• No results found

2. Part two: Barriers to “sound” ethical decision-making

2.2. How individuals construe (ethical) problems

2.2.2. Role of intuition and emotions

A história apresentada e discutida com os professores foi o Dilema de Mara: Dilema de Mara

(adaptado de um dilema constante em Lind, 2007)

Mara é inspetora de alunos em uma escola. E nessa escola tinha um adolescente, o Alex, que era o batedor da escola. Frequentemente ele batia nas crianças menores no horário do recreio, dando muito trabalho para os inspetores separá-los. Os professores muitas vezes também saiam machucados. Todo recreio esse menino batia nos meninos menores, e os professores e inspetores iam separá-los e, novamente, isso acontecia. Um dia, esses alunos menores se cansaram de apanhar e se reuniram para dar uma surra no Alex. A inspetora Mara viu o que estava acontecendo e pensou se deveria separar os meninos e não deixar a briga acontecer

imediatamente, como era a sua função, ou se devia deixar o Alex batedor apanhar um pouco para aprender. Ela pensa sobre que decisão irá tomar. A história reserva foi o Dilema de Marcos (Apêndice 3) e seu uso não foi necessário neste encontro.

a. Percepção sobre a história: é um dilema moral?

Todos os participantes reconheceram a história como um dilema moral e também como muito próxima de sua realidade na escola. Foram questionados como se sentiam a este respeito, e a maioria contou somente de situações semelhantes que passaram na escola. Não julgamos que a proximidade com a realidade dos participantes tenha influenciado negativamente no andamento da discussão ou no engajamento dos participantes. Dadas as primeiras instruções, eles já começaram a discutir entre si suas ideias e histórias.

b. Decisões iniciais dos participantes

Dois blocos de decisão de formaram: deixar o garoto apanhar um pouco pra aprender e separar a briga imediatamente.

c.Fase do Debate: ideia e argumento

Quadro 9. Terceira discussão: Dilema de Mara

Dilema de Mara Decisão deixar o garoto apanhar um pouco

e suas argumentações Decisão: separar a briga imediatamente e suas argumentações "Eu sou contra (ela deixar ele apanhar), exatamente porque eu acho que é um trabalho que a inspeção, a direção, os professores, deveriam... antecipadamente, conscientizar essa criança para que não chegasse nesse ponto. E acho que a inspetora deveria agir nesse momento com o profissionalismo dela. Se o profissionalismo de um inspetor é manter a ordem, é evitar a violência, ela vai ter sim que interferir nessa confusão. Talvez não entrando, não separando , mas buscando o apoio de quem ela deveria recorrer nesse momento."

(sic). "Umas palminhas, uns tapinhas, pra ele ver

quanto dói os tapas que ele dá nos outros também, eu acho que não vai matar. Eu acho que ele tem que levar, pra ele sentir a dor daquilo que ele faz com os outros, então por isso que eu acho que ele tem que levar sim." (sic).

"Eu acho que ele não tem que apanhar, porque da mesma forma que depois de um conflito a gente para e fala que tem que bater, ou mesmo seja “N” vezes , a gente não pode deixar que isso aconteça, porque o que bate, ele vê, na hora que ele bate, o inspetor já socorre. Agora vai deixar ele apanhar? Então eu acho que não pode ser assim. Meu argumento é de que já que a gente trabalha para que não haja violência, eu não posso deixar a violência aconteça com ele." (sic).

"[...] se sempre ele deu esse trabalho, já deve ter sido feito esse trabalho com ele, de não bater nos colegas, mas como ele insiste em fazer isso, eu acredito que se ele sentisse na própria pele o que é apanhar, como ela disse, talvez ele refletisse e visse o quanto é constrangedor também para os colegas. Porque se juntou uma turma para bater, provavelmente ele não é um aluno fraquinho. Então quem sabe se alguém mostrasse para ele que tamanho não é tudo?" (sic).

"Já que nós trabalhamos em função de criar uma nova sociedade, uma sociedade justiceira que trabalha e faz suas próprias regras, ele não tem regras?. A ideia é que nós temos um problema. Esses alunos podem vir a se tornar um problema de amanhã, porque eles também podem passar, eles podem achar que toda vez que eles tiverem alguma coisa, eles podem simplesmente se juntar e tomar uma atitude violenta. Violência gera violência, isso é real. Se a minha intenção – meu argumento é esse – se a intenção da escola é formar sociedade, é transformar o aluno, isso não é uma questão de transformação. Por mais que eu também ache que muitas vezes a pessoa tem que sentir na pele, isso é violar as regras. Isso é contra as leis, então quer dizer: eu pego alguém... Eu sei que o rapaz lá fora fez alguma coisa, coloco ele dentro da minha casa, espanco ele e jogo lá fora de novo? Estou fazendo justiça com as próprias mãos, isso também não é adequado." (sic). "Eu também não sou a favor da violência, mas,

nesse caso, eu acho que esse menino, ele precisa sentir na pele o que é apanhar e fazer o que ele faz com os colegas dele, pelo menos alguns momentos. Eu também sou contrária a violência, mas eu acho que ele deve por algum momento sentir o impacto de ter que apanhar." (sic).

"Mas eu acho que a inspetora, ela não pode ter duas medidas e dois pesos para lidar com os alunos. Se quando ele... o outro aluno está apanhando ela socorre, da mesma forma que ela socorreu o outro aluno, tem que socorrer esse." (sic).

"Aí eu já não concordo com você, porque cada caso é um caso, cada situação ali, ela tem que agir de maneira diferente. É lógico que ela não pode deixar ninguém apanhar, mas ali no caso, ela até pode fazer de conta que não está vendo por uns instantes, e deixasse que ele apanhe." (sic).

"[...] a inspetora deve sim tentar apaziguar, inclusive o inspetor de alunos, ele é treinado, tem uma forma de trabalho onde ele observa e consegue captar de início o ponto de conflito, no pátio, não sei, seja qual local que seja. Então, assim que ela imaginar que vai ocorrer alguma coisa mais séria, ela deveria mesmo estar interferindo e evitando ao máximo deixar com que isso acontecesse. Porque a escola não é o espaço disso." (sic).

não quer que haja brigas. Mas o sujeito aí, o aluno já tá nisso. E isso parece que é uma ação recorrente. O meu argumento é o seguinte: se ele é deixado a agir assim, ele pode fazer o que? Isso vai fazer com que ele influencie outros alunos, e que outros alunos, em determinado momento, se imponham diante de alguns mais retraídos, mais enfraquecidos, e isso pode virar um hábito para o menino. Um mau hábito. Meu argumento é para que ele... apanhe um pouquinho. Para que essa atitude negativa dele não influencie outros que porventura venham a fazer isso futuramente. E se prevalecer de uma força, ou de um benefício que... ou de uma punição, que ele não tenha diante das atitudes dele." (sic).

outros... Se ele apanhar, e for visto assim, que se a pessoa bate e não acontece nada, esses que se juntaram também podem passar a pensar desse jeito. 'Daqui pra lá a gente pode se juntar e tomar atitudes. E fazer a justiça.' Então, eu acho que é perigoso a criança ver que ela pode se juntar e tomar uma atitude, resolver coisas, fazer coisas. O meu argumento é esse." (sic).

"[...] o meu argumento é: que o regimento escolar não está sendo utilizado, as leis... Essa escola não interfere nessa educação dessa criança... E e aí a criança que acaba tomando, fazendo a lei por conta própria, porque a escola não tem um regimento que vale, que tenha valor, só está no papel [...]. E é essa falta de regimento na escola de organização levou a inspetora a tomar essa atitude em virtude que a escola não consegue resolver o problema." (sic).

"Mas eu acho que a escola realmente, pelo que eu vejo, também não tem regra, regimento [...]. É a situação hoje. É a terra de ninguém. Porque ninguém tomou atitude em relação ao fulano, nós temos vários pequenos fulanos, mas uma surra não resolveria. Não deixaria (ele apanhar). Porque o problema não está em apanhar ou não, porque ele simplesmente vai se curar daqueles ferimentos e vai começar tudo de novo. É a escola que tem, dentro daquilo que a sociedade possibilita das regras, ela tem que tomar uma atitude. A escola não tomou, os pais têm que se juntar, e o filho, e cobrar uma atitude da escola. Quer dizer, a mobilização que tem que ser não é aluno contra aluno, mas ela tem que vir de uma forma assim, usar a justiça daquilo que é correto, para esse aluno entender que tem consequências o que ele faz." (sic). "Olha, eu também sou contra a violência, só

que... eu também concordo com o que eles colocaram, só que nesse caso específico... o que está sendo colocado aqui é que esse menino, ele está sem limite. E talvez os colegas pudessem colocar limite nele." (sic).

"[...] porque existem regras, e as regras tem que ser respeitadas." (sic).

"Então o meu argumento é que ele apanhe um pouquinho, para que ele... não é pra machucar nem nada, e não é também pra... ser contra as... as leis, as regras da escola. É só pra que ele sinta mesmo, que tem alguém que pode com ele também, que ele não é o poderoso da escola." (sic).

"Eu sou contra porque eu fico imaginando as minhas filhas num intervalo de escola, uma briga ocorrendo e o inspetor não tomar atitude nenhuma. É justo? Não, não é certo. Por isso." (sic).

"Eu sou contra o que a (nome) está falando, porque aqui não é a questão da sua filha, é a questão do Alex (risos de outros sujeitos). Aí nós estamos fugindo novamente do contexto. Nós estamos analisando o Alex em questão,

"Eu acho assim: eu sou contra ele apanhar, porque a escola tem que falar, todos os funcionários da escola tem que falar na mesma língua. E se o professor dentro da sala de aula, o tempo todo, usa os temas transversais falando

que é um menino agressivo, a sua filha não é. E nesse momento nós estamos falando que o Alex, e não foi dito em nenhum momento que a escola também não vai tomar (atitude)... Deixa ele apanhar um pouquinho, pra ele aprender, mas que isso não vai fazer com que ela não leve o assunto à direção." (sic).

da não violência, o inspetor lá fora também não pode tomar essa atitude de deixar. Já que ele está separando todos os dias, ele tem que separar mais um, não interessa quem seja. Não, não pode deixar nem um pouquinho apanhar não, está errado." (sic).

"Eu vejo assim, uma criança sem limites, e eu conheço várias... Não sei a idade da criança ai, mas é criança, ela não ouve outra língua que não seja a língua dela, que é a violência, pra ela aprender. Então eu vejo que a inspetora, ela não vai deixar de intervir, mas ela vai permitir que alguns tapinhas ele leve pra ele aprender que existe limite. O meu argumento é: necessita de um limite, alguém precisa falar a língua dele. [...] Porque criança que bate, ela continua batendo. Não tem jeito de parar. Até ela conhecer o limite dela." (sic).

"Eu acho que situações não se resolvem causando lesões físicas em outras pessoas. Todo mundo falou, acho que existem meios legais para se resolver essa situação, dele aí. Então acho que não é deixando ele apanhar que vai resolver. Acho que primeira coisa... a Mara não vai estar... respondendo por aquele serviço que ela tem que prestar, na escola." (sic).

"Mas eu acho que a Mara está cansada também de levar pancada... É, ele está falando que a Mara tem que fazer, tem que fazer, só que a Mara também apanha quando separa. E ela não ganha pra isso, a função dela não é apanhar de ninguém. A função dela não é apartar briga, ela está aqui pra olhar os alunos, pra isso, pra aquilo. Briga é uma coisa que nem deveria ocorrer. Mas já que ocorre, já que a gente viu que ela é frequente, se é frequente é porque a gente sabe que a coisa, a tal da lei que você está falando, os meios legais não estão acontecendo. Então, talvez os meios humanos, sei lá como que eu dou nome a isso, seja a melhor forma de por limites a esse cidadão. Talvez que ele... leve umas bordoadinhas aí.. É lógico que ela vai intervir, mas que isso aconteça com um tempinho mais demorado. A intervenção vai acontecer, ninguém vai perceber que ela fez um corpo mole, mas ela vai fazer. Porque ela também está cansada de apanhar, então eu acho que é até uma autodefesa. " (sic).

"Pensando com a cabeça dela. Vamos supor que ela deixa ali um pouquinho a briga, e nesse momento, nesse pouquinho acontece uma coisa muito séria com o Alex. Que ele tivesse que ir para o hospital, alguma coisa que... prejudique fisicamente com alguma coisa meio séria. Vai recair pra cima dela a responsabilidade nisso, porque ela deveria ter evitado. Agora, pensando num outro tipo de autodefesa, sei lá, pensando assim, eu não posso deixar porque quem vai se ferrar na história sou eu, se acontecer alguma coisa com o menino. Eu que deveria estar lá, ter separado a briga, não ter deixado isso acontecer. Aconteceu, a responsabilidade é minha, então eu vou assumir sobre esses erros." (sic).

"Mas acontece que as medidas legais que a Mara deve tomar, é assim, são morosas. Vai chamar mediador, ver o estatuto da escola, o que deve fazer com esse aluno [...], medidas morosas. E ela tem que agir de imediato. Então o que ela vai fazer? Ela faz de conta que não está vendo no momento, e em seguida socorre, só pra que ele leve esse susto. Pra ver se ele acorda, leve aquele impacto. Quem sabe toma um susto e para?" (sic).

"Essas crianças que não estão acostumadas a bater, e sim a apanhar [...] E mesmo o oponente sendo uma pessoa mais musculosa, mais forte, corre o risco também de se machucar, além de machucar os outros [...]. E a inspetora, por exemplo, [...] acho que iria se sentir muito mal na situação também. Então eu sou contra por isso, porque é o dever dela evitar mesmo, é evitar o confronto." (sic)