O programa Memória Viva é produzido e veiculado através da TV Universitária, parte integrante da estrutura da Superintendência de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, juntamente com a Agência de Comunicação (AGECOM) e a Rádio Universitária FM. Nascida em dezembro de 1972 com fins educativos, a TVU viabilizou localmente o Programa Nacional de Teleducação (Prontel), fruto de um convênio entre o Ministério da Educação e a TVE do Rio de Janeiro. No seu início a TVU transmitia aulas do Projeto Saci – Satélite Avançado de Comunicações Interdisciplinares, e a recepção acontecia em sinal aberto para parte do Rio Grande do Norte, através de retransmissores instalados em pontos distintos do Estado, localizados estrategicamente em serras - alguns ainda hoje utilizados pelas emissoras comerciais - que recebiam em UHF e retransmitiam o sinal para outras cidades através do canal 05. A logística era difícil, segundo consta no site oficial da emissora:
Algumas escolas, de tão distantes, recebiam (o sinal) com o uso de baterias. Para operar todo esse sistema a emissora dispunha de uma enorme equipe de técnicos que viajavam com jipes por todo o estado. (TVU, 2008)
O objetivo de toda essa movimentação de recursos e de funcionários era unicamente educativo como relata a pesquisadora Joana do Céu Régis na pesquisa TV Pública e Terceiro Setor: uma experiência em construção (2004)
As aulas eram destinadas a uma clientela de 1ª a 4ª série do hoje Ensino Fundamental da rede oficial de ensino, em escolas de periferia urbana de Natal e parte do interior do Estado, com o objetivo de suprir carências educacionais na época. (REGIS, 2004, p. 21)
Ainda segundo a autora outros projetos de teleducação foram implementados, como o Sistema de Teleducação do Rio Grande do Norte, o Sitern, fruto de um convênio entre os governos federal, estadual e a UFRN, e operacionalizado pela TV Universitária, que firmou- se durante 15 anos como a única televisão com produção local de programas. As outras TVs eram repetidoras de canais do centro-sul do país.
Somente em março de 1987 foi inaugurada a afiliada do SBT e nesse mesmo ano a afiliada da Rede Globo. Esse pioneirismo da TVU permitiu o fortalecimento de uma identidade com a cultura do Estado. (REGIS, 2004, p.21).
A TVU produziu incontáveis séries, musicais, programas de auditório, de entrevistas, esportivos e telejornais nesta primeira fase. Funcionava na rua Princesa Isabel, no centro de Natal, no prédio hoje ocupado pelo Centro de Formação Cultural do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte. Mas segundo consta no histórico da TV, em meados da década de 1980, a emissora entrou em crise e faltavam recursos para manter a estrutura de transmissão para o interior do Estado. A produção de programas ficou comprometida e o parque tecnológico obsoleto. Nesse período, restaram no ar alguns poucos programas, como o De Bar em Bar, Repórter Cidade, a Santa Missa em seu lar e o próprio Memória Viva. Porém na década de 1990, a TV conseguiu se reerguer
Em 20 de abril de 1995, o canal 05 começou uma nova fase. Mudou- se para o Campus Universitário da UFRN, em Lagoa Nova, um prédio moderno, com novos equipamentos, dois estúdios, e que hoje também abriga a FM Universitária e a AGECOM – Assessoria de Comunicação da UFRN. Com uma equipe de funcionários reduzida, em função da falta de concursos para suprir as funções, passou a contar com a colaboração de alunos do curso de Comunicação da UFRN e com parcerias de instituições para a produção de programas. A emissora iniciou uma nova programação, entrando em rede com a TV Cultura de São Paulo e mais recentemente com a TV Brasil. Nos "fades" da programação via satélite, passou a inserir programas locais, como o Grandes Temas e o TVU Notícias. No início de 2007 a TVU também teve a cobertura de seu sinal ampliada, com a inauguração de seu novo transmissor de 10 Kw, instalado no morro de Nova Descoberta. (TVU, 2008)
Esse histórico de pioneirismo e superação, aliado a identidade com a cultura local, com o dia-a-dia do povo potiguar, distingue a TV Universitária ainda hoje como a emissora com a maior produção de produtos televisivos do Estado. E como TV escola, contribui para a formação de estudantes de Comunicação Social, treinando também graduandos de diversas outras áreas técnicas.
5.1 A parceria com a TV Brasil
No final de 2007, o governo federal criava a Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Na época a TV Brasil tornou-se o centro dos debates pela sua proposta alternativa de televisão pública, inclusiva e cidadã, que destoava do modelo vigente de televisão aberta conhecida no
Brasil. Como ressalta Leal Filho, “era um corpo estranho num país dominado pelo modelo comercial de televisão”.
Muitos passaram a se perguntar do que se tratava. Afinal, haviam sempre convivido com emissoras de TV que, na sua lógica empresarial, não se distinguem das redes de supermercados ou de eletrodomésticos, embora ofereçam, além de mercadorias, ideias, hábitos e valores. A dúvida, nesse caso, era justificável. Mas há também os que, não muito bem intencionados, já tinham na ponta da língua a definição para a nova TV: é do governo, vai ser “chapa- branca”. (LEAL FILHO, Laurindo, 2009, p. 13)
A EBC é gestora dos canais TV Brasil, TV Brasil Internacional, Agência Brasil, Radioagência Nacional e do sistema público de Rádio – composto por oito emissoras. Estes, tentam se distinguir dos canais estatais ou governamentais, com conteúdo supostamente diferenciado e complementar aos canais privados, conforme nos esclarece o site institucional do sistema EBC:
Os veículos da EBC têm autonomia para definir produção, programação e distribuição de conteúdo. Atualmente, são veiculados conteúdos jornalísticos, educativos, culturais e de entretenimento com o objetivo de levar informações de qualidade sobre os principais acontecimentos no Brasil e no mundo para o maior número de pessoas. (EBC, 2014)
Aleatório ao debate se a EBC é “chapa-branca” ou não, lembrado por Leal Filho (2009) podemos considerar que essas são as características das TVs públicas em todos os países onde a comunicação pública é forte com conteúdo diferenciado, complementando os canais privados. Fato nunca ocorrido no Brasil, embora o regime militar tenha instituído a Radiobras e um conjunto de emissoras educativas estaduais. Antes da EBC não existia um sistema público de comunicação que buscasse complementar o sistema privado, assegurando- lhe pluralidade e respeito ao regionalismo.
A TV Brasil, cuja programação é retransmitida para o Rio Grande do Norte pela TV Universitária, é a televisão pública aberta gerida pela EBC, com praças em mais 23 Estados e no Distrito Federal, por meio das emissoras de televisões parceiras da Rede Pública de Televisão. No caso da TV Universitária, atualmente a TV Brasil retransmite semanalmente para todas as suas afiliadas o programa Tela Rural, produção local sobre a cultura e os
costumes do campo e frequentemente as matérias jornalísticas produzidas pelo telejornal TVU Notícias.
5.2 O Programa Memória Viva
O programa Memória Viva foi criado em 1981, na gestão do reitor Diógenes da Cunha Lima e fazia parte de um projeto muito mais amplo chamado de Projeto Memória da UFRN que visava destacar valores culturais da nossa terra. Dentro deste mesmo projeto, por exemplo, foi realizada a gravação de um LP com músicos potiguares e o lançamento de biografias de personalidades locais. Desde o início a proposta da produção do programa foi convidar pessoas que colaboraram com a história do Rio Grande do Norte em diversas áreas. Alguns anônimos mas com possíveis boas histórias para contar. Outros politicamente relevantes como o ex-presidente Fernando Collor de Mello.
Podemos dividi-lo em duas fases de produção: a primeira na direção do professor do Curso de Comunicação Social Carlos Augusto Lyra Martins, apresentador e produtor, e Madalena Soares, como assistente de produção e de direção. No início do programa eram realizadas gravações externas, nas casas dos entrevistados ou no local de trabalho, como Academia Norte-rio-grandense de Letras ou o Palácio do Governo e aí consiste uma das poucas alterações para a formatação de hoje, que é realizada estritamente em estúdio. Na primeira fase foram gravadas 119 edições antes da sua interrupção.
A retomada da segunda fase aconteceu em 2004, na gestão do reitor Ivonildo Rêgo. O professor Tarcísio Gurgel foi convidado para tornar-se apresentador efetivo do programa – na primeira fase ele participou diversas vezes como debatedor ou mesmo como apresentador - e Joana D’arc de Arruda Câmara como produtora e diretora. Nos dez anos da chamada segunda fase do Memória Viva, foram gravadas 400 entrevistas até maio de 2014 e a exibição do programa tornou-se semanal, sendo interrompida apenas por ocasião de greves no serviço público federal.
A dinâmica de produção do Memória Viva continua a mesma. A sugestão de um nome para gravações futuras vem de várias fontes: jornalistas, produtores, apresentadores ou de antigos entrevistados que recomendam amigos. Na fase de pré-produção, após a escolha de um personagem, é feito um convite por telefone para a participação no programa. Algumas pessoas rejeitam. Em parte porque o Memória Viva ficou estigmatizado como um programa
de “idosos” e algumas pessoas são sensíveis ao tema. A produtora Joana D’arc revelou que este pode ser um dos motivos pelos quais há muito mais homens do que mulheres na lista de entrevistados. “Elas (as mulheres) dizem que não querem vir ao programa para ninguém ver que elas estão velhas. Os homens não ligam tanto para isso”. Uma suposta “maldição” de que quem participa do programa morre logo depois da exibição, é uma piada de bastidores que a produtora explica já ter ouvido como justificativa para a ausência de alguns convidados. Na realidade, não há uma idade pré-estabelecida para participação no programa. O grande número de idosos se dá porque estes supostamente teriam mais histórias para contar, mais memória a deixar registrada no programa.
Após o sim do personagem, é marcado o horário, a data, e até sugerido o traje adequado a ser usado na gravação. Também é solicitado um currículo resumido por e-mail e que a pessoa convide outras duas pessoas que conheçam a sua vida para participar da conversa em estúdio a fim de enriquecê-la. Amigos de infância, antigos colegas de trabalho. Estes convidados paralelos irão ajudar na dinâmica da entrevista e a resgatar histórias. O apresentador utiliza este currículo para fazer a introdução do Memória Viva e nortear suas perguntas.
Por trás das câmeras, a equipe é formada por uma diretora e produtora, um assistente de produção, um diretor de imagens, um diretor de fotografia, dois cinegrafistas, um operador de VT, um operador de áudio, um operador do gerador de caracteres, um assistente de estúdio, um iluminador, um cenógrafo, uma maquiadora e um operador master.
A gravação é feita em tom de “conversa de beira de calçada”, como afirma Tarcísio Gurgel. Não há interrupções para ajustes de fala ou narrativa. O Memória Viva é gravado como se fosse um programa ao vivo, com três blocos, tendo cada um de 18 a 20 minutos de duração.
Após a gravação e exibição, o material é encaminhado ao Setor de Documentação e Acervo da TV, o Sedoc, para arquivamento apropriado. É comum que os entrevistados ou seus parentes busquem cópias do programa no setor de acervo. Estas entrevistas memoriais tornam-se assim uma parte importante da memória afetiva de diversas famílias e dos próprios entrevistados.