Moore (2002) desenvolve então o conceito da Teoria da Distância Transacional (TDT) que requer um aluno, um professor e um canal de comunicação. Nas situações de ensino envolvendo diferentes distâncias transacionais são exigidas diferentes e especializadas técnicas de instrução. Segundo essa teoria, há três variáveis-chaves a considerar: a estrutura, o diálogo e a autonomia do aluno, sendo que a estrutura envolve as condições de infraestrutura do curso, a organização da instrução, e os meios de comunicação disponíveis; as diferentes formas de diálogo entre alunos e professores (em tempo real e em discussões assíncronas) que interferem no nível de aproximação do aluno; e a autonomia do aluno que depende exatamente da responsabilidade pessoal, auto-direcionamento e controle.
A Teoria da Distância Transacional trabalha com o processo cognitivo de transmissão da ideia, incluindo conceitos de codificação, decodificação, recepção, percepção, transmissão e ruído. A TDT está relacionada ao tamanho do grupo de aprendizagem, a familiaridade da língua, a qualidade do meio de comunicação, o material de aprendizagem como estímulo para o diálogo e a discussão síncrona ou assíncrona como indicadores (positivos ou negativos) dos níveis de distância transacional em cursos online.
A base teórica da TDT de Moore (2002) é sustentada pelos pressupostos de John Dewey (1991, 1933©), que entende a Educação como uma construção colaborativa do conhecimento que ocorre no processo de comunicação, do diálogo, e da troca de experiências entre as pessoas. Dewey (1991, 1933©), estabeleceu o conceito de “interação” na EAD que representa o processo de interrelação entre professores e alunos em um ambiente virtual onde
45
ocorre a transmissão e transformação de uma informação por meio de uma ação recíproca dos alunos, resultando na construção de um conhecimento com novas aplicações e valores. Exatamente essa interrelação entre alunos/alunos, alunos/professores motiva o pensamento crítico e a sustentabilidade de uma aprendizagem colaborativa.John Dewey definiu a natureza do pensamento reflexivo como "consideração ativa, persistente e cuidadosa de qualquer crença ou forma suposta de conhecimento à luz dos fundamentos que a sustentam e à conclusão a que tende" (DEWEY, 1991, p.9). O pensamento crítico é geralmente aceito para emitir juízo de valor.
O pensamento crítico, segundo Mello (2010, p.109), está relacionado ao processo de construção de significados e de entendimento. Assim, “o ato de pensar é em si mesmo uma experiência diferenciada e envolve uma ação imaginária, configurando-se como um processo de estabelecimento de conexões focadas na criação de significados”. (MELLO, 2010, p. 109). 2.3.2 Teoria da Comunidade Virtual de Investigação Crítica (CoI)
Outro modelo da aprendizagem em EAD proposto por Garrison e Archer (2000) é a Teoria da Comunidade Virtual de Investigação Crítica (Community Inquiry- CoI) que segue os pressupostos de Jürgen Habermas (1989) 1 apud Mello (2010).
Habermas é um filósofo e sociólogo alemão que se dedica a discutir doutrinas sobre o conhecimento constitutivo do interesse humano e a ação comunicativa. A teoria de Habermas (1989) denominada “Teoria crítica do conhecimento do interesse humano” é abrangente e busca o estabelecimento do pensamento crítico durante os processos comunicacionais baseadas em três áreas cognitivas genéricas primárias: a técnica, a prática e a emancipatória. Segundo Mello (2010, p.50), essas três categorias abrangem as ciências interpretativa e crítica e definem como a descoberta do conhecimento ocorrerá e como as necessidades desse conhecimento podem ser garantidas. O conhecimento do trabalho, ou da técnica se concretiza a partir de pesquisas empíricas e segue regras técnicas e depende do controle efetivo da realidade. O conhecimento prático ocorre a partir das interações sociais e ações comunicativas que respeitam normas de conduta estabelecidas por consenso entre os membros do grupo e que ocorre a partir do diálogo, negociação e compreensão. O conhecimento emancipatório se estabelece a partir da autorreflexão ou auto-conhecimento, que se originam das percepções e
1 HABERMAS, J. Consciência moral e agir comunicativo. Trad. de Guido A. de Almeida. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1989.
46
reconhecimento por parte do individuo dos fatores geradores de seus problemas, ou seja, o conhecimento emancipatório é fruto da consciência de transformação do indivíduo.
Na Teoria da Ação Comunicativa os indivíduos “usam a linguagem e o discurso para interagirem e se organizarem socialmente, na busca pelo alcance de um consenso livre de qualquer coerção”. (MELLO, 2010, p.114)
Essa abordagem do ensino e aprendizagem crítica prevê a prática dialógica e a reflexão, que se concretizam a partir das trocas argumentativas entre os membros do grupo promovendo o pensamento crítico e a conscientização do indivíduo sobre o contexto sócio- econômico-cultural. Segundo Mello (2010, p.115), a construção do conhecimento para a Teoria crítica do conhecimento do interesse humano é uma ação que envolve o “desenvolvimento da competência comunicativa crítica, da interrelação entre aprendizagem reflexiva e a formação crítica do cidadão”. (MELLO, 2010, p. 115)
Garrison e Archer (2000) apresentam a Teoria da Comunidade Virtual de Investigação Crítica (Community Inquiry- CoI) que reúne os principais fundamentos de Habermas (1989), ao defender um processo de aprendizagem reflexivo.
A “Comunidade de Investigação” proposta por Garrison, Anderson e Archer (2000a) impulsionou as pesquisas sobre os processos comunicacionais e pedagógicos na EAD, em princípio no Canadá, depois nos EUA, Reino Unido e no Brasil. O foco do modelo CoI é a implementação de um ambiente virtual de aprendizagem focado na reflexão crítica do aluno para questionamento de valores e crenças preestabelecidas e no diagnóstico de equívocos e na negociação de significados.
Garrison e Archer (2000) adeptos da teoria crítica social na Educação, defendem que as práticas educacionais e o diálogo devem conduzir ao consenso racional. Essas práticas recebem influência de inúmeros fatores, porém ao contrário da teoria crítica tradicional, Garrison e Archer (2000) defendem a tolerância da diversidade e aceitam as diferentes abordagens educacionais voltadas às questões da sociedade atual.
As metodologias que sustentam o modelo CoI visam o desenvolvimento do pensamento crítico na construção do conhecimento incentivando os membros de uma comunidade ao questionamento e à revisão contínua de referencias individuais prévias e da validade dos conhecimentos armazenados.
Segundo Darabi et al. (2011), o fórum de discussão é uma importante ferramenta instrucional para apoiar o desenvolvimento dos alunos em um modelo Community Inquiry pois a estrutura de um diálogo no modelo CoI para EAD prevê procedimentos
47
comunicacionais que sustentem as fases de reflexão particular, de investigação ativa e de debate colaborativo entre os alunos, permitindo aos indivíduos uma experiência de libertação e fala argumentativa que visa o entendimento mútuo e o consenso.
Garrison e Archer (2000) destacam que a Teoria Crítica da Educação segue orientações de uma abordagem colaborativa e cooperativa e, para que ocorra a verdadeira experiência educacional, é necessário existir a interface entre três elementos: a presença cognitiva, a presença social e a presença de ensino ou educativa. Esses elementos serão descritos na subseção 2.3.4 deste capítulo.
As abordagens colaborativas e sócio-cognitivistas são apropriadas para a prática pedagógica online, pois se destinam a estudar prioritariamente as estruturas do saber, os processos mentais, as estratégias didáticas de ensino, focando-se na solução de problemas, interação e na colaboração para transposição do conhecimento. A seguir serão retratadas sucintamente as características dessas abordagens.