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Romantikk, realisme, poetisk realisme

5. Estetikk og kunstkritikk

5.4. Romantikk, realisme, poetisk realisme

Justina é exemplo do grau de subordinação a que estava relegada a mulher livre e pobre. Prima de Glória, é apresentada por Bento como uma viúva ―quadragenária, magra e pálida‖ que tinha ―boca fina‖ e ―olhos curiosos‖ e vivia junto à família por favor. A maledicência é sua característica mais ressaltada. Bento inicia o retrato de Justina expressando espanto por um gesto de franqueza tomado por ela. Qualifica-a como alguém que não era ―de biocos‖, ―dizia francamente a Pedro o mal que pensava de Paulo, e a Paulo o que pensava de Pedro‖ (cap. 21) e era ―assaz sincera para dizer o mal que sentia de alguém, e não sentia bem de pessoa alguma‖ (Cap. 66). Costumava falar mal da vizinhança, ou de José Dias, quando este saía da sala (Cap. 115); dizia que Capitu ―era um pouco trêfega e olhava por baixo‖ (Cap. 22), que Escobar era ―um tanto metediço e tinha uns olhos policiais a que não escapava nada‖ (Cap. 93), que o médico João da Costa ―era um feixe de ossos‖ (Cap. 100) e há momento no qual parecia melhor do que o costume por estar esquecida da língua (Cap. 134). Ela insinua que Escobar cogitara casar com Glória (Cap. 98), e que Capitu estava em casa de Sancha para namorarem rapazes, o que logo se comprova falso (Cap. 81).

Bento revela que Justina vive junto à família não apenas como um favor desta para com aquela, mas também por interesse de Glória, que queria ter uma senhora íntima ao pé de si e ―antes parenta que estranha‖ (Cap. 21). Esse grau de parentesco a exime do servilismo de José Dias, sem no entanto assegurar-lhe completamente o lugar na casa. Segundo Bento, como membro da família que não aspirava a legado, sua situação lhe permitia eximir-se de ―exceder os serviços naturais‖, de ser aduladora, de parecer mais risonha ou assídua do que seu natural, de multiplicar-se em cuidados, precedendo os escravos (Cap. 66); sem, contudo, poder esquecer-se de desempenhar o papel de senhora íntima que a prima espera ter ao pé de si.

Justina chega a revelar a fragilidade de sua posição por meio de um monossílabo. Ao discutir com Glória sobre a conveniência de cumprir a promessa de enviar Bento ao seminário, Cosme diz:

– Sei que você fez promessa... mas, uma promessa assim... não sei... Creio que, bem pensado... Você que acha, prima Justina?

– Eu?

– Verdade é que cada um sabe melhor de si, continuou tio Cosme; Deus é que sabe de todos. (Cap. 3; grifo nosso)

A cena se encerra sem que sequer transpareça a opinião de Justina sobre o ingresso de Bento no seminário. Comentando essa passagem, John Gledson aponta a subordinação que ela padece:

Prima Justina, cuja posição é de menor dependência que a de José Dias (é parenta consanguínea), nem por isso passa de uma subalterna ressentida: o seu ‗Eu?‘, alarmado, quando lhe pedem opinião sobre a proposta de José Dias, resume seu desejo de não intervir no assunto (GLEDSON: 1999, p. 52).

Em outro momento, Bento pede para que ela intervenha junto à mãe contra a carreira eclesiástica, e a prima deixa bem clara a natureza de sua relação com Glória:

– Isso não, atalhou prontamente; prima Glória tem este negócio firme na cabeça, e não há nada no mundo que a faça mudar de resolução; só o tempo. Você ainda era pequenino, já ela contava isto a todas as pessoas da nossa amizade, ou só conhecidas. Lá avivar-lhe a memória, não, que eu não trabalho para a desgraça dos outros; mas também, pedir outra cousa, não peço. Se ela me consultasse, bem; se ela me dissesse: "Prima Justina, você que acha?", a minha resposta era: "Prima Glória, eu penso que, se ele gosta de ser padre, pode ir; mas, se não gosta, o melhor é ficar". É o que eu diria e direi se ela me consultar algum dia. Agora, ir falar-lhe sem ser chamada, não faço. (Cap. 21)

A sinuosidade do discurso assinala os estreitos limites de sua posição familiar e social: mulher livre e não proprietária, Justina é completamente dependente. Ela se nega a intervir. Justifica com a ineficiência do pedido, dado o caráter público do compromisso assumido e a determinação da prima em cumpri-lo. Manifesta qual seria seu procedimento em uma improvável consulta, comprometendo-se a assumir o partido de Bento, ainda que de forma hipotética. Por três vezes, deixa bem clara a conjuntura necessária para que intervenha, ser antes consultada, o que se consubstancia na reiteração de orações condicionais cujos sujeitos, agentes, referem Glória: ―Se ela me consultasse‖; ―se ela me dissesse‖, ―se ela me consultar algum dia‖. Ao fim, confessa o tremendo grau de subordinação daquela que ―não abre a boca sem ser chamada‖: ―ir falar-lhe sem ser chamada, não faço‖. Pode-se questionar que espécie

de ―senhora íntima‖ é Justina. Sua intimidade não permite discutir acerca de um tema tão importante para o bem-estar da família e de sua protetora, o futuro de seu único descendente. Percebe-se que se presta o favor de tê-la em casa e, em contrapartida, ela age como espécie de ―dama de companhia‖, capaz de ater-se ao estreito limite das conveniências.

Ao ganhar a intimidade de Glória, disputando a posição com Justina, Capitu passa a ficar mais ―aborrecível‖ a Justina que, por sua vez, ―se a princípio não a tratava mal, com o tempo trocou de maneiras e acabou fugindo-lhe‖ (Cap. 66). Capitu, em resposta, quando não a via, perguntava por ela e ia procurá-la. Esses cuidados eram tolerados por Justina, que diante da menina acabava ―sorrindo, ainda que azedo‖ (Cap. 66). Segundo Bento, tolerar Capitu, para a prima, era uma obrigação do tipo ―que a gente cumpre, por mais vontade que tenha de as infringir deslavadamente‖ (Cap. 66). A sós com Glória, achava sempre ―alguma palavra ruim que dizer da menina‖ e quando a mãe de Bento adoece gravemente e elege a vizinha como enfermeira, Justina não lhe perdoa ―a intervenção‖. Essa concorrência com Capitu explica que um dia lhe perguntasse ―se não tinha que fazer em casa‖; em outra ocasião, faz- lhe referência direta ao namoro com Bento: ―não precisa correr tanto; o que tiver de seu às mãos lhe há de ir‖ (Cap. 66). José Dias, ao comentar que Capitu e Glória se davam muito, afirma que era por isso que Justina andava cada vez mais amuada (Cap. 100). Nesse contexto, também se insere a insinuação de que Capitu talvez ficasse em casa de Sancha à procura de rapazes, o que motivou a ida de Bento para averiguar a situação e constatar que, na verdade, ela amparava a amiga, doente (Cap. 81). É Justina a primeira a acusar-lhe valendo-se de seu olhar como argumento; antes mesmo de José Dias, afirma que Capitu era astuta e olhava por baixo (Cap. 22). F. de Paula Azzi que, vinte anos antes de Caldwell não só apontou o caráter desconfiável de Bento Santiago como se valeu da analogia com Otelo para concluir que o adultério não passou de ―torpe concepção de um cérebro enfermiço‖, identificou Justina como a primeira a alimentar o ciúme de Bento, ao compará-la a Iago: ―Ora, como Justina não tolerava a esposa do primo (caps. LXVI e C), não seria ela o Iago responsável pelo triste desfecho?‖ (AZZI, 2008, p. 374). A concorrência com Capitu é uma das origens de juízos que semeiam a dúvida e o ciúme de Bentinho, e mais uma expressão da fragilidade da posição de Justina e de sua dependência em relação à Glória.

Como reflexo dessa condição, resulta a opinião de Bento de que ou Justina gostava de Glória ou

se algum mal pensou dela, foi entre si e o travesseiro (...) Como vivesse de favor na casa, explica-se que não desestimasse a dona e calasse os seus ressentimentos, ou só dissesse mal dela a Deus e ao diabo (Cap. 66)

Tamanho grau de dependência, sintetizado no fato de que vivia de favor, faz com que Bento considere impossível conhecer os verdadeiros sentimentos de Justina acerca da mãe. Do início ao cabo do livro, pouco sabemos dos desígnios íntimos da prima; há a especulação de que almeja segundas núpcias com o médico da família, João da Costa, o mesmo que é imitado nos brinquedos de criança de Capitu e Bentinho, a aplicar sanguessugas ou a receitar vomitórios e que, antes da viuvez, segundo a própria Justina, ―era um feixe de ossos‖ (Cap. 100). A união não se concretiza, o que não diminui o significado de que seja a sua única vontade própria cogitada na obra a de casar. Diante do tão reduzido mercado de trabalho aberto às mulheres, só o casamento seria capaz de livrá-la da subordinação à Glória, ainda que tal arranjo implicasse nova subordinação, ao marido. O resultado é uma vida de pouco espaço para realização pessoal e consequente refúgio na maledicência, na implicância e no azedume (Cap. 66).