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1. Part one: Understanding ethical decision-making

1.1. Existing theoretical conceptions of moral decision-making

1.1.1. Moral awareness

Estudando os métodos gregos de discussão de dilemas, em especial dos diálogos socráticos, inspirados na ideia original de Blatt e Kohlberg (BLATT; KOHLBERG, 1975) e nos estudos atuais sobre filosofia da educação e ensino da Ética na realidade brasileira, desenvolvemos um método de discussão de dilemas a fim de se apresentar como uma ferramenta de trabalho a mais para os educadores brasileiros, um recurso pedagógico alternativo e complementar aos já existentes.

Defendemos um posicionamento contrário a uma educação doutrinária, baseada na concepção de que ética pode ser ensinada e de que isto se faria através de fórmulas pré estabelecidas, ou da simples doutrinações a respeito dos valores morais e das normas de conduta que orientam nossa sociedade, ou que somente discussões teóricas em sala de aula dariam conta de tão grande intento. Não temos aqui a pretensão de responder à pergunta se a ética pode ser ensinada e, sendo assim, apontar qual a melhor forma de fazê-lo, mas uma nova ferramenta pedagógica, como um exercício para o raciocinar e agir éticos, baseada no diálogo, pode ser oferecida à educação.

Para nós, este método deve ser considerado como um bem externo, no sentido de Aristóteles, ou seja, como um bem que se associa às práticas e que devem estar a serviço dos bens internos. Para Marques (2007), os bens internos são aqueles que o indivíduo considera bons e cuja posse não impede a posse deles por outros sujeitos. Assim vemos o desenvolvimento do agente ético, como um bem interno. Mas, sabemos que, para Aristóteles, os bens externos não são dispensáveis e, as práticas eficazes e as atividades que servem a objetivos exteriores, e que são necessárias para resolver nossos problemas práticos e exercer nossas funções na sociedade, "[...] devem estar ao serviço e depender das práticas excelentes e das atividades que servem objetivos internos aos agentes [...]." (MARQUES, 2007, p. 3).

Compreendemos que muitas atitudes foram assumidas como eticamente corretas por povos e classe sociais de modo irrefletido ao longo da história porque foram aprendidas desde a infância ou porque foram ensinadas pela escola, pais ou outras instituições sociais como as igrejas. Na prática, isto tanto pode se traduzir como uma atitude de respeito e consideração pelo outro e, talvez, de uma vivência de aprendizado com a cultura e experiência de vida do outro, como pode se traduzir em uma repetição de

um processo de alienação frente às figuras de autoridade e costumes e hábitos sem qualquer ato de reflexão ou crítica sobre isto.

A escola, assim como as outras instituições sociais implicadas na educação, tem grande papel tanto no processo de alienação do agente, como no desenvolvimento de sua autonomia interna, possuindo grande poder de intervenção no processo de aquisição das virtudes intelectuais e do caráter. Assim como Marques (2007), compreendemos que "A única forma de evitar a alienação do agente é permitir-lhe o desenvolvimento de práticas excelentes e de atividades com objetivos internos." (MARQUES, 2007, p. 3).

Tal como Piaget, defendemos que o desenvolvimento moral faz parte do desenvolvimento afetivo e cognitivo do ser humano e que este decorre, em muitos aspectos, pelo fato de que vivemos em sociedade. Esta convivência com o outro, associada a fatores biológicos e maturacionais, impulsiona nosso desenvolvimento cognitivo e afetivo em direção a estruturas mais complexas, maduras e elevadas de raciocínio, linguagem e ação, aqui inclusas nosso raciocínio e ação a respeito dos valores que desenvolvemos internamente a partir de nossos sentimentos, quer seja pelo desafio de ter que comunicar ao outro o que pensamos, para resolver nossos problemas cotidianos e atender às nossas necessidades, ou pelo prazer ou desprazer que experimentamos no exercício da convivência.

Concordamos com Marques (2007), segundo o qual podemos concluir que Aristóteles também tinha um visão desenvolvimentista, "[...] considerando que se registra uma evolução do uso das capacidades racionais e da razão prática até atingir a maturidade moral e que tanto os hábitos como a cognição têm um papel importante a desempenhar neste processo" (MARQUES, 2007, p. 9).

Defendemos a compreensão deste método como uma prática de ensino que se baseia no exercício do raciocínio ético, aqui inclusos o exercício prático sobre as virtudes que almejamos desenvolver em nossos alunos, os critérios do que consideramos justo ao julgar nossas ações e as dos outros, e o viver de modo democrático. Isto implica, necessariamente, na convivência com pessoas que têm opiniões, valores e condutas muitas vezes diferentes das nossas e nas implicações desta convivência entre diferentes quando temos que pensar em soluções conjuntas.

Chamamos esta proposta de método unicamente pelo desconhecimento de palavra melhor em Língua Portuguesa. A palavra método vem do grego methodos, composta da

palavra meta, que significa tanto reflexão, raciocínio, verdade, como significa através de, por meio de e da palavra hodos, que significa caminho. Uma outra interpretação é que venha da palavra grega meta e da palavra podos, que significa pés, ou passos. Sendo assim, o que entendemos pela proposição de um método é simplesmente um passo a passo de como atingir nosso objetivo que é a realização de um diálogo, em seu significado grego de duas ou mais pessoas que elaboram um logos, que do grego significa palavra, discurso ou pensamento, ou, a partir de Heráclito, designa a razão. Assim, um diálogo é o uso das palavras para dizer o que sentimos e pensamos, expressando, para além da dimensão epistêmica do que sabemos, o nosso modo de vida, na condição de pessoa, na sua relação da trama da própria vida e da relação com o outro. O que aqui propomos é a estruturação de um passo a passo para um exercício de diálogo e de reflexão que possa ser realizado em grupo, não somente em sala de aula, mas em qualquer lugar em que a reflexão seja possível e necessária, em especial quando enfrentamos situações - hipotéticas ou reais - que colocam novos valores em choque e que exigem de nós uma postura, uma ação moral, os chamados dilemas morais. Cada intervenção proposta resume um conjunto de exercícios diferentes de reflexão eliciados pelo dilema moral.

Compreendemos como dilemas morais as questões que não têm uma solução pré definida, ideal, sem risco ou prejuízo e que se constituem como uma aporia, no sentido socrático, e que trazem à tona a própria dimensão aporética da vida humana, sujeita a dúvidas, questionamentos e implicações sobre o agir e o que consideramos como o agir correto, virtuosa ou justamente em sociedade. Por isso, todos os dilemas apresentado não têm uma solução tomada pelo personagem principal. É sua dúvida sobre o que fazer que elicia o debate.

Cada etapa deste método ou exercício de diálogos buscou se fundamentar na realidade da educação brasileira, nos conhecimentos do desenvolvimento da psicologia da moralidade para os piagetianos e no compromisso com o desenvolvimento moral das pessoas. Buscamos um estilo socrático de discussão e postura do educador realizado através da lógica aristotélica de exercício das virtudes enquanto condição necessária à formação do homem virtuoso e sua noção de que se a ética não é coisa que se ensina, ela se aprende ou se desenvolve pelo exercício.

A postura de quem dirige as discussões é a postura do educador defendida por Piaget (1932/1994) como um facilitador e mediador dos processos de aprendizagem que visam o desenvolvimento da autonomia do agente moral. Ele apresenta as atividades como quem propõe desafios. Ele incentiva os participantes a se engajar neste processo e dirige os rumos da atividade. Não é uma postura de moderador. Não somos os detentores do "justo-meio", mas responsáveis por ajudar os alunos na busca do que poderia ser seu próprio "justo-meio".

Todas as etapas da intervenção são idealizadas para o tempo máximo de cem minutos, ou duas aulas de cinquenta minutos cada (tempo padrão de cada aula no Brasil), já incluso o período de tolerância, de modo que, as discussões, em si, não ultrapassem noventa minutos. Um tempo de dez minutos de tolerância para o início de cada atividade é inicialmente acordado entre os participantes para que tenham tempo de chegar e se acomodar para a atividade, sem prejuízo de seu andamento ou dos demais colegas. Estas regras de respeito mútuo e compromisso com o trabalho a ser realizado é explicada aos participantes no início do processo.

Em todos os encontros, as regras básicas que regem as atividades e o que será proposto são explicados no início de cada dia. Em cada etapa da tarefa explicamos sua instrução específica e o tempo que lhe é destinado. Tais preocupações têm cunho metodológico. Acreditamos que acordar previamente o tempo de realização das atividades bem como a existência ou não de tolerância ajuda os participantes a se organizar psiquicamente para a atividade, reduz o estresse com relação a quando a atividade vai terminar ou o que é esperado das pessoas em cada uma delas.

Cada fase da atividade é planejada para ter uma duração variável entre cinco e quinze minutos máximos. O objetivo, tanto da variabilidade de tarefas como do tempo relativamente curto de realização de cada uma delas, é a manutenção do interesse e da atenção concentrada dos participantes, evitando que se dispersem e se cansem em atividades longas ou monótonas. O tempo das atividades que incluem debates e exposição de ideias e sentimento deve ser falado no início de cada uma delas. O objetivo é que possam se organizar para falar e se motivem para isso, uma vez que o tempo é curto, e também para evitar que se sintam desfavorecidos por não terem dito tudo o que quiseram quando o tempo terminar.

O tempo proposto para cada atividade possui um caráter de recomendação para a viabilidade da realização prática do exercício dentro da sala de aula, no tempo em que normalmente os educadores têm com seus alunos, mas, são recomendações que devem servir como parâmetros médios, cabendo ao educador adequá-las ou modificá-las, se julgar necessário, com sua turma de alunos e ao longo da atividade.

A respeito da população a que este método se destina, acreditamos que ele se destina a todos aqueles que livremente querem dialogar sobre o que poderia ser o mais justo a fazer em uma situação de conflito e que possa ser usado em qualquer ambiente em que se queira favorecer o desenvolvimento ético das pessoas. Adequações quanto ao conteúdo dos dilemas, tempo de discussão e outros fatores, devem ser realizadas pelo educador que media os debates e que terá a expertise necessária para o fazer em função da idade dos participantes, nível cultural e desenvolvimento sociomoral.

A respeito da frequência de intervenções que se deva realizar para chegarmos a um bom êxito, não possuímos esta resposta. Acreditamos que o desenvolvimento moral é algo que exige de nós uma vida inteira de exercícios. Estamos sempre nos aperfeiçoando e, ao mesmo tempo, cada vez mais cientes de nossas limitações e de quanto a convivência com o outro é uma fonte inesgotável de desafios a nós mesmos. O que defendemos é que os problemas do cotidiano são oportunidades valiosas para um bom debate, mas que a frequência com que estes devam ocorrer deve ser decidida pelo educador. Em princípio, onde houver um dilema, pessoas envolvidas e comprometimento com a educação, haveria a possibilidade de um exercício de aprendizado democrático. 4.1 Características das etapas

O quadro 3 apresenta, de modo resumido, as etapas deste método. Quadro 3. Etapas de uma nova proposta de discussão de dilemas

Etapas Tempo (minutos)

Tempo de tolerância e acomodação dos participantes 10

1. Apresentação do dilema 5

2. Os participantes veem a história como um dilema moral? 5 3. Discussão sobre a decisão dos participantes 15 4. Posicionamento dos participantes em dois grupos 5 5. Fase do debate: ideia e argumento 15

6. Clarificação dos sentimentos 15

7. Clarificações dos valores 15

8. Tribunal do júri 15

Tempo de tolerância e acomodação dos participantes

Em um exercício de debate democrático é importante que os participantes vivenciem a tolerância, o respeito e a cooperação mútuas. Isto começa com a postura do educador. Estamos lidando com pessoas que chegam, se atrasam, querem se cumprimentar, se acomodar, ir ao banheiro, falar. É importante que vivenciem que há um espaço para as suas necessidades, mas, como nosso tempo é limitado, precisamos acordar um tempo de tolerância que não prejudique o andamento das atividades do grupo. Tempo: 10´.