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5.2 The role of PPARγ in DBP-induced effects

O pensamento de Beauvoir foi um marco do pensamento feminista no pós-guerra e é um dos grandes expoentes da filosofia existencial. Seu trabalho viabilizou que grande parte do esforço teórico do existencialismo fosse aplicado a um significado cultural concreto: a demonstração de que a concepção cultural do gênero feminino apresenta obstáculos para o exercício da liberdade (Butler, 1980). Sartre aplica a fenomenologia ao ser como o exercício da liberdade e falha em perceber os condicionamentos sociais que a limitam. Beauvoir, por sua vez, apropriando-se de bases teóricas similares, apresenta todo o peso do contexto social e histórico para o exercício da liberdade respondendo rigorosamente a uma pergunta simples “O que é ser mulher?”.

Beauvoir (1949a e 1949b) apresenta, então em seu livro “O Segundo Sexo”, os condicionantes sociais que levam as mulheres a assumirem uma condição de ente como se fosse uma condição de ser. Uma vez que o homem é reconhecido como ser-para-si, resta à mulher o lugar de alteridade, de ser em relação ao homem, ou seja, a mulher não pode ir além de si (Beauvoir, 1949a). Tudo se passa como se a mulher fosse seu próprio corpo enquanto o homem seria uma alma incorpórea (Butler, 1980). Nesse contexto cultural, o aspecto transcendente da liberdade humana fica polarizado no gênero masculino. A naturalização do ser homem e do ser mulher enseja um determinismo de gênero que inviabiliza o exercício da liberdade como existência, tal como aponta Beauvoir no parágrafo abaixo:

Sou uma mulher. Essa verdade constitui o fundo sobre o qual se erguerá qualquer outra afirmação. Um homem não começa nunca por se apresentar como um indivíduo de determinado sexo: que seja homem é natural”. (...) “O homem representa a um tempo o positivo e o neutro, (...) Agastou-me, por vezes, no curso de conversações abstratas, ouvir os homens dizerem-me “Você pensa assim porque é mulher”. Mas eu sabia que minha única defesa era responder: “Penso-o porque é verdadeiro”, eliminando assim a minha subjetividade. (...) A humanidade é masculina e o homem define a mulher não em si mas relativamente a ele; ela não é considerada um ser autônomo. (...) O homem é o Sujeito, o Absoluto; ela é o Outro.” (Beauvoir, 1949, pp. 9 e 10).

No prefácio do Segundo Sexo, Beauvoir (1980a[1949]) retoma a aplicação do existencialismo ao apresentar sua própria subjetividade como ponto de partida para suas reflexões sobre o desafio da existência humana na condição feminina. Quando ela afirma que negou sua própria subjetividade para afirmar uma verdade, ela sugere o problema da condição feminina. Retomando as condições para a expressão de sua subjetividade, Beauvoir afirma “...o que define de maneira singular a situação da mulher é que, sendo, como todo ser humano, uma liberdade autônoma, descobre-se e escolhe-se num mundo em que os homens lhe impõem a condição de Outro...” (Beauvoir, 1980a[1949], p. 23). Para essa autora, o contraponto à postura machista reside na superação do estado de alteridade, de existência relativa ao outro e na assunção da responsabilidade pelo exercício da própria liberdade.

Na obra de Beauvoir, o corpo é entendido como um nexo entre cultura e escolha, uma facticidade para o exercício da liberdade. O ser não ocorre descontextualizado de um corpo e de uma produção cultural de gênero que o cerque de determinadas performances entendidas como adequadas para distintos tipos de gênero (Butler, 2003). O ser mulher ocorre, então, contextualizado num tempo histórico, num corpo e nas possibilidades de exercício da liberdade entendidas como possíveis para um ser mulher.

O esforço de Beauvoir em esclarecer as dificuldades para explicitar as mulheres como seres humanos e não como objetos em relação aos homens foi o fundamento para suas críticas a muitos dos estereótipos dos papéis femininos presentes na vida em sociedade. O roteiro social de ser uma boa mulher, moralmente idônea, casar, ser dona de casa, ter filhos e viver para a família e o marido é contextualizado como uma possível armadilha para a afirmação do processo existencial feminino (Beauvoir, 1985).

A totalidade dos papéis tradicionais de gênero apresentada para as mulheres exerce um controle sobre suas protagonistas que impede o processo de mudança necessário à existência. Butler (2003) reitera essa ideia de Beauvoir ao afirmar: “... a ‘coerência’ e a ‘continuidade’ da ‘pessoa’ não são características lógicas ou analíticas da condição de pessoa, mas , ao contrário, normas de inteligibilidade socialmente instituídas e mantidas” (p. 38). Já existe uma vasta literatura que afirma que a assunção dos papéis sociais de mães, esposas e cuidadoras oferece um grande risco para a saúde mental das mulheres e constitui também um fator de risco para a manutenção de um padrão relacional violento (Goodman & Epstein, 2008; Johnson, 2008; Waldrop & Resick, 2004; Burstow, 2003; Diniz, 1999 ; Goldner, 1998; Ravazolla, 1998;).

Butler (1980) ressalta a importância do pensamento de Beauvoir ao apresentar a seguinte questão: “Que acontece quando mulheres individuais não se reconhecem nas teorias

que lhes explicam suas essências insuperáveis?” (p. 154). Butler (2003) assume então o discurso de Beauvoir (1949a e 1949b) para apresentar uma crítica ao movimento feminista propondo seu desdobramento político no futuro iminente. O esforço feminista para estabelecer uma suposta identidade feminina a ser representada nos fóruns de uma sociedade democrática teve um papel importante, mas é criticado por Butler (2003) por não ser possível articular uma representação identitária de processos subjetivos em devir.

Apontando para as novas possibilidades da luta feminista, Butler (2003) completa afirmando que “...a desconstrução da identidade não é a desconstrução da política, ao invés disso, ela estabelece como políticos os próprios termos pelos quais a identidade é articulada” (p. 213). Viabilizar a legitimação da escolha pessoal das diversas formas de expressão do feminino é apontado como uma nova bandeira de luta política. Tendo por base a reflexão sobre o ser humano apresentada até aqui, fica clara a importância da articulação política para as escolhas pessoais no processo de existência.

Beauvoir (1949a e 1949b), ao radicalizar dimensões da filosofia existencialista, apresentou as bases sobre as quais repousa grande parte do movimento feminista; e, mais do que isso, apresentou as bases sobre as quais repousam o ponto de partida do processo existencial. A estrutura do dasein em Heidegger (2002 [1927]) carece de um formato aplicado – Beauvoir oferece uma aplicação prática para o conceito de dasein e descortina sua reflexão estendendo para além de si as possibilidades de exercício da feminilidade.

A redução fenomenológica alcançada por Beauvoir apresenta a própria condição de subjetividade da filósofa ao afirmar que refletir como mulher é diferente do processo de reflexão de um homem, algo até então desconsiderado no desenvolvimento da filosofia fenomenológico-existencial. Se, na filosofia de Sartre, o ser humano é responsável no exercício de sua liberdade, Beauvoir acena para o fato de que as mulheres devem perseguir a responsabilidade por sua liberdade por meio de uma luta política que estabeleça as condições sociais próprias para o processo existencial feminino. Beauvoir tem como centro da liberdade existencial a articulação política na formulação de garantias de legitimação para o ser humano em suas mais variadas possibilidades.

Ao afirmar “Ninguém nasce mulher, torna-se mulher” Beauvoir (1980b[1949], p. 5) sintetiza, talvez melhor do que qualquer outra filósofa(o), o processo existencial humano. Embora muitos considerem que ela esteja apenas se referindo ao processo de construção cultural do gênero opondo-se a uma compreensão naturalizante da condição feminina, Beauvoir ilustra, também, o processo existencial em si. A liberdade referida na obra de Sartre é aqui revista como uma responsabilidade por uma ação sobre si – ao conjugar o verbo

tornar(-se), o elemento reflexivo preponderante, é parte fundamental do próprio nascimento do ser mulher. É intencionalmente proposta a reflexão sobre o ser mulher pois a autora afirma esse processo em torno de uma reflexão pessoal.

Tomar consciência da maneira como se é mulher, ou seja, realizar uma redução fenomenológica intencionando uma tomada de consciência a respeito do ser mulher, é uma provocação para uma responsabilização sobre a maneira pela qual um ser humano se assume e age no mundo diante de suas possibilidades de ser mulher. Beauvoir (1949a e 1949b) pavimenta o árduo caminho da liberdade feminina e apresenta a importância da luta política para criar as condições para a legitimação do exercício das diversas possibilidades de ser mulher (Beauvoir, 1985).

Até aqui apresentamos alguns dos desdobramentos filosóficos da fenomenologia- existencial esclarecendo alguns dos seus conceitos básicos para a compreensão da consciência e do devir humano. No próximo tópico, retornaremos ao objeto específico da nossa pesquisa para discutirmos o processo de consciência de mulheres vítimas de violência. A relação entre consciência e experiência violenta será, então, esclarecida a fim de evitarmos uma construção teórica na qual se acredite que as mulheres vítimas possam ser culpadas pela violência que sofrem.