No ponto anterior destaquei a des/continuidade temporal da configuração do pós-colonial. Aqui aponto para a sua des/estabilização espacial ou geográfica. Em 1993 Walter Mignolo escreve um artigo cujo título é Colonial and Postcolonial Discourse. Cultural Critique or Academic Colonialism.52 Nesse artigo parece haver uma diatribe e
ao mesmo tempo, um chamado de alerta, em contra e a respeito do poscolonialismo, respectivamente. As duas coisas se misturam. Para ele o discurso colonial e pós-colonial não deve ser um campo de estudos, mas a condição de possibilidade para a construção de novos loci de enunciação, isso somado ao esforço de ‘aprender com’ pessoas que escrevem a partir de lugares diferenciados em termos do colonial e pós-colonial. Porém, ao mesmo tempo, parece que custa a Mignolo refletir sobre o discurso destes outros intelectuais pós-coloniais ‘não-latinoamericanos’, e validar a sua posição de ‘subalternos’, pensar sobre eles, em suas próprias palavras, como pessoas que ‘pensam desde’ e não simplesmente ‘sobre’ o Terceiro Mundo.
48 Esta falha tem a ver com o assunto abordado por Ernesto Laclau em 1991 a respeito do conceito de “Emancipação”. Veja Ernesto Laclau, “Emancipation(s) – Radical Thinkers”, (London: Verso, 2007). 49 Ibid, p.27
50 Gayatri Spivak, “Estudios de la Subalternidad: Deconstruyendo la historiografía”, op.cit., p.36 51 Young, Op. Cit, p.354
O que seriam ‘teorias importadas’? Seria o pós-colonial um discurso importado, e se assim for, especificamente de onde?53 Os elementos que estão por trás deste ‘mal
estar’ se relacionam com dois assuntos: por um lado, a localização dos autores considerados centrais no discurso pós-colonial, e por outro, o lugar da América Latina no seu discurso. Constata-se de Said, Spivak e Bhabha, mas de modo geral também todos os chamados teóricos pós-coloniais, que provêm do Oriente Médio e do Sudeste asiático, e estão vinculados, na sua maioria, a instituições universitárias nos Estados Unidos e na Inglaterra54 (entre os autores do pós-colonial devemos aqui incluir a África
e suas diásporas também). Já sobre a questão de América Latina, Mignolo sugere que o trabalho de Edmundo O’Gorman e Angel Rama seriam antecipações latinoamericanas, porém ignoradas, do enfoque teórico de trabalhos como o de Said55. Mignolo levanta a
importância ao redor da questão do lugar de enunciação, quando pergunta “Onde estes autores escrevem, por que e sobre o que?”, ou “Quem escreve sobre o que, onde e por que?”56 Se levamos em conta o título do seu artigo, parece difícil evitar pensar que se
trate, em alguma medida, de uma desconfiança geral, ou no mínimo, um chamado de alerta, a respeito dos ‘teóricos pós-coloniais’.
Talvez é a isso que se refere Hernandez Castillo quando diz que houve uma falta de reconhecimento por parte dos ‘teóricos pós-coloniais’ do longo caminho nos processos de descolonização do conhecimento na América Latina, o qual pode ter ferido sensibilidades e provocado um desencontro entre intelectuais pós-coloniais e os intelectuais latinoamericanos, engajados igualmente no processo de descolonização. Ao mesmo tempo, ela afirma que hoje é tempo de estabelecer alianças mais produtivas, e deixar para trás esses desencontros.57 Retomarei esta discussão no final do capítulo. O
que eu quero destacar aqui são duas coisas: embora de fato houvesse uma recepção problemática sobre a crítica pós-colonial na América Latina58, constata-se uma
‘recepção’ (por tanto, algo que vem de fora); em segundo lugar, embora viesse ‘de
53 No artigo referido, Mignolo usa esses termos para se referir ao ‘campo’ dos estudos pós-coloniais (p. 130-1)
54 Rosalva Aída Hernandez Castillo (2008), op.cit., 69. 55 Mignolo (1993) op.cit., p.123
56 Ibid, p. 121-2
57 Hernandez Castillo (2008), op.cit., p.70.
58 Para uma revisão desta recepção veja Edgardo Lander (org) A colonialidade do Saber: Eurocentrismo e
Ciências Sociais: Perspectivas Latinoamericanas (Buenos Aires: Colección sur sur, CLACSO, 2005); Santiago Castro-Gómez, Oscar Guardiola-Rivera e Carmen Millán de Benavides (eds.), Pensar (en) los intersticios. Teoría y práctica de la crítica poscolonial (CEJA, Bogotá, 1999); Santiago Castro-Gómez y Eduardo Mendieta (eds.), “Teorías sin disciplina. Latinoamericanismo, Poscolonialidad y Globalización en Debate”.
fora’, é preciso avançar com maior cuidado sobre a hipótese de um provável (e assim, não totalmente impossível) colonialismo acadêmico.
A este respeito é preciso dizer que o debate sobre o discurso pós-colonial não será resolvido ao redor do termo em si. Ele será resolvido ao redor da séria consideração das suas estratégias discursivas concretas, os seus horizontes e compromissos éticos, e os efeitos das suas intervenções teórico-políticas. Eis a razão pela qual faz-se necessário este capítulo introdutório nesta tese. A discriminação teórico conceitual que procuramos responde em certa medida à proliferação de discursos e intervenções, todas elas sob o guarda-chuva ‘institucional’ deste emergente ‘discurso pós-colonial’. Tais discursos nem sempre estão alinhados com os objetivos e princípios fundamentais estabelecidos pelos seus representantes. Também será tarefa nossa determinar objetivos, princípios e horizontes fundamentais, mesmo que a heterogeneidade do discurso é inerente ao contexto a partir do qual se concebe o próprio horizonte de intervenção política do pós- colonialismo.59
Miguel Mellino60 refere uma fala de Said sobre ‘sua relação com o movimento
encarnado na crítica pós-colonial’, onde ele expressa sua desconfiança de modo geral a respeito do tom de alguns intelectuais na academia, na teoria literária, feminismo e crítica pós-colonial. Ele cita:
Há algumas mudanças de perspectiva que não compartilho de modo algum. Minha reflexão sobre o imperialismo tinha como ponto de partida a experiência colonial desde o ponto de vista do mundo colonizado e agora eu encontro trabalhos cujo interesse fundamental refere à “angustia do colonizador” ou diatribes sobre a insegurança, a ânsia e os “nervos” dos britânicos durante a colonização. Não tenho nenhum tipo de interesse por esse tipo de enfoque”. 61
Mellino continua comentando sobre o mal estar de Said a respeito do “mainstream” da teoria pós-colonial, e sua desaprovação de uma certa despolitização do seu enfoque “produto da institucionalização e consequente banalização do seu trabalho dentro de boa parte dos estudos pós-coloniais”.62 Posições como as de Mellino, ou as de
Mignolo que refiro aqui brevemente provocam uma certa desorientação no momento de se situar na discussão a respeito do pós-colonial. É preciso, porém, retomá-las de forma
59 Diferentes formas de colonialismo, diferentes formas de resistência, diferentes estratégias de dominação/subversão/resistência, contextos históricos diferentes e posições subjetivas diferentemente sobredeterminadas impossibilitam certa homogeneidade que é cobrada das teorias ou sistemas, razão pela qual a ‘teoria pós-colonial’ foge a estas definições. Veja Robert Young, (2001) op.cit., “Foucault in Tunisia”, pp.395-410
60 Miguel Mellino, La crítica Poscolonial: descolonización, capitalismo y cosmopolitismo en los estudios
poscoloniales, (Buenos Aires/Barcelona: Paidós, 2008 [1ª ed. 2005]).
61 Ibid. p. 37
positiva no intuito de esclarecer o nosso campo teórico, e de responder ao ‘onde’ colocado no início desta seção. Com efeito, é preciso considerar o lugar de enunciação como sendo central para se avaliar qualquer discurso, como diz Mignolo; também é necessário olhar com cuidado para os efeitos políticos dos discursos veiculados pelos/as autores/as na academia, e evitar uma mera transposição acrítica de discursos e ferramentas de luta cujos contextos espaço temporais são diferentes àqueles da sua produção original.
Cabe, porém, matizar estas advertências levantadas a respeito dos ‘teóricos’, das ‘teorias’, ou de modo geral, do ‘pós-colonialismo’, com os próprios autores/as que assumem tais discursos, pois frequentemente usam-se tais críticas e advertências de modo leviano para demitir e recusar muito rapidamente um discurso tão complexo e tão heterogêneo como o discurso pós-colonial. Seguimos a Robert Young (2001) para afirmar o seguinte: (i) a origem do discurso pós-colonial não está na academia, ou no campo das ideias, como algo oposto ao campo do ‘ativismo político’. Encontra-se na interação entre distintos saberes e práticas cujo contexto é [são] o(s) colonialismo(s), e cujo horizonte histórico é a contraposição a este(s). (ii) Nesse sentido, os intelectuais(- militantes) que articularam na academia estes saberes e práticas beberam da sabedoria destes movimentos contraculturais e alternativos e, em não poucas ocasiões, eles mesmos fizeram parte de tais movimentos. (iii) A localização geográfica (lugares e pessoas) do discurso pós-colonial foge às lógicas binárias ‘ocidente’ – ‘oriente’, ‘sul’ – ‘norte’, ‘primeiro mundo’ – ‘terceiro mundo’. “O pós-colonialismo não é nem Ocidental, nem não-ocidental, mas um produto dialético da interação entre os dois, articulando novos contrapontos de insurgência a partir das longas lutas de poder que antecedem e sucedem o colonialismo”.63
O lugar do pós-colonial como discurso é, portanto, este lugar intersticial. O fato de que os/as representantes destes discursos trabalhem, de fato, em universidades do ‘primeiro mundo’, não transforma automaticamente o seu discurso em ‘ocidental’, ‘colonialista’. O fluxo contínuo bidirecional entre sociedades colonizadoras e colonizadas (uma das ênfases do discurso pós-colonial) acaba desestabilizando a lógica da diferença absoluta entre um e outro. O caso do marxismo é relevante aqui para ilustrar o nosso ponto. O marxismo é o quadro de referência geral do pós- colonialismo64, porém, este seu ‘marxismo’ não é propriamente ‘ocidental’. É um tipo
63 Robert Young (2001) op.cit., p.68 64 Ibid. p.5
de marxismo ‘transculturado’, nas palavras de Young, articulado desde os três continentes, e seguindo os objetivos anticoloniais dos três continentes. Da mesma forma que a crítica anticolonial de Las Casas infiltrou-se de volta na Europa toda no século XVI, as lutas anticoloniais mais recentes experimentam o mesmo percurso, sendo o maio de 1968 parisino a sua primeira inscrição histórica65.
A revolução produzida pelo marxismo tricontinental66 teve seu impacto no
âmbito acadêmico do ‘primeiro mundo’, oferecendo as condições teórico-políticas do surgimento do discurso pós-colonial. Assim, seria um erro, diz Young, nomear o impacto do pensamento não europeu e anti europeu sobre o pensamento europeu como sendo ele mesmo europeu também.67 Ora, se reconhecemos este fluxo constante
globalizante (cujo caráter hibridizador é destacado no pós-colonialismo), temos de relativizar a observação de Mignolo e de Hernandez Castillo sobre o não reconhecimento, no pós-colonialismo, a respeito do trabalho e as lutas anticoloniais na América Latina. De fato, na sua análise histórica sobre o pós-colonialismo Robert Young inclui, por exemplo, as teorias de dependência latinoamericanas e sua contribuição para as lutas tricontinentais contra o colonialismo, assim como também as intervenções do Ché Guevara, da Revolução Cubana, ou dos textos de um Gabriel García Marquez, ou um Wilson Harris.68