• No results found

Rusfeltet

In document Ulstein kommune (sider 67-73)

Kap 5 – Landbruk

7.6 Rusfeltet

Ser ativista é, em grande parte, uma opção que se toma conscientemente e, em alguns casos, surge quase “naturalmente” como “herança” familiar. Daí que sendo uma escolha de vida que os ativistas associam muito à realização pessoal, mas também a um processo de aprendizagem e crescimento políticos, muitas vezes, são por si referidos, em primeiro lugar, os aspetos positivos associados a esta atividade. No entanto, se, por exemplo, a criação de amizades e de relações afetivas surge com a participação cidadã ativa, o reverso também acontece, ou seja, por se partilhar intensivamente e durante meses a fio os mesmos espaços de intervenção política, surgem também conflitos pessoais e um certo cansaço físico e emocional.

Os ativistas de continuidade, que já atravessaram diferentes momentos de protesto político e de contestação social, reconhecem tanto o lado da criação de novas amizades como, por vezes, a posterior rutura destas mesmas sociabilidades durante e após os processos de construção política e cívica. No entanto, todos reconhecem que mantêm relações de amizade muito antigas que surgiram desde, por exemplo, o movimento antipropinas, a defesa da interrupção voluntária da gravidez ou pelos direitos LGBT e que, como dissemos anteriormente, serviram de “primeira chamada” para a participação nos protestos antiausteridade. Nestes ativistas, encontramos também indivíduos que afirmam que é difícil destrinçar o campo do ativismo com outras dimensões da vida privada, assim como as suas interferências quer positivas, quer negativas.

A maior parte das pessoas com quem conto e que me são próximas vêm do ativismo. É uma empatia especial, uma visão da vida que se partilha. (Rui)

128

A determinado momento, senti que estava muito cansada e que estava a perder o controle inclusive da minha vida e aqui vou ser um bocado caricatural: não acho que tenha de ser um peão no tabuleiro da revolução, ou seja, sou pessoa, a revolução ou a transformação também tem que ser emancipadora para mim e, a determinado momento, se ela se torna demasiado pesada, cansativa… eu também existo enquanto pessoa. Senti que me esqueci da minha vida pessoal, profissional, perdi o rumo, perdi o controle [a entrevistada refere-se ao momento em que decidiu deixar de estar envolvida ativamente no QSLT por excesso de cansaço]. (Madalena)

Entrei no 15 de Setembro, mas eu não queria entrar porque o babysitting que eu tirei era para ir uma ou duas vezes por semana a reuniões, não há tempos de lazer. Fico furiosa porque há uma série de reuniões que acabam tarde e inconclusivas e expõem sobretudo as mães e as pessoas trabalhadoras. (Sónia)

Para Sónia, ser ativista representa um esforço muito grande, pois torna-se difícil a conciliação com a vida familiar e até com as dificuldades monetárias.

Os movimentos sociais vivem à custa do esforço sobrehumano de desempregados e pós-docs e de bolseiros de doutoramento. Nos movimentos sociais ou tens gente a cair para o lado ou tens gente a afastar-se. Se eu for contabilizar o número de horas de trabalho é o dinheiro que me falta para pagar muita coisa. Se as pessoas fossem pagas, tinhas muito mais gente a fazer e um trabalho muito melhor. (Sónia)

Para os ativistas mais novos, mesmo nos contextos em que já tinham alguma experiência de atuação política ou cívica, a participação nos protestos antiausteridade representou um marco importante a vários níveis. Para estes jovens, estes momentos significaram algo novo nas suas vidas pelas experiências políticas e cívicas que, ao contrário dos ativistas de continuidade, vivenciaram pela primeira vez.

A minha vida, desde que eu comecei a fazer isto, mudou significativamente várias vezes. Vim para X [referindo-se à localidade onde vive atualmente] e estou cá a morar porque conheço uma pessoa disto e foi ela que disse o emprego que eu estou agora. Eu criei muitos amigos mesmo, crias solidariedades fortes. Na minha vida, houve uma série de mudanças profundas. (António)

129

Em primeiro lugar, estabeleci uma rede de contactos muito grande. Não conhecia ninguém, fiz amigos, colegas de luta. Era muito ingénua ao nível da participação política e cresci politicamente de uma forma que nunca sequer tinha imaginado. Acho que não houve qualquer aspeto negativo. (Inês)

Conheci um conjunto de pessoas que tinha uma visão sobre a movimentação social e a participação muito semelhante à minha e como eu perspetivava essa questão. Eram pessoas que não estavam ligadas a partidos e a sindicatos e a nenhum tipo de plataforma instituída. Eram pessoas simplesmente que queriam participar e que queriam fazer alguma coisa e que acreditavam que podiam fazer alguma coisa sem estarem ligadas a nenhum tipo de instituição e eu própria fui levada por essa motivação. Trouxe coisas muito positivas à minha vida: trouxe-me amigos, pessoas com quem eu ainda hoje falo e trouxe uma nova perspetiva sobre a minha participação na vida pública. (Susana)

No entanto, Inês permaneceu somente na organização do 12 de Março e Susana estendeu a sua participação até ao 15 de Outubro, mas manifestando muita desconfiança face ao processo devido, em seu entender, ao papel demasiado excessivo que os partidos políticos estavam a assumir. Apesar destes aspetos, que poderiam ser perspetivados como menos positivos, as jovens mostram-se satisfeitas com a maturidade cívica e política adquirida nestas dinâmicas.

António manteve-se até ao fim do ciclo antiausteridade e tornou-se militante do PCP. Como foi evidenciado, o primeiro contacto destes jovens com as iniciativas antiausteridade realizou-se através do facebook, onde se anunciava a preparação da manifestação no Porto, pois não detinham contactos com outros ativistas. Porém, só António decidiu continuar na preparação dos restantes eventos de larga escala, nomeadamente no 15 de Setembro e no 2 de Março. Será que os social media abrem novos canais de participação, mas a ausência de pertença prévia a certos grupos de ativistas, desmobiliza, em certa medida, alguns jovens ativistas?

130

In document Ulstein kommune (sider 67-73)