Em virtude de minhas inquietações e anseios, ao perceber que nos grandes centros urbanos, bem como no campo acadêmico, havia um movimento de discussões acerca dos direitos das pessoas surdas, no que diz respeito ao reconhecimento da língua brasileira de sinais, da comunidade e cultura surda, este trabalho teve como proposta investigar e analisar a trajetória de cinco sujeitos surdos do município de Tocantinópolis-TO, em função do município caracterizar-se como de pequeno porte e situar-se em uma região distante dos grande centros, que geraram organização social distinta das grandes e médias cidades brasileiras. Espaço sócio-geográfico esses que exerce influência decisiva sobre esses indivíduos que vão construindo suas trajetórias por meio dos aspectos socioculturais neles presentes.
Embora as famílias e os próprios surdos não tivessem um padrão comum da LIBRAS, é possível afirmar que a interação comunicativa estabelecida entre seus membros e pessoas mais próximas permitiu que os surdos se sentissem incluídos nos espaços da cidade. Desse modo, os aspectos culturais que orientam as práticas e relações sociais relacionam-se não somente à surdez, mas também, aos padrões, afetos e ações cotidianas desses indivíduos.
Em relação à escolaridade dos sujeitos, verificamos que em todas as famílias os filhos ouvintes terminaram ou encontravam-se concluindo o Ensino Médio, o que nos ajuda a refletir também acerca da escolaridade dos surdos.
Na família de Valéria, Mariana e Adriano, em que os irmãos concluíram ou estavam matriculados em um dos cursos superiores oferecidos na cidade27, podemos dizer que, o capital cultural familiar pode ter influenciado nas escolhas ou expectativas em relação aos cursos, como afirma Bourdieu (2007, p. 47) ao descrever acerca das expectativas e escolhas dos “destinos” escolares e universitários de distintos grupos sociais:
As atitudes dos membros das diferentes classes sociais, pais ou crianças e, muito particularmente, as atitudes a respeito da escola, da cultura escolar e do futuro oferecido pelos estudos são, em grande parte, a expressão do sistema de valores implícitos ou explícitos que eles devem a sua posição social.
Entretanto, de um lado, a inserção no espaço do Ensino Médio e Superior relaciona- se ao número e disponibilidade de vagas nas escolas e na universidade pública na cidade, bem
como da significação do que o diploma possa oferecer, mesmo que o portador de tal título não exerça a função sancionada pela instituição, como é o caso do irmão de Valéria e da irmã de Mariana, que concluíram o ensino superior, no entanto, não exercem a função na área de formação.
Por outro lado, se o capital cultural familiar condiz com as expectativas associadas às escolhas e “destino” escolares, ele também pode ser influenciado pelo capital escolar, na medida em que os indivíduos são inseridos nos espaços de ensino. No entanto, os distintos valores a respeito da instituição de ensino, sejam eles da continuidade e deleite do “indivíduo culto” ou de formação profissional, decorrem da posição social estabelecida pelos indivíduos.
Naqueles tempos o pai da gente não se interessava em colocar a gente no colégio, era ir para o serviço, quebrar coco e ir para a roça, isso era ruim demais, aí eu dizia assim, que um dia se eu possuísse um filho ele não ia ser criado assim do jeito que eu fui criada, com fé em Deus ele ia aprender mais do que eu. Mas graças a Deus todos eles estudaram, porque é ruim demais não saber ler, não ter um serviço, não ter nada, é ruim... (mãe de José)
Sim, nós três estudamos no [nome da escola] porque lá é uma escola boa, todo mundo fala que é a melhor da cidade. Minha mãe fala que quando nos terminarmos lá, vamos fazer faculdade em outra cidade, mas que temos que estudar muito pra ser alguém quando crescer, porque aqui nem tem onde trabalhar. (irmão de Mario)
Depois que ela começou a ficar mocinha, nós percebemos que ela começou chamar atenção de homem, então ficamos espertos. Foi quando nós mais incentivamos para ela ir pra escola, mas ela não conseguia assimilar bem as coisas da escola, aprendeu algumas coisas, mas foi também quando ela começou a ficar chateada e triste com a escola. Essa fase foi a difícil mesmo. (irmão de Valéria)
Embora as famílias expressem o desejo de que todos os filhos ingressem nas instituições de ensino, quando a escolaridade diz respeito aos surdos, as expectativas apontadas pelos pais relacionam-se tanto ao capital cultural familiar quanto à marca da surdez, ou seja, dadas as mesmas condições de acesso às escolas e à universidade pública28 da cidade, a noção acerca da aprendizagem e dificuldade escolar atribuída aos surdos distingue- os dos irmãos ouvintes, atribuindo-se o fracasso escolar às condições da deficiência.
No entanto, de forma consciente ou inconsciente, os julgamentos atribuídos em função da deficiência auditiva expressam-se fundamentalmente quando os pais fazem menção ao capital escolar. Por outro lado, quando eles se referem às qualificações das atividades
28 As instituições de ensino privadas na cidade são apenas as de educação infantil. Ver o tópico acerca da educação escolar.
cotidianas ou responsabilidades que não correspondem diretamente ao âmbito escolar, sejam elas de amizades e familiares, a marca da deficiência torna-se secundária.
Entre os sujeitos da pesquisa, Valéria e Mário são os que residem mais próximos, no entanto, ambos não se conhecem ou se encontram para alguma atividade social ou cultural na cidade. Apesar de a surdez ser uma característica comum entre eles, Mário tem dezesseis anos de idade e vivenciava algumas experiências com garotos e garotas da mesma idade e espaços. Além disso, apesar da proximidade física, Mário faz parte de uma família mais abastada, sem que isto implique necessariamente em uma posição discriminatória, mas por comporem grupos sociais diferentes.
Já Adriano e José são dois jovens da mesma idade e grau de surdez, no entanto, embora as práticas sociais de ambos fossem semelhantes desde a infância – jogar bola, matar passarinho, pescar, tomar banho no rio, José é um rapaz que no momento da pesquisa trabalhava com informática, se mostrava mais caseiro e religioso, enquanto Adriano ajudava o pai nas atividades rurais, sendo um rapaz de muitos amigos, que gosta de vaquejadas e eventos de motocicletas nas regiões vizinhas à cidade.
A semelhança entre Mariana e Valéria se dá em função de serem duas mulheres surdas que nasceram e vivem na mesma cidade, no entanto, a primeira reside em uma área menos urbanizada, embora ambas convivam com a família. Mariana possui sua própria casa ao lado das irmãs e do pai, sendo responsável pelo cuidado dos sobrinhos e despesas domésticas.
O que se verifica, portanto, de semelhante em relação aos padrões sócio-culturais dos sujeitos investigados relaciona-se, primordialmente à organização social peculiar do município e, mais ainda, aos diferentes espaços sociais que cada um deles freqüenta cotidianamente: ambiente familiar, vizinhança, locais de encontro com amigos, etc.
As conseqüências geradas pela surdez, nesse aspecto, são secundárias porque a grande influência da construção de suas identidades provém das relações sociais por eles construídas dentro dos espaços sociais.
Nesse sentido, o questionamento colocado por Bueno (1998, p. 4) sobre o que teria em comum uma mulher [...] vivendo em pequena localidade rural e surda e um homem, [...]
vivendo em metrópole e surdo (grifos do autor), poderia ser estendido aos sujeitos desta pesquisa, pois a surdez não foi suficiente para que, em pequeno espaço geográfico, se constituísse uma “comunidade de surdos”, surdos esses integrados em seus ambientes familiares, de vizinhança e de amizades, que deles usufruem e onde, quando enfrentam dificuldades, estão mais relacionadas às próprias condições de vida do que à surdez.
Assim, podemos considerar que, a hipótese que norteou esta pesquisa se confirma na medida em que as formas regionalizadas como se constituíram as relações sociais dos sujeitos investigados implicam em características provenientes dos processos de socialização e peculiaridades vividas em determinado espaço sóciogeográfico.
Por fim, este é um estudo preliminar, fruto de uma primeira experiência de investigação e cujos méritos e limitações são a expressão do patamar que uma pesquisadora iniciante pode alcançar.
Nesse sentido, nossa expectativa é de que ela se agregue a outros estudos que procuram analisar o fenômeno da deficiência para além das marcas específicas por ela geradas.