A “missão por redução” foi uma estratégia de evangelização de povos indígenas adotada pela Companhia de Jesus em diversos territórios pertencentes à Monarquia de Castela no Novo Mundo, inclusive seguindo a orientação das Leyes de Indias que previam a concentração de populações que viviam dispersas. Em certos casos, ela foi uma alternativa aos esforços das “missões volantes” de resultados incertos e pouco duradouros (MARTINS, 2006). Na Província Jesuítica do Paraguai, a Paracuaria, ela foi praticada junto a vários grupos, entre os quais os guaranis, com quem foram instituídos os conhecidos “30 Povos”. Para que eles prosperassem, era necessário obter uma série de resultados, inclusive na manutenção de populações bastante consideráveis, como veremos a seguir.
2.1 A vida econômica das reduções jesuíticas
A “missão por redução” com os índios guaranis na América do Sul foi um projeto que buscou estabilidade a partir da exploração de enormes porções de solos, matas e rios. Os povoados concentravam populações extensas, chegando a 3, 4 ou 5 mil indivíduos, e deveriam ser capazes de ter sustentabilidade e, ainda, de produzir algum excedente para trocas no mercado interno colonial. Por isto, nos espaços imediatamente próximos aos núcleos urbanos, organizaram-se áreas de cultivo, que deveriam ser maiores que as tradicionalmente manejadas pelos horticultores guaranis, como parte de uma estrutura produtiva essencial aos Povos. Issoimplicou uma série de profundas transformações no “modo de ser” destes índios, inclusive em suas pautas econômicas, de forma a permitir a subsistência dos estabelecimentos que são chamados genericamente de “30 Povos das missões”. Segundo Júlio Ricardo Quevedo dos Santos, as reduções
[...] significam um momento inicial da transição de parcialidades guaranis – que assim o permitiram – da sociedade aldeã doméstica a uma nova forma de produção e de organização social – missioneira – articulada com a sociedade moderna do Estado absoluto, a partir de uma aliança tática desses grupos com os jesuítas. O salto guarani foi em direção a uma nova forma de organização social, inserida no Estado espanhol. A formação missioneira também significou a capacidade de barganha de parcialidades guaranis, que construíram em meio aos conflitos coloniais um espaço de liberdade negociada que lhes permitiu viver e, melhor, aumentando a esperança média de vida do guarani, com garantias de proteção contra encomenda e
escravidão. Ao negociar viver na Missão, os guaranis demonstravam a capacidade de interferência na realidade empírica (2009, p. 25).
Ao mesmo tempo em que houve mudanças na organização social, os jesuítas interferiram, também, na organização econômica dos guaranis. Para atender às novas necessidades, ampliaram sua produção para uma escala destinada, não apenas ao consumo interno, mas também para exportação, como é o caso da erva-mate. A possibilidade deste incremento foi importante para Província Jesuítica do Paraguai, favorecendo a subsistência dos primeiros povoados e a fundação de outros.
Uma das principais características do sistema econômico organizado pelas reduções foi a capacidade de criar uma economia que gerasse bons rendimentos produtivos e uma relativa autonomia frente aos colonos espanhóis. O desenvolvimento econômico das reduções mostrou que os guaranis podiam produzir e desfrutar dos seus bens, sem se submeter a encomienda1.
O uso de novas técnicas agrícolas permitiu melhores rendimentos aos produtos tradicionais da agricultura guarani e a inclusão de outros, como o algodão e o tabaco, por exemplo. A partir disso, foi possível gerar excedente para o comércio, sendo que a maior categoria de exportação foi, como dissemos, a erva mate. Desse modo, a estrutura indígena, orientada pelos jesuítas, recebeu novas técnicas que possibilitaram sua relativa autossuficiência e uma importante comercialização.
O sistema econômico das reduções estendeu-se às formas de trabalho, propriedade, distribuição e consumo dos produtos. Os jesuítas promoveram um setor coletivo de produção e distribuição equivalente aos princípios guaranis de cooperação e reciprocidade, ao qual associaram a produção segundo as unidades familiares.
Neste capítulo, iremos apresentar um panorama das atividades econômicas que foram desenvolvidas nas reduções, as quais permitiram aos jesuítas ampliar uma série de projetos na Província. Sobre esta sua faceta “empreendedora”, Paulo Assunção (2004) afirmou que os padres expuseram conhecimentos e técnicas que os capacitaram a gerir com habilidade os bens que estavam inseridos em um complexo sistema produtivo que envolvia o plantio, a criação e a distribuição dos produtos. Contudo, a historiografia contemporânea, especialmente
1
Tratava-se de uma concessão feita pela Coroa em favor dos colonos, conferindo a eles o direito de cobrar impostos e explorar a mão de obra de um determinado número de indígenas, cujos cuidados espirituais e materiais passavam a ser de responsabilidade dos encomenderos. Enquanto em outras partes das Índias de Castela, o sistema perdeu vigor ao longo do século XVII, sendo substituído progressivamente por outras formas de trabalho compulsório, na Província do Paraguai, ele continuou sendo importante ao longo de todo período colonial (MARTINS, 2006).
desde as contribuições de Bartomeu Melià (1990), evidenciou que, ao lado da competência dos missionários neste sentido, eles aproveitaram a boa capacidade de produzir que tinham os guaranis.
2.1.1 Os horticultores guaranis
Anteriormente à chegada dos jesuítas, os guaranis tinham pequenas chácaras e sementeiras para o seu sustento. Eles produziam reduzidas lavouras de cultivo de milho, mandioca e batata doce. Embora sua economia tenha sido qualificada como “de subsistência” em abordagens mais antigas, ela pode ser entendida dentro do espectro que Marshall Sahlins qualificou como “economias de abundância” (1977), uma vez que permitia atender de forma bastante satisfatória às necessidades dos grupos. É importante e até necessário que se atente a isso, pois não se pode deixar de considerar que as fundações das reduções aproveitaram muito da “base cultural” que era própria aos guaranis (MELIÀ, 1997).
Segundo José Otávio Catafesto de Souza,
Os Guaranis eram grupos horticultores que, no momento da chegada das primeiras frentes de colonização ibérica na América do Sul, dominavam grandes parcelas das florestas tropicais e subtropicais da bacia do rio da Prata. Nestas florestas, organizaram um singular arranjo técnico e econômico, capaz de manter equilíbrio mais duradouro entre a exploração dos recursos e o ambiente natural (2002, p. 212).
Como sabemos, o colonialismo introduziria grandes mudanças nas sociedades indígenas. Também assim ocorreu com os povoados missioneiros, uma faceta deste colonialismo. Aí, porém, muito mais que em outros espaços, houve uma combinação e adaptação de realidades. Uma série de categorias da cultura guarani foi aproveitada na base da nova ordem reducional e outras foram substituídas. A grande contribuição dos trabalhos de Bartomeu Melià (1997) e da etnohistória foi verificar o quanto os jesuítas se valeram do substrato do “modo de ser guarani”, que era aldeão e comunitário.
La reducción, como nuevo producto espacial, producía un nuevo modo de ser, es decir, se orientaba a crear cultura en todos los órdenes: político, económico y religioso. Y precisamente porque pretendia cambios profundos, aprovechaba parte de lo que había, tomaba la lengua guaraní, por ejemplo, para hacerse entender en certa manera dentro del mismo sistema guaraní, y desde lo que era, provocaba la eclosión de lo que debía ser, pero no era todavia (MELIÀ, 1997, p. 204).
A organização dos guaranis pré-coloniais era parental, sendo que as relações de parentesco ocupavam um papel determinante no sistema de produção e consumo. Segundo
Souza (2002, p. 223), a economia das sociedades parentais apresentava algumas características, como por exemplo, “a produção orientada pelas necessidades familiares; esta produção é tecnologicamente simples e sem complicada divisão de trabalho; existe uma relativa liberdade na utilização dos recursos de produção; e as trocas comprometidas com redistribuição dos produtos elaborados”. Nesse sentido, o grupo familiar surge como unidade de produção e consumo, e com autonomia no interior do conjunto mais amplo. Como veremos, nas missões, em relação com outras estruturas maiores, a unidade familiar continuou operando de forma importante.
A grande família constituía a comunidade de produção, de consumo e vida religiosa dos guaranis. Ela tinha diversas funções sociais e religiosas e a maior parte das atividades produtivas eram desenvolvidas no âmbito que agregava essas famílias. Com isso, o sistema se identifica com o modelo doméstico que configura o ambiente econômico e social, em que os produtos existem em benefício dos produtores.
Na economia doméstica, a produção é destinada às necessidades do grupo familiar, local ou político, mesmo que uma parte dela seja destinada para o mercado. Nesse caso, este âmbito não existia, e eram outras as formas de circulação do que era produzido. A unidade doméstica determinava o econômico e o social ao mesmo tempo. Ela carregava o peso da produção e comandava a organização do trabalho, sendo que as relações internas configuravam a produção na sociedade. As linhagens eram importantes na sociedade guarani, as quais eram separadas por grandes casas onde dezenas de famílias habitavam.
Cada família nuclear ocupava um espaço delimitado pelas pilastras centrais que auxiliavam a sustentação do cume, sem a presença de qualquer outra divisória. O grande agregado familiar, composto de lares fundados pelas filhas e pelas netas, desempenhava diversas funções (sociais, religiosas, defensivas e ofensivas) e era no seu âmbito que se desenvolviam, na maior parte, as atividades produtivas (SOUZA, 2002, p. 224).
A organização de trabalho dessa família era pela divisão de sexo. Essa divisão foi predominante nas atividades econômicas, onde os guaranis reproduziram o padrão de cultivadores da floresta. O homem, além de preparar as roças, tinha o papel de caçador ou pescador, e a mulher cultivava a terra, com tarefas dedicadas para o plantio e a colheita. Nas missões, houve a necessidade de ampliar a participação dos homens nas atividades agrícolas: se antes eles limpavam o terreno para o trabalho das mulheres, nos pueblos eles assumiram outras etapas do trabalho, especialmente no cultivo. Além desta alteração significativa, Levinton (2009) aponta outras, como as distâncias entre chácaras e os povoados, e a importância do cavalo no transporte ao longo desse caminho.
Entretanto, se a família pode ser considerada como uma unidade de trabalho, de produção no sistema econômico guarani, isso não exclui a possibilidade de outras formas de organização. Segundo Souza,
A constituição do tekoha evidencia que a produção guarani podia estar organizada em formas sociais distintas e, às vezes, em níveis mais abrangentes do que a unidade doméstica nuclear. Os membros de uma família-grande podiam colaborar inclusive, de uma maneira regular e sobre uma base individual, com parentes e amigos de outras casas comunais, realizando outros projetos mais coletivos (2002, p. 230).
Para o guarani, a terra, além de ser um meio de produção econômica, é um elemento que constitui um “modo de ser” através de aspectos sócio-políticos e religiosos. Trata-se de um espaço de inter-relações que é essencial na sua vida. A terra é identificada com o “tekoha” que “é um lugar onde se dão as condições de possibilidade do modo de ser guarani. A terra, concebida como tekoha é, antes de tudo, um espaço sócio-político” (MELIÀ, 1990, p. 36).
Melià (1990, p. 37) esclarece que “o guarani vê a terra como horticultor, e não é de estranhar que prefira as terras que mais facilitam o trabalho agrícola e as que possam dar maior rendimento conforme os diversos cultivos que nela se hão de plantar”.
Os jesuítas vão estimular as práticas agrícolas dos índios, estimular a exploração dos ervais e introduzir, ainda, a criação de animais. Com efeito, a organização econômica das missões jesuíticas surgiu a partir da articulação de dois elementos culturais, o tradicional guarani e os princípios dos missionários. Relacionando as formas econômicas tradicionais dos guaranis e seus próprios preceitos, os jesuítas conseguiram transformar os Povos em centros de solidariedade, e isso se tornou uma ferramenta importante na vida missioneira. Como veremos em um momento posterior deste trabalho, conflitos e litígios diversos, especialmente por terra, também fizeram parte da história das reduções. Sabemos que a imagem deste solidarismo entre os povoados foi em parte uma construção de crônicas elaboradas pelos religiosos, especialmente no período após a expulsão decretada em 1767. Entretanto, também é fato que as missões chegavam a ajudar-se mutuamente em caso de necessidade.
Melià (1990, p. 34) afirmou que existe um "horizonte” de terra guarani, específico e constante, fora do qual será difícil que eles se estabeleçam. “E se há saída deste horizonte será devido a uma crise de uma ou outra ordem”. De fato, as reduções se instalaram em ambientes que respeitavam esta realidade, embora por meio delas tenha se passado a explorar outros espaços, como aqueles em que vão se constituir as estâncias. O autor ainda aponta que “a terra para o Guarani não é um deus, porém está impregnada toda ela de experiência religiosa” (1990, p. 38). Assim, os aspectos da terra que estavam ligados à economia e à sociedade eram
vinculados aos símbolos religiosos. Significativamente, as terras que eram reservadas nas missões para a produção coletiva, isto é, para atender às necessidades da missão, inclusive as de culto, recebia o nome de “Tupambaé”, isto é, “terras de Deus”.
Os produtos cultivados foram ampliados pelos jesuítas, introduzindo o trigo, a cevada, a cana-de-açúcar, o algodão, o fumo, as árvores frutíferas, entre outros que se adaptaram às condições ambientais. Os alimentos introduzidos aos poucos formaram uma diversificada produção e intensificaram o trabalho nas sementeiras, no plantio e na colheita. Segundo Carbonell de Masy (1992, p. 137), “las especies nuevas se iban adaptando y algunas hallaban un ambiente natural tan apropriado que se connaturalizaban con el Paraguai, como la cana de azúcar” .
O Padre Antônio Sepp, missionário da segunda metade do século XVII, registrou que a terra onde se assentaram as reduções era fértil. Desse modo, eram grandes as hortas para saladas, havendo muitas árvores frutíferas e ervas para os doentes.
Na horta há saladas o ano todo; salada de endívia bem amarela, uma crespa e outra não; além disso, salada repolhuda, da Bolonha, chicória, pastinaga, espinafre, rabão miúdo e graúdo, repolho, couve nabeira e nabo bávaro, que trouxe de Munique, salsa, aniz, funchão, melões, coriandro, pepinos e outras plantas indianas. Na horta das ervas tenho hortelã, arruda, alecrim, etc. A pimpinela foi devorada pelas formigas (SEPP, [1690] 1980, p.127).
Além de novas plantas, técnicas e instrumentos, foram acrescentadas outras inovações ao modo tradicional de cultivo. Carbonell de Masy (1992, p. 137) destaca, como novidade técnica e satisfatória para os indígenas, “las cuñas, elaboradas por los espanoles en Asunción” que diminuíam consideravelmente algumas tarefas, como a limpeza da mata onde seriam abertas as roças. Realmente, os machados de ferro e o arado puxado por bois trouxeram um novo padrão de organização de trabalho que ajudou na ampliação da produção.
Fizeram-se presentes ainda outras atividades, tais como tecelagem, carpintaria, olaria e pastoreio, O guarani missioneiro, segundo Quevedo dos Santos (2009, p. 29), “trabalhou arduamente e com austeridade na Missão da região do rio da Prata. Foi agricultor, vaqueiro, charqueador, oleiro, peão de estância, escultor, pintor e cantor, efetivando a economia agropastoril missioneira”. A mão de obra indígena nas reduções foi abundante em comparação com o que ocorria nas cidades coloniais. Esse aspecto ajudou no alto nível de produção e no desenvolvimento de todos os setores da redução. No espaço missional, a produção era constante, envolvendo homens, mulheres e crianças, cada qual com suas tarefas, seja na produção de alimentos, objetos, ou no que mais fosse necessário (BAPTISTA, 2015a).
Embora a leitura acrítica de informações como aquelas trazidas pelo Padre Sepp ([1690] 1980) tenha servido para sustentar estereótipos como a da capacidade de “mimetismo” dos guaranis, isto é, de que eles eram apenas excelentes copistas, devemos dizer que, ao contrário, a capacidade criativa dos índios também esteve a serviço do desenvolvimento das missões. Carbonell de Masy (1992, p. 140) chama atenção, desse modo, para o aspecto da comunicação mútua entre os indígenas e os jesuítas como fundamental para uma técnica e tecnologia apropriadas no desenvolvimento rural. O autor destaca que as habilidades dos guaranis estavam além de atividades manuais e da imitação, havendo, inclusive, a disponibilidade deles em ensinar os padres. Isso demonstrou a reciprocidade no que se refere à transmissão de informações. A partir disso, é possível sustentar a ideia de que houve um diálogo entre conhecimentos, com uma relativa adaptação de ambos os lados, pois, como já mencionado, muito se utilizou das atividades da cultura tradicional guarani nas reduções.
É sabido, por exemplo, que o trabalho na forma coletiva que era conhecido tradicionalmente pelos índios, foi a forma preferencial em que ele ocorreu nas missões. De fato, enquanto a faina nas chácaras familiares devia ser constantemente estimulada, o trabalho nas terras coletivas, parece ter tido maior resultado.
La agricultura y la ganadería de tipo colectivista, controladas y dirigidas por el sacerdote, tenían sin lugar a dudas, más importância que la producción particular de cada familia. Comunes eran las tierras más extensas (llamadas Tupambaé o propiedad de Dios), los yerbales, los algodonales y las grandes estancias ganaderas. Todos los hombres debían trabajar unos días a la semana en esas propiedades colectivas y con lo recogido, se mantenía a las viudas, niños y necesitados, se pagaba a los artesanos y los tributos reales y se almacenaban algunas cantidades, en previsión de plagas o escaseces. También algunos bienes, como la carne o la yerba mate, se repartían diariamente a todas las familias después de la misa. Los guaraníes, al parecer, mostraron claramente preferencia por este sistema de base colectivista frente a la agricultura de tipo individual que, pese a los intentos iniciales de los jesuitas por potenciarla, no alcanzó nunca una importancia similar (CARDIEL, [1771] 2002, p. 17).
Nas missões jesuítico-guaranis, foram conhecidos dois tipos de propriedade da terra, os quais receberam o nome de Abambaé e Tupambaé. O Abambaé deveria sustentar a produção familiar e, de certa maneira, reproduzia a tradicional forma pela qual os guaranis praticavam historicamente a horticultura que, inclusive, continuava sendo organizada, nas missões, a partir da liderança dos chefes de família. Esse sistema, segundo Kern (1982), exigia uma tutela econômica que apontava a direção para produção. Assim, era controlado pelos alcaides que guardavam e administravam os produtos. A literatura contemporânea vê
com reservas a ideia de que os guaranis eram “tutelados” pelos padres e assinala como era relativo o controle que os religiosos, de fato, estabeleciam sobre eles (NEUMANN 1996, GARCIA, 2007, BAPTISTA, 2015a).
Embora se reconheça a necessidade de destacar o “protagonismo indígena” nos espaços coloniais (SANTOS E FELIPPE, 2016), podemos afirmar que algumas esferas da vida missioneira mereciam uma atenção mais constante dos jesuítas. No tocante à produção, este cuidado tinha o objetivo de ajudar a integrar o indígena nas novas esferas das ações econômicas e ensinar as novas condições do funcionamento da produção.
Os indígenas Guaranis estavam acostumados a uma produção agrícola apenas suficiente para o seu consumo imediato. Assim, não podiam compreender o tipo de economia acumulativa e de intensa atividade da mão- de-obra dos encomenderos. Nem percebiam muito bem a idéia de progresso social e material, baseado na produção de erva-mate e couros para exportação, que os jesuítas defendiam. Assim, esta tutela econômica, que se instalou e que levou à tomada de decisões políticas, que agiram de maneira decisiva sobre o contexto econômico, foi uma maneira de levar os indígenas a entender o tipo de economia que se praticava no mundo dos homens brancos (KERN, 1982, p. 75).
Ainda sobre as mudanças implantadas nas missões a partir do Abambaé, Levinton (2009) aponta alterações na organização do trabalho. Na primeira etapa das reduções, cada cacicado dedicava um tempo para trabalhar para as necessidades do seu grupo em determinados dias da semana. Essa era uma articulação do trabalho comunitário baseado na macro-família ou cacicado. Também houve, como já dissemos, uma ressignificação relativa da presença feminina no cultivo. Apesar da introdução da pecuária para fornecer a proteína animal que antes provinha das caçadas, atividade tipicamente masculina, estas nunca desapareceram. A caça foi associada à atividade da captura do gado nas vacarias, conforme