Minha adolescência, sou muito sincero, não tive. Não tive adolescência. Muito duro. [...] o que mexeu comigo mesmo na minha infância foi a separação do meu pai e da minha mãe, o que mexeu comigo foi isso. [...] a gente né, é ser humano também, dependente que a gente é adolescente. (L.S.)
Diferentes visões conceituais têm sido atribuídas à adolescência/juventude e considerada por muitos como o momento primordial para as relações da vida grupal, da relação entre seus iguais e das experiências que interferem nos resultados de buscas, encontros, desencontros, inseguranças, curiosidades, medos, confusões, indefinições, mudanças, crises e crescimentos. Poucos são os que defendem que a juventude seja uma fase em que se tem permissão para viver com mais intensidade os questionamentos, discernimentos, entendimentos, sonhos. No geral, exige-se da juventude uma postura de compromisso e responsabilidade.
26 PERALVA, Angelina Teixeira. O jovem como modelo cultural. In: SPOSITO, Marília Pontes; PERALVA, Angelina Teixeira. (Orgs.) Juventude e contemporaneidade. Revista Brasileira de Educação. São Paulo: ANPED, 1997. n. 5-6 Especial. p. 15-24.
Na verdade, todas as visões conceituais vêm carregadas de valores e características da categoria social que as define. Está em jogo como cada grupo (instituições) deseja garantir que a juventude seja. Por isso, conceituar a adolescência/juventude é um desafio, pois seu entendimento passa por uma situação polissêmica. Desta forma, as abordagens conceituais se fazem necessárias para se compreender esta fase intermediária entre a infância e a vida adulta. Este período etário necessita, portanto, de olhares para além do período marcado por mudanças físicas do corpo humano.
Losacco (2004)27 alerta a respeito:
São evidentes e marcantes as contradições da sociedade brasileira que evidenciam o significado do conceito de adolescência e os seus desdobramentos no ciclo vital não são extensivos a todos os jovens, mas acompanham as peculiaridades das diversas regiões do país, dos vários grupos e subgrupos sociais. Portanto, também são evidentes a diferenciação das possibilidades, e conseqüentemente as qualidades do enfrentamento das vulnerabilidades advindas dessas mudanças, que estão diretamente relacionadas às condições sociais na qual este indivíduo se insere. (LOSACCO, 2004, p. 88)
Groppo (2000, p. 7-8)28 caracteriza a juventude como “categoria social”, isto é,
a juventude nesta perspectiva, é vista como uma “concepção, representação ou criação simbólica, fabricada pelos grupos sociais ou pelos próprios indivíduos tidos como jovens, para significar uma série de comportamentos e atitudes a ela atribuídos”. O autor afirma, ainda, que a juventude, como camada social, não apenas passou por várias modificações ao longo do tempo, como também é uma representação e uma situação social simbolizada e vivida com muitas diferenças na realidade diária, devido a sua combinação com outras situações sociais, tais como, às diferenças culturais, nacionais e de localidade, e em função das distinções de etnia e de gênero.
Segundo Groppo (2000, p. 9), a concepção de juventude fundamenta-se “em dois critérios” que, apesar de terem relações um com o outro, nunca se harmonizam totalmente: “o critério etário e o critério sócio-cultural”. O primeiro sempre presente. O segundo demonstra que o jovem e seu comportamento modificam-se de acordo com a
27 LOSACCO, Silvia. Métrons e medidas: caminhos para o enfrentamento das questões da infração do adolescente. Dissertação. (Doutorado em Serviço Social) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2004.
28 GROPPO, Luís Antonio. Juventude: ensaios sobre a sociologia e história das juventudes modernas. Rio de Janeiro: DIFEL, 2000.
classe social, o grupo étnico, a nacionalidade, o gênero, os contextos nacionais e regionais, e ainda cabe apontar que o critério tempo é fundamental para entender tais modificações. Nota-se que a intenção é demonstrar que a categoria social juventude, da mesma forma que outras categorias sociais embasadas nas faixas etárias, apresentam uma importância fundamental para a compreensão de inúmeras características das sociedades contemporâneas, bem como do seu modo de funcionamento e de suas transformações.
Vale ressaltar, a juventude, apesar de ser vista como categoria social com características próprias desta fase, também deve ser analisada a partir de alguns paradigmas que merecem reflexão. Um deles diz respeito ao jovem como agente causador de problemas. Tais problemas relacionam-se aos rótulos impostos pela sociedade que percebe esta fase envolta de significados associados a aspectos negativos, haja vista os termos pejorativos que foram se formando com o passar do tempo, como aborrecência, delinqüência juvenil, desagregação. Identifica-se, aqui, uma relação lógica de causa e efeito: se o adolescente representa problemas sociais e risco a si mesmo e à sociedade, é preciso prevenir a sua exposição a determinados fatores, especialmente aqueles que na sociedade moderna expõem a juventude das camadas sociais empobrecidas, a exemplo da violência.
Assim, a história de vida de cada pessoa diferencia-se na sua trajetória, modificando-se ao longo do tempo. Estas transformações, por meio de acontecimentos, das relações pessoais e sociais, influenciam nos seus valores e hábitos. Portanto, é mister ter uma visão que contemple a totalidade, não apenas de sua própria história de vida, mas de outros fatores como os políticos, econômicos, culturais e sociais que nela incidem.
Compreender o que é adolescência e juventude nas camadas pobres na contemporaneidade significa realizar um breve resgate histórico dos termos, pois estes são, sem dúvida, derivados de movimentos da história.
Uma das contribuições mais importantes sobre a história da infância, foi dada pelo historiador francês Phillipe Ariès (1981)29, com enfoque na história das mentalidades, principalmente no que diz respeito a “condição e natureza histórica e social do ser criança”. Este autor analisou como se constituiu o conceito de infância, a partir das pesquisas de obras de arte e literatura, onde eram retratados hábitos, vestuário e algumas situações da vida social.
29 ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. (Tradução Dora Flaksman). Rio de Janeiro: LCT, 1981.
Segundo Ariès (1981, p. 50), até o século XII a arte medieval desconhecia ou não retratava a infância, como fase inicial de vida do ser humano, não existia nenhum sentimento diferenciado quanto ao ser criança. De acordo com o autor (p. 156), “O sentimento da infância não significa o mesmo que afeição pelas crianças: corresponde à consciência da particularidade infantil, essa particularidade que distingue essencialmente a criança do adulto, mesmo jovem”. Ela era tratada sem distinção do mundo adulto, e representada em obras de arte como um homem ou mulher em miniatura.
Ariès (1981, p. 10) mostra que a valorização da juventude, como uma fase socialmente distinta, foi-se processando no desenvolvimento da sociedade ocidental. Na sociedade européia tradicional, “A duração da infância era reduzida a seu período mais frágil, enquanto o filhote do homem ainda não conseguia bastar-se; a criança então mal adquiria algum desembaraço físico, era logo misturada aos adultos, e partilhava de seus trabalhos e jogos. [...] De criancinha pequena, ela se transformava imediatamente em homem jovem, sem passar pelas etapas da juventude”. Ou seja, a sociedade tradicional via mal a criança e pior ainda o adolescente. O autor ressalta que um período de “paparicação” era reservado a esta nos seus primeiros anos de vida, “enquanto ela ainda era a coisinha engraçadinha”. Depois, “[...] era comum que passasse a viver em outra casa que não a de sua família".
Pelo que apresenta a literatura, a adolescência e a juventude sempre foram tratadas na forma de uma subdivisão conceitual. Porém, há que se analisar cada momento histórico-cultural, a fim de se alcançar a dimensão de como cada uma destas categorias se fazia representar em diversos contextos sociais, conforme relata Áries (1981):
Embora um vocabulário da primeira infância tivesse surgido e se ampliado, subsistia a ambigüidade entre a infância e a adolescência de um lado, e aquela categoria a que se dava o nome de juventude, do outro. Não se possuía a idéia do que hoje chamamos de adolescência, e essa idéia demoraria a se formar. (ARIÈS, 1981, p. 45)
Ainda com relação à adolescência, destaca-se a seguinte descrição em um texto da Idade Média, editado em 1556, “Le grand propriétaire de toutes choses”, mencionado por Áries (1981):
Depois se segue a terceira idade, que é chamada de adolescência, que termina, segundo Constantino, em seu viático, no vigésimo primeiro ano, mas segundo Isidoro, dura até 28 anos [...] e pode estender-se até 30 ou 35 anos. Essa idade é chamada de adolescência porque a pessoa é bastante grande para procriar, disse Isidoro. Nessa idade os membros são moles e aptos a crescer e a receber força e vigor do calor natural. E por isso a pessoa
cresce nessa idade toda a grandeza que lhe é devida pela natureza. (ARIÈS, 1981, p. 36)
Uma conceituação da adolescência mais próxima de como a compreendemos hoje, pode ser resgatada no final da Idade Moderna, caracterizando-a, além de uma margem de idade, com aspectos cognitivos, afetivos, biológicos (caracteres da puberdade) e jurídicos. No entanto, o que ocorria com mais freqüência antigamente era o reconhecimento do desenvolvimento humano, com bases em necessidades de aprendizagem e nas evidências dos conflitos e mudanças, só com relação à infância e à juventude, e isso de uma forma rudimentar e indiscriminada, em princípio, por diversas razões.
Etimologicamente Aberastury e Knobel (1981, p. 89)30, descrevem que
“Literalmente, adolescência (latim, adolescência, ad: a, para a + olescere: forma incoativa de olere, crescer) significa a condição ou o processo de crescimento”.
Ariès (1981) relata que:
O primeiro adolescente moderno típico foi o Siegfried de Wagner (Alemanha): a música de Siegfried pela primeira vez exprimiu a mistura de pureza (provisória), de força física, de naturismo, de espontaneidade e de alegria de viver que faria do adolescente o herói do nosso século XX, o século da adolescência. Esse fenômeno, surgido na Alemanha wagneriana, penetraria mais tarde na França, em torno dos anos 1900. A “juventude, que então era a adolescência, iria tornar-se um tema literário, e uma preocupação dos moralistas e políticos. Começou-se a desejar saber seriamente o que pensava a juventude e surgiram pesquisas sobre ela”. (ARIÈS, 1981, p. 46- 47)
Gradualmente, a adolescência se consolida como uma fase da vida e se torna um fenômeno universal, com repercussões pessoais e sociais inquestionáveis. A adolescência passa a ser caracterizada como um emaranhado de fatores de ordem individual por estar associada à maturidade biológica, bem como de ordem histórica e social por estar relacionada às condições específicas da cultura na qual o adolescente está inserido.
Ariès (1981) ratifica, ainda, o movimento juvenil nas sociedades desenvolvidas por estes protagonistas singulares na história:
A juventude apareceu como depositária de valores novos, capazes de reavivar uma sociedade velha e esclerosada [...] A consciência da juventude
30 ABERASTURY, Arminda; KNOBEL, Maurício. A adolescência normal: um enfoque psicanalítico. (Tradução Suzana Maria Garagoray Ballve). Porto Alegre: Artes Médicas, 1981.
tornou-se um fenômeno geral e banal após a guerra de 1914, em que os ex- combatentes, com esse sentimento podiam ser encontrados em todos os países beligerantes, até mesmo na América. Daí em diante, a adolescência se expandiria, empurrando a infância para trás e a maturidade para frente. (ARIÈS, 1981, p. 46-47)
Se o século XIX foi o século da infância, o século XX foi o da adolescência. A consciência da adolescência trouxe ao mundo moderno a associação com sentimentos ligados à força física, agilidade, destreza e beleza, características almejadas por todos. Assim, passou-se de uma época sem o reconhecimento da adolescência, para uma época em que adolescência é a idade favorita. “Deseja-se chegar a ela cedo e nela permanecer por muito tempo”, segundo Áries (1981, p. 46-47), que acrescenta:
Tem-se a impressão, portanto, de que, a cada época corresponderia uma idade privilegiada e uma periodização particular da vida humana: a “juventude” é a idade privilegiada do século XVII, a “infância” do século XIX, e a “adolescência” do século XX. (Áries, 1981, p. 48)
Como salientam Levi e Schimitt (1996):
[...] se compararmos as subdivisões conceituais da Antiguidade com nossas representações, podemos também obter correspondências aproximativas (no fundo, adotamos sempre os mesmos termos: infância, adolescência, juventude), mas temos de reconhecer que essas palavras não têm mais os mesmos sentidos. Se, por exemplo, os textos antigos adotam o termo “adolescente”, só lhe atribuímos um sentido biológico, jurídico ou simbólico, ignorando completamente a conotação afetiva que lhe atribuem psicólogos, educadores, e médicos quando falam de “crises da adolescência”. (LEVI; SCHIMITT, 1996, p. 15)
Conforme Muss (1974, p. 24)31, ao percorrer-se a literatura sobre os primeiros
estudiosos a respeito da categoria “adolescência”, encontra-se Stanley Hall32, cuja
primeira produção sobre o assunto foi publicada em 1904, e que é freqüentemente considerado como o pai da “Psicologia da Adolescência”. Hall caracterizou a adolescência como uma época de tempestade e de tormenta devido à oscilação entre tendências
31 MUSS, Rolf . Teorias da adolescência. (Tradução Instituto Wagner de Idiomas). 4 ed. Belo Horizonte: Interlivros, 1974.
32 HALL , Granville Stanley (1844-1924), psicólogo americano introdutor da psicanálise nos Estados Unidos, criador da psicologia da criança e fundador da Associação Americana de Psicologia, é o primeiro a ter o grau de doutor (PhD) em psicologia no país. A sua obra principal de extenso título, Adolescence: Its Psychology and Its Relation to Physiology, Anthropology, Sociology, Sex, Crime,
Religion, and Education ("Adolescência: sua psicologia e relação com a fisiologia, antropologia,
sociologia, sexo, crime, religião e educação"), foi publicada em 1904, em dois volumes.
HALL, GRANVILLE STANLEY. Biografia. Disponível em: <http://www.cobra.pages.nom.br/ec- stanleyhall.html>. Acesso em: 13 fev. 2008.
contraditórias, definindo-a como uma fase em que:
Energia, exaltação e superatividade são seguidas por indiferença, letargia e desprezo. Uma alegria exuberante, gargalhadas e euforia cedem lugar à disforia33, depressão e melancolia. O egoísmo, a vaidade, e presunção são tão característicos desse período como o abatimento, humilhação e timidez. (HALL apud MUSS, 1974, p. 27).
O pressuposto teórico de que no século XVI a sociedade tinha uma consciência clara da diferença cultural entre infância e juventude foi levantada por Schindler (1996)34, que alerta para o fato de haver uma distinção:
[...] correu o risco de ser primeiro sobreposta e depois inteiramente cancelada pela dicotomia neopatriarcal autoritária entre emancipados e não- emancipados, entre responsáveis e privados de responsabilidade, levada adiante de modo generalizado na esteira das argumentações da Reforma. (SCHINDLER, 1996, p. 270).
Oliveira e Egry (1997, p. 18)35 relatam que Ana Freud aprofundou o estudo
desse período numa perspectiva psicanalista, atribuindo à adolescência uma grande “importância na formação do caráter, partilhando da idéia de que a adolescência é um estágio de desenvolvimento e caracteriza-se como um período turbulento”, apontando que “pode sofrer influências do ambiente”, embora muito pequenas, “[...] uma vez que os fatores ambientais, para a psicanálise ortodoxa, são secundários em relação aos fatores biológicos e instintivos”.
Erikson (1976)36, a partir das propostas da psicanálise e apoiado nos estudos da
Antropologia Cultural, propõe a “Teoria do Estabelecimento da Identidade do Ego”, na qual sugere que o ambiente também participa na construção da personalidade do indivíduo. Esta visão focada na mudança do desenvolvimento é de grande importância, posto que abre novas fronteiras para o entendimento do desenvolvimento e, mais
33 O termo disforia é o mal-estar oposto à euforia.
DISFORIA. In: PIÉRON, Henri. Dicionário de Psicologia. (Tradução e Notas de Dora de Barros Culliman). Porto Alegre: Globo, 1978, p. 125.
34 SCHINDLER, Norbert. Os tutores da desordem rituais da cultura juvenil nos primórdios da era moderna. In: LEVI, Giovanni; SCHMITT, Jean-Claude. (Orgs.). A história dos jovens. Da antiguidade à era moderna. (Tradução Cláudio Marcondes; Nilson Moulin e Paulo Neves). São Paulo: Companhia das Letras, 1996. vol. 1.
35 OLIVEIRA, M. A. C.; EGRY, E. Y. A adolescência como um constructo social. Revista Brasileira do Crescimento e Desenvolvimento Humano. São Paulo: 1997. n. 7 (2). p. 12 e 21.
36 ERIKSON, Erik H. Identidade – juventude e crise. (Tradução Álvaro Cabral). 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.
especificamente, da adolescência. De forma geral, antes de Erikson, os teóricos concebiam a adolescência como um estágio do desenvolvimento, ou seja, um período universal, como a infância e a idade adulta, com características específicas, constituindo- se em um período necessário e naturalmente conturbado.
Por outro lado, segundo Schindler (1996), em todos os tempos evidenciam-se rituais de entrada e de saída nas experiências dos jovens, em sua passagem para a vida adulta. Estes rituais traduziam, algumas vezes, a aquisição da maturidade que se esperava dos jovens em matéria de casamento, formação de família e iniciação ao mundo do trabalho.
Se forem resenhados os fatos sócio-econômicos conhecidos seria possível concluir que nos primórdios da era moderna existia sem dúvida uma consciência clara da fase juvenil entendida como período distinto da vida, captado não tanto enquanto moratória social e sim como fase de transição funcional no sentido dos rites de passage, ou seja, no sentido de uma progressiva familiarização com as condições da vida adulta; e que, portanto, faltava uma clara subdivisão nos grupos etários organizados em base numérica, como naquela que estamos habituados a adotar, condicionados pelo moderno sistema estatal. (SCHINDLER, 1996, p. 272)
Até o início do século XVIII, na história da humanidade, os estudos sobre a adolescência eram pouco desenvolvidos, precedendo a esta fase os estudos sobre o desenvolvimento humano. Observa-se a inexistência de estudos informativos e as preocupações que pudessem destacar a adolescência. As primeiras tentativas no sentido de se conceituar claramente o fenômeno da adolescência apareceram neste século, pois, até então, a adolescência e a juventude eram duas categorias tratadas como sinônimos, condição modificada somente a partir do final do século XIX.
No início do século XX, e após este período, é que estudos acadêmicos foram realizados com o objetivo de compreender e de construir teorias, não apenas sobre o desenvolvimento humano, mas principalmente acerca do período da adolescência. No entanto, no Brasil, os estudos sobre o fenômeno adolescência, somente ocorreram mais tardiamente.
A partir desse momento, verifica-se um maior interesse sobre o significado da adolescência, com definições mais claras sobre o período de puberdade e das mudanças psíquicas a ela inerentes, com uma abordagem multifatorial que incluía os aspectos físico, emocional, cognitivo e social. A exemplo, a visão vygotskiana sobre a adolescência surge em contraposição a uma visão tradicional estereotipada que, não obstante os esforços no
sentido de quebrar os paradigmas, ainda se faz presente na atualidade37.
Nos seus estudos, Ozella (2003)38, fundamentado na Psicologia Sócio-histórica e com forte inspiração vygotsktiana, propõe a desconstrução da visão liberal do imaginário popular que tem a adolescência como uma etapa natural do desenvolvimento, marcada por conflitos, rebeldia, pressões relacionadas à sexualidade, crises de identidade e como “coisas naturais da idade”, enfim, com características negativas, sofridas, de origem patológica e que, por ser uma questão interna, inata e inevitável, ocorreria necessariamente em qualquer condição histórica e cultural e com todas as pessoas, como uma etapa universal. A concepção de Ozella desmistifica a visão impregnada nos livros, na mídia, nas teorias e incorporada pela população e pelos próprios jovens adolescentes ao longo do tempo e que determinaram modelos e padrões de comportamento.
Para Ozella (2003) a visão histórico-cultural mostra a adolescência como uma criação histórica da humanidade, ou seja, um "fato" que ganhou significado e passou a fazer parte da cultura – uma construção social. Por isso, há que se compreender melhor as condições objetivas e os contextos específicos – necessidades sociais, econômicas, educacionais, sexuais, profissionais – nos quais crianças e adolescentes vivem e se constituem enquanto sujeitos, internalizando significados identificados de acordo com o pensamento coletivo da sociedade. Em princípio, para que as suas características sejam compreendidas como elementos que se constituem no processo de desenvolvimento, é necessário admitir, tal processo é contínuo e não seriado em etapas, pois o adolescente busca apenas ser ele mesmo, busca sua identidade enquanto sujeito histórico pertencente à sociedade e que se forma através da cultura produzida por esta mesma sociedade.
A visão histórico-cultural propõe-se a extinguir o estigma de que todas as pessoas, em média dos 13 aos 18 anos de idade, são adolescentes rebeldes, conturbados, sujeitos a crises, enquanto algo pronto e acabado. De conformidade ao que é creditado a Hall, esta etapa da vida humana – concepção que não leva em consideração a cultura em
37 Lev Semionovitch Vygotsky, cujo nome encontra algumas variações de tradução, tais como: Vigotski, Vygotski ou Vigotsky (russo Лев Семёнович Выготский, transliteração: Lev Semënovič
Vygotskij), nascido em 17 de novembro de 1896, em Orsha, e falecido em 11 de junho de 1934, em
Moscou, foi um psicólogo belarusso, apenas descoberto nos meios acadêmicos ocidentais depois da sua morte, causada por tuberculose, aos 37 anos. Pensador importante, foi pioneiro na noção de que o desenvolvimento intelectual das crianças ocorre em função das interações sociais e condições de vida. VYGOTSKY, LEV SEMIONOVITCH. Biografia on-line. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Lev_Vygotsky>. Acesso em: 11 abr. 2007.
38 OZELLA, Sergio. (Org.). Adolescências construídas: a visão da psicologia sócio-histórica. São Paulo: Cortez, 2003.
que o sujeito está inserido – é permeada por conotações psicologizadas, estigmatizantes e