É necessário designar o trabalho de Spivak como crítica pós-colonial (talvez sob rasura, como no subtítulo deste ponto) e, ao mesmo tempo, como crítica do discurso do pós-colonial, num sentido mais preciso. Temos insistentemente a sua advertência de que o migrante pós-colonial metropolitano não deve se fazer passar por informante nativo, pois ao assim fazer, reescreve a este, e inevitavelmente o forclui. No longo caminho para a hegemonia, a pergunta de Spivak deve estar sempre presente, pois sempre haverá pessoas e grupos silenciados, incluso em meio à mobilidade destes rumo à hegemonia. Portanto, mais útil do que fazer falar aos subalternos, Spivak mostra que devemos nos concentrar em explicitar a nossa cumplicidade com a norma, pois o nosso uso da
palavra produz necessariamente (embora não absolutamente) o silenciamento dos outros.
Uma das figuras que um uso desconstrutivo da palavra traz a tona é a respeito do informante que se nega a falar, ou que cala, ativamente! “<<O nativo>>, independentemente do que isso possa significar, não é somente uma vitima, mas também um agente. O estranho guardião na margem que não informará” (1999:192). Isso nos mostra que o caminho para o espaço além da subalternidade não é necessariamente a fala. De fato, a fala faz-nos entrar no circuito do discurso e suas normas, dando início, portanto, a um ato de cumplicidade. Ao usar sua representação, crucial dentro do seu discurso, o intelectual pós-colonial, por exemplo, pode contribuir com a mercadorização da marginalidade, e com a institucionalização de um duplo vínculo (doble bind), como afirma Spivak: No mesmo momento em que participamos da batalha por instaurar o estudo institucional da marginalidade, devemos continuar a dizer <<e no entanto...>>.” (1999:173).
O máximo que pode fazer um discurso crítico contra-hegemônico do pós- colonial é mostrar como o poder dos discursos é limitado, e como todos eles mentem, e em quais formas eles mentem. Trata-se de evidenciar o processo através do qual as “verdades” são instituídas, incluso as verdades que dizem representar aos marginalizados. Aqui Spivak segue a desconstrução, em dois passos, de Paul de Man: Passo 1, tropológico: algo que pretende ser verdade não é mais do que um tropo; Passo 2, performativo: que consiste em revelar que o impulso corretivo dentro da análise tropológica está obrigado a representar uma mentira ao tentar instaurá-la como versão retificada da verdade (1999:30). O exemplo de Spivak: a desconstrução da mentira do masculinismo implicou na execução da mentira da sororidade global.
Decorre dessa “verdade” que uma oposição ferrenha não faz mais do que legitimar aquilo ao que nos opomos, por inversão. Daí que ela afirme: “minha postura não é necessariamente acusatória” (1999:124). Podemos pensar a relação entre esta postura e a “retórica da culpa” que Said adverte como algo a ser evitado. Trata-se em poucas palavras de conceber a inevitável cumplicidade de forma construtiva e não inabilitadora, ela sugere. Em meio a isso tudo o que deve ser focalizado é o presente, o presente evanescente, como o subtítulo do livro indica (towards a history of the vanishing present). A importância de dissolver a dicotomia entre o individuo e a história, por exemplo, converge justamente nesse foco no presente. Trata-se de continuar a “situar ao Sul na história do seu próprio presente, em lugar de tratá-lo como
lugar de nostalgia e/ou interesse humano” (1999:395); resulta, portanto, interessante “ler Kant, Hegel e Marx como remotos precursores discursivos [do <<grande relato>> atual da financiarização do planeta] em lugar de como depositários transparentes ou interessados de <<ideias>>” (1999:15).
Spivak, como Said, se apoia na noção foucaultiana de formações discursivas e aponta como estes elementos estão disponíveis nas configurações contemporâneas de ações e intervenções. Nesse contexto teórico ela fala sobre a axiomática do imperialismo, que é o conjunto de princípios não organizados que configuram personagens e histórias que seguem os valores imperiais e neocoloniais. Porém, se apoia na noção freudiana de ‘sobredeterminação’ (em Freud, relacionado aos sonhos como princípio de invenção de imagens no texto onírico), para evitar/ou em oposição à causalidade, como se houvesse uma consciência deliberativa imperialista. A ideia de Spivak é que a representação imperialista do império, altamente heterogênea na sua origem, não opera por causalidade, ou por uma consciência deliberativa, mas por sobredeterminações (dentro das quais há determinações como raça, classe, e gênero, etc.), (cf. 1999:219-0).
Gostaria que a leitora se atentasse para o modo sutil e diferenciado de Spivak para falar em imperialismo. Este modo de falar procura evitar as noções conspiratórias que reconstroem a hegemonia do sistema atual como eventos lineares e projetados a partir de um vórtice unificado facilmente identificável; e ao mesmo tempo, impede um rápido descarte da existência imperialista dessa hegemonia que se articula de modos heterogêneos e indeterminados. Por fim, o resgate das determinações (raça, classe, gênero...) foge do relativismo que bloqueia qualquer análise concreta do acontecer local e global, permitindo apontar para frentes específicos de luta e resistência.
Neste ponto, pergunto: teremos de abrir mão do “pós-colonial” como discurso crítico, em vista da rejeição que os seus próprios autores-alicerces-conceituais fazem do termo? Creio que o que devemos fazer é entender seu gesto: quando “os estudos pós- coloniais/sobre o discurso colonial estão se convertendo em substância em um gueto subdisciplinário” muito provavelmente estamos menos diante de um gesto contra- hegemônico do que diante de um gesto constatativo: “a crítica terceiro-mundista/do discurso colonial <<(con)stata>> [(com)state, no orignal, transmite a dupla ideia de constatar e co-afirmar] em forma de álibi, o que o neocolonialismo está realizando e já realizou” (1999:13,14). Afinal, não se pode lutar contra a disciplinarização do
conhecimento por meio do estabelecimento e institucionalização de um gueto subdisciplinar! É preciso fazer mais, e fazer diferente.
Até aqui, o “pós-colonial” vai se afunilando como um vírus especificamente efetivo em algumas tendências claras, interesses e objetivos concretos. Quem irá complementar o quadro é um outro autor-alicerce do pós-colonial cujos conceitos e estratégias completarão a trilogia de teóricos pensada para este capítulo. Após considerar o trabalho de Bhabha será preciso apontar que, embora os três autores conduzem à formação de quadros teóricos convergentes, essa convergência está mais marcada por uma convergência nas suas atitudes e estruturas de referência, do que na sua própria metodologia e nos conteúdos por eles abordados. Fora isso, não é possível falar de Bhabha, Spiva e Said como se fossem autores homogêneos.