A cobertura pedológica influencia significativamente a distribuição de espécies e biodiversidade dentro dos ecossistemas. Os mapas de solos geram uma caracterização dos aspectos físicos, atributos morfológicos e químicos dos solos dentro de uma dada paisagem. Por apresentarem capacidade de retenção de água e nutrientes disponíveis para as plantas, atributos estes que irão determinar o desenvolvimento de diferentes fisionomias vegetais. Os solos são os principais estratificadores de ambientes (Silva 2005) e fundamentais no diagnóstico de degradação ambiental.
O solo é um produto que recobre a superfície emersa da crosta terrestre, originário da alteração de rocha ou material similar e do rearranjo estrutural do material alterado constituindo de horizontes, que o diferenciam progressivamente da estrutura das rochas à medida que a pedogênese avança (Castro 2008). Ele é resultado de fatores químico, físicos e biológicos agindo sobre a rocha matriz. O efeito produzido por estes fatores irá definir o tipo de vegetação e composição de espécies de uma região. As características físicas como a radiação solar e padrões de circulação do ar geram diferenças na precipitação e na temperatura de uma região, juntamente com as formas de relevo e com a litologia, exercerão influências sobre o processo de formação do solo, refletindo assim na composição de espécies de plantas e fauna encontradas num determinado bioma (Huggett 1995, Ravem et al. 2001, Schenk et al. 2003).
De um modo em geral, os solos são resultantes destas transformações e apresentam uma sequência de camadas denominadas horizontes, as quais irão se diferenciar por variações da composição mineralógica, cor, textura, e/ou estrutura (Beljavskis et al. 1986). A porção mineral dos solos é constituída de partículas de dimensões variadas e seus arranjos no espaço, devido aos processos pedogenéticos é que irão determinar a estrutura do solo. As areias, argilas e cascalhos são partículas unitárias ou elementares do solo e constituem a parte sólida juntamente com a matéria orgânica. A parte líquida do solo é a água ou solução de solo, que contém gases e sais em dissolução. A concentração e composição química desta água irão variar de solo pra solo, ou até mesmo entre as estações do ano. O componente gasoso possui quase que a mesma composição do ar atmosférico (Ferraz et al. 2008). Todos esses componentes agem diretamente sobre a dinâmica do solo afetando a entrada de ar e água e penetração de raízes; ou indiretamente afetando a distribuição de nutrientes nos
distintos perfis do solo (Grohmann 1960).
A determinação do tamanho das partículas sólidas e suas respectivas porcentagens de ocorrência nos solos é denominada distribuição granulométrica. A ciência do solo no Brasil, segue a classificação do Sistema de Atterberg para as frações granulométricas, entre elas: matacão (> 20cm), calhau (2-20 cm), cascalho (2mm-2cm), areia (0,05-2mm), silte (0,002-0,05mm) e argila (< 0,002mm) (Ferraz et al. 2008). A análise granulométrica constitui a base para descrição precisa de solos e sedimentos, caracterizando seus depósitos em determinados ambientes, fornecendo informações sobre o processo físico atuante durante o transporte e deposição, podendo ainda influenciar em outros parâmetros, como porosidade e permeabilidade (Suguio 1980). Assim, é por meio desta análise que se determina a textura dos solos, que consiste na proporção relativa das frações granulométricas, dependendo de sua composição mineralógica e da quantidade de matéria orgânica. Este parâmetro é fundamental na inferência do potencial de compactação, da aeração, da conectividade do solo com o ar, à água e o calor, da infiltração e redistribuição de água (Prevedello 1996).
Como a distribuição e o tamanho dos grãos não são uniformes formam-se então espaços entre esses grãos. Esses espaços são chamados de poros e cada poro possui um volume que em condições naturais é ocupado por água ou ar. Os poros são importantes porque através deles é que ocorre a movimentação da parte líquida e gasosa do solo e estes auxiliam no processo pedogenético. Sendo assim, em solos mais arenosos, o tamanho dos poros é maior, logo este retém menos água favorecendo a drenagem livre da água infiltrada. Os solos argilosos, por outro lado, possuem o espaço entre grão menor retendo uma maior quantidade de água (Ferraz et al. 2008).
O comportamento físico-hídrico e a retenção de água nos solos são influenciados tanto pela textura e estrutura dos solos quanto pela intensidade dos eventos pluviométricos (Juhász et al. 2006). A composição mineralógica, a quantidade e a continuidade do tamanho dos poros, a distribuição das partículas do solo, as características dos fluidos percolantes, e a matéria orgânica são fatores que influenciam a condutividade hidráulica do solo, ou permeabilidade. A matéria orgânica quando encontrada em quantidades menores e totalmente decomposta pode diminuir a permeabilidade do solo, ou pode aumentar a permeabilidade quando encontrada em grande quantidade no solo e pouco decomposta (Aguiar 2001). Logo, a distribuição e composição dos grãos juntamente com a disponibilidade de água no solo contribuem para o crescimento e produtividade das plantas, nativas ou cultivadas. É evidente que a determinação das suas propriedades hidráulicas colabora para a descrição e entendimento dos processos de transferência no sistema solo-planta-atmosfera (Silva & Libardi 2000).
O conhecimento da condutividade hidráulica é fundamental para a solução de problemas relativos à conservação da água, do solo e do controle do deflúvio superficial, sendo de grande importância para movimento de solutos e nutrientes, bem como projetos de irrigação, drenagem e de
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manejo do solo e da água (Souza & Alves 2003). As propriedades hidráulicas do solo podem ser medidas em ensaios feitos tanto em laboratório quanto em campo. Para os ensaios feitos em campo, podem-se utilizar dois instrumentos que medem a condutividade hidráulica saturada do solo, o permeâmetro ou o infiltrômetro (Soto & Vilar 2003). Ao realizar esses ensaios de permeabilidade, em condições naturais, passa-se a conhecer as características e propriedades do solo e a dinâmica da água em que a vegetação primária se desenvolveu.
O entendimento e aplicação desses conhecimentos, como granulometria, mineralogia e permeabilidade, são importantes em programas de recuperação e manejo de áreas degradadas, uma vez que passamos a compreender a nova dinâmica imposta ao sistema. Esses dados auxiliam na seleção de espécies vegetais nativas adaptadas ao solo, e às condições ambientais dos locais destinados (Juhász et al. 2006). Como por exemplo, em solos arenosos o espaço entre grãos é maior, e a água infiltra com maior facilidade. Portanto, neste tipo de solo plantas com raízes curtas e pouco ramificadas não conseguem sobreviver, uma vez que a água infiltra rapidamente e esta planta não consegue absorver a quantidade de água necessária, tornando difícil sua permanência neste habitat. Do mesmo modo, podemos nos referir à mesofauna de solo, em especial as formigas. Solos recém-degradados com características granulométricas diferentes do original podem desfavorecer a colonização deste pelos invertebrados. Como exemplo pode-se citar a mudança de um sedimento de textura fina para um sedimento de textura grossa. Os sedimentos das bordas da planície de inundação das veredas são ricos em grãos finos de silte/argila mais matéria orgânica decomposta, quando o nível o lençol freático está mais próximo à superfície estes grãos ficam soltos, promovendo condições de pouca drenagem. Mas à medida que o nível lençol freático fica mais profundo estes finos grãos se unem a matéria orgânica formando aglomerados, aumentando assim o tamanho dos grãos na planície de inundação (Viana & Horn 2006, Melo 2008). As formigas de solo de pequeno tamanho corporal que ali habitavam não irão conseguir recolonizar esta área, uma vez que suas mandíbulas, pernas e outras estruturas que podem auxiliar no processo de construção da colônia não serão compatíveis com o tamanho do grão. Então, estudar as características granulométricas, mineralógicas e a permeabilidade deste solo são importantes para entender como que a comunidade ali estabelecida pós-impacto irá responder a estas transformações, principalmente em ecossistemas frágeis como as veredas.
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