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A questão do exercício da paternidade atrela-se às discussões anteriormente feitas em torno do tema da força do patriarcado ao longo da História. Há uma transição entre uma consciência patriarcal e uma consciência pós-patriarcal e, conseqüentemente, entre ser pai e ser mãe. Certas dissonâncias são encontradas entre a concepção consciente do que é ser um homem e um pai modernos e uma concepção inconsciente na qual ainda predominam valores que estiveram presentes na fundação de nossa cultura – o homem heróico, desbravador, conquistador e provedor da família.

Nos últimos 40 anos observamos múltiplas transições e mudanças às quais fomos submetidos, na ordem familiar, na ordem social e na ordem cultural. Pode-se dizer que a família, quando entendida como família nuclear, surgida com a revolução burguesa no Ocidente, está em crise, multifacetada, com papéis confusos e enfraquecidos, o que tem provocado alterações importantes na forma de ser homem e de ser pai.

O feminismo, ao questionar as posições femininas e masculinas e as relações de gênero, contribuiu para desestabilizar a representação tradicional da masculinidade e da paternidade, possibilitando a circulação de novas significações e incentivando a busca de novas compreensões sobre a constituição subjetiva do ser pai e ser mãe.

Todas essas novas passagens na contemporaneidade atingem de maneira expressiva o desempenho do homem em seu papel de pai, durante o percurso do desenvolvimento social e psíquico dos filhos e, portanto, na formação da família.

Como já destacado, o exercício da paternidade é o resultado da interposição das dimensões psicológica, cultural e histórica. Na visão sistêmica, adotada nesta pesquisa, há uma inter-relação permanente e complexa entre o

indivíduo, sua história e sua cultura: são todos elementos da totalidade, do self,46 cujo papel organizador os integra num permanente processo entre o indivíduo e seu entorno, na dialética continuidade-ruptura com as gerações precedentes, permitindo evolução e transformação.

O que denominamos como dimensão cultural e histórica da paternidade diz respeito ao conjunto de idéias, valores e atitudes que sinalizam o que é ser pai num determinado momento ou época de uma dada cultura. Vemos, por exemplo, no modelo patriarcal, onde se funda a família, o conceito essencial de complementaridade de papéis, pelo qual as tarefas instrumentais, como ganhar dinheiro por meio do trabalho, são questões dos homens, e as tarefas emocionais, tais como alimentar, manter as relações e criar os filhos, correspondem às mulheres.

Tal modelo é baseado na hierarquia masculina que mantinha um distanciamento entre pais e filhos – e que somente no final do século XX começou a ser questionada – pois o pai existia e permanecia inserido nas referências culturais, sendo ausente e distante, como figura real e humanizada. O homem/patriarca encontrava dificuldades para separar sua individualidade das funções de pai. Protegido pelo silêncio da austeridade e distante de qualquer possibilidade de diálogo com os filhos, mantinha-se como provedor e detentor do poder de comando na família (SOUZA, 1994).

Seu posicionamento foi apoiado pela cultura que, sendo patriarcal, reservou-lhe um lugar acima da trama doméstica constituída, sobretudo, pela mulher e pela criança. Para ser um bom pai, um homem deveria manter-se sóbrio, ganhar o sustento da família, ser fiel aos princípios religiosos. Em tempos antigos,

46 Um self humano é naturalmente estruturado pela incorporação de ‘objetos’ (pessoas, valores, cultura, etc.).

Também é característica do homem construir seu self com uma grande quantidade de prolongamentos artificiais, que não podem ser desconectados do próprio self sem provocar uma dessimbolização e um afundamento de sentido. (Miermont, Jacques. Dicionário de Terapia Familiar: teorias e práticas. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994)

pais abraçarem suas filhas e dizerem o quanto as amavam ou lhes falarem de questões pessoais e profissionais era algo raro, pouco visto.47

Todavia, o desaparecimento progressivo do patriarcado, mesmo que de uma maneira heterogênea em alguns países, e as recentes pesquisas desenvolvidas nos últimos 30 anos fizeram surgir uma imagem bem diferente de pai e de suas funções, sobretudo em relação a sua relevância na educação dos filhos (BADINTER, 1993).

As transformações dizem respeito aos hábitos e aos estilos que permeiam a vida das famílias, portanto, na educação dada pelos pais aos filhos.

A família brasileira adquire uma nova configuração, modelada no processo que introduziu a mulher no mercado de trabalho; o homem é surpreendido pela ruptura da hierarquia doméstica e pelo constante questionamento de sua autoridade. Essas mudanças contribuíram, por um lado, para criar um vazio na rede de relações afetivas, mas, por outro, instigam um processo de desvelamento de uma nova paternidade (GOMES, 2004; RESENDE, 2001).

A introdução da mulher no mercado de trabalho, ao lado dos movimentos feministas que a levaram a conquistar seus direitos, torna-se um dos principais acontecimentos históricos que contribuem para a mudança de lugar do pai na relação com a família e com os filhos.

As concepções de paternidade têm sofrido alterações, muito embora, ainda hoje, sejam visíveis no interior de muitas famílias marcas de uma estrutura tradicional. Não há talvez, em qualquer família, vigência de modelos homogêneos: contingências sociais, econômicas e culturais articulam-se aos fatores individuais e emocionais, reorientando a organização da família. As relações internas e externas são redefinidas (RESENDE, 2001).

Adotam-se formas alternativas de convivência familiar. Criam-se espaços para a manifestação diferenciada da paternidade. (HUSSERL, 1999) Se, de um lado, exigências sociais operam, pulverizando a figura do antigo provedor, de

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Ao pai-proprietário interessava o filho adulto, com capacidade para herdar seus bens, levar adiante seu trabalho e enriquecer a família. A organização socioeconômica familiar e o saber passadista que a estruturava relegavam a criança a uma espécie de limbo cultural que permanecia até a puberdade. As ligações entre adulto e criança eram a da propriedade e a da religião, fora disso o fosso os separava. (Costa, 1989)

outro, as famílias buscam organizar-se, formando casais de dupla renda ou de dupla carreira. Emerge então uma nova figura paterna, não mais ancorada no poder econômico (MONTEIRO, 2001; SOUZA, 1994).

Foi no final da década de 1970 que surgiu um tipo específico de literatura comprometida em analisar as crises pela qual passava o gênero masculino.48 Todas faziam pensar sobre as mudanças que começavam a ocorrer com esse homem, tão bem definido pela organização patriarcal. O pai, por muitas décadas, era reconhecido por sua tendência de representar seu papel familiar por meio do trabalho e das responsabilidades sociais. Segundo Badinter (1993), os anos 70 se caracterizaram pelo desaparecimento de alguns desses referenciais, como o do bom provedor. Há necessidade, então, de reconhecer o pai como nutridor e também como aquele que favorece uma ligação criativa com o mundo externo à família.

Figueira (1986), em seu estudo sobre as modificações sofridas pela família brasileira ao longo das últimas quatro décadas, pontua que o extenso e intenso processo de modernização que atinge todos os quadrantes da sociedade não tem sido tão simples assim. Nem tudo de nosso passado pode ser completamente deixado para trás, não somos modernos da noite para o dia. Refere-se à dimensão invisível da mudança social com relação à família brasileira e diz: “No momento, o moderno convive com o arcaico na família brasileira de modos sutis e complexos que só recentemente começam a ser estudados” (p.13).

À medida que os processos de modernização e globalização atingem os bens de consumo, os modelos de família, comportamento e identidade pessoal seguem os mesmos caminhos de mudança, embora não na mesma velocidade. Os ideais de família se sucedem rapidamente na interface com a realidade, transformando constantemente seus arranjos relacionais e sua subjetividade (FIGUEIRA, 1986).

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Junto com todos os trabalhos que eram, no mesmo momento, lançados sobre as conquistas das mulheres. Podemos citar alguns como: “Os limites da masculinidade” (Tolson, 1977); “O último homem – confissões sobre a crise do papel masculino” (Radice, 1982); “Pai ausente, filho carente” (Corneau, 1991); “O mito da masculinidade” (Nolasco, 1993) ou “XY: Sobre a identidade masculina” (Badinter, 1993).

O modelo de família que tivemos oportunidade de estudar através da história do Brasil era organizado com base na clara hierarquia, regida pela severidade dos princípios, exigindo que tanto as mulheres como suas filhas tivessem suas vidas restritas à casa e se ocupassem exclusivamente daquilo que era determinado pelo “senhor”.

O entendimento do homem como pai, desde lá, guardava resquícios de sua origem na atividade familiar do patriarca colonial. Jurandir Freire Costa (1983) resgata o pai antigo, proprietário de bens, escravos e filhos, disposto a impor sua lei e seus direitos e a resguardar seu nome e sua honra. Autoritário, isentava-se de maiores compromissos e de manifestações afetivas com os filhos, fossem eles homens ou mulheres.

O aburguesamento no Brasil foi muito rápido e tinha poucas relações com as características da família colonial; fez-se muito mais por meio de uma sobreposição do que pela geração de um novo modelo. Embora tenha ocorrido uma mudança no papel da mulher-esposa, privilegiando a mãe, a estrutura de poder não foi alterada e o aburguesamento constituiu-se mais num verniz superficial sobre os hábitos das elites urbanas, sobreposto ao engendrado nos séculos anteriores. O ideal de amor romântico na escolha conjugal mais validou uma relação entre desiguais do que caracterizou uma modernização (SAMARA, 1983). O duplo padrão de sexualidade, a questão da honra e a cisão entre a mulher casta e as mulheres para o prazer permaneceram como uma regra.

O discurso legal sobre a família, desde a independência, significou a preocupação com a continuidade do patrimônio e, portanto, da prole, mantendo a tônica do poder masculino, uma assimetria sexual e geracional. Apenas os filhos legítimos, até 1930, tinham o direito de usar o sobrenome do pai, e a mulher “culpada”, em caso de separação, perdia o direito de usar o sobrenome do marido. (BARSTED, 1987)

Souza (1994) assinala que, embora o poder político-econômico dos senhores de engenho se tenha ido nos tempos e, como vimos, a família “Casa Grande” tenha representado um modo de vida para uma minoria, esta

configuração deve ser entendida exatamente como “modelo ideológico e não como um fato empírico” (p. 57).

A família ocupa um papel central no Brasil, fazendo com que a relação indivíduo-Estado, indivíduo-lei seja diminuída em favor da proteção familiar. Da Matta (1997) analisou este sentido de proteção emanado da família, ao caracterizar o sistema tutelar e nepotista da política brasileira e o sentido da amizade como vínculo familístico, facilmente sintetizado: “Aos amigos, tudo, aos inimigos, a lei. A lei é o ideal, ao passo que as regras de lealdade aos amigos e às pessoas da casa fazem parte da chamada realidade” (p.122).

Figueira (1986) discute o confronto com as pressões de mudança e faz uso do termo desmapeamento: “Perdeu-se o mapa para orientação” (p. 84), gerando uma sobreposição perfeita, ora uma dupla orientação, ora novas possibilidades. O autor afirma: “Pela própria velocidade do processo no Brasil, o que se tem é a aquisição de novas identidades que se sobrepõem às antigas identidades posicionais, sem, contudo, alterá-las substancialmente” (p.17-18), ou o que chamou de “modernidades reativas”.

A família hierárquica tem como característica uma relativa organização. Organização que vem marcada pelo mapeamento dos papéis e das diferenças. Homem e mulher se percebem intrinsecamente diferentes, a diferença se concretiza em sinais visíveis como linguagem, comportamento e mesmo sentimento. O poder do homem se apresenta superior ao de sua esposa, a partir da relação privilegiada que esse homem mantém com o trabalho fora de casa e do fato de que a expectativa de monogamia só é aceita e sustentável no sentido do homem em relação à mulher e não vice-versa. No dizer de Figueira (1986, p.15): “Adulto é diferente de criança, está na posição de quem sabe ‘mais e melhor’, e pode – e mesmo deve –, de quando em quando, mostrar seu poder através do exercício legítimo da disciplina”.

O pai exercia com força o poder na casa, para manter a família encerrada num círculo vicioso durante séculos. Sua autoridade valia para filhos e mulher, que dele dependiam economicamente e a quem se submetiam de acordo com as

regras estabelecidas. Sustentava a esposa em troca de seus serviços: cuidado com a casa, sexo e reprodução. Os filhos que ela gerava para ele eram mais dependentes. Legalmente pertenciam ao pai, cujo dever compreendia alimentá-los e educá-los. Em troca, ele esperava a continuação do nome e da propriedade, a imortalidade.

Na família hierárquica a identidade é posicional. Os membros tendem, todos, a ser definidos a partir da posição, sexo e idade. Há vários mecanismos de regulação, sutis ou não, em torno do certo e do errado que tentam suprimir ou controlar as várias formas de comportamentos desviantes (FIGUEIRA, 1986).

É a partir da década de 1960, com o fortalecimento dos movimentos feministas no Brasil, que a família hierárquica dos anos 50 passa a ser sistematicamente questionada, produzindo uma lenta porém intensa modificação no posicionamento e no desempenho dos papéis de homem, mulher, pai e mãe.

O movimento feminista contribuiu de forma decisiva para uma relativa mudança de rumo nas relações familiares, caracterizando-se, na maior parte, pela simetria dos papéis, em que ambos os sexos desempenham tarefas tanto instrumentais como emocionais, no trabalho e no afetivo. Isto reflete um critério igualitário do poder entre homem e mulher, um enfoque consensual com os filhos (WALTERS et al., 1991).

Apesar de todos os estudos e mudanças ocorridas, decorrentes do movimento feminista, é necessário prestar atenção no sentido de que o processo de modernização da família brasileira e a conseqüente passagem do ideal hierárquico para o ideal igualitário nem sempre apontam para uma mudança substancial nas identidades posicionais (FIGUEIRA, 1986). Podemos verificar, em razão do estudo aqui presente, como ainda é difícil para o homem ter, em seu papel de pai, uma atitude mais afetiva. Os valores do sistema patriarcal ainda são atuantes em muitos homens tanto na expressão da sensibilidade quanto da afetividade. As dificuldades são expressas nas mais diversas formas de violência nas relações com ele mesmo, mulher e filhos, assim como a maneira pela qual estão construindo seus vínculos.

O processo de modernização da família traz o aspecto do enfraquecimento das fronteiras entre as categorias que são vividas e percebidas como intrinsecamente diferentes. Entre as categorias homem/mulher e adulto/criança há um ideal de relacionamento igualitário e de respeito. Os aspectos da família hierárquica vão-se tornando invisíveis, porém não menos atuantes. Figueira (1986, p. 19) enfatiza:

...as superfícies se pluralizam, os indicadores de idade e sexo parecem se confundir, as diferenças parecem cada vez mais resultar de ‘escolha individual’ dentro de um conjunto de possibilidades dado pela moda, o posicional se submetendo, aparentemente, ao idiossincrático e ao pessoal.

Como enfatiza Morin (1991), a alteração de paradigma é difícil e lenta, pois a mudança de premissas implica o colapso de toda uma estrutura de idéias. A paternidade se destaca como uma questão em torno da qual se define a principal direção de mudança no comportamento dos homens. As transições que estão ocorrendo nos papéis de homens e de mulheres em relação à divisão do trabalho e, portanto, das tarefas desempenhadas por cada um provocam importantes impactos na maneira como a família, pai e mãe, educam e orientam suas filhas.

Segundo Badinter (1993, p. 47), o homem trava uma batalha cotidiana para constituir-se como tal. “Impregnado de feminilidade durante toda a sua vida intra-uterina, identificado depois com a mãe logo que nasce, o pequeno macho só pode se desenvolver tornando-se o contrário do que era em sua origem”. De acordo com Stoller (1975), o primeiro dever do homem é não ser uma mulher. A identidade masculina, segundo esse autor, seria constituída a partir de um mecanismo de negação e incluiria ainda não ser homossexual e não ser um bebê. Tornar-se homem é tão difícil quanto se tornar pai. A experiência da paternidade predispõe o homem a uma certa fragilidade diante da nova responsabilidade.

Sabe-se que a figura paterna desempenha importante papel na estruturação psíquica da mulher, na formação de uma consciência alargada que a

torna capacitada a lutar por seu lugar de reconhecimento no mundo do trabalho. A maneira como alguns pais conduzem a educação de suas filhas pode constituir-se como fator determinante na construção da auto-estima profissional, bem como na capacidade dessa mulher de constituir-se como sujeito ativo que escolhe e decide como e onde deve estar, a despeito da condição biológica de ser mulher.

Em torno do tema da sucessão de pai para filha na empresa familiar ressaltam-se os conceitos de trabalho, de poder e de autoridade que estão apoiados no conceito de gênero e que serão construídos no desenvolvimento da relação do pai com sua filha, desde os tempos iniciais de convivência. É nessa convivência que expectativas surgem, facilitando ou dificultando a formação e a condução do processo de inclusão ou exclusão da mulher na sucessão familiar.

Tendo em vista as discussões anteriores, buscaremos interligá-las com os aspectos que estão envolvidos na relação entre pai e filha no processo sucessório, na organização familiar, partindo da idéia de que tanto as diferenças genéticas como as diferenças psicológicas não têm efeitos incontestáveis.

7.2 RELAÇÃO PAI E FILHA: aspectos psicodinâmicos