No início deste século XXI, o conceito de “Comunidade do Leste Asiático” entra em voga, a mídia e os debates políticos, além de um diversidade de produções acadêmicas deram centralidade a este conceito nos últimos anos. Ora pelo crescimento econômico chinês, ora pela retração de mercados tradicionais fazendo o Japão e outras economias exportadoras a buscarem outros parceiros econômicos.
O discurso fraterno, através da enunciação de doutrinas e projetos de Estado, que se construiu entre os dirigentes da região é decorrente tanto de mudanças da conjuntura política interna destes países, quanto por novos arranjos da política internacional. Estes pontos são claros pela sinalização de reformas, a crise econômica que assola o Japão desde a década de 80 coloca em xeque a fórmula de governo do Partido Liberal Democrata (PLD) no poder desde 1955 com a vitória de Yoshida Shigeru que construiu a forma de governo do país, melhor ressaltado pelo sistema de Triângulo de Ferro, descrita por Peter Drucker (1998).
compreender alguns pontos básicos acerca da organização interna desse país. De acordo com Drucker, o “Triângulo de Ferro” é composto pelos três grandes poderes políticos do Japão: Os conglomerados empresariais regidos por famílias tradicionais (zaibatsu)102 que possuem parte de capitais financiados pelo Estado; a oligarquia Burocrática formada por um grupo de interesses próprios que gerem o Estados e são capazes de formularem agenda para o Governo acima dos próprios políticos103 (OZAWA, 1994); e os próprios Políticos, que dentre este quadro representam os anseios da população e permitem a renovação dos atores não tradicionais na cúpula de poder da sociedade japonesa, mesma que grande parte dos políticos provenham de famílias já tradicionais nesta esfera ou que tenham vínculos – alguns sanguíneo – com a aristocracia do país104.
Para salientar a relação imbrincada entre a aristocracia japonesa, grupos tradicionais e identificar a condição de segmentos que compõe a alta cúpula do poder político do país, será destacado alguns fatos curiosos de relações históricas e de parentesco dentre os mesmos. Como o caso do Primeiro Ministro Fukuda Yasuo (no poder de setembro de 2007 até setembro de 2008) filho de Fukuda Takeo (no poder dezembro de 1976 até dezembro de 1978), ou Abe Shinzou, cuja mãe é filha de Kishi Nobosuke (Primeiro Ministro no período de janeiro de 1957 até julho de 1960),
Uma das composições mais curiosas é a relação de parentesco de Asô Taro, tataraneto de Ôkubo Toshimichi, um dos três grandes líderes da Restauração Meiji e neto de Yoshida Shigeru, Primeiro Ministro do Japão no período de outubro de 1948 até dezembro de 1954. Sua irmã mais nova, Asô Nobuko é esposa de Tomohito, Príncipe de Mikasa e primo do Imperador Akihito. Também ressalta-se que Asô Taro é neto, por parte paterna, de Asô Takichi, fundador da siderúrgica Asô Mining Company, a maior empresa deste segmento no país.
Outras famílias também possuem grande participação na política nacional. A família Shigeru e Hatoyama tiveram grande importância na política contemporânea. Yoshida Shigeru foi o primeiro
102Para exemplificar a relação entre grandes corporações empresariais e industriais compostas por capitais privados e estatais naquele país, basta verificar a própria nomenclatura do nome de empresas famosas, tais como a Toyota, indústria automotiva, cujo fundador foi Kichiro Toyoda em 1937 e até os dias de hoje a presidência permanecesse nas mãos da família. A Bridgestone, importante fábrica do setor de pneus e borracha, fundada por Shôjirô Ishibashi em 1930 para atender o setor militar do país devido as escaramuças no extremo oriente (em japonês Ishi “石” que significa “pedra” – stone – e Bashi “橋” que significa “ponte” – bridge – que dá o nome a empresa) e cuja filha e herdeira do conglomerado, Hatoyama Yasuko (nome de solteira: Ishibashi Yasuko), é mãe de Hatoyama Yukio, Primeiro Ministro do Japão de setembro de 2009 até junho de 2010.
103De acordo com Ozawa, a forma como é constituído o sistema de poderes e da própria competência de funções do comitê central japonês é antidemocrática, visto que funcionários do escalão burocrático do governo tem – por vezes – mais poderes instituídos que o próprio Ministro de Gabinete, cabendo a este dar respaldo a agenda formulada pela máquina estatal. Tal perspectiva mina por completo a possibilidade de constituir e amadurecer a cultura política do país, além de tornar as mudanças demandas pela população muito árduas de serem realizadas.
104Nota-se que, apesar da Burocracia estatal possuir ação própria que contempla seus próprios interesses, as forças armadas agem de forma independente do poder Executivo. Apesar dos investimentos militares estarem constrangidos por força de lei e por pressão externa os militares possuí grande autonomia decisória e de distribuição de seus recursos, assim como ocorrera na década de 1930, quando estes agiam como um segmento a parte do Estado civil.
Primeiro Ministro civil a ser eleito no período pós Guerra, Yoshida Shigeru durante o período de outubro de 1948 até dezembro de 1954, sendo que em seu mandato moldou as futuras gestões, Yoshida possuí fortes laços ideológicos com Hatoyama Ichiro (avô de Hatoyama Yukio, Primeiro Ministro de setembro de 2009 até junho de 2010, ver nota nº 49), quanto a participação do país após a Guerra e a relação com os países asiáticos a quanto a questão da ocupação americana no país, que perdurou até 1952.
Enquanto, Yoshida pregava um alinhamento automático do país para questões americanas, buscando colocar-se dentro do “Guarda Chuva de Defesa” americano face a inimigos externos105, Hatoyama prega uma postura mais autônoma e mais independente, buscando resgatar relações com países asiáticos. Nota-se que durante a gestão de Hatoyama (o segundo mandato civil, após Yoshida, que durou de dezembro de 1954 até março de 1956) tentou normalizar as relações com a República Popular da China, entretanto, devido as hostilidades de Guerra na Coreia e a forte necessidade de ampliação do parque industrial, especialmente em Taiwan, inviabilizou naquela conjuntura a cadência de eventos (ITOH, 2003).
Tais questões são importantes quando levantarmos os dados para a análise da política no Japão e ter claro como as relações são estruturadas. Para isso cabe visualizar que os políticos, como entidade representativa, é composta em grande parte pela relação familiar, tendo a prerrogativa de tradição da mesma na área, tal perspectiva pode ser compreendida pela análise de Dalh no que tange ao momento histórico que a democracia naquele país foi constituída, ressaltando a importância das “reformas de cima” que configura o tipo de mudança institucional e estrutural que o país sofreu durante a Restauração Meiji – ocorrida em 1868 – que alterou não apenas as estruturas sociais, econômicas e legais, mas também alterou a própria configuração do fazer política no país106, sem com isso extinguir a antiga ordem que governava até então (STOCKWIN, 2003).
A retomada da agenda “nacionalista”107 no Japão na década de 1980 e os debates de
105Em 8 de agosto de 1945, a URSS declara guerra ao Japão como acordo um dos pontos firmados pela conferencia de Yalta, invadindo a Manchúria e anexando as ilhas Kurilinas e o sul da Sakalinas. Apenas durante a administração de Hatoyama Ichiro, 1955, os dois governos reatam suas relações pacificas. Um fato curioso e que o atual Primeiro Ministro japonês (2009), Hatoyama Yukyo – que e o neto de Ichiro – resgata em sua administração a necessidade de manter relações prosperas com as potencias regionais para poder estabelecer um processo de prosperidade mutuo regional. http://www.mofa.go.jp/policy/other/bluebook/2009/chapter2.pdf
106 Falta um maior estudo acerca da cultura política japonesa interna. A classificação de práticas clientelistas ou patrimonialistas são oriundas da leitura da ciência política latino americana. O contexto asiática necessita de outras ferramentas que levem em conta fatores locais para compreender o processo interno da relação entre Poder e Política. Entretanto, é difícil afirmar que – devido a relação intrínseca entre poder econômico e político das elites japonesas (onde, normalmente, uma elite econômica é ao mesmo tempo uma elite política, como se buscou elucidar nesta parte do trabalho) classificar o Japão como um estado weberiano clássico, para evitar realizar classificações apressadas que levariam a uma leitura errônea, este trabalho deixará em aberto para futuras análises esta indagação conceitual.
reformulação de parcerias regionais levaram o governo do Japão e rever seu projeto de defesa nacional, que leva subsequentemente, a reforma do Art. 8 da Constituição japonesa (OZAWA, 1992). A vitória de Hatoyama Yukio, em 2009, pelo Partido Democrata do Japão (PDJ) põe fim a esta hegemonia de quase 53 anos no poder do PLD, demonstrando, conforme ressaltado pelo cientista político Iio Jun (2010) de que o arranjo entre a manutenção da qualidade de vida está sendo seriamente afetado pela administração do governo e em sinal de desaprovação a inabilidade das políticas econômicas em sanarem o problema. O eleitorado japonês vem apostando num partido que promete mudança, entre seus slogans, a mais marcante é a proposta de derrubar a velha forma de poder onde a agenda do Gabinete está condicionada a burocracia, colocando os representantes do povo (os Políticos) muito pouco eficazes em implementar grandes arranjos institucionais (IIO, 2010 e WOLFEREN, 2009).