• No results found

A ascensão do Imperador Meiji ao trono de Crisântemo em 1852 levou a uma significativa mudança na conjuntura interna no país. Estas mudanças foram conhecidas como Restauração Meiji ( 明 治 維 新 ) em 1868 permitindo ao país dar enormes saltos tecnológicos e projetar o país da situação de uma economia agrícola em um sistema complexo industrial. A Restauração é uma resposta administrativa quanto ao desenho institucional do Japão frente a sua defasagem perante o Ocidente.

65 A conjuntura de poderes na Ásia era muito preocupante para a elite japonesa, visto que muitos reinos importantes estavam sobre ocupação na época: A constituição do Raj Inglês sobre a Índia em 1858, a derrota da China perante a Inglaterra (1839-1842), contra a França (1856-1860) nas Primeira e na Segunda Guerra do Ópio, além das intervenções americanas e russas no extremo oriente. Até o final da segunda Guerra, apenas dois países não se tornaram colônias de outra potência ou não tiveram suas soberania extirpada: o Japão e a Tailândia.

“A Restauração foi liderada por um grupo muito pequeno de samurais, cerca de 20, oriundos de um extrato médio do serviço público de suas terras. Logo nos primeiros anos do novo governo os novos líderes, ou genro66 se depararam com uma divisão no que tangia sua relação com os

vizinhos. Após acalorados debates verificou-se divergências sobre a política japonesa na Coréia, parte dos genro advogava uma intervenção imediata na península coreana, enquanto o restante acreditava que ainda não era o momento certo para uma expedição militar ultramarina. Os defensores da invasão imediata foram derrotados e exonerados de seus postos no governo” (MAGNO et. al. 2010a).

Com forte incentivo a busca de técnicas e valores ocidentais, o Japão logrou a mudanças estruturais para melhor fazer frente a influência ocidental. Neste ínterim, o governo organiza viagens para o exterior, funda embaixadas no ocidente e subsidia estudantes para aprenderem tecnologias novas, estudar sistemas legais e modelos de organização adotados pelas potenciais industriais (NAKAMURA, 1962).

Um destes mais proeminentes pensadores foi Fukuzawa Yukichi (1835-1901), um samurai de baixo escalão que traduziu diversas obras de Sociologia e Direito Internacional do alemão para o japonês67. O autor salienta o fato das nações asiáticas estarem a mercê das potenciais ocidentais pela sua constituição feudal, em sua obra “A Teoria para sair da Ásia” ou “Abandonando a Ásia68” (脫亞 論 Datsu-a-Ron).

De acordo com Fukuzawa, o Japão estava a mercê das intempéries e desejos das potências ocidentais devido a sua condição material asiática, que conforme o autor é essencialmente agrária e atrasada, inepta perante a tecnologia ocidental. Em certa forma, Fukuzawa prediz Edward Said na sua percepção entre Ocidente e Oriente, no que se refere a constituição do Ocidente como potência através do discurso da sua força material como sinônimo de ética e superioridade racial.

Através do desenvolvimento de técnicas e progresso advindos da Europa, o Japão poderia romper a sua “condição asiática” e dar “adeus” ao trágico destino que o continente estava destinado.

66 “Genro” é designação usada no Japão para os samurais que promoveram a restauração Meiji. A literatura anglo- saxônica utiliza a expressão “oligarcas”. Contudo, entre nós, o termo oligarca é utilizado usualmente para designar a classe dos latifundiários, cujo poder depende do controle de recursos naturais e mão de obra. No Japão o que mais se aproxima disto são os daimyo, justamente contra os quais se levantaram os genro, portanto, “oligarca” induz a erro de interpretação. Além disto “caudilho” em nosso meio é utilizado para designar líderes cujo poder emana do carisma, ou prestígio, e da interferência na política através de bandos armados. A designação “caudilho” aproxima-se mais dos genro, samurais intermediários, dotados de liderança e carisma, hábeis no uso de armas e na conduta de tropas (HALL, 1985:246-247 in: MAGNO et. al. 2010a).

67 O Direito alemão era considerado na época o mais avançado sistema legal e foi o primeiro país asiático a adotar um sistema parlamentar. A primeira Constituição do Japão foi escrita em 1889.

68 De acordo com a Tese de KWOK (2009) a tradução do título da obra pode ser entendido como: “Datsu” (脫), this Japanese word holds the meaning of, to exit, to get out, or, to depart. “A” (亞), is the abbreviated term for “Asia” in Japanese language. Finally, “Ron” (論) possesses the meaning of theory, or, hypothesis. Decoding the complete term in a literal approach, Datsu-A Ron, thus means “the theory of getting out of Asia” or “the theory of departing from Asia.”

Ressaltando que na época que o autor escrevera a obra – 1885 – além do Japão, apenas o Reino do Sião (atual Tailândia) não eram colônias de potências ocidentais69. Abaixo segue um recorte de uma imagem que melhor explica a situação de contexto da época.

Imagem retirada da minissérie Cloud over the slope (坂の上の雲 Saka no Ue no Kumo) onde retrata a ideia de invasão do Ocidente sobre a Ásia no final do século XIX. Nota-se na figura as bandeiras da Inglaterra sobre as partes da Índia, Paquistão e Birmânia retratando seus domínio sobre a região, da mesma forma ocorre com a figuração de bandeiras francesas sobre a Indochina, a bandeira espanhola sobre as Filipinas (que posteriormente seria suplantado pelo domínio dos Estados Unidos) e a bandeira russa sobre a Sakahlina. Também é possível ver na figura, mas oculta pela legenda, a bandeira da Holanda sobre a Indonésia. A tradução da legenda é “o Japão acreditava que a ocidentalização era o único modo de sair do caminho de decadência de uma nação como a China”. Ocidentalização aqui, é entendida como aprimoramento das técnicas instrumentais – materiais ou governamentais – existentes no Ocidente.

Para evitar esta “fatalidade”, deveria o povo japonês organizar-se como civilização, numa medida de encontrar novos caminhos e fazer frente ao avanço tecnológico ocidental. Somente com o desenvolvimento do “espírito” de uma civilização seu povo poderia atingir a independência e a necessidade de que as nações devam apoiar-se mutuamente para proteger seus interesses, entretanto, perante as adversidades e conflitos com o Ocidente, tanto Coreia quanto a China nada tinham a oferecer para o progresso do país, cabendo ao Japão buscar seu próprio caminho, em direção ao

69 Os importantes Reinos e Impérios da Ásia estavam subjugados por potências ocidentais, pode-se destacar o caso do Império Indiano (sobre julgo do Raj Inglês), da Indochina (sobre ocupação francesa), da Indonésia (Holanda) e das Filipinas (primeiramente uma colônia espanhola e, em 1899, entregue a administração dos Estados Unidos). O Reino da Coréia era um estado tributário chinês e mesmo que o Reino Chinês, sobre a Dinastia Qing (1644-1912), não estivesse inteiramente ocupado – como ocorrera com outros reinos asiáticos – a China cedia partes de seus territórios a outras potências ocidentais, tais como o porto de Hong Kong (Inglaterra), Macau (Portugal) e a península de Shandong (Alemanha), além da tentativa da constituição de Estado Tampão (Buffer State) no Tibet por interesses da coroa inglesa, visando proteger suas colônias no subcontinente indiano das pretensões russas sobre a Ásia central (MARTINS, 2008).

desenvolvimento, mesmo que fosse com o apoio do Ocidente (KWOK, 2009)..

Suas obras versaram sobre a questão do “espírito asiático” e a “técnica ocidental”, tentando achar uma síntese que pudesse consolidar uma melhor civilização para o Japão. Em sua obra “Um Esboço de uma Teoria da Civilização” ( 文 明 論 之 概 略 Bun Meiron no Gairyaku) , é possível destacar este debate:

“A civilização de uma país não pode ser avaliada em termos de formas externas. Escolas, indústrias, exército e marinha são meramente formas da civilização. Não é difícil criar estas formas que podem ser compradas todas com dinheiro. Mas há um espírito adicional neste componente, que não pode ser visto e nem ouvido, emprestado ou adquirido. Agora esta influência na nação é muito grande. Sem isto, escolas, indústrias e capacidades militares perdem significado. Isto é de fato um valor de todo importante, o espírito da civilização, que por sua vez é o espírito de independência do povo70.” (tradução do autor) FUKUZAWA YUKICHI in: MACFARLANE, 2002.

A utilização destes “espírito” foi utilizado como mecanismo político para nortear as mudanças que estavam em curso. Como forma de discurso, este “espírito” é a consagração do nacionalismo japonês, fato este disseminado fortemente na população após a reforma Meiji.

Este ponto é importante para ser ressaltado, visto que a partir desta questão o Estado passou a dirigir seus negócios a população buscando constituir integridade no tecido social. O “fazer a guerra” deixaria de ser um fato de determinadas classes sociais e permutaria se a um exército de conscritos, um exército de cidadãos e a disseminação dos interesses do Estado para sua população tornar-se-ia uma questão essencial. Pela primeira vez na história daquele país o cidadão comum tornou-se peça central da política, por esta razão, o desenvolvimento de sentimentos nacionalistas e ufanistas tornar-se-ia uma questão de estratégia e de interesse do Estado.

Como medida para constituir fontes de matéria-prima para o desenvolvimento das indústrias capitalizadas71 pelo Estado dentro das reformas da Restauração Meiji, por meio do mote “Enriquecer a Nação, fortalecer o Exército” (富国強兵 Fukoku Kyôhei) o Japão embrenhou-se em assegurar numa guerra contra o Império Chinês, desencadeando a Primeira Guerra Sino Japonesa

70 Civilization of a country should not be evaluated in terms of its external forms. Schools, industry, army and navy, are merely external forms of civilization. It is not difficult to create these forms, which can all be purchased with money. But there is additionally a spiritual component, which cannot be seen or heard, bought or sold, lent or borrowed. Yet its influence on the nation is very great. Without it, the schools, industries, and military capabilities lose their meaning. It is indeed the all-important value, i.e. the spirit of civilization, which in turn is the spirit of independence of a people.

71 Nota-se que estas indústrias, em geral, eram manufaturas ou negócios que estavam em pose de famílias abastadas, gerando uma profunda relação entre elites aristocráticas e o Estado, que viabilizou o desenvolvimento da indústria no país. Estes negócios – resultados de uma mescla de capitais privados da antiga aristocracia e do moderno Estado japonês – constituíram os conglomerados industriais, ou Zaibatsu, que tem grande importância na política e economia do país. Esta relação será mais bem abordada no final deste capítulo.

(1894-1895) quando saiu vitorioso.

Como resultado da guerra, o Japão inicia o seu primeiro ensaio como “potência regional”, assinando com a Dinastia Qing chinesa o Tratado de Shimonoseki (1895) onde empregava a mesma série de tratados desiguais cujo país fora vítima quase 40 anos atrás com a intervenção do Comodoro Perry. Entre diversos pontos, a mais saliente das questões foi a concessão da Ilha de Formosa (atual Taiwan) para o Império japonês e a “mudança de mãos” do Reino da Coreia, que desde então passaria a ser estado tributário do arquipélago72.

Esta vitória – obtida com um exército moderno e de mudanças internas do regime político73 – sobre o gigante chinês chama a atenção de outras potências, entre elas, o Império Russo, lançando os dois países a uma série de tensões no extremo oriente, eclodindo o conflito Russo Japonês em 1904-1905, com a vitória dos últimos. Fato esse inédito, visto que pela primeira vez uma nação asiática derrota uma potência ocidental, tendo grande impacto nas sociedades asiáticas que lutavam contra o domínio europeu, desde a Turquia, Índia, Vietnã e outras colônias (YOSHIKAWA, 2009).

De acordo com o cientista político José Miguel Martins (2009) a disputa pelo extremo oriente – tendo como pivô o controle sobre a península coreana – que permite o controle sobre o Mar do Japão, meio de escoamento de produtos que partem do porto de Tianjin e o porto Arthur (China), além do porto de Vladivostok (Rússia) e a costa norte do Japão. Estes mesmos portos permitem o acesso as regiões mais ricas em minerais e fontes de petróleo.

A Manchúria e a região norte da península coreana são ricas em minerais e lá concentra-se o coração industrial chinês – especialmente no início do século XX. Quando os japoneses anexaram a Coreia, é na região norte que são instaladas as fábricas pesadas devido ao acesso direto de recursos. O porto de Vladivostok é o único “porto quente” do Império russo no extremo oriente, isto é, suas águas só congelam nos períodos mais frios do inverno, ao contrário do que ocorre com os demais portos russos na região e, é através do Porto de Vladivostok que escoam os bens e recursos extraídos da Sibéria, região abundante em produtos e minerais essenciais para o desenvolvimento da indústria russa.

Além do fato de que a península coreana tornar-se-ia uma proteção contra a expansão das

72 Deve-se ressaltar que, mesmo que as forças japonesas estivessem lutando contra a China, os republicanos chineses, e nisto ressalta-se Sun Yat Sen, viam as ações japonesas como necessárias para a derrubada da corte Manchu (a Dinastia Qing). Em 1895 Sun iniciou uma rebelião em Cantão, no sul do país, a fim coibir as forças imperiais chinesas a abrirem um combate em duas frentes, que contou com o apoio japonês. Entretanto, Sun perde a batalha e refugia-se em Tóquio a fim de organizar a segunda ação contra Beijing. Em 1911 Sun seria vitorioso e daria por fim ao regime Imperial no continente, entretanto a conjuntura política japonesa interna estava em mudança e o apoio a Sun começa a minguar, especialmente pelo fato da ascensão ao novo Gabinete de Beijing o General Yuan Shikai, que restaura o domínio imperial sobre seu próprio estandarte, levando ao país há uma série de revoltas regionais e revoluções internas que teriam fim apenas com a vitória de Mao Zedong em 1947 (YOSHIKAWA, 2009).

demais potencias. O controle desta península pelo Império japonês não só permitia aos mesmos terem acesso a recursos caros ao seu desenvolvimento, mas também cria uma projeção territorial no continente além de constituir uma defesa natural contra a expansão dos Impérios Russo e Chinês.

É por esta razão que – através de uma leitura de Realpolitik – questões da divisão das Coreias são vitais e importantes para o futuro da Ásia nos dias de hoje (ressaltando que a disputa sobre a península retoma o período dos Estados Tributários Chineses, no século XVI) e tornou-se o primeiro palco de projeção do Império japonês no século XIX.

A perpetuação da divisão da península – na atual conjuntura – torna-se talvez a melhor solução de concertação de interesses entre as potências regionais do século XXI: Japão e Estados Unidos (que veem o interesse da permanência do regime sul coreano) e da China e Rússia (que cautelosamente viabilizam a manutenção do regime do norte).

Os chineses veem como inadmissível a existência de país hostil em sua fronteira com a região norte do país (Manchúria) devido a importância econômica e estratégia deste território, por outro lado, a manutenção do governo sul coreano justifica a presença de tropas americanas no continente, colocando o país no centro das discussões político e econômicas de um dos pontos mais sensíveis da Ásia e por outro lado, os japoneses veem o duplo interesse74 da existência dos dois governos na península coreana (MAGNO et. al. 2010a).

Entretanto, não é apenas de ações beligerantes que a história da expansão de interesses japoneses é contada. Na década de 1910 assume ao poder o Imperador Taishô e inicia uma série d reformas de caráter político, instaurando a Democracia Taishô no país.