Oferecer espaços conversacionais para que a demanda possa emergir é propiciar momentos transformadores, capazes de abrir novos caminhos, suscitar novas dúvidas, despertar indagações e trazer várias contribuições não só para o pesquisador e os diferentes atores sociais implicados diretamente no processo, como também para a sociedade em geral.
Conforme afirmam Costa e Brandão (2005), todas as vezes que puderam oferecer tempo, diálogo e disponibilidade para a relação em suas intervenções comunitárias, surgiu uma “demanda de amor” (Lévy, conforme citado por Costa & Brandão, 2005, p. 35) – expressa por um desejo muitas vezes difícil de ser percebido. O trabalho comunitário faz com que as pessoas possam expressar suas competências na resolução de problemas, nos acontecimentos do dia-a-dia, na formação dos adolescentes, etc. Cria um modelo relacional que proporciona mudanças, troca de experiências e possibilita aos membros da comunidade desenvolver mecanismos de ajuda mútua.
Assumindo esta proposta, buscamos criar, através de atividades elaboradas ao longo do tempo, espaços que promovessem o diálogo, um clima de comunicação e participação na escola para que emergissem demandas de amor, formássemos vínculos e fôssemos construindo paulatinamente nosso cenário de pesquisa com seus possíveis colaboradores e sujeitos.
Segundo González Rey (2005), o cenário da pesquisa consiste no espaço social que caracteriza o seu desenvolvimento, que promove o envolvimento dos participantes. Este cenário, na verdade, é criado à medida que as pessoas decidem participar da pesquisa e o pesquisador ganha a confiança e se familiariza com elas e com o contexto
em que vai desenvolvê-la. “A construção do cenário de pesquisa tem por objetivo
apresentar a pesquisa para os possíveis sujeitos que dela vão participar e sua função principal é envolver o sentido subjetivo dos que participam da pesquisa” (p.83).
Possibilita um momento de comunicação que toma diferentes sentidos para os participantes e que não garante o que deles se espera.
Iniciamos, então, a construção do cenário da pesquisa, oferecendo um “curso de prevenção ao uso de drogas para educadores de escolas públicas”6 (Sudbrack,
2006a). Sabíamos que o conteúdo era de interesse dos atores sociais da escola: funcionários, professores, direção e alunos. Para criação do vínculo e estabelecimento de um clima de confiança e segurança entre o pesquisador e os participantes a partir de um tema tão complexo e delicado como a questão das drogas, propomos o curso presencial, buscando desenvolver o trabalho através do diálogo e do respeito, incentivando e levando os participantes a sentirem necessidade de se colocar e de se expressar na presença da pesquisadora. Nosso objetivo neste momento era conhecer as expectativas e demandas da instituição. Muitas informações significativas surgiram a partir daí.
À medida que o curso se desenvolvia com os educadores da escola, sentimos necessidade de nos aproximarmos dos atores que estavam implicados nas discussões, mas não participavam diretamente delas, ou seja, dos alunos. Adaptamos, então, o curso de formação em prevenção ao uso de drogas (elaborado especificamente para os educadores) para a realidade dos adolescentes, que intitulamos “oficinas de prevenção ao uso de drogas para os alunos da escola”.
Durante todo o processo de intervenção (de aproximação e, posteriormente, de trabalho de campo), nossa equipe de pesquisa se reunia para supervisões semanais, construindo um espaço para a discussão, avaliação, planejamento das intervenções e reflexão sobre os efeitos dela em nós mesmos. Além das supervisões, as elaborações teóricas e análises da prática feitas pela equipe de pesquisa foram reportadas à comunidade em forma de devolutiva e outras intervenções foram propostas a partir dali,
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Esse curso é feito pelo método de ensino à distância em toda a rede pública do país. Visa formar educadores para o desenvolvimento de programas de prevenção ao uso de drogas e de comportamentos de risco no contexto escolar. Oferece formas de se abordar adequadamente as situações de risco na escola pelo envolvimento com drogas e encaminhar alunos e familiares para a rede de serviços de atenção que existem na comunidade. Utilizando-se da teoria sistêmica e psicossocial como base teórica e conceitual, o curso propõe e estimula a atuação em rede, mobilizando os atores sociais envolvidos no contexto escolar: não só os educadores e alunos, como família, redes de saúde, justiça e comunidade.
tendo sido novamente analisadas e devolvidas. Dessa forma prosseguimos a pesquisa- intervenção como co-construção entre os psicólogos comunitários e seus atores sociais.
Aos poucos, durante as várias visitas à escola, os alunos foram revelando seus pensamentos e sentimentos à pesquisadora. Com o término do curso dos educadores e a tarefa final destinada ao planejamento de um projeto de prevenção ao uso de drogas na escola, recebemos a proposta dos próprios educadores de realizarmos atividades que proporcionassem a aproximação entre alunos e professores, de modo que estes últimos pudessem conhecer melhor a realidade dos adolescentes, o contexto em que vivem, suas histórias de vida, para, assim, poderem, em sala de aula, trabalhar conteúdos vinculados aos interesses dos alunos. Elaboramos, então, coletivamente (equipe de pesquisa e educadores) as “oficinas com adolescentes e educadores”. E foi a partir dessas oficinas que percebemos que já tínhamos os adolescentes para nossa pesquisa. Ao término das duas oficinas, muitos adolescentes nos procuraram para serem participantes da pesquisa e prosseguirem às discussões iniciadas em sala de aula. Observamos, então, que o vínculo e a demanda estavam efetivamente construídos e já não era mais necessário oferecer espaços para o encontro com o adolescente, eles já existiam.
Considerando o número de atividades realizadas e a complexidade da intervenção, para facilitar a compreensão do processo, sintetizamos as informações descritas sobre a aproximação ao campo no quadro a seguir:
QUADRO 1 – RESUMO DO PROCESSO DE APROXIMAÇÃO AO CAMPO
Contexto Atividades desenvolvidas Resultados esperados Registro Com a
comunidade
Após um período de nove meses conhecendo a comunidade, escolhemos a escola como contexto da pesquisa.
Aproximação da comunidade; reconhecimento do espaço para intervenção. Diário de campo através de gravação digital Com a instituição Observação participante durante quatro meses em projetos desenvolvidos na escola.
Formação do vínculo com a instituição; identificação das demandas da
instituição. Diário de campo - gravação digital; Com os educadores Curso presencial de prevenção ao uso de drogas para educadores de escolas públicas, durante cinco meses.
Formação do vínculo com os
educadores; compreender a percepção dos educadores sobre os adolescentes da escola; compreender o que os
educadores conhecem sobre o
Filmagem e anotações
Contexto Atividades desenvolvidas Resultados esperados Registro
envolvimento dos adolescentes com o mundo das drogas; conhecer as expectativas e demandas em relação ao tema proposto.
Com os adolescentes
Oficinas de prevenção ao uso de drogas para os alunos da escola.
Construção do vínculo; Conhecer como o adolescente percebe a si mesmo, sua identidade, suas relações; perceber suas demandas; Compreender o que os adolescentes conhecem sobre as drogas; e como percebem a construção das relações nos diferentes contextos quando da presença das drogas.
Filmagem, anotações e fotografias Com educadores e adolescentes Elaboração do projeto de prevenção ao uso de drogas na escola;
Oficinas com adolescentes e educadores sobre relações interpessoais e experiências sobre temas como
sexualidade e drogas e suas repercussões na rede social do adolescente.
*Destas oficinas despontaram os
participantes da pesquisa
Formação do vínculo com os adolescentes para participação na pesquisa;
Compreender como os adolescentes percebem suas responsabilidades nas relações interpessoais; como vivenciam situações como o envolvimento com drogas e as repercussões em suas redes sociais. Filmagem, gravação, anotações e fotografias Com a equipe da pesquisa
Supervisões semanais com a equipe da pesquisa.
Discutir os resultados das intervenções; auxiliar na elaboração teórica e
construção dos procedimentos seguintes para a construção das informações da pesquisa. Filmagem e anotações Com todos os atores sociais da escola Devolutivas: planejamento e realização da festa junina na escola;
Elaboração e leitura de um documento de análise da intervenção para os atores sociais;
Conhecer as redes sociais dos adolescentes (família, escola, pares); estabelecer um vínculo de apoio, colaboração e confiança com os adolescentes e a escola; reportar aos atores sociais nossas análises, impressões e elaborações acerca das intervenções; garantir a continuidade do trabalho.
Filmagem, fotografias e anotações