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Pleie og omsorg

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Kap 5 – Landbruk

7.3 Pleie og omsorg

As reflexões que têm sido realizadas sobre o perfil dos indivíduos que estiveram ativamente na organização dos protestos antiausteridade em Espanha, em geral, tendem a considerar que existiu uma larga participação de jovens sem experiência prévia ou qualquer tipo de contacto anterior com grupos ou redes de ativistas (Anduíza et al, 2012; Castells, 2013). Por outro lado, existem autores que, não menosprezando a elevada presença de gerações mais novas, salientam o caráter importante que o saber e a experiência de ativistas provindos dos movimentos pela justiça global possuíram na cultura organizacional do mais recente ciclo de contestação (Romanos, 2013).

Na sociedade portuguesa, sugerimos também que o papel dos ativistas de continuidade foi muito importante. Mas, como neste contexto, ao contrário da sociedade espanhola, as iniciativas pela justiça global não revelaram uma grande capacidade e expressão mobilizadoras, não se propõe que a importância destas redes de trabalho advenham somente deste ciclo mas do conjunto de experiências adquiridas, desde há algumas décadas a esta parte, por diferentes ativistas nos principais momentos de contestação nacional das causas da esquerda política. Contudo, como salientado também para outras realidades internacionais, não é de menosprezar, a presença de jovens que iniciaram a sua participação cívica contra a austeridade. Daí que, em termos gerais, uma das diferenças face, por exemplo, aos movimentos pela justiça global, talvez seja uma maior combinação de ativistas mais experientes e antigos com outros mais novos e com menos experiência. No entanto, como veremos ao longo da análise empírica exposta em diferentes momentos desta investigação, em alguns casos, os entrevistados mais jovens sem pertença prévia aos meios ativistas tiveram dificuldade, embora inicialmente fosse essa a sua vontade, em manterem-se ativos até ao fim do processo de organização dos protestos. Algumas análises sobre o caso português têm

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apontado a presença, na contestação à austeridade, de grupos previamente estruturados como um fator que não propiciou e motivou, ao longo do tempo, a permanência dos que chegavam, pela primeira vez, a estes meios (Baumgarten, 2016).

Ora, se entre os jovens, cuja primeira grande experiência na organização de manifestações se traduziu na oposição à austeridade, está patente, nos seus discursos, enquanto fator motivacional, a insatisfação face às suas condições materiais de existência, no caso dos ativistas pertencentes a gerações mais velhas, que na maior parte dos casos se enquadram na noção de ativistas de continuidade, não é que esta se constitua como fator despiciente, mas as razões que originaram, em muitas circunstâncias, a sua participação formal estão relacionadas com o facto de terem sido chamados ou convidados por outros ativistas, nomeadamente pelos mais jovens, devido à sua larga experiência em outros momentos de protesto.

Como já foi sublinhado, o protesto de 12 de Março surgiu da iniciativa de jovens com poucas ligações às redes do ativismo ou a outras fases de protesto e, embora alguns já tivessem alguma experiência anterior de participação política, nomeadamente em partidos, estas foram de curta duração e intermitentes.

Dos 7 indivíduos que consideramos possuírem biografias de continuidade nos eventos de protesto político e social das últimas décadas, 5 foram chamados a auxiliar a preparação do protesto de 12 de Março. O seu “recrutamento”, em certa medida, desenvolveu-se através de um processo de bola de neve, onde os primeiros ativistas de continuidade, a serem contactados pelos jovens que lançaram a ideia do protesto, apelaram à presença de outros com quem mantinham laços de amizade e relações de cooperação nos meios do ativismo desde o movimento antipropinas dos anos de 1990, no âmbito do Fórum Social Português, ou no quadro da despenalização da interrupção voluntária da gravidez ou ainda no movimento pela igualdade no casamento.

A ideia foi dos 4 amigos, que contactaram outros ativistas para apoiarem e depois houve um grupo de 8 a 10 pessoas que se juntou à volta deles. Eu fui parar ao grupo pela via de X [outra ativista de continuidade que foi a primeira a ser contactada pelos jovens e com quem o entrevistado possuía laços de amizade desde o movimento antipropinas]. Ela, por sua via, tinha sido chamada por eles. (Rui)

O grupo do M12 decide falar com um grupo de pessoas para os ajudar a fazer o protesto e eu estou entre essas pessoas. Eu disse: “Eu vou, mas eu estou organizado”. “Tudo bem”. Também chamámos malta do PC e do Bloco para ajudar. Ajudámos nas

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colagens, no contacto com a comunicação. Eles eram miúdos sem experiência e conheciam-me de X. (Miguel)

Contudo, alguns dos ativistas de continuidade, que ajudaram na construção da manifestação, mostraram, desde o início, algum ceticismo face ao processo. Será que este fenómeno reflete, de algum modo, a expressão de uma clivagem entre ativistas experientes e novos participantes inexperientes?

Eu fui chamada para o 12 de Março um bocadinho antes pelo X [um ativista de continuidade entrevistado também no âmbito desta pesquisa que conhece desde o movimento antipropinas da década de 1990] por causa da ligação às propinas, fui chamada para fazer tarefas. Não tive nada a ver com a dinâmica da coisa, sempre suspeitei imenso da dinâmica da coisa! Sempre achei aquele manifesto... laico, porquê? Mas por que é que não devia de ser laico?! (...) Tive discussões de meter os cabelos em pé com aquela malta porque queriam chamar os patrões, porque queriam gerar emprego e sem patrões não há emprego! Todas estas questões, que para eles agora são normais, na altura meteram-me os cabelos em pé! (Sónia)

Neste excerto de discurso, denota-se uma demarcação intelectual e de ação face à iniciativa encetada pelos jovens ativistas que não dispunham de experiência prévia na organização de eventos de protesto. Fominaya (2010) demonstrou, num estudo sobre a constituição de uma rede de ativistas contra a guerra no Iraque, em Espanha, como as diferenças entre ativistas que pensam que o ativismo deve ser antecedido por um pensamento que valoriza o saber teórico face às ações a terem lugar e aqueles que valorizam a prática relativamente à teoria pode ser fonte de conflitos entre os protagonistas das iniciativas e, por vezes, pode conduzir mesmo à inação dos grupos.

O reconhecimento e a valorização quer dos recursos cognitivos e intelectuais, quer da capacidade de mobilização das redes de capital social necessárias a congregar os meios logísticos para a concretização das iniciativas, foram os motivos que incentivaram os “novos” a pedir o auxílio dos “velhos”. Contudo, esta diferença de “posse de recursos” pode também ser uma distinção marcante entre “novos” e “velhos”’.

Eu já estive em n movimentos e sei: se queres um cartaz, já sabes quem são os gráficos, se queres apoio para imprimir coisas, se queres faixas, se queres tintas para pintar. Se precisas de uma rede para o que quer que seja, tu sabes a quem é que vais,

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porque são as pessoas que, à partida, estão motivadas e são sempre as mesmas. (Sónia)

No decorrer da realização das entrevistas, um ativista mencionou ainda que o ‘conflito da antiguidade’, portanto, entre “novos” e “velhos” ativistas, na sua opinião, foi um dos mais relevantes no decorrer do processo de organização dos protestos e, em particular, no QSLT, onde também alguns ativistas de continuidade foram convidados a participar no grupo de formação inicial.

O movimento tinha uma clivagem muito pronunciada que era a clivagem da antiguidade: entre pessoas com muita experiência, experiência partidária em vários quadrantes. Ao contrário do que as pessoas dizem não era dominado por nenhuma fação de nenhum partido ou uma estrutura de poder. Mas ela tem a ver com o capital cultural e intelectual das pessoas que estavam no seu cerne. Isso tem a ver com a antiguidade. O facto de uma pessoa já ter experiência e de ser vista pelos outros como tendo experiência e de ter algo mais a dar ao movimento. Depois pessoas que se politizaram muito rapidamente num contexto muito específico que é o contexto da austeridade. É a ideia de que algumas pessoas, a partir do 12 de Março, observam um processo de politização muito acelerado, mas depois parecem não ter noção de que há uma história concreta do movimento social português, há uma história concreta do movimento sindical português, há uma história concreta da institucionalização dos partidos políticos nos movimentos sociais, que elas, provavelmente, não tiveram tempo para absorver e enfrentar da maneira mais adequada, ou seja, elas chegam aos movimentos sociais veem coisas que não lhes agradam, mas não percebem exatamente por que é que as coisas são como são, por que é têm aquele padrão, porque se politizaram a alta velocidade num contexto super adverso. (Manuel)

Além de considerar que o know-how dos ativistas de continuidade colide, muitas vezes, com a inexperiência dos mais novos e que esta pode ser geradora de tensões, Manuel transmite a ideia de que os “novos” ativistas nem sempre possuem um conhecimento sobre o contexto histórico e social dos movimentos sociais portugueses e, por exemplo, das suas relações com os partidos políticos, fenómeno que, talvez, possa dificultar a sua perceção sobre as realidades de construção e organização atuais dos protestos e o modo como, por vezes, se desenrolam as relações entre os ativistas.

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7.5. Entre a razão e a emoção: representações sobre a organização e construção dos

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