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5 OMGIVELSER

5.3 Rullebaner

Era um dia quente de verão. Na praia, pai e filha andavam de bicicleta um ao lado do outro. Em certo momento a menininha diz ao pai que precisa fazer xixi. O pai faz um sinal de ok e pára a bicicleta. Olha para ela e diz: ‘Pode ir, esperarei você aqui’. A menininha, que tinha seus 4 anos, desce da bicicleta, com certa dificuldade, mas com muita cautela, e vai na direção do mar, abaixa a calcinha e com espontaneidade faz um belo e grande xixi. Olha para o pai sorrindo, se ajeita e diz: ‘Vamos continuar o passeio, papai!’.

Seu pai em momento algum interferiu naquele instante de experimentação e de autonomia. Quando tudo terminou, ela decidida e dona de sua liberdade, subiu na bicicleta e com muito esforço tentou retomar o ritmo do passeio. Olhava para o pai e para os pedais da bicicleta. Sorriu e exclamou: ‘Faço sozinha, papai, não precisa me ajudar!’. Sabia que o pai a seguiria e com alegria ele olhou para ela, balançou a cabeça, sorrindo, e fez um sinal de satisfação. Era visível o que os olhos do pai transmitiam orgulho e admiração pela pequena e corajosa garotinha. Nada precisava ser dito. Havia uma espécie de celebração muito íntima de pai para filha.

Winnicott foi um dos principais autores em psicanálise a dar a verdadeira ênfase ao fato óbvio, presente em todas as ciências, de que somos o produto de uma integração constante e permanente com o meio. O encontro dos processos de maturação com um ambiente facilitador possibilita o desenvolvimento das potencialidades humanas.

Suas idéias estão muito próximas do pensamento sistêmico, antes exposto, quando ressalta a qualidade do ambiente, da cultura e do contexto histórico na sua teoria da estruturação da personalidade. Para ele, como podemos constatar ao longo de sua obra, a família e os aspectos relacionais têm relevância na estruturação do indivíduo, assim como o brincar que possibilita chegar ao apogeu de uma vida cultural rica, aspecto considerado como fundamental para a plena posse de nossa saúde mental.

Embora o objetivo desta pesquisa não seja discutir a obra de Winnicott nem adotar a teoria psicanalítica como referência tomaremos no sentido de enriquecer a discussão dos aspectos psicológicos da relação pai e filha alguns conceitos da psicanálise de Winnicott.

É sabido que esse autor tem poucos escritos sobre o pai. O momento significativo em que o pai se faz presente em seus escritos é em 1966, quando ele escreve o artigo A criança no grupo familiar. Durante os anos de elaboração da sua teoria, aperfeiçoa os conceitos sobre o desenvolvimento emocional primitivo e sobre o relacionamento dual primário (mãe e bebê). Aborda o pai como uma pessoa bem mais de carne e osso, mais real, que entra na vida da criança e assume sentimentos que ela já alimentava em relação a certas propriedades da mãe. Segundo o autor, é um grande alívio para a criança verificar que o pai se comporta de maneira esperada, parecida com aquela da mãe.

(...) A primeira coisa que quero dizer é que o pai é necessário em casa para ajudar a mãe a sentir-se bem em seu corpo e feliz em seu espírito. Uma criança é realmente sensível ao relacionamento entre seus pais. (...) A segunda coisa, como eu disse, é o pai ser necessário para dar à mãe apoio moral, ser um esteio para a sua autoridade, um ser humano que sustenta a lei e a ordem que a mãe implanta na vida da criança.

(...) A terceira coisa a dizer é que a criança precisa do pai por causa das suas qualidades positivas e das coisas que o distinguem de outros homens, bem como a vivacidade de que se reveste a sua personalidade (Winnicott, 1985, p.129).

Para Winnicott (1985), o pai se apresenta, até certo ponto, como uma das duplicações da figura materna. Nesse momento, referia-se, também, à mudança de cenário e orientação, principalmente em seu país, quando chamava a atenção para o modo como os pais se tornavam mais reais e não apenas duplicações da mãe em sua presença para com seus filhos, como décadas atrás.

Entretanto, o pai ainda era visto como o outro lado da mãe, “um aspecto da mãe duro, severo, implacável, intransigente, indestrutível” (1989, p. 105) e que só gradualmente se torna um ser humano, alguém que pode ser temido, odiado, amado e respeitado. Winnicott (1989) sublinha que o modo de ser do pai influencia a maneira como a criança se relaciona ou não com esse pai, na formação da família dessa criança.

Quando descreve o papel do pai, não ressalta diferença alguma entre o pai para o menino ou o pai para a menina. O que é relevante destacar é que, no processo de triangulação pai - mãe - filho, a criança é tomada de surpresa pelo instinto e pelo amor. Esse amor envolve fantasias, mudanças no corpo e é violento. A criança odeia essa terceira pessoa, teme perder o objeto (mãe) com o qual já conheceu o amor e a agressividade. Entretanto, é na relação triangular que conhece a liberdade de viver o ódio por seu genitor e marido de sua mãe. Pouco a pouco o pai se transforma num objeto capaz de tolerar o ódio, de sobreviver, de castigar e perdoar (WINNICOTT, 1988).

Não podemos deixar de considerar que todo processo descrito de inserção do pai na vida dos filhos e da família dependerá em grande parte da mãe permitir-se sair do lugar de principal que ocupou na vida emocional de seu filho, desde os primeiros dias da vida do bebê. Agora, de maneira declarada, confere ao pai autoridade e liberdade para apontar aos filhos outros caminhos para o amadurecimento. É sempre importante lembrar que o que quer que o pai vá fazer

ou ser depende do quanto a mãe permite esse espaço, pois o pai entra no nicho que a mãe cria.

Segundo Winnicott (1988), o pai convida ao amadurecimento pelo simples fato de estar menos preso à onipotência infantil. Se a mãe é amadurecida, ela mesma se encarregará de estreitar o vínculo com seus filhos, permitindo que amadureçam, tornem-se adultos e que aceitem que existe na vida outra relação além daquela que foi instituída inicialmente. O pai completa e legitima esse trabalho.

O pai forte capacita a criança a correr risco, a pôr-se no caminho ou se achar “lá para corrigir as coisas ou impedi-las de acontecer através da sua fúria” (WINNICOTT, 1994, p. 184).

Winnicott (1994) assegura que a figura materna é uma condição necessária para o amadurecimento do novo ser humano, mas ela não é suficiente: uma pessoa capaz de amar, mas incapaz de odiar está “manca” do ponto de vista social. Permanecerá restrita ao amor subjetivo da mãe, mas não conseguirá se fortalecer para enfrentar o mundo e comandar sua própria vida. Os filhos são preparados para viver em família; portanto, o trabalho do pai é ajudá-los na capacidade de viver socialmente, fazer valer seus direitos em público ou na intimidade.

Winnicott diz:

Havendo-se tornado estabelecida a capacidade de relacionamentos objetais, a criança pode então progredir para coisas tais como a obediência, o desafio e a identificação. (...) a criança tem de se sentir amada, mas ela deve também sentir-se real e, se o desafio é omitido do esquema e a criança apenas obedece ou identifica-se, ela mais cedo ou mais tarde queixar-se-á da falta de sentir-se real (Winnicott, 1994, p. 358, grifo nosso).

Numa digressão, não podemos aqui deixar de citar os conceitos de ideal do ego e ego ideal de significativa relevância na obra de Freud (1975), que discutem a posição da função paterna na formação da cultura e na estruturação psíquica do indivíduo.

Antes de conceituá-los, é importante frisar que existe uma diferença fundamental entre o que chamamos de lugar do pai e o que a psicanálise conceitua como função paterna. A psicanálise transforma o pai em função paterna como alavanca para o desenvolvimento da cultura, assim como tem um papel estruturante para o desenvolvimento da criança, pois separa, ordena e discrimina. Essa função, para a psicanálise, não necessariamente precisa ser exercida pelo pai, pode ser por qualquer adulto – independentemente do gênero e ou laços biológico-familiares – ou por qualquer coisa, como, por exemplo, o trabalho da mãe, a escola, a empresa, etc.

Quando falamos do lugar do pai, em contextos da teoria sistêmica, estamos descrevendo o contexto relacional que se define e é definido pelo filho, pela mãe, pelos outros membros da família e por um contexto social mais amplo. Esse lugar deve ser preenchido por um homem – que por razões intrapsíquicas e inter-relacionais ocupe o imaginário familiar e individual nessa posição (POLITY, 2004).

Os conceitos de ego ideal e ideal do ego49, embora não estejam explicitamente presentes na obra de Winnicott, podem auxiliar-nos a compreender o que Winnicott diz quando afirma que “(...) a criança tem de se sentir amada, mas ela deve também sentir-se real e, se o desafio é omitido do esquema e a criança apenas obedece ou identifica-se, ela mais cedo ou mais tarde se queixará da falta de sentir-se real” (Winnicott, 1994, p. 358, grifo nosso). Sentir-se real é abandonar o estado paradisíaco, idealizado e fusionado do amor materno, o objeto subjetivamente percebido50, para conhecer e enfrentar o mundo do amor paterno, o objeto objetivamente percebido51, tal qual se apresenta na cultura e na vida em comunidade. É, acima de tudo, conhecer-se e conhecer a realidade dos objetos

49 Ego ideal é uma formação intrapsíquica que corresponde a um ideal narcísico, isto quer dizer que

corresponde a uma condição ideal, funda-se na completude (FREUD, {1914} 1975). Ideal do Ego é uma formação resultante da identificação mais real com os pais. É o sentido do que é real, é uma instância meritocrática (LAPLANCHE e PONTALIS, 2001).

50 O objeto subjetivamente percebido é o resultado das projeções e fantasias dos filhos, a imagem da mãe fica

presa à fantasia infantil onipotente (Winnicott, 1994).

51

O objeto objetivamente percebido é o resultado pela inserção do pai, apontando os caminhos do mundo real.

amados (pai e mãe), dando lugar ao amadurecimento. O processo descrito por Winnicott (1994) guarda uma estreita relação com o caminho do desenvolvimento do ego ideal até o ideal do ego, teorizado por Freud.

Erickson (1980), em sua teoria sobre o ciclo da vida, sugere que a condição humana de estar conectado faz parte do primeiro estágio, confiança

versus desconfiança, que abrange o primeiro ano de vida. Em cada ciclo, antes da

idade adulta, predominam questões individuais em vez de relacionais. A identidade, para esse autor, é definida como um senso de eu à parte da própria família. Contudo, ao referir-se à relação pai, mãe e filho, considera os aspectos culturais e sociais que estão nos arredores dessa relação. Erickson (1980) enfatiza que não faz parte dos hábitos da psicanálise considerar o ambiente como uma existência real, senão como “mundo exterior” ou “mundo objeto”. Todavia, está próximo a Freud quando teoriza o pai como aquele que aponta e libera o caminho da autonomia e da liberdade ou pode tornar-se o maior obstáculo nas conquistas profissionais que sua filha possa vir a fazer, por exemplo, por acreditar que os padrões esperados para cada um dos sexos são distintos, fazendo-a crer que há poucos recursos disponíveis para sua ascensão.

Fromm (2000), psicanalista, estudou principalmente a influência da sociedade e da cultura no indivíduo. Considerava que a personalidade era resultado de fatores culturais e biológicos, o que contrastava com a teoria de Freud, que privilegiava principalmente os aspectos inconscientes do psiquismo. Entretanto, em seu livro A arte de amar (1966), traz como Freud a questão da influência materna e paterna na criação dos filhos, separando-as e atribuindo ao pai a responsabilidade de apresentar o mundo aos filhos. Sobrevaloriza as diferenças, mostrando que se espera da mãe um amor incondicional por seus filhos, enquanto do pai é esperado que ame os filhos dentro de algumas condições, por exemplo, em resposta a seu desempenho e consecução das coisas.

Fromm (2000), na mesma obra, descreve a diferença de posição assumida pela mãe e pelo pai na educação dos filhos. A mãe ama o filho recém-

nascido por ser seu filho, não por este filho ter preenchido qualquer condição específica ou ter vivido de acordo com qualquer expectativa. A mãe representa o lar onde crescemos, ela é a natureza, o solo, o oceano; o pai é diferente, não representa nenhum desses lares. O pai tem uma pequena conexão com a criança nos primeiros anos de vida e sua importância nesse período inicial não pode ser comparada à da mãe.

Ao contrário da mãe, o pai representa o pólo da existência humana que diz respeito ao mundo do pensamento, das coisas feitas pelo homem, da lei, da ordem, da disciplina, das viagens e das aventuras. É aquele que mostra o caminho para o mundo. O amor do pai é um amor condicional. Seu princípio é: “Eu

te amo por você preencher minhas expectativas, dar conta de suas responsabilidades, por você ser igual a mim”.

O exercício do amor paterno no cotidiano não é incondicional, o pai busca que a filha esteja alinhada a seus valores: “Eu admiro você pelo que é, pelo que

vai ser e pelo que foi”. O alinhamento, de acordo com o grau, pode provocar uma

relação marcada pelo autoritarismo e desprezo pela autonomia da filha ou pode desenvolver profundos sentimentos de admiração que traduzem o respeito, a consideração do pai pela filha e da filha por seu pai naquilo que cada um pode ser, gerando uma importante motivação afetiva no vínculo pai e filha.

Fromm (2000), Winnicott (1994), Erikson (1980) e Freud (1970) concordam, por caminhos diferentes, que o pai é o detentor do princípio da realidade e a mãe aquela que concede ao filho a possibilidade de uma eterna parceria. A díade mãe-filho tem o peso de determinação do núcleo da personalidade infantil em termos de sua confiança básica e confiança no mundo. Ao pai é atribuída a possibilidade da conquista, da autonomia e da liberdade; é ele quem apresenta o mundo lá fora.

Para os autores acima citados, a articulação feita pela mãe no interior da relação pai e filha irá influenciar de maneira significativa o modo como a filha recebe e insere o pai em sua vida, valorizando ou não sua condição de mulher. Quem primeiro apresenta o mundo à filha é a mãe, porém sua responsabilidade

está aliada à maneira como o pai faz a apresentação do mundo lá fora. Ambos contribuem para a forma como a filha irá relacionar-se com as exigências da sociedade contemporânea, favorecendo ou não a atuação numa sociedade masculina que ainda carrega traços de uma orientação patriarcal.

Para algumas autoras feministas, como Firestone (1970), as teorias psicodinâmicas oriundas da psicanálise supervalorizam as diferenças entre homem/pai e mulher/mãe na criação dos filhos e reafirmam a visão do masculino e do feminino da cultura tradicional, sobrevalorizando as diferenças.

Tais questões são concebidas como qualidades em oposição, o que não deixa de ser uma denotação da ideologia dominante de manter o status quo e disfarçar as posições de poder masculino.

Os processos de identificação ora com o pai, ora com a mãe que acompanham o desenvolvimento psíquico das meninas, assim como dos meninos, estão atrelados à presença do par conjugal adulto que auxilia na construção dentro de si da imagem positiva das trocas afetivas e da convivência. Em cada etapa da vida de uma criança, cada um dos progenitores vai ganhando notoriedade sem que isto necessariamente represente uma constante oposição (WINNICOTT, 1994).

As duas noções de masculino e feminino - para Winnicott (1994) - são paralelas, sem ter, porém, nada a ver com homens e mulheres. A pessoa humana é pensada como portadora ao mesmo tempo das dimensões de ser e fazer, portanto, ao mesmo tempo, masculina e feminina. Homens e mulheres, a partir desse autor, estão mais livres tanto para sentir como para agir. Pai e mãe, desse modo, podem e devem completar-se, em vez de só complementar-se, pois o completar-se significa que duas pessoas diferentes podem sobrepor-se em vários sentidos, enquanto o complementar-se traz a idéia de duas pessoas essencialmente diferentes, cujos atos totais perfazem um todo, sem sobreposições (BOGOMOLETZ, 2004).

A teoria de Winnicott traz em sua formulação uma certa semelhança com o pensamento sistêmico, uma vez que também considera as funções de pai e de

mãe como possibilidades intercambiantes; em outras palavras: o pai pode (e deve) ter atitudes “maternais”, e a mãe pode (e deve) ter atitudes “paternais”, sem que isso ameace a identidade específica de cada um.

Os autores aqui citados, do ponto de vista do fenômeno observado, relação entre pai, mãe e filha, embora cheguem muito próximo da visão sistêmica quando ressaltam em suas teorias a inter-relação pais e filhos como fator de grande impacto na construção dos vínculos, guardam em suas teorias uma forte influência da tradição psicanalítica, centrando-se quase exclusivamente nas mães, colocando ênfase extraordinária no relacionamento mãe-criança nos primeiros anos de vida, com a exclusão de outros relacionamentos na família e de fases desenvolvimentistas posteriores (McGOLDRICK, 2001).

Kagan (1984) chama a atenção para a mitologia que está envolvida em muitas suposições sobre a importância do período de bebê e da infância inicial, na determinação do restante da vida humana. Essa visão acerca do desenvolvimento nos primeiros anos levou a um determinismo psicológico que considerava a maternidade responsável por qualquer coisa que acontecesse.

A psicanálise e a teoria sistêmica foram elaboradas a partir de paradigmas diferentes. A primeira parte de uma visão intrapsíquica e a segunda, de uma visão relacional. A confluência das duas teorias gera elementos significativos à compreensão da relação do indivíduo com ele próprio, com seu ambiente e com sua cultura.

As formulações psicanalíticas do exercício das funções de pai e mãe, trazidas neste capítulo, estão em harmonia com os processos vividos pela família tradicional, que não apenas encorajava, mas exigia padrões disfuncionais, tais como a super-responsabilidade das mães por seus filhos e a complementar sub- responsabilidade ou desobrigação dos pais (AVIS, 1985). Há uma prevalência de hierarquias, definindo os papéis do pai, da mãe e dos filhos.

Contudo, apesar da psicanálise estar rastreada numa visão de família tradicional, assistimos todos os dias ao surgimento de autores, como Neuman (2005), Roudinesco (2003), Figueira (1986), Costa (1989) e Mitchel (1979) que,

por intermédio do paradigma psicanalítico, produzem interessantes estudos sobre a família na pós-modernidade.

Entretanto, a passagem do século XX para o século XXI marca importantes mudanças que atingem sobremaneira a organização da família tradicional e, por sua vez, a determinação dos papéis, criando novas demandas sociais e comportamentais.

A saída da mulher para o mercado de trabalho provocou alterações nas funções parentais, transformando os papéis antes exercidos. Assim como as mulheres estão vivenciando novos papéis na sociedade, os homens, num processo semelhante, estão construindo novos papéis. Encontramos homens tradicionais e provedores, outros que estão vivenciando essa transição, ou seja, o homem híbrido que foi formado e se comporta de maneira tradicional, mas está aprendendo novas formas de comportar-se, e ainda homens participativos, mais expressivos e cuidadores, que desempenham um novo modelo que emerge em um tempo que requer novas habilidades (CHAVES, 2002).

É no cenário das grandes transformações e das tensões de demandas constantes dos vários sistemas em que o parentesco está inserido, seja ideológico, cultural, econômico ou histórico, que a visão relacional do pensamento sistêmico encontra seu lugar. Contrária ao positivismo e à idéia da linearidade de pensamento, contesta pensar em termos dicotômicos homem/mulher ou pai/mãe.

O pensamento sistêmico ressalta o contexto como lugar da criação de significados; portanto, os significados emergem da interação com o mundo, com os outros, em contextos mais diversos e neles vão sendo construídos.

O pensamento pós-moderno, ao questionar as verdades universais, abandona as certezas e passa a conviver com a imprevisibilidade e o desconhecido.

A família da pós-modernidade, diferente da família tradicional, vive uma época de inexistência de verdades absolutas, o que, por um lado, nos permite construir múltiplas maneiras de descrever o cotidiano, criando várias realidades de

uma forma flexível, e, por outro, questiona valores e crenças que outrora ajudavam a balizar o conhecimento sobre o mundo e sobre nós mesmos.

Quando estamos discutindo no paradigma da pós-modernidade não podemos falar em lugar do pai e em lugar da mãe, como também no que é interno ou externo – a realidade é única e complexa. Nenhum lugar existe por si só, cada membro da família se constitui e é constituído na e pela relação.

Desse ponto de vista não podemos ignorar o poderoso impacto das crianças sobre o adulto, permitindo que seus pais e suas mães aprendam e amadureçam, à medida que vão respondendo aos desdobramentos inerentes ao crescimento dos filhos.

A perspectiva sistêmica favorece uma visão do desenvolvimento humano na riqueza de seu contexto global de relacionamentos familiares multigeracionais, assim como dentro do contexto social e cultural.

Num contexto sócio-histórico em permanente mudança e com demandas bastante diversas, o lugar ocupado pelo pai e pela mãe na relação com sua filha