Entrevistas semiestruturadas foram utilizadas como estratégia de coleta de dados. Esse tipo de entrevista permite um trabalho de elaboração subjetiva do qual é possível emergirem as ideologias subjacentes ao discurso do(a) entrevistado(a) (Bardin, 1977). Essas ideologias, em grande parte, são inconscientes para a pessoa que enuncia, a menos que ela reflita sobre seu próprio discurso. Dessa maneira, a entrevista de pesquisa torna-se um instrumento para a elucidação da dinâmica relacional violenta e dos sentidos que a permeiam para os pesquisadores e, também, para a pessoa entrevistada (Hollanda, 2006).
As entrevistas semiestruturadas viabilizam o acesso à experiência da violência e à significação atribuída a essa violência pelas vítimas, o que permite uma análise da interpretação delas sobre os episódios de violência vivenciados (Karlson & Bulington, 1984; Holanda, 2006). A técnica de entrevista é importante por possibilitar à participante um diálogo a respeito de sua experiência, permitindo que ela apresente a sua verdade sobre o fenômeno.
Cabe destacar a importância do caráter semi-estruturado da entrevista pois a insistência em roteiros rígidos de perguntas tende a privilegiar as hipóteses do(a) pesquisador(a) em detrimento da experiência da(o) participante (Bourdieu, 2001). Dessa maneira, a condução de um diálogo a respeito de um tema central viabiliza o acesso a relatos mais fidedignos da experiência subjetiva de cada participante (Bourdieu, 2001; Hollanda, 2006).
A entrevista semiestruturada foi utilizada, portanto, com o intuito de facilitar o relato da história de conjugalidade e o surgimento das agressões em meio aos conflitos do casal. A participação de outras pessoas e/ou instituições nos momentos de violência também foram referências para o direcionamento das entrevistas.
Com vistas a alcançar os objetivos propostos para a pesquisa, o seguinte roteiro de entrevista foi elaborado e utilizado:
1. Como é a sua história de relacionamento com o (nome do parceiro) (tempo da relação, filhos, formalização da relação, patrimônio)?
2. Quando e como foi a primeira vez que você se sentiu agredida? 2.1. Você recorreu a alguém?
2.2. Quem? 2.3. Por quê?
3. Quantas agressões já ocorreram ao longo do relacionamento? 3.1. Como foram as agressões?
3.3. Quem? 3.4. Por quê?
4. Essas agressões mudaram algo na sua relação?
5. Quantas queixas você já registrou e/ou quantas vezes já chamou a polícia? 6. Como você explica a reincidência das agressões?
7. O que a trouxe à Vara do Juizado de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher? 8. Qual a sua expectativa ao buscar a Vara do Juizado de Violência Doméstica e Familiar
Contra a Mulher?
A intenção ao utilizar esse roteiro foi que ele servisse como uma referência durante o processo de entrevista, privilegiando a manutenção de um diálogo esclarecedor com as participantes sobre o tema central em detrimento de respostas diretas às perguntas. Contudo, o roteiro de perguntas era de difícil aplicação e já na primeira entrevista não foi implementado integralmente, mormente pelo fato de as mulheres se emocionarem muito com as perguntas a respeito da frequência e dos tipos de violência vivenciados, das queixas apresentadas contra o agressor e da própria reflexão sobre essas experiências. Ademais, a ênfase no processo de construção de significado da violência, pretendido na pesquisa, sinalizava para a necessidade de privilegiar a narrativa das mulheres.
A pergunta central do questionário tornou-se “Como foi/é o seu relacionamento com (...) (nome do parceiro agressor)?” Conforme a história do relacionamento era narrada, os entrevistadores enfatizavam os episódios de violência relatados e seus desdobramentos no âmbito da justiça, dos relacionamento com a família nuclear e extensa e para a própria mulher. O roteiro de entrevista cedeu lugar a um modelo de entrevista aberta que tinha como temas de referência: o histórico do relacionamento, as agressões, a agressão mais marcante, a participação de familiares e terceiros no relacionamento e as queixas formalizadas nas delegacias e/ou Juizados Especiais.
No dia da entrevista, as participantes foram esclarecidas sobre os procedimentos da pesquisa, conheceram os termos do TCLE para participação em pesquisa e foram informadas da necessidade de gravação das entrevistas para análise posterior.
No início das entrevistas, as participantes foram convidadas a relatarem a história do relacionamento com o agressor. Somente após o relato espontâneo de um episódio de violência foi que as perguntas a respeito da ocorrência de agressões anteriores ao episódio relatado foram realizadas.
Durante toda a entrevista, a assistente social que participou das intervenções psicoterápicas com as participantes esteve presente na sala colaborando com o doutorando
pesquisador. Essa participação foi fundamental para gerar confiança e apoio para a difícil narrativa demandada das participantes. A condução da entrevista foi partilhada tendo sido priorizado o bem estar das participantes durante todo o processo. O fato de as participantes já terem um vínculo com a assistente social foi fundamental para que os relatos representassem bem toda a trajetória do relacionamento violento. Em alguns momentos as participantes eram relembradas, pela assistente social, de momentos da participação nos grupos terapêuticos do SERAV a fim de ilustrar dificuldades trabalhadas naquele período em comparação ao momento atual de cada uma delas.
Todas as participantes se emocionaram em algum momento do relato de suas histórias com os parceiros agressores. A narrativa cronológica dos episódios de agressão e queixas deixou de ser uma meta da entrevista. Para as participantes, relatar os fatos mais marcantes era o mais importante. A sistematização dos episódios do relacionamento, no momento do relato, tornou-se inadequada e improdutiva para os fins da entrevista. A valorização dos fatos considerados importantes pelas participantes foi priorizada por minimizar o desgaste delas nos relatos sobre os episódios de agressões e evidenciar os momentos mais marcantes para elas.
O material utilizado para a realização das entrevistas consistiu em um gravador de voz Panasonic RR – US450, papel, pranchetas e canetas para anotações durante a entrevista e para o preenchimento do TCLE.
A transcrição das entrevistas foi realizada utilizando um computador com processador de texto e software Panasonic voice editing 2.0, específico para transcrição de entrevistas.