se têm em mente a investigação e o acesso aos “documentos de processo” dos designers (registros gráficos esboçados em grafite ou digitais), é necessário recordar ao menos um dos pressupostos dos Annales, de acordo com o qual é “impossível uma neutralidade” do pesquisador no contato com os arquivos dos diferentes designers.

Isso porque, ao percorrer o caminho do pensamento criativo, não consegue um retorno absoluto ao passado ou ao Kairós do designer; afinal, só “os documentos não falam por si”.

Então, volta-se ao passado, ao processo, aos vestígios, na ótica dos Annales, na tentativa de debruçar-se sobre o percurso criativo deles, entendendo tais procedimentos de forma ampla (visão sistêmica).

Toda a atividade humana como forma de sociabilidade e os diversos tempos vividos pelo designer serão entendidos como portador de uma história.

Essa também é uma das características-chave do pensamento sistêmico, o modo de perceber a realidade como uma rede de relações interconectadas de concepções sem fundamentos firmes.

Apesar de perturbadora, essa ideia revela a importância do universo material, que pode ser visto como uma teia dinâmica de eventos interrelacionados:

A ciência sistêmica mostra que os sistemas vivos não podem ser compreendidos por meio da análise. As propriedades das partes não são propriedades intrínsecas, mas só podem ser entendidas dentro do contexto do todo maior. Desse modo, o pensamento sistêmico é pensamento "contextual"; e, uma vez que explicar coisas considerando o seu contexto significa explicá-las considerando o seu meio ambiente, também podemos dizer que todo pensamento sistêmico é pensamento ambientalista. (CAPRA, 2006, p. 46).

Ao aplicar-se tal abordagem nesta pesquisa, está-se valorizando a teia de relações que serão descritas por intermédio do contexto limitado da percepção do objeto.

O conhecimento aqui manifestado será, portanto, apenas aproximado, haja vista que uma compreensão completa e definitiva será sempre ilusória. “Independentemente de quantas conexões levamos em conta na nossa descrição científica de um fenômeno, seremos sempre forçados a deixar outras de fora” (CAPRA, 2006, p.49). Afinal, pode-se

[...] afirmar que a diversidade epistêmica do mundo é potencialmente infinita, pois todos os conhecimentos são contextuais e parciais. Não há conhecimentos puros, nem conhecimentos completos, há constelações de conhecimentos. (SANTOS, 2006, p. 154).

A abordagem que se faz, leva em conta a dificuldade com a qual esbarra toda empreitada que demanda “investigar os rastros” na sua relação com o tempo. “Então, é preciso dotar o rastro de uma dimensão semiótica, com um valor de signo, e considerar o rastro como um efeito-signo, signo da ação do sinete sobre a impressão” (RICOEUR, 2007, p. 434).

Desse modo, essa visão abrangente acerca dos processos permite conhecer, ainda que parcialmente, o pensamento criativo, que existe graças à contribuição valiosa de todos os paradoxos, visto que “[...] existe uma vigorosa força de agregação que mantém a coesão no desagregamento” (VESCHI, 1993, p. 23).