• No results found

Oppturar og tilbakeslag på vegen mot arbeid

Dentre tantas abordagens significativas apontadas por Salles, lance-se luz na sua assertiva: “Conhecer os procedimentos criativos envolve [...] a compreensão do modo como os processos culturais se cruzam e interagem nos processos criativos: como esses índices culturais passam a pertencer às obras em construção” (SALLES, 2006, p. 50).

Então, como partes constituintes de um sistema maior, notadamente o cultural, tem-se avançado na tentativa de construir um mosaico reflexivo capaz de ampliar algumas temáticas vinculadas à pesquisa sobre processos de criação no espaço alargado da cultura e nisso perceber a produção dos designers, cuja visibilidade manifesta-se nas representações gráficas diversas.

Fica claro que o produto acabado dos designers interfere, de diferentes modos, no cotidiano das pessoas, podendo ser entendido como um dos textos da cultura.

Para isso, recorreu-se ao pressuposto de que se pode estabelecer uma relação recíproca entre os fenômenos complexos do mundo físico e os da escala humana (em especial, os ligados aos processos de criação).

Todavia, sobre esses fundamentos amplos, interessa ressaltar ainda os aspectos da cultura brasileira, com vistas a acrescentar a possibilidade de se fazerem certas associações entre complexidade, cultura e processo.

Essas associações refletem-se, entrelaçam-se e vão além da equivalência de termos, mas abarcam a ideia de complementaridade, sob a regência de um sentido que conecte o biológico, o cultural e o social, uma vez que não dá para pensar a cultura de forma desvinculada da complexidade, dada a sua natureza processual.

Fez-se referência, em capítulos anteriores, ao fato de as diferentes configurações culturais no Brasil possibilitarem a recepção de outras culturas, herança não só do cruzamento de raças, mas também das múltiplas interações entre linguagens, que incluem conexões de toda ordem e mesclam os suportes midiáticos (rádio, jornal, televisão, cinema, internet).

Ademais, os distintos códigos provenientes das práticas sociais (fala, objetos, paisagens, arquiteturas, vestiários, ritmos, danças etc.) e o cotidiano anônimo das pessoas igualmente não podem ser negligenciados.

Essa interpenetração, que aproxima diferentes signos, evidencia a variedade de competências cognitivas e revela a mestiçagem em contínua transformação. Dito de outro modo, essa contaminação entre os variados códigos e linguagens enfatiza as características da heterogeneidade pela incorporação e pelo intercruzamento de inúmeros conhecimentos e práticas que foram se modificando ao longo do tempo e que ainda estão em constante hibridação.

Por isso, algumas abordagens que se têm feito até o momento, com relação a fenômenos complexos, podem também ser aplicadas ao contexto amplo da cultura, especialmente quando se entende que ela, de igual modo, abriga e imprime alguns valores, a exemplo do inacabamento, da pluralidade, da dispersão, do fragmento e da instabilidade.

A cultura brasileira é marcada pela complexidade e pode ser observada também à luz do “pensamento sistêmico”, haja vista que as propriedades essenciais de um organismo são propriedades do todo que surgem das interações e das relações entre as partes.

Pode-se entender a cultura como sistema dinâmico cuja trajetória no tempo sinaliza, constantemente, seu caráter caótico e sua potência criativa:

Nos deparamos com uma realidade organizada, acima de qualquer critério de ordem; irregular e por vezes imprevisível, além de qualquer nível de periodicidade ou simetria; e acima de tudo, complexa [...]

Vivemos uma época caracterizada pela crescente importância da complexidade. Em nosso século [...] enfrentamos problemas complexos gerados não só pelo avanço do conhecimento, mas também (e de forma urgente) pelos fortes processos de transformação social e degradação em todos os níveis do nosso mundo, o que pode vir a comprometer o futuro próximo de nossa espécie. Os problemas dos sistemas humanos e dos decorrentes sistemas psicossociais são aqueles ligados à nossa dificuldade em lidar com a complexidade. O nosso conhecimento mais clássico não consegue captar os aspectos complexos das novas e, por vezes, incontroladas situações que têm surgido em todas as nossas atividades. (VIEIRA, 2006, p. 10).

Ocorre que os discursos clássicos citados, cujos paradigmas racionais já não cabem mais para entender os processos de criação, também se aplicam sobre o país, principalmente os que envolvem imagens projetadas acerca da identidade, da unidade, da essência, da origem e da organização. Não se mostram mais capazes de descrever e domesticar processos sociais e a realidade complexa da cultura, tornando-se ineficazes na tentativa de explicar e compreender acontecimentos, práticas e condições culturais brasileiras.

Em capítulos anteriores, já se apontou para os riscos de tentar-se ou desejar categorizar a cultura, que não possui contornos definidos e fixos. Ressaltou-se a cilada que pode haver na tentativa de definir o que seria a mestiçagem.

Por essa insistência, muitos esbarram na dificuldade de traspôr o pensamento binário, que compartimenta a visão de mundo baseada no mito de uma realidade homogênea e coerente.

Revela-se difícil uma leitura da cultura brasileira que insista em encontrar um significado rigoroso ou um signo que não seja elástico a ponto de desconsiderar os sinônimos de desordem e caos.

Afinal “[...] as noções de fragmento, simultaneidade, brevidade, instabilidade, tão caras à modernidade, já estavam sendo tecidas no âmbito das culturas urbanas [...]”, argumenta Pinheiro (2007, p. 71), referindo-se à aceleração dos contágios díspares e movediços entre diferentes códigos e linguagens, os quais já estavam enraizados na base da constituição do continente e que ainda subvertem o paradigma eurocêntrico de modernidade.

Na cultura residem processos não normativos que se comportam, à semelhança do mundo físico, como sistemas instáveis que incluem, indistintamente, mecanismos de turbulência e formas desordenadas e irregulares.

Tais fenômenos também são suscitados e percebidos tanto nos processos de criação, como “nas relações combinatórias entre textos e séries culturais”, os quais ressaltam formas de

[...] mosaicos ou arabescos barrocos-mestiços em movimento, descentrados, inacabados e descontínuos, para os quais os sistemas lógicos-cognitivos da ciência moderna e seus corolários tecnológicos, baseados em unidades totalizantes e no crescimento contínuo, não oferecem conceitos compreensíveis. (PINHEIRO, 2009, p. 14).

A mestiçagem sugere vínculos sociais marcados por indeterminações, instabilidades, disparidades, improvisações e misturas de toda ordem. “A mistura leva ao oposto da uniformização” (GRUZINSKI, 2001, p. 223) e favorece o dinamismo, a ebulição, a heterogeneidade, a incorporação do outro, a “infração às normas”, fazendo prevalecer toda a complexidade dos diferentes fenômenos da cultura.

A impressão é de que tais noções comportam o fato de que a vida social e toda a esfera cultural, em circunstâncias gerais, permitem combinações e sincretismos inusitados.

Presume-se que a intensificação de fluxos e toda sorte de mobilidade, dado o caráter mestiço da cultura, ressaltam “a noção de processos dentro de sua estrutura” (PINHEIRO, 2007, p. 69).

Cultura é processo. Portanto, invoquem-se os conceitos antes tratados, como inacabamento e outros, que tendem para o aberto, para o movente e fractal. Podem estabelecer vínculos, dobras, encaixes em contração que fortaleçam os conceitos que dão dimensão de sentido ao universo.

No território das associações, é fácil observar a convergência e a fusão das combinações entre complexidade do mundo físico, cultura e processos de criação, visto que os termos nutrem um convívio que fecunda essas aproximações, dadas as persistências da incompletude, da descontinuidade e da incerteza, que os alimentam e os acomodam.

Essas premissas indicam que, na estrutura da cultura (como o todo da vida), prevalecem a excepcional e sublime equivalência dos paradoxos: ordem/desarmonia, irracional/racional, absurdo/coerente, simetria/assimetria, limites/excessos, assim como toda força expressiva da mestiçagem.

Essa dinâmica que assume forma irregular e imprevisível e que se caracteriza como fascínio na estética do Barroco traz à memória o pensamento de Sarduy (1989), que propõe retomar o conceito do Barroco para dar conta das culturas heterogêneas e mutantes, como a brasileira.

A definição proposta por Sarduy49 religaria o termo barroco para além das retóricas e estilismos artísticos, na medida em que, ao propor o “neobarroco” como objeto cultural, percebe ser possível um barroco generalizado, presente nas atitudes, nos objetos e em tudo que se oponha ao clássico.

Seria então um modo de tradução para a toda efervescência da América Latina:

49

Haroldo de Campos (1929-2003) faz saber que, em 1955, já havia utilizado, em seus artigos, a expressão “barroco moderno” ou “neobarroco” e, de igual modo, Lezama Lima e Alejo Carpentier (mestres cubanos), “influentes em Sarduy, já reivindicavam, em âmbito hispano-americano, o estilo barroco e o barroquismo de impacto transhistórico” (CAMPOS, 2004).

[...] lugares não-ortogonais lentos (mas de grande rapidez combinatória) [...] A não-ortogonalidade não se mostra apenas na aparência externa de formas não- ortogonais (seios, frutas, nádegas, ondas, dunas etc.), mas na textura em retícula dos materiais e signos (vozes, letras, pedras, metais, luzes, vegetais, etc.) situados no interior dos processos de tradução nas fronteiras dos inúmeros textos e séries culturais que, com suas práticas e saberes diversos, foram aportando e sendo assimilados no laboratório externo e a céu aberto do continente. (PINHEIRO, 2009, p. 13-14).

Na dinâmica cultural barroco-mestiço, transbordam fenômenos que tendem à máxima complexidade e, nesse sentido, a perspectiva dos Annales permite visualizar-se, com esteio na continuidade do “tempo longo”, o contexto da cultura no curso irreversível do tempo histórico, que comporta ritmos descontínuos nas assimetrias dos grupos sociais.

Desse modo, logra-se identificar ações, reações, produções, processos, linguagens, textos e saberes que se obtêm pelo resultado complexo, não linear, não determinista, dos grupos distintos e coletivos que movimentam e fazem a história.

É nesse caldo cultural que caminha para o não equilíbrio ou, no dizer de Prigogine e Stengers (1984, p. 239), para uma “ordem por flutuação”, espécie de convergência entre a Física e as intenções dos Annales.

Ao reler alguns textos de Marc Bloch (um dos fundadores dos Annales), Prigogine admite que "o tempo é construção" e reafirma a necessidade de uma visão sistêmica implicada na “permanência” do planeta.

Ao fundamentar esse pressuposto, embasado no conceito de "termodinâmica generalizada", assume a complexidade crescente que envolve a realidade, os processos, os seres humanos, a natureza e a cultura, entendendo que “[...] nunca podemos predizer o futuro de um sistema complexo. O futuro está aberto e esta abertura aplica-se tantos aos pequenos sistemas físicos como ao sistema global, o universo em que nos encontramos” (PRIGOGINE, 1988, p. 23).

Reaparece o tom nas aproximações de conceitos e de fenômenos que estabelecem redes de conexões, tramas marcadas por dinamicidades, não linearidade e tantos outros atributos que sustentam as teorias de Salles (2006), em termos de complexidade e situações de instabilidade.

A imagem do mundo físico compara-se à de processos de criação e aos sistemas da cultura. Alguns signos da cultura mantêm-se no tempo e outros tantos se transformam.

Tais conceitos acentuam-se ao constatar-se que, nessa tríade amorosa, nesse encontro ziguezagueante entre complexidade, cultura e processo, sedimentados na falência de códigos rígidos, há uma combinação e, sobretudo, uma possível relação que entrelaça as noções de probabilidades, riscos, improvisos e incertezas, que contestam o discurso do fechado, do distinto e do único.

Destarte, a cultura brasileira caminha, como todo sistema, insistindo e lutando para “permanecer no tempo”, sendo e estando ela mesma em um constante “processo”.

Essas especificidades, as quais admitem a realidade como sistêmica e complexa, estão profundamente enraizadas nas práticas sociais e culturais brasileiras e exacerbam a mestiçagem possibilitando “[...] uma criatividade especificamente cultural e social, umas vezes altamente codificada, outras vezes caótica, umas vezes erudita, outras popular, umas vezes oficial, outras ilegal [...]” (SANTOS, 2006, p. 205).

Portanto, a pretensão primeira será sempre a busca por respostas provisórias que se façam norteadoras do pensamento também processual, com apoio em uma abordagem sistêmica, no intuito de que o objeto torne-se passível de ser semiotizado.

No enquadramento dessa perspectiva, levar-se-ão em conta algumas circunstâncias e contextos dos quais os designers extraíram prioridades, que os levaram, num ato seletivo, a criar, umas vezes incorporando o alheio, outras vezes traduzindo sistemas de signos, umas vezes digerindo a vida cotidiana, outras vezes transformando o ordinário em experiências significativas e inovadoras. Afinal até “[...] a experiência bruta está carregada do emaranhado e do complexo” (DEWEY, 1985, p. 20).